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Sobre Bukowski e “Pergunte ao pó” de John Fante

Confesso que demorei muito tempo para começar a ler Bukowski, o motivo? No meu círculo semi-social os leitores de Bukowski odeiam os Beats, consideram o “intelectualismo” de Burroughs e o zen-budismo de Ginsberg e Kerouac uma farsa/auto-enganação literariamente lucrativa. Eles cultivaram um ódio principalmente por Ginsberg e Burroughs, que foram severamente criticados por Bukowski porque misturavam “artificialmente” sua literatura com movimentos sociais, nas palavras do bêbado em “Notas de um Velho Safado”:

“Eles passeiam pelos parques com o ídolo de Che, com fotografias de Castro em seus amuletos, fazendo OOOOOOOOMMMMMOOOOOOOMMM enquanto William Burroughs, Jean Genet e Allen Ginsberg os lideram. Esses escritores ficam delicados, malucos, uns cocozinhos, umas fêmeas – não homos mas fêmeas – e se eu fosse tira eu não hesitaria em lhes cacetear os seus cérebros confusos.”

Pois bem, como já havia lido e era apaixonado principalmente pelo modo de escrita dos três beats, sendo também estudante dos movimentos sociais dos anos 60/70, criei uma barreira que me impedia de ler Bukowski. Assim como os beats pareciam artificiais para alguns o fodedor de bocetas e velho bêbado me parecia um tanto quanto canastrão, aquela pose de macho ômega e drogado que os leitores me passavam do cara me privou por muito tempo de lê-lo. Hoje em dia já pego livros do Bukowski e entendo sua grandiosidade, não exatamente literária mas de capacidade expressiva, e encontro inclusive sincronia com os próprios beats que ele tanto criticava!

Graças a Bukowski conheci a literatura de John Fante e por conseguinte chegou às minhas mãos o livro “Pergunte ao pó”. O prefácio, escrito por Bukowski, nos convence que “cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção.” E não é que a porra do livro realmente é tudo isso?

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“Pergunte ao pó” nos conta a história de Arturo Bandini, alter-ego de John Fante, um escritor que só havia publicado um conto em toda sua vida e como ele enfrenta sua pobreza e sua idiotice intelectual. Um dos centros principais da narrativa é como Arturo Bandini chega a escrever suas histórias e se apaixona por uma mestiça indígena. Preconceituoso, racista, confuso, virginal, religioso Arturo entra em parafuso por causa de sua paixão por Camilla, uma relação ambivalente de desprezo, masoquismo emocional e idolatria. Sua deusa “maia” e ao mesmo tempo uma pobre mestiça que trabalha de garçonete e usa sandálias asquerosas.

A saga de um escritor buscando seu espaço no fétido mercado editorial e lutando contra os deuses da criatividade, isso resumiria porcamente “Pergunte ao pó”, um livro que pinta em tons intensos traços de pensamentos de alguém muito distante temporalmente mas que poderia ser qualquer um de nós. Um dia Arturo Bandini está pobre, no outro ganha 130 dólares por um conto e em menos de uma semana depois já está novamente fodido porque não controlou seu dinheiro. O personagem é inseguro, não tem certeza de nada que está fazendo, aliás, apenas que quer ser escritor, esta é sua única certeza.

A sinceridade com que assume suas contradições é a principal atração do livro, um trecho em especial basicamente me pediu que fosse citado:

“Não li Lenin, mas o ouvi citado: a religião é o ópio do povo. Falando comigo mesmo nos degraus da igreja: sim, o ópio do povo. Quanto a mim, sou ateu: li O anticristo e o considero uma obra capital.

Acredito na transposição de valores, cavalheiro. A Igreja precisa acabar, é o refúgio da burroguesia, de bobos e brutos e de todos os baratos charlatães.

Puxei a imensa porta, abrindo-a, e ela emitiu um pequeno grito como um choro. Acima do altar, crepitava a luz eterna vermelho-sangue, iluminando em sombra carmesim a quietude de quase dois mil anos. Era como a morte, mas também me fazia lembrar de bebês chorando no batizado. Ajoelhei-me.

Era um hábito, ajoelhar. Sentei-me. Melhor ajoelhar, pois a pontada aguda nos joelhos era uma distração da terrível quietude. Uma prece. Certo, uma prece: por motivos sentimentais. Deus Todo Poderoso, lamento ser agora um ateu, mas o Senhor leu Nietzsche? Ah, que livro! Deus Todo Poderoso, vou jogar limpo nesta questão: vou Lhe fazer uma proposta: Faça de mim um grande escritor e eu voltarei à Igreja. E lhe peço, caro Deus, mais um favor: faça minha mãe feliz. Não me importo com o Velho; ele tem seu vinho e sua saúde, mas minha mãe se preocupa tanto. Amém.”

O nome “Pergunte ao pó” se refere aos desertos que predominam no ambiente de Los Angeles e Califórnia. Certos momentos, quando o livro tira um pouco o foco de Arturo, o principal personagem é o deserto. Esse lugar silencioso, monótono, desolador e seco que sempre esteve presente no planeta e estará até o seu fim, homens e civilizações passaram e o deserto permanecerá. Quem sabe um dia o deserto vai dominar todo o mundo, se pergunta em certo momento John Fante, vai engolir todos os outros ecossistemas. E isso não tem a ver com poluição, camada de ozônio, não… é porque o deserto foi feito para reinar, para atrapalhar, a única coisa que é constante no mundo é a areia do deserto.

John Fante não é um bêbado e fodedor de bocetas como Bukowski, nem um santo vagabundo iluminado como os beats, mas é um escritor filho da puta e tanto. Vale muito a pena ler, embora o livro não seja regado de visões de paraísos, sexo e uso de drogas, não é uma São Francisco hipster (hippie), nem uma Nova York nojenta, mas uma Los Angeles que só existe para um individuo: Arturo Bandini, o escritor fraco e imbecil que sonha em viver de suas palavras e possuir sua princesa maia Camilla.

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Alan Wake – os games e as narrativas literárias

Por Eder Alex

Um escritor de best sellers passa por uma crise criativa e resolve se isolar numa cabana à beira de um lago. Ele pretende encontrar um pouco de paz para voltar a escrever, mas o lugar nada tem de tranquilo e logo fatos estranhos começam a acontecer, fazendo com que ele questione a própria sanidade. Esta é a sinopse do conto “Janela secreta, secreto jardim”, de Stephen King (que foi adaptado para o cinema como Secret Window e estrelado por Johnny Depp). E então você questiona: o que uma obra literária tem a ver com o game Alan Wake? Resposta: Tudo, ou quase tudo.

O enredo difere um pouco, mas o clima sombrio é o mesmo. No livro o personagem descobre que está sendo traído e então parte sozinho para a cabana. Já no jogo – que é inspirado em diversas obras de suspense. King, inclusive, chega a ser citado por um dos personagens – Alan Wake precisa encontrar não só a sua criatividade, como também a sua esposa, que desapareceu assim que eles chegaram à estranha cidade de Bright Falls. Montanhoso e sombrio, o lugar é uma referência à Twin Peaks, série criada por David Lynch no início dos anos 90.

A mecânica do jogo apresenta alguns problemas. Os inimigos, espíritos de lenhadores e pássaros assassinos (Hitchcock ficaria orgulhoso), são sempre os mesmos, o que torna a experiência um pouco cansativa. Outro aspecto negativo são as “missões”, pois são tarefas muito simples (pegar uma chave na casa ao lado para abrir uma porta qualquer) que não exigem muito raciocínio para serem resolvidas.

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Porque eu sou um autor raso

Aproveitando o gancho de que em breve meu livro será lançado e a deixa que o Zaratrustra deixou para mim em seu comentário sobre o release do meu livro neste blog, vou discorrer sobre um assunto que me acompanha faz um tempo: punheteiros literários me taxarem como autor raso ou pouco profundo com se isso fosse um defeito.

Na primeira ocasião em que eu li isso, havia postado uma fanfic no fórum TibiaBR (sobre o MMORPG Tibia). Era um conto sobre dois magos tendo que roubar um importante livro de uma biblioteca para o serviço secreto de sua nação. Tudo ambientado no universo do jogo, com direito a cidades, NPCs e seus traços típicos e outros “easter eggs” para os fãs. E aí vem um babaca e me diz que meu texto é “pouco denso e muito rápido”. Ele inclusive me sugeriu ler a fanfic dele para eu ter “idéias de como melhorar meu texto”.

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Nada mal pra um boçal

(AVISO:  esse é um release de um livro feito pelo próprio autor. Foda-se a imparcialidade.)

E eis que o pior autor desse blog ataca novamente, desta vez em um livro impresso! Concebido em um período de ócio após se desligado de um estágio em um banco, “Tombstone City, A Saga” tinha originalmente a idéia de juntar em um mesmo universo fictício os lugares personagens das músicas da banda de countrycore Matanza, mas a coisa acabou crescendo e virou um épico do faroeste, com direito à quase todos os clichês do gênero. Porém a história não se limita ao faroeste e temos referência a filmes, HQs, músicas, livros, ocultismo outras coisas mais que só uma mente nerd ociosa pode conceber!

Em “TOMBSTONE CITY, A SAGA – TOMO I: A MALDIÇÃO” iremos conhecer a cidade de Tombstone City, destruída pela visita do bando conhecido como Matanza e vítima de uma maldição vinda do próprio Inferno. Eis então que surge um forasteiro disposto a livrar a cidade de seu tormento, mesmo que ela não queira!

Beba do rio de wiskey das fazendas de algodão do Velho Willie! Aprenda a jogar pôquer com o lendário Nigth Rider na prisão de Monte Gringo! Aposte até as bolas no Santa Madre Cassino em um jogo contra o próprio El Diablo de Chee O’Wawa! E que tal uma visita ao próprio Inferno? Tudo isso e muito mais é que irá encontrar na leitura de “TOMBSTONE CITY, A SAGA – TOMO I: A MALDIÇÃO”!

Com capa e prefácio de Marco Donida, ilustrador de guitarrista do próprio Matanza, “TOMBSTONE CITY, A SAGA – TOMO I: A MALDIÇÃO”  encontra-se em pré-venda (com frete grátis e desconto) aqui!

Lei aqui os dois primeiros capítulos do livro!

Caso goste de brigas, vodu, tiros, mulheres seminuas e armadas, perseguições a cavalo e personagens pitorescos, esse é o seu livro!

O fantasma Orwelliano no universo de Harry Potter

Após ver no cinema a adaptação cinematográfica “Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 1” eu percebi que existe uma certa tensão no universo escrito por J.K. Rowling, uma tensão que reflete a inquietude política do mundo dos bruxos, uma espécie de inquietude que para um leitor mais atento e mais velho, pode acabar sendo familiar. Não se apegando apenas a perspectiva messiânica do protagonista da série, Harry Potter, mas a escalada de eventos que acontecem no ministério único, intitulado “Ministério da Magia”, a saga Harry Potter, pelo mérito de todos os envolvidos, diretores de cinema, atores, produtores e até a própria escritora, retrata com excelência como é crescer em meio às transformações, não apenas da metáfora da adolescência, mas como também de todo o mundo.

Transformações essas que lembram muito o distópico universo de 1984, a sombra Orwelliana derivada da paranóia humanista, do imaginário bélico-fascista à propaganda sufocante, dos questionamentos cruéis ao próprio sectarismo da sociedade, da repreensão não só étnica e social, mas como também da memória, do pensamento, do poder de comunicação.

O primeiro passo para entender a metáfora do pesadelo criado por Orwell seria entender o papel do protagonista, Harry Potter, e seus colegas, embora uma figura central na cadeia de eventos, o próprio pouco tem ciência das conseqüências de suas atitudes, pego pelo principio do mesmo estar confinado aos portões de Hogwarts, alienado do desenvolver dos fatos, tendo toda a atenção centrada no microcosmo do cotidiano da instituição.

Até mesmo no sétimo capitulo da série, quando os jovens se vêem obrigados a fugir do seu local de estudo (capcioso e simbólico, não?) eles caminham pelas paisagens rurais da Inglaterra, acompanhando por um rádio cheio de estatística a sucessão de eventos e a propaganda do governo, como muito se foi feito na vida real, durante os tempos de crise e guerras.

Aos poucos Voldemort – que não apenas representa o vilão da série, mas como o vetor de uma força política – volta, criando animosidades, e é ai que a autora começa a ilustrar os contrastes, Voldemort representa algo antigo, reflexo não necessariamente da malícia de alguns bruxos, mas sim de um sistema caduco, segregacionista entre bruxos, não-bruxos e mestiços, incapaz de acompanhar as transformações e motivações afora.

O próprio vilão é um reflexo de tal política arcaica, nascido como mestiço, com um histórico de abuso e abandono, sua empreitada contra o mundo, busca, em partes, a mesma mentalidade opressora que o atormentou no passado.

Harry Potter e seus colegas representam no novo, no início a ingenuidade, mas posteriormente, algo mais especial e necessário para quando forças, como esta encabeçada por Voldermort, simpatizam, o não-conformismo.

Ainda mais o próprio mentor de Harry e seus colegas, Dumbledore, um prodígio, de sangue mestiço e  homossexual, detém de uma perspectiva libertária, embora uma figura idosa, visa romper constantemente com os paradigmas da arcaica sociedade bruxa e seus preconceitos e paranóias.

O sétimo capítulo da saga retrata com excelência como muitas vezes, uma comunidade mansa vê passar batido as alterações no status quo, embora, o filme consiga, em um belo caso de exceção, ilustrar melhor. “Magic is Might” diz o lema do novo ministério da magia, controlado pelos conspiradores de Voldemort, assim como o Ingsoc de Orwell, a metáfora fascista começa pelo aspecto imponente e opressor do aparato propagandista do ministério, dos interrogatórios de cada funcionário, abusos de hierarquia e a rotina de trabalho, em inúmeras repartições e trabalho compulsório.

O clima Orwelliano – e eu amaldiçôo esta palavra maldita – fica mais evidente quando os protagonistas fogem do ministério, perseguidos por uma força policial similar aos exércitos da segunda guerra mundial, todos de enfardamento cinza, cap obscurecendo a face, e um bracelete de tecido vermelho c/ o símbolo do ministério, um “M” estilizado.

A perseguição do ministério da magia comandado por Voldemort também se estende a comunidade intelectual da série de ficção, observamos o desaparecimento e repreensão de professores, colunistas, historiadores, a necessidade do ministério e do próprio antagonista não está apenas na imposição pela força, mas sim em reescrever a história e a manipulação de mentes.

Embora ofuscado pelo marketing e pelo alvoroço, a tentativa de dissimular o mérito intelectual por trás da obra de J.K Rowling é derivada do pudor pseudo-intelectual de uma classe obtusa, a muito sem foco em seus objetivos e contestações, a mesma, que por sinal, cresceu – ou teve ciência posterior – das obras de Orwell, Bradbury e Burgess, posso dizer com tranqüilidade, a saga Harry Potter teve sua concepção na cultura pop e suas ramificações, mas, ao contrário da intelligentsia, sempre foi fonte de comentário social, este, que motivou centenas de jovens para voltar a leitura e nutrir mentes com um panorama libertário e não-conformista.

Os Beats – Historicismo nos quadrinhos?

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Quando comprei “Os Beats”, graphic novel lançado pela Editora Bemvirá com tradução de Érico Assis nesse ano de 2010, não sabia muito bem o que esperar do conteúdo, mal li a sinopse. Por um lado imaginava que seria mais uma obra imbecil explorando comercialmente, abusivamente e sem nenhum experimentalismo o movimento beat, de certa forma acertei. Pensei nisso porque considero inadmissível que em pleno ano de 2010, quando até as obras puramente comerciais de editoras super-tradicionais trazem desenhos e roteiros alucinados, se use em uma publicação gráfica sobre os beats apenas técnicas tradicionais de expressão. Na verdade como roteiristas e desenhistas das histórias contadas são mistas, algumas são ousadas e outras não. Os capítulos mais longos que falam sobre vida de Jack Kerouac e Allen Ginsberg não arriscaram se quer em um quadrinho uma técnica de retratação ao estilo psicodélico, em que os traços dos desenhos teriam que se confundir com o roteiro numa espécie de poema-imagético, o traço teria de parecer impreciso, retratar movimento no estático e etc, etc. Por outro lado, eu esperava que “Os Beats” fosse uma narrativa totalmente ficcional e deslumbrada retratando os anos 50/60 de uma maneira puramente subjetiva. Esse era o meu desejo mais profundo projetado na HQ, porque queria me afastar um pouco do movimento beat “histórico” ou até mesmo do modo de escrita dos historiadores. Esperava encontrar o modo de expressão beat na obra e pelo contrário, encontrei aquilo do que fugia: a história.

“Os Beats” é história em quadrinho, porém seria melhor definido como “História nos quadrinhos”. É uma obra que retrata brevemente a biografia dos principais participantes do movimento beat, dando destaque na primeira parte a Kerouac, Ginsberg e Burroughs e na segunda há personagens avaliados como menores para a história dos beats, sendo considerados por isso “perspectivas sobre o movimento”. Por exemplo, no caso das mulheres como Elise Cowen, desprezada pelos rapazes apenas por ser do sexo feminino, a roteiristas termina com uma perspectiva negativa a uma parte da mentalidade dos beats: “Elise era uma renegada entre os renegados.”

A HQ é muito interessante para quem não conhece os beats ter um primeiro contato com o modo de vida que levavam e sobre como chegaram a pensar como pensavam. Apresentei esse ano no EREH um minicurso sobre os beats, então não sou exatamente virgem no assunto e não gostei da abordagem historicistas da HQ apenas empilhando datas e acontecimentos de um modo irritante na primeira parte.

A primeira parte é extremamente pobre porque não passa de uma biografia cronológica desenhada dos que se configuraram como os três maiores personagens dos Beats. É chatíssimo o capítulo sobre Jack Kerouac, quase ausente das citações hipnóticas e extasiantes das obras do próprio biografado, perdendo absurdamente a chance de causar um efeito de catarse complementando o texto com desenhos insanos. Quanto a Allen Ginsberg, é interessante, mas não por causa dos roteiristas/desenhistas da obra, mas porque sua vida por si só já é uma loucura legal de se ler e o mesmo se pode dizer de Burroughs, o mais beat dos beats, traficante, assassino, dono de plantação de maconha e escritor apenas circunstancial que deu ao mundo obras como “Naked Lunch”.allen

Na segunda parte chamada de “Perspectivas” figuram breves biografias de personagens como Michael McLure, Philip Whalen, Rexroth, Gary Snyder, Robert Ducan, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Leroi Jones/Amiri Baraka, Charles Olson, Robert Creeley, Kenneth Patchen, Lamantia, Diane di Prima, Jay Defeo e Tuli Kupferbeg (com sua banda “The Fugs”). Cada um é retratado entre 3-5 páginas, só que essas 3 páginas geralmente valem mais que as 30 sobre a vida do Kerouac, por exemplo. Isso porque os personagens são poucos conhecidos e os desenhistas soltaram a mão em algo mais próximo do espírito daqueles loucos alucinados dos anos 50/60.

Considero “Os Beats”, uma obra de História nos quadrinhos, há quem considere isso positivo, no entanto acho uma péssima escolha a se fazer tendo em conta um tema tão rico como os anos 50/60. Mas vale a pena ler, tanto quem não conhece o assunto pra começar a entender, quanto quem já conhece, principalmente a segunda parte que nos apresenta personagens muito pouco conhecidos dessa época e que foram de fundamental importância no desenvolvimento e na abertura de perspectivas do que talvez tenha se configurado como o movimento cultural mais importante do século XX: o movimento beat.

Cyberpunk e o Presente Volátil: divagações sobre literatura e tecnologia.

Nos meus tempos de gótico – pausa para os risos – eu pude presenciar um breve crescimento da estética “cyber”, que no final das contas, era um condensado de bandas, referencias de vestuário, chavões e até mesmo alguns flertes com a cultura nerd, como o emprego de 1337speak.

Era um tanto irritante o engajamento do povo, às voltas com um mar de referencias, mas mesmo assim, pouco apego ou conhecimento das mesmas, de suas origens, da mesma forma que o inevitável desinteresse, barreira lingüística e boca a boca diluem o conteúdo no underground, com o cybergoth – pausa para as risadas – não teria sido diferente.

Incomodava-me aquela imagética catastrófica, os sempre presentes símbolos de perigo radioativo e biológico, toda aquela ignorância aliada ao pretenso clima apocalíptico, “apocalíptico”, é claro, sob uma ótica de Umberto Eco, estamos falando do eminente, enfadonho pessimismo de caráter ludista.

Philip K. Dick? Não, ninguém tinha escutado falar, sequer imaginava que a desilusão, e paranóia da década de setenta já tinham alcançado os limiares da ficção-cientifica, Blade Runner? Aqueles que tinham visto, mal sabiam os bastidores literários por trás do filme.

"Do Androids Dream of Electric Sheep" livro que inspirou a adaptação cinematografia pelas mãos do diretor Ridley Scott

"Do Androids Dream of Electric Sheep" livro que inspirou a adaptação cinematografia pelas mãos do diretor Ridley Scott

 

Mais assustador ainda eram aqueles que desconheciam William Gibson, pai de todo o imaginário cyberpunk: megalópoles continentais, corporações corruptas, hegemonia do soft power asiático, drogas, cultura hacker, mesmos as inúmeros energúmenas posando em seus fotologs.net e álbuns de orkut, mal sabiam quem era Molly Millions ou Y.T. e a importância dessas personagens para o arquétipo da femme fatalle na cultura pop.

Existiram muitos outros expoentes, cada um com seus próprios méritos e falhas, que passaram despercebidos pelo mesmo público, ao longo das décadas de 90 e 00’s, Omykron: The Nomad Soul, Deus Ex Machina, The Matrix, Cyberpunk 2020, Serial Experiments Lain, Ghost in the Shell, AppleSeed, Idoru, Snowcrash, Chrysalis, Battle Angel Alita. Só pra citar alguns.

Da mesma forma que o súbito interesse do público passou, o gênero perdeu fôlego, e na medida em que se adotava a terminologia “post-cyberpunk” para ilustrar um mundo menos distópico e mais hedonista, onde já não se refletia mais o choque e a ruptura dos avanços, mas sim sua integração ao cotidiano, escritores, críticos e leitores percebiam: o futuro é agora, o próprio Gibson traduz isso em uma frase: “The future is already here – it’s just not very evenly distributed.”

A trilogia Bigend, escrita por Gibson, mudou o panorama do gênero Sci-Fi.

A trilogia Bigend, escrita por Gibson, mudou o panorama do gênero Sci-Fi.

 

Então hoje, na data cujo este texto é escrito, eu me deparo no twitter com esse artigo do Ethevaldo Siqueira, , O Mundo de 2010 a 2025 típica tecnobaboseira, Siqueira nos ilustra o óbvio ululante, um inevitável futuro através de previsíveis leis do mercado e indústria,  como miniaturalização, automátização e optimização.

Entenda, alegar a extinção de uma mídia é contradizer o panorama geral do mercado e indústria dos meios de comunicação, contradizendo também, os interesses de setores (indústrias de celulose, notícias, anunciantes e até público), eu me lembro dos ditames de Marshall McLuhan.

A grande peculiaridade das inovações tecnológicas, e seu potencial no mercado de comunicação, foram que a obsolescência é trocada por um re-arranjo organizacional das tecnologias, como um pequeno bioma, os profissionais desenvolvem sistemas de inteiração e espaço pela atenção dos meios.

Ao contrário do euforia dos pretensos futurólogos, os fatos rumam para um cenário contrário: o rádio não foi substituído pelo cinema, e este, não teve seu espaço tomado pelo invento da televisão e assim ad nauseum.

Formatos, meios de armazenamento, transmissão, estes sim mudaram, um exemplo tangível está na relação DVD/VHS, estamos falando em uma atualização e não substituição, o propósito de ambas as tecnologias ainda é o mesmo.

E mesmo o jornal impresso se atualizou, percebeu as leis do mercado de mídia e desenvolveu novos métodos de distribuição, diagramação (como os formatos do Destak e Metro News), melhorou a qualidade da impressão e continuou, principalmente, porque ler jornal é um traço cultural.

É claro que a ficção-cientifica foi pivotal nas decisões de design e funcionabilidade das novas tecnologias, as obras de Arthur C. Clarke influenciaram o desenvolvimento do satélite geoestacionário, mas é curioso notar a ausência de gadgets como smartphones no universo de Neuromancer.

Arthur C. Clarke

Arthur C. Clarke

 

E o quanto deste futuro chegou até nós? Zaibatsus não dominam o mercado, a URSS caiu, a expectativa do futuro cedeu para ao nosso volátil, caótico presente. Quantos acontecimentos nós deixamos passar? O excesso de informação pulverizada coopta qualquer iniciativa de estabelecer uma linha cronológica, até mesmo aquelas que rumam para o futuro…

O Futuro está ai, talvez menos esteta do que imaginamos, porem mais tangível, talvez tenhamos nos acostumado a ruptura, ao impacto estético, o futuro está ai, no contrabando da Santa Efigênia, em terroristas treinados em simuladores de vôo, nos operadores de telemarketing e proletários high-tech na China, nas quadrilhas de phising na África, naquele moleque escutando funk no celular, em qualquer idiota que tem um site e fala o que bem quiser…

Brainstorm

(AVISO1: post escrito sobre efeito de álcool. [Spider Jerusalem Mode – ON])

(AVISO2: texto escrito ouvindo a trilha sonora de “Pulp Fiction“, ouvir o som enquanto lê não ajuda a entender o texto, mas é bem legal)

Comecei meu dia lendo mais uma notícia da Folha de São Paulo sobre o “escândalo” da quebra de sigilo fiscal da filha do José Serra e pensei: “Foda-se”. Como bem disse o @alerocha hoje a tarde no Twitter, faz anos que sigilos fiscais são vendidos em todo o território nacional e qualquer um bem informado compra um CD desses na Santa Ifigênia em São Paulo. Portanto meu questionamento não é a Máfia da Quebra de Sigilos Fiscais e sim a divulgação desse esquema bem agora e ligando ao PT justamente quando Dilma Roussef está para ganhar no primeiro turno. Quebrar o nosso sigilo fiscal pode, mas fazê-lo para o PT e com fins políticos, não?

Na boa, alguém realmente acredita que esse “escândalo” vai abalar o resultado das eleições? Jader Barbalho e José Roberto Arruda foram reeleitos, Sarney está até hoje no poder. A emenda da reeleição de FHC até hoje está mal-explicada e ele ganhou de lavada. Os “aloprados” do PT de 2006 nem riscaram a reeleição de Lula. Acusem a Dilma de ser sapatão, de ser terrorista ou coisa assim que terá mais efeito.

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