Author Archives: Voz do Além

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A Árvore da Vida: o peso da autoridade na psique humana

 

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Para início de conversa, vou tratar de deixar uma coisa bem clara: acho os filmes de Terrence Malick bem chatos. Ele é basicamente um Stanley Kubrick pelo seu estilo caaaaaaaaalmo, com cenas longuíssimas, um belo trabalho com planos e movimentos de câmera e um senso de estética perfeccionista quase absoluta. O resultado é uma filmografia curta, com apenas seis filmes, apesar dos quarenta anos de trampo do texano. Porém, Malick passa uma imagem de inocência – assista O Novo Mundo e me diga o que achou -, além de dar a impressão de que acha que seus filmes são maiores do que ele próprio, o que sempre resulta em falta de coesão em seus trabalhos.

A Árvore da Vida, seu mais novo filme, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, é um filme bem estranho. Ao mesmo tempo em que mantém o estilo visual-contemplativo clássico de Terrence Malick – em dose suficiente para ser incensado pela crítica -, o filme não possui uma linha narrativa linear, ou mesmo qualquer vestígio de uma história definida – o bastante para atrair pedradas de detratores do diretor. O resultado é um filme excelente em diversos momentos – ao ponto de se aproximar do incerto status de obra-prima – que é entrecortado por cenas bem entediantes.

O filme narra a relação familiar de Jack – uma espécie de personagem clássico da psicologia freudiana -, espremido entre a autoridade excessiva do pai e a bondade da mãe. O longa-metragem não possui uma história central, mas é uma construção muito bem feita de memórias e divagações de Jack, no presente um adulto amargurado, ao mesmo tempo que mostra a origem do Universo e da vida.

Em outras palavras, o filme tinha tudo para ser uma obra-prima inesquecível, mas não passa de uma tentativa de Malick de repetir o sucesso do igualmente arrastado Além da Linha Vermelha – filme com o melhor elenco já reunido na história do cinema, colado com O Poderoso Chefão. A primeira coisa que vem a mente com o estilo adotado por Malick é 2001 – Uma Odisséia no Espaço, mas sem a carga filosófica universal empregada por Stanley Kubrick para construir sua jornada que percorre toda a história do mundo – embora empregando Douglas Trumbull, supervisor de efeitos especiais de… 2001.

 

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Porém, Malick utiliza diversos truques técnicos para demonstrar de que forma seu filme se diferencia do épico de Kubrick. O mais aparente deles é a câmera, sempre à altura dos olhos de um adolescente, uma forma clara de ressaltar mais uma vez o peso da autoridade hierárquica paterna na formação da personalidade humana. Outra delas é a narração filosófica dividida entre Jack e sua mãe, polos quase opostos de um cabo-de-guerra familiar.

Apesar do notável equilíbrio entre esses dois conceitos relaxadamente abordados pelo filme, o destaque de toda a obra é a relação familiar, que se sobressai até mesmo às ótimas interpretações de todos os atores – que poderiam ser mais notáveis se o tempo em tela dado a eles fosse maior. Pela forma mostrada por Malick, o peso autoritário da relação pai-e-filho é viva, não depende de agentes para ser passada adiante… é quase uma obrigação na criação de rebentos.

Na visão do filme, o autoritarismo não provém do pai de Jack – vivido por Brad Pitt -, ou mesmo da rigidez social dos anos 1950, ainda mais no Texas, mesmo estado onde foi criado o próprio Malick, acrescentando toques autobiográficos ao longa-metragem; mas sim da própria relação orgânica entre pais e filhos. Nesse cenário, Pitt se destaca por conseguir criar um personagem aprofundado, pois mesmo com modos próximos aos militares – ressoados pelo passado dele, que foi marinheiro -, seus momentos carinhosos são redentores, e se somam aos seus discursos sobre querer fortalecer os filhos para a vida. Ou seja: se o autoritarismos não parte dele, mas da próprio vida, de forma muito mais cruel. O pai é como uma vacina para a vida, um mal menor para evitar que o filho seja destroçado pela vida.

