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Saya no Uta: O romance definitivo!

Visual Novels é um gênero de video-game parcialmente desconhecido aqui no ocidente, sendo que até hoje em dia, nos tempos de torrents e redes sociais, diversas barreiras existem para que o mesmo floresça e ganhe popularidade, em seu mercado de origem, o Japão, a coisa é bem diferente, para designers e programadores, a produção de Visual Novels é um dos principais pontos de partida para ingressar na indústria de videogames, de custo pequeno, jogos desse gênero se baseiam exclusivamente na relação entre imagens estáticas e texto narrativo, onde o papel do jogador se atém ao fato de escolher opções de diálogo e protagonizar o desenvolver da estória, como em um livro ou história em quadrinhos, é comum esses títulos oferecem diversas storylines com diversos caminhos e múltiplos desfechos, aumentando assim o fator replay, em minha experiência com Visual Novels de todos os títulos que eu conheci, um que eu julgo interessante compartilhar é o Saya No Uta (Canção de Saya, algo do tipo…), objeto de análise da postagem de hoje.

Saya No Uta, para o fandom, é considerado a “história de amor definitiva”, porem, para entender melhor isto, esqueçamos as convenções dos romances, com suas garotinhas moes e galãs bishonen, embora o título seja sim um romance, Saya no Uta é uma história de horror como há tempos nós não víamos no ocidente, onde põe o jogador/leitor em uma descente espiral de insanidade. O protagonista, Fuminori Sakisaka, estudante de medicina, sofre um acidente de carro onde mata seus pais e danifica seu cérebro severamente, afetando de forma cruel as suas percepções, para Sakisaka, o mundo se tornou um constante pesadelo, onde olhos normais vêem prédios, árvores, e pessoas, a lesão no cérebro de Sakisaka faz com que o mesmo veja insanidades monstruosas feitas de carne, ossos e cartilagem, pessoas se transformaram em criaturas horríveis e até a própria comida ganhou um aspecto repulsivo. Hospitalizado, considera que sua única solução é o suicídio, porem algo interrompe seus pensamentos, em meio aos terrores, ele encontra uma bela e juvenil garotinha chamada Saya.

Embora Sakisaka aos poucos – graças a sua condição – se transforme em um Hikikomori, abandonando os estudos e todo contato social, o mesmo, após uma série de acontecimentos, desenvolve um relacionamento com Saya, que eventualmente passa a morar em sua residência, esse isolamento súbito faz com que os colegas de Sakisaka passem a investigar o que está acontecendo, e um a um eles encontram morte e loucura, seja pela demência desenvolvida pelos problemas cognitivos de Sakisaka (eventualmente o mesmo comete atos hediondos, como homicídio e canibalismo) ou pelas mãos de Saya.

A essa altura, já fica claro que Saya não é uma pessoa normal, embora a mesma tenha a aparência de uma garotinha inofensiva tanto para Sakisaka quanto para o próprio jogador, aos poucos, ao longo do texto, nós criamos ciência da natureza dela. Saya é um alienígena, não apenas um qualquer, inspirado nos contos de H.P. Lovecraft, a mesma é descrita como uma massa disforme, repleta de tentáculos e anatomia não coerente, seu único propósito na terra é encontrar um parceiro para acasalar e graças a condição de Sakisaka, finalmente a mesma encontrou meios para isso.

É interessante analisar as intenções de Saya, que embora seja guiada por instintos e moralidade alienígena, a criatura foi capaz de desenvolver um sentimento de afeição genuíno pelo protagonista, a mesma procura alimentá-lo, fazer companhia e até mesmo busca prazer no sexo, ela percebe a curiosidade dos ex-colegas de Sakisaka como algo nocivo, aos poucos, de forma críptica, a história revela mais detalhes sobre Saya, como sua capacidade de expelir ácido e até mesmo transformar seres humanos em criaturas como ela.

O jogo possui três desfechos, e ai a coisa fica embaraçada, pois o final “feliz” acaba sendo uma coisa relativa, em um deles, Saya realiza “esporos” na atmosfera, infectando toda população e assim consumando seu amor e retornando a “beleza” para o mundo de Sakisaka, em outro Saya é morta pelos colegas de seu namorado, e de viés mais lovecraftiano, os sobreviventes acabam insanos ou cometem suicídio, o desfecho depende muito do grau de envolvimento do jogador c/ a trama.

Recomendo Saya no Uta não apenas por se tratar de uma Visual Novel, mas também pela peculiaridade de sua estória, mesclando romance com um terror clássico, uma daquelas estórias que realmente nos fazer rever nossos conceitos sobre a natureza da percepção humana e dos relacionamentos, embora Visual Novels tradicionalmente não sejam comercializadas fora do Japão, o jogo pode ser encontrado em diversos sites de torrents e para aqueles – assim como eu – cujo o idioma japonês é uma barreira, um patch para converter o texto para o inglês foi lançado por um grupo de tradução, então, para os interessados, boa diversão – e sustos! –

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Card Captor Sakura: Ágape, Magia e Idílio

 

Se por acaso um dia você perguntasse quais desenhos japoneses marcaram minha infância, eu temo que minha resposta fosse um pouco atípica em relação as suas expectativas, eu iria responder o seguinte: “Gundam Wing, Patlabor e Sakura Card Captor”. Embora os dois primeiros tenham lá seu status de cult, para as audiências brasileiras eles foram considerados programas chatos e confusos, de pouco apelo na programação, ainda mais se lembrarmos que na época, as transmissoras investiam pesados nos hits como Dragon Ball Z e Pokémon, como eu não tinha o pacote de assinatura que liberava o extinto Locomotion e a realidade da banda larga e dos torrents subbados parecia algo distante, eu tinha que me contentar com o que via…

Mas ai você vai dizer: “ei, espera ai, e Sakura?” Bom amigo, ai a coisa é diferente, o desenho tinha um traço mais fluido, uma animação mais recente em comparação ao que tinha sido exibido por aqui. A gente poderia discorrer sobre vários aspectos semióticos da qualidade da obra, mas eu gostaria de resumir em uma coisa: “novidade”. O enredo em si é interessante, a protagonista Sakura Kinomoto descobre um livro, e nele desperta uma série de cartas mágicas que se espalham pela cidade, com a ajuda de um guardião sobrenatural, a mesma é incumbida de resgatar todas e evitar uma potencial catástrofe.

Os coadjuvantes também ajudam a enriquecer a trama, em maioria pertencendo a rotina escolar de Sakura, nós observamos o desenvolver de triângulos amorosos, paixões platônicas, relacionamentos homossexuais ou apenas romances, embora em seu sentido mais idílico. É um ponto que eu discuto muito com outros fãs do mangá, o fator “idílico”, então, por motivos de spoilers, dissertarei sobre a questão no próximo parágrafo.

Tomoyo, a “BBF” da Sakura, conhece sua identidade secreta e acompanha a amiga nas aventuras, filmando elas – um aspecto, digamos, voyeur – com diversos trajes confeccionados por ela também – e ai a gente vê um fetichismo por maids, lolitas e assim vai… – mais tarde na trama nós descobrimos que ambas possuem um parentesco distante, primas de terceiro grau, o que, dependendo do critério de quem olha, pode ser considerado algo incestuoso, e sabe qual é a idade delas? 10 anos. Pois é, esta forma branda de “homossexualismo” (se é que podemos chamar assim…) é recorrente na trama, o irmão de Sakura, Touya, muitas vezes sugere que possui algo-além-do-bromance com seu amigo Yukito, que por sua vez, é a paixão de Sakura. Sim amigos, muitos triângulos amorosos, todos intricados e complexos.

Como adultos experientes nessa vida, nós poderíamos abordar pelo ângulo simples, Sakura e Tomoyo estão confusas, faz parte do “amadurecimento” psicológico delas, os mais velhos, como Touya, devem estar passando pelos primeiros questionamentos envolvendo a própria sexualidade, mas o meu ponto é: precisamos olhar por este ângulo? Card Captor Sakura é uma produção dos estúdios CLAMP, um grupo de mangakás formados por quatro moças, que embora já tenham trabalhado com diversos gêneros e faixas etárias, sua especialização é aquilo que chamamos de Shojo.

Shojo pode ser traduzido como “Menina”, ou “Pequena Garota”, e são histórias focadas no público feminino adolescente, geralmente contando romances e histórias de relacionamento, o traço costumo ser suave, propositalmente delicado, e seguindo conceitos estéticos e sexuais, a presença de andrógina (também considerada, mas não limitada ao termo “Bishonen”) é algo recorrente, e em muitos casos, a situação é idílica, comumente rumando para um “todos viveram felizes para sempre”, típico dos contos de fada.

Contos de fada é um termo que define bem Card Captor Sakura, sendo pertencente ao subgênero mahou shoujo (“garota mágica”), não é algo incomum para o público brasileiro, que acompanhou duas vezes Sailor Moon e agora pode encontrar inúmeros títulos em qualquer banca de jornal ou Loja de HQs, porem a construção do aspecto místico na trama de Card Captor Sakura é digna de comentário, referências a magia hermética, espíritos (a “magia” das cartas são os kamis do shintô? Os elementais de Paracelso? Aqueles espíritos Astecas que habitam objetos inanimados que Grant Morrison mencionou em Kid Eternity?), a natureza das cartas, seriam elas sigilos ou uma referencia sutil ao tarô? (coisa que foi mais bem explorada em outro título, X-Japan) a própria “arma” da protagonista, o báculo mágico, é uma referência a seres da mitologia grega, comumente associados com o ocultismo, como Hermes e Esculápio.

O aspecto “idílico” da trama é que me interessa, da mesma forma que no passado eu defendi que era necessário encarar de mente aberta animes que faziam apologia a violência, conteúdo pornográfico e outros temas controversos, acredito que o inverso também é válido, cabe o espectador se esforçar para entender o universo da trama de Card Captor Sakura, e que aquilo não é real, ou ao menos não segue a mesma moralidade da nossa realidade cotidiana.

Em um dos casos mais famosos, graças a um alarde desnecessário por parte da imprensa japonesa, foi no episódio que o professor da Sakura, Yoshiyuki, presenteia sua aluna Rika Sasaki, com um anel de noivado, tamanha polêmica fez com que a adaptação para anime omitisse completamente essa parte da trama.

Este tipo de romance é recorrente na trama, onde da mesma forma que em títulos masculinos ou polêmicos, o leitor pode experimentar uma fantasia de poder ou sexo comumente masculina, porque não livrar o mesmo mundo daquilo que, por falta de termo, só poderia ser considerado “malicioso” ou “imoral”? Porque não se livrar disto tudo e aceitar a ágape. A proposta do CLAMP é justamente essa.

(O que também, acaba deixando muito relativo o debate Seinen/Shojo)

E é essa “mágica” (em vários sentidos…) do universo da série que importa, onde até certos relacionamentos são pautados na natureza sobrenatural de alguns personagens (principalmente quando envolvem Yukito) o sentimento de estranheza que é calcado na cabeça dos espectadores é digno de nota, muitas vezes um alívio comovente, como se algo tivesse dado certo, não importando os limites do nosso mundo.

E no final das contas, graças a Card Captor Sakura, uma nova geração de fãs foi formada no Brasil, pavimentando para as editoras todo um leque de oportunidades no qual hoje podemos desfrutar de uma variedade de títulos,  sejam eles mágicos ou não.

O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio, por José Roberto Vieira

 

O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio é o romance de estreia de José Roberto Vieira, uma emocionante aventura épica em um mundo fantástico e sombrio. Passado, presente e futuro se encontram com a cultura pop numa mistura de referências a animações, quadrinhos, RPG e videogames. Considerado o primeiro romance nacional pensado na estética steampunk, o mundo de O Baronato de Shoah une seres mitológicos como medusas e titãs a grandes inventos tecnológicos.

Desde o nascimento os Bnei Shoah são treinados para fazerem parte da Kabalah, a elite do exército do Quinto Império. Sacerdotes, Profetas, Guerreiros, Amaldiçoados, eles não conhecem outros caminhos, apenas a implacável luta pela manutenção da ordem estabelecida.

Depois de dois anos servindo o exército, Sehn Hadjakkis finalmente tem a chance de voltar para casa e cumprir uma promessa feita na infância: casar-se com seu primeiro e verdadeiro amor, Maya Hawthorn.

Entretanto, a revelação de um poderoso e surpreendente vilão põe Sehn perante um dilema: cumprir a promessa à amada ou rumar a um trágico confronto, sabendo que isso poderá destruir não só o que jurou amar e proteger, mas aquilo que aprendeu como a verdade até então.

 

Sobre o autor:

José Roberto Vieira

Nasceu em 1982, na capital de São Paulo. Formado em Letras pela Universidade Mackenzie, atuou como pesquisador pelo SBPC e CNPQ, atualmente é redator e revisor. Teve contos publicados na coletânea Anno Domini – Manuscritos Medievais (2008) e Pacto de Monstros (2009). BLOG www.baronatodeshoah.blogspot.com

 

EDITORA DRACO
Draco. Do latim, dragão.

A Editora Draco trabalha para fortalecer e patrocinar o imaginário brasileiro, tão nosso e único. Queremos publicar autores brasileiros, aliando design, ilustrações e tudo o que for possível para que nossos leitores sejam atraídos pela beleza das histórias e personagens que nossos livros trazem.

Com isso, esperamos que nossos leitores tenham acesso ao nosso maior tesouro: a literatura fantástica brasileira.

Assessoria de Imprensa: A/C Erick Santos e Karlo Gabriel – editoradraco@gmail.com

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