A visão do filme é abertamente religioso-monoteísta, uma espécie de equilíbrio entre castigo autoritário e redenção, uma dicotomia exposta na relação entre os caminhos da vida – o amoroso da Graça e rígido da Natureza. Entretanto, mesmo os não-religiosos terão uma experiência reconfortante, embora em níveis de intensidade diferentes, já que toda a estrutura do filme é baseada no uso de símbolos nem sempre universais, mas que buscam provocar reações adversas nos expectadores.

 

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Apesar dessa porção religiosa, o próprio Deus Todo-Poderoso é uma ausência no filme, mesmo que algumas cenas desempenhem um papel mais metafísico, por exemplo quando a Sra O’Brien é vista voando em uma dança particularmente envolvente ou na aparição de vitrais espiralados. O “Deus” do filme é a relação paterna exposta na dicotomia do carinho da mãe e a rigidez do pai, uma mostra das faces divinas do “deus” cristão, em sua construção do Velho e do Novo Testamento.

Para uns, A Árvore da Vida é uma sucessão de imagens de primeira que carecem de conteúdo que as tornem vívidas, enquanto para outros é como um despertar místico-religioso completo. Para mim, o filme ficou no meio do caminho e fugiu do rótulo de “ame ou odeie” – é uma bela construção visual e estética, mas é desnecessariamente enfadonho em outros momentos, o que contribui para tornar o filme uma experiência interessante, porém esquecível.

Uma pena, pois a forte pretensão de Malick parecia que finalmente ia tornar um filme dele excelente.

Das prensas para os neurônios

Publicado originalmente no Farrazine #23

 

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O processo que envolve a leitura e apreciação de uma obra de quadrinhos é muito maior do que folhear umas páginas de papel couché, ler os balões com falas escritas por Grant Morrison e admirar os desenhos de Frank Quitely. Esses momentos são apenas o final, a cereja de um bolo gigantesco que às vezes não admitimos que existe. Dizer que nossas expectativas não afetam o modo como avaliamos algo que lemos/assistimos/ouvimos é o mesmo que dizer que o cheiro da comida que sentimos 10 minutos antes de comê-la não influencia no modo como percebemos o sabor dela.

Como dizia Nietzsche, "somos artistas muito maiores do que imaginamos", se referindo ao fato que nosso sistema nervoso afeta profundamente o modo como vemos (vemos, no sentido literal mesmo) o mundo que nos cerca. Às vezes nossos sentidos são viciados, como em testes em que os instrutores mostram vídeos de crianças brincando numa rua e dão ordens aos que assistem de ver quantas vezes uma criança específica quica uma bola; o fato dos espectadores ficarem atentos a esse aspecto acaba por impedir que vejam outras coisas – como um gorducho fantasiado de coelho passando atrás das crianças (Eu vi isso rolar nas minhas aulas de Psicologia Social).

Às vezes nosso cérebro literalmente filtra sinais que vemos simplesmente porque eles não condizem com as décadas de aprendizado que acumulamos, como quando o presidente Dwight Eisenhower cumprimentou a todos os seus convidados num jantar oficial com a frase "Eu esfaqueei minha esposa essa manhã" e NENHUM dos mais de cinquenta convidados cumprimentados se alarmou ou ficou assustado. É mais ou menos como a experiência descrita por Colin Wilson em seu livro A Criminal History of Mankind, onde sensores eram colocados no ouvido de um gato e registraram uma gama de cerca de 300 vibrações por segundo provenientes dos sons que ele ouvia; e após um rato ser colocado no campo de visão dele, esses ruídos diminuíram para menos de 40. Ou seja: o sistema cognitivo do gato simplesmente filtrou os barulhos após ser colocado em situação de alerta.

São em meandros assim que trabalha nosso sistema nervoso. Dizem os psicólogos da percepção que somente cerca de 10% dos mais de 90 mil sinais cognitivos que recebemos por segundo são tornados "conscientes" (ou seja: tomamos conhecimento deles), o restante é possivelmente processado e armazenado no que alguns chamam de Subconsciente, uma unidade cerebral que alguns cientistas mais ousados afirmam que toma as decisões antes mesmo de nós as conhecermos, o que filosoficamente se aproxima das afirmações de mestres hindus de que "temos duas cabeças, e uma delas está sonhando hipnotizada, enquanto a outra controla tudo a nossa volta" – tal declaração também se soma a metáforas de místicos como George Ivanovich Gurdjieff, que divide nosso sistema nervoso em Baixa e Alta Cabeça.

Essa seria a explicação para o fato de, às vezes, não entendermos porque odiamos tanto alguma coisa, ou nos afeiçoamos a outra. De acordo com essa teoria, o Subconsciente (ou a Alta Cabeça) processou informações que nós nem sabemos que possuímos e tomou a decisão antes da gente. "Até a porcaria da barulheira que a minha vizinha velha faz pode afetar o modo como avalio um livro", conta Nick Hornby em um livro sobre crítica literária que não lembro o nome agora. Em outras palavras: a experiência de avaliação e o modo como uma obra nos influencia não é nada parcial, não se inicia quando abrimos a primeira página e não termina quando fechamos a revista (tô usando o exemplo de revistas em quadrinhos por motivos óbvios, mas pode ser aplicado a qualquer produto ou obra cultural).

É aí que entra três canais importantes: as editoras, as críticas e os scans. São três fatores interdependentes e, ao mesmo tempo, conflitantes. As editoras querem te mostrar apenas um aspecto das obras lançadas por elas, muitas vezes o modo como ela se relaciona com aquela saga nada épica lançada por ela, ou a fama do desenhista. O fato é que editoras são empresas, que precisam de dinheiro, e lançam um monte de produtos pra isso. Elas, com toda a certeza, têm consciência que nem tudo que lançam é bom, mas não podem perder dinheiro e têm metas a cumprir. Pra isso usam a propaganda, e escancaram a parte que julgam mais vendável em suas revistas e o resto que se dane. Eles tentam nos colocar em situação de alerta para uma parte do seu produto, para que filtremos sinais que poderiam estragar nossa experiência do ponto de vista deles. É exatamente a ideia de soltar um rato na frente de um gato.

As críticas já trabalham em mares diferentes, pois visam mostrar que a propaganda das editoras não é lá muito de confiança, no fim das contas, e se põe a indicar ao público as coisas boas e ruins de uma forma mais imparcial e livre da influência editorial. As críticas devem ser amplas, pois os que as escrevem simplesmente não sabem do que cada leitor gosta, e precisam abranger o maior número de fatores possíveis – arte, cores, roteiro, cronologia, diálogos, etc.

Isso num mundo ideal. Antes tínhamos jornais, revistas e sites que faziam esse serviço de avaliar previamente pra nós leitores, o que é possivelmente bom e o que é descartável. Às vezes esses dois lados brigavam, como o dia em que Frank Miller rasgou uma edição da revista Wizard, em abril de 2001, durante um Harvey Awards. "Tenha sempre em mente que se você se deitar com cachorros, pegará pulgas. Se deitar com vermes (o autor pega uma edição da revista Wizard), pegará vermes. Os executivos de Hollywood não lêem quadrinhos. Eles lêem a Wizard. Ou, pelo menos, as editoras pensam isso. De qualquer maneira, o resultado é o mesmo. Embora essa vulgaridade mensal (Miller rasga a capa da revista) reforce todo o preconceito que as pessoas têm sobre os quadrinhos (começa a rasgar as páginas), eles dizem para todo o mundo que somos tão baratos, estúpidos e sem valor quanto pensam que somos. E nós patrocinamos essa agressão", falou na época de forma ácida.

Em outro episódio, a crítica se uniu para detonar qualquer possibilidade de sucesso de A Saga do Clone, do Homem-Aranha. Se a obra é boa ou não, foge ao propósito desse meu texto opinar de forma detalhista (Eu particularmente odeio, e até dei todas as revistas para um amigo), mas na época, diversos sites combinaram notas e avaliações com o objetivo de detonar a obra frente ao público. Em outro momento, executivos inflaram as vendas das edições de Homem-Aranha, de Todd McFarlane, e de X-Men, de Jim Lee, através de especulações, que chegaram a casa dos milhões de exemplares, prática que ajudou a explodir o mercado de quadrinhos no fim dos anos 90.

No meio de todo esse fogo cruzado, estão os leitores. É difícil ser leitor num ambiente psicológico e complicado desse. Principalmente longe do mundo ideal, quando as editoras fazem o possível para influenciar as avaliações dos críticos/blogueiros e criam sagas de quadrinhos interligadas e feitas de forma industrial com o único intuito de vender. É aí que entram os scans e outras formas de distribuição não-oficiais (ou piratas, na concepção da indústria). É meio que um discurso pronto de várias editoras de quadrinhos que os scans (ou os filmes e música para baixar) que a chamada "pirataria" destruiu a indústria, usando como argumentos os números de vendas nada positivos por parte da chamada Indústria Cultural. O discurso geralmente funciona, mas é leviano e só deveria ser aceito em um mundo que só conhecesse os mecânicos lógicos do puxa-empurra da física newtoniana… e os séculos XX e XXI nos fizeram conhecer a Relatividade e a Mecânica Quântica, que deveria, em tese, abrir a mente das pessoas a modelos de realidade muito mais abrangentes e complexos.

Os scans parecem mais com uma resposta do público a um monte de porcaria lançada. É a reação do público – teoricamente impotente – frente a esse jogo comercial. Não estou falando aqui de questões morais, mas simplesmente de fatores práticos. Apenas as obras ruins parecem prejudicadas pelos scans, e existe um motivo bastante lógico para isso: os fãs lêem a revista de graça, e só compram as que gostam. Geralmente o boca-a-boca faz o resto.

Sem dinheiro envolvido, outras questões entram em jogo na avaliação, várias delas nem foram abordadas nas linhas acima. Com ferramentas poderosas de cópia, o poder voltou aos leitores, que antes pareciam o lado mais fraco do triângulo. As propagandas influenciam menos, as críticas também e tudo se equilibrou um pouco mais. Logicamente que ainda existe muita rapinagem de todos os lados, mas pode-se dizer que a interdependência das vértices do triângulo agora estão mais seguras.

Com mudanças tão dramáticas assim é difícil especular como estará o mercado daqui a cinco anos, ainda mais com estudos cada vez mais profundos sobre como nosso cérebro funciona. Mas, uma coisa parece cada vez mais certa: longas batalhas entre esses lados do triângulo continuarão cada vez mais fortes e emocionantes de se acompanhar, afinal, tudo isso influencia na forma como possivelmente apreciamos uma obra de quadrinhos!

Revolution NOW

 

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Fotos do F/16 Studio’s

O período que estamos presenciando está tão louco, que se se Terrence McKenna estivesse vivo, ele iniciaria uma pesquisa de uma década pra descobrir que tipo de droga psicoativa despertou o Espírito de Revolta nas massas novamente, após anos soterrado por consumismo e conformismo. Já intelectuais da comunicação iam se debruçar sobre as ferramentas que tornaram essa rebeldia generalizada mais facilmente transmitida que impulsos nervosos no corpo humano.

Para exprimir esse momento tão importante – e que futuramente será tão mal interpretado – da nossa história atual, é preciso um misto de verve suicida e distanciamento crítico, não necessariamente de forma equilibrada.

Bom, não vou discorrer aqui sobre as revoltas generalizadas entre os cannabistas de São Paulo, bombeiros do Rio, estudantes do Espírito Santo, monges budistas, populações do Egito, Líbia, Síria e Iêmen, e várias outras camadas da população, porque creio que em três textos é possível ter uma idéia básica do que tá rolando, e cabe a cada um decidir uma espécie de posicionamento prévio sobre a questão.

Então, LEIA os textos abaixo.

1) Convulsões sociais contemporâneas: a revolta no século XXI, texto do também NerDevil Agostinho Torres, no Nerds Somos Nozes.

2) Protestos estudantis em Vitória, texto meu pra cobrir pra revista Vice as revoltas de universitários e outras classes de estudantes aqui na capital do Espírito Santo.

3) Tiros e Gás na Marcha da Maconha de São Paulo, outro texto meu, com o nome bem explicativo.

O Fator SNAFU

 

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"Qualquer pessoa em Washington que não seja paranóica, está simplesmente louca"

Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano

 

Um preceito básico que deveria fundamentar todas as teorias da comunicação, diz: Informação e Hierarquia não combinam. Uma transmissão de informações só flui corretamente se não houver nenhuma preocupação hierárquica no sentido de se passar uma mensagem deturpada para agradar alguém. A submissão de uma hierarquia tende a destruir completamente a possibilidade da informação – Informação aqui deve ser entendida aqui como o Fator Surpresa, a carga de novidade, o elemento desconhecido de uma mensagem – não ser editada, alterada ou até mesmo omitida. Se o conceito não está suficientemente claro, imagine a seguinte situação: um soldado raso que está de guarda no quartel de um batalhão e tirou um cochilo acorda de sobressalto avista um grupamento inimigo invadindo a unidade dele, e precisa urgentemente avisar aos seus superiores. Com toda a certeza esse soldado experimentará um momento de indecisão particularmente pavoroso e intenso. Ele não só precisa deixar todos a par da situação, como precisa livrar o próprio cu de ser rifado por seus superiores, tornando a mensagem receptiva para os que têm o poder de dar-lhe um tiro de punição pelo que fez. Em outras palavras: ele provavelmente criará artisticamente uma versão completamente nova dos fatos que ocorreram, deliberadamente desinformando seus superiores para evitar ser punido. E a punição parece tão assombrosa para um soldado que ele põe em risco toda a unidade militar em nome de um propósito taxado de egoísta.

A situação pode ser extrema, distante, devido a rigidez da vida militar, mas não é muito diferente do que acontece diariamente em uma cacetada de empresas. É o tradicional "Deu merda", que qualquer estagiário ou funcionário subalterno certamente já experimentou. Aí entra a hierarquia. Uma hierarquia – incluindo a empresarial, aparentemente inocente – não funciona se o cara que está acima, não tiver algum tipo de poder fatal, comparável ao revólver. Uma frase clássica cunhada por alguém que no momento não recordo o nome, afirma: "O poder político nasce do tambor de um revólver". Não sejam tão apressados em levar o revólver ao pé da letra de forma integral. O poder do revólver está contido na possibilidade estatística do seu portador atirar na pessoa ameaçada (também deve ser levado em conta a possibilidade do disparo não acertar a vítima), o que exclui a necessidade de uma demonstração. O medo de tomar um tiro é o poder por trás do revólver, ele é basicamente um instrumento de ameaça. E alguém superior em uma hierarquia possui algo similar a um revólver. Pode ser um rito carregado de tradições – "Não responda ao seu pai, moleque!" – ou o poder de colocar em xeque a capacidade de sobrevivência de alguém – "Cometa mais uma besteira dessa, seu verme, que te demito sem pensar duas vezes!". Se acha que esses não são revólveres suficientemente persuasivos, ponha-se a pensar em como seu comportamento com quase certeza é radicalmente diferente na frente dos seus pais, especialmente se você tem mais de 25 anos, em que a fase rebelde de um homem adulto geralmente começa a terminar. Pense também em quantas pessoas você mantém laços suficientemente fortes para pedir ajuda caso TODAS as suas fontes de renda sequem de um dia pro outro. Refletiu? Agora imagine os dois revólveres combinados na sua cabeça e entenda como uma arma social e aparentemente inofensiva pode ser bem poderosa. Se esse peso hierárquico é capaz de ameaçar o curso da vida de qualquer um, imagine o quanto não influencia na integridade de uma Onda de Informação.

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O Fim da Mordaça dos Quadrinhos

[Texto originalmente publicado no Farrazine #20, 21 de fevereiro de 2011]

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Os EUA são um lugar bem estranho: possuem uma cultura recheada de incentivo a uma violência velada em seus meios de comunicação de massa, mas ao mesmo tempo hesitam em falar abertamente sobre sexo, por exemplo. E qualquer um com um mínimo de conhecimento em comportamento animal sabe que violência – por qualquer razão, mas principalmente por território e hierarquia – e sexo são praticamente instintivos. Os EUA, assim como a maioria das democracias ocidentais (e dos Estados em geral), gostam de repressão e de políticas de combate, de apontar culpados ao invés de tentarem olhar para as causas do problema. É como culpar as chuvas pelas contínuas enchentes e soterramentos de uma área serrana, sendo que a construção de casas nessas áreas termina por destruir a vegetação que mantém a terra firme.

Tal comportamento, segundo a Etologia, é derivado de instintos primatas que todo o ser humano possui. É só observar um gorila líder de um bando; quando ele se sente ameaçado ele acha o líder de um bando mais fraco e o ataca, como que colocando a culpa de seus problemas nele. Atacar física e psicologicamente é interpretado como um sinal de força e termina por desviar a atenção do bando para um possível problema mais complexo. Bata publicamente em algo e tá tudo certo, é assim que a maioria dos ditadores são seguidos quase cegamente por seus súditos. A ascensão de Hitler e Stalin (ou qualquer outro) não difere da da tomada de poder de um gorila ou um elefante em seu bando. Da mesma forma não diferem as posições autoritárias que eles assumem em seus discursos. Esse é um dos motivos para as duas grandes religiões do mundo serem basicamente repressoras e monoteístas. Elas ensinam como a autoridade suprema não deve ser contestada e ainda criaram um inimigo que pode ser culpado de tudo: o Diabo e suas variações. Tais constatações parecem excessivamente metafísicas, longe do nosso dia-a-dia, mas tem mais similaridade com coisas bem próximas a gente do que se pode imaginar. Uma delas o leitor de quadrinhos conhece bem: o Comic Code Authority.

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Clube dos Cínicos

Texto originalmente publicado no Farrazine nº 19

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Um grupo de marmanjos se estapeia no subsolo de um bar grudento. Quem vê uma cena dessa fora do contexto pode achar que está diante de uma ode a violência sem sentido, mas a profundidade do conjunto de questionamentos e críticas sociais presentes na tela/página vai muito além de uns meros tapas em busca da redenção momentânea. Quando saiu nos cinemas, Clube da Luta foi recebido como o próprio diabo. Até um maluco metralhando gente numa sessão do filme aqui no Brasil rolou, aumentando as críticas pra cima dele. Eu bem lembro o Fantástico o elegendo como o "filme mais violento da história", provavelmente se esquecendo que os vale-tudo que rolam nos canais a cabo da Globo são bem parecidos visualmente falando, com o adendo de serem reais. Também pudera, a idéia do filme era essa mesmo, ser chocante. Não é todo o dia que vemos uma obra que se põe a criticar o modo como o Consumidor cada vez mais está preso ao Consumo da forma como hoje acontece… e o faz de forma violenta, sem precedentes dentro da linguagem moderna. Considere o filme como a explosão do apartamento de Jack/Tyler/Narrador, sei lá como você quer chamar o Edward Norton. O filme é uma ruptura, uma iniciação rolando, é como Lúcifer caindo do céu, é doloroso como a primeira respiração de um bebê. Não necessariamente vai melhorar a vida de quem assiste, mas vai fazê-lo pensar sobre ela.

A bem da verdade, o sacode presente na mensagem de Clube da Luta existe como o lado negro das mensagens publicitárias ególatras atuais, é um anti-narcisismo. Se as propagandas que querem te transformar numa máquina de compra te jogam lá em cima, Tyler te joga na real: lá embaixo. As propagandas têm a tendência a colocar as pessoas no estado psicológico necessário para comprar muito. O consumo é a salvação da sua vida chata. "Sua vida começa aqui", "O mundo é seu", "Seu passaporte pra felicidade"… você provavelmente já viu algum slogan que tenha embutido uma mensagem similar a dessas três. O consumo quer fazer parte da sua vida. Comprar deve ser um hábito, principalmente coisas espúrias e caras. Isso é uma espécie de status social. Seu celular é do ano passado? Troque ou ele será inferior ao dos seus amigos, além de você não conseguir acessar aquele app com mapas exclusivos de Plutão. Seu computador não tem um processador i7? Troque, tá velho e seu navegador não ficará mais instável com 297 abas abertas. Não importa se você tá pouco se fodendo pra Plutão ou se fica com 6 abas abertas no máximo antes do seu TOC apitar… você tem que comprar algo mais novo. E é esse ligação quase umbilical entre Produto e Comprador que Clube da Luta quer cortar.

Como toda a sociedade ocidental é uma projeção amplificada do que rolou na Grécia, uma linha filosófica helênica tinha princípios bem parecidos, e aqui no caso ela atende pelo nome de Cinismo. Tradicionalmente se reconhece Antístenes, um pupilo de Sócrates como o fundador da corrente Cínica. Ele mesmo não era plenamente aceito socialmente, por ser filho de um ateniense com uma escrava, e dessa forma não era considerado cidadão de Atenas. Primeiro foi seguidor de Górgias, um dos primeiros Sofistas, para logo depois se tornar discípulo de Sócrates. Na filosofia do Cinismo, a Ética e Virtude estavam acima de tudo. Para alcançar um Estado Natural virtuoso, o ser humano precisa se livrar de tudo que é supérfluo e o impede de praticar um bem essencial que existe na humanidade. Diógenes, um dos seguidores de Antístenes, foi mais longe e desacreditou todas as ferramentas cunhadas pela civilização. Justiça, religião e escolas seriam somente instrumentos para afastar o homem da verdadeira felicidade. O Homem seria um ser auto-suficiente – como diria Jean-Jacques Rousseau séculos depois. A libertação do indivíduo desses grilhões é que traria a felicidade, e é aí que Clube da Luta se conecta ao Cinismo – cinismo em seu sentido original, não em sua desvirtuação levada a cabo por Platão anos depois. Diógenes vivia num barril apenas com sua túnica e um cajado. Segundo relatos, estava feliz assim. Alexandre Magno, admirando essa atitude, ficou frente a ele e ofereceu a realização do desejo que ele quisesse. Diógenes teria respondido: Desejo apenas que te afastes do meu Sol. Sol seria uma metáfora para Conhecimento: qualquer presente que Diógenes aceitasse se interporia entre ele e o Conhecimento.

Somente na metodologia para alcançar esse estado autárquico que os seguidores do Clube da Luta se diferem dos Cínicos. Os Cínicos eram gregos e tinham o pensamento que o Conhecimento, a Filosofia tinha caráter libertador… Tyler vê as coisas de modo diferente e coloca seus seguidores em estados próximos de seus antepassados: brigando por Território, nosso segundo instinto mais forte, só perdendo pra Sobrevivência. Os Cínicos queriam uma elevação mental, Tyler uma regressão instintiva. Parece um processo metodológico que irá gerar um bando de macacos ainda mais condicionados, mas a realidade é diferente. Sociedades diferentes, métodos diferentes. Freud disse que nosso inconsciente é algo individual, imutável e exatamente por isso parece um erro avaliar essa mudança de métodos. Se a parte mais responsável pelos comportamentos humanos é imutável, parece um erro realizar uma mudanças tão radical de método. Jung amplificou – corretamente, na minha visão – o conceito de Inconsciente Humano, ao coloca-lo num contexto coletivo. Mitos, Arquétipos, Sincronicidades… não, nós não estamos sós, não nascemos uma folha branca e isso se reflete na forma como nossa cabeça processa a realidade. Por isso os gregos – uma sociedade movida pela falta – necessitavam do Sol, uma forma de crescerem em conhecimento; e os EUA – uma sociedade movida pelo excesso – precisam de uma regressão aos instintos básicos humanos. Só assim nos livramos nos Consumismo, da hipnose da TV, do excesso de informação, das relações sociais falsas.

 

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Christopher Lasch

Esse tipo de mensagem apocalíptica foi esboçada de forma científica por Christopher Lasch, um psicólogo americano que foi pouco ouvido na época em que publicou seus livros, mas hoje é considerado mainstream. Lá pelo final da revolucionária década de 70, Lasch dizia que a independência das famílias estava sendo minada de forma intencional por uma série de instituições. No cerne de sua crítica estava uma futura onda de consumismo exagerado, crises de personalidade e indivíduos narcisistas e isolados socialmente. Na visão dele, tudo seria agravado por meios de comunicação que cada vez mais incentivariam relações sociais mecânicas e virtuais e as compras como uma espécie de fuga da realidade. Hoje pode parecer fácil confirmar todas as predições de Lasch, mas na época a sociedade era outra e os sinais que convergiria pra um quadro tão complexo, não passavam de vestígios. Bom, as coisas rolaram num nível pior – e mais lucrativo – do que esperado por Lasch, e a própria doença se tornou uma mercadoria.

Antes de Lasch, um acadêmico foi ainda mais longe na crítica contra a Psiquiatria e o comércio das doenças. No início dos anos 1960, o Dr. Thomas Szasz (Professor Emérito de Psiquiatria da Universidade Estadual de Nova York) lançou o livro que sintetiza melhor suas idéias: O Mito da Doença Mental. Para Szasz a Psiquiatria não pode ser considerada uma ciência médica pelo fato de não possuir testes diagnósticos objetivos, bem como pela falta de provas científicas de que os distúrbios mentais decorrentes das supostas "alterações químicas" ditas por psiquiatras realmente alteram o comportamento humano. Outro ponto é que na Psiquiatria as doenças nunca têm causa, o que vai de encontro a quase todas as outras especialidades médicas. A Psiquiatria para Szasz (e outros psiquiatras de um movimento denominado Antipsiquiatria) seria uma forma de controle social, mais ou menos como propôs Michel Foucault em seu livro História da Loucura na Idade Clássica. A Psiquiatria e os remédios e doenças por ela criados seriam somente a forma mais explícita e poderosa de coerção social. Como exemplo histórico fica a Drapetomania, "diagnosticada" pelo Dr. Samuel A. Cartwright, em 1851. Era basicamente um rótulo para explicar porque os escravos africanos tinham a tendência a fugir (caraca, Eu sempre achei o motivo bem lógico, mas vamos lá). Mas o doutor foi a fundo e elaborou um método de prever a manifestação de drapetomania (drapete = escravo fugido, só pra constar): era só dar chicotadas em escravos carrancudos. Se ele insistisse, o método de tratamento envolvia cortar os dedos dos pés "para impedir que se manifestasse o sintoma da fuga". Um outro caso clássico é a Histeria, que por muito tempo esteve associada a mulheres que ousavam questionar o controle masculino (geralmente da figura do marido). A causa: um movimento irregular de sangue do útero para o cérebro.

Por instituições como a Psiquiatria, as Escolas (que nas palavras de Ivan Illich são somente "instituições criadas para ensinar aos jovens como servirem às sociedades industrializadas") e o Trabalho… é que a luta de Tyler (um Cínico moderno e radical. Um terrorista segundo psiquiatras) é violenta e passa também pela libertação física, muito mais ampla do que a liberdade essencialmente mental e filosófica dos gregos. No Ocidente do século XXI, os grilhões são bem mais pesados do que na sociedade grega. As classes dominantes encontraram formas de reprimir todo o tipo de comportamento que não lhes agrade. Não se pode mais viver em um barril hoje sem arriscar-se ser vítima da polícia, ou de malucos da classe média que queimam índios e agridem pessoas com lâmpadas. Não se pode mais comportar-se de forma diferente da estipulada pela sociedade, pois isso é considerado loucura e logo arranjam um manicômio pra você vegetar o resto dos seus dias. Por isso é que Tyler e seu evoluído Projeto Caos se propõem a destruir o que os humanos acham que são: as coisas que compram, ou o próprio dinheiro, que de forma absoluta não vale nada. Destruindo o lucro se destroem as doenças inventadas, as classes sociais, se destrói praticamente todos os grilhões da sociedade!

Escuridão Eterna

 

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Alex Roivas, seu tatataravó Maximilian e seu avô Edward

Eu tenho uma relação bem estranha com videogames. Sempre fui fissurado em revistas sobre o assunto, tinha (e ainda tenho) pilhas e mais pilhas delas, quando bem mais novo comprava umas três todo o mês e minha mesada ia toda embora. Às vezes ia a sebos e saía com umas 30 revistas antigas de lá. Muito do meu conhecimento de videogames derivou do que lia sobre o assunto e não do que jogava, por um tempo fui como um tarado lendo livros sobre sexo ao invés de sair praticando por aí. Como bom nintendista, tinha algumas das primeiras Nintendo World, mas a EGM foi a minha preferida e a assinei por bastante tempo, até ver o triste fim dela. Recentemente também assinei a EDGE, provavelmente a melhor revista de games que já chegou às nossas terras, uma pena que tenha acabado tão cedo por aqui, acho que o público brasileiro não tava pronto pra algo tão ambicioso assim. Só aí já dá pra saber que sou mais jornalista do que gamer, na verdade. O lance é que meus videogames eram sempre de uma geração anterior a atual. Quando o PlayStation e o Nintendo 64 dominavam o mundo, Eu me alegrava com o meu Super Nintendo. Anteriormente, no reinado do Super Nintendo, Eu tinha um Atari. Na era PlayStation 2, Eu tinha um Nintendo 64.

Em 2009 me juntei (atrasado) a geração atual e comprei um Wii. O foda do Wii é uma coisa chamada Virtual Console, que dá acesso a uma vasta biblioteca de jogos de consoles anteriores da Nintendo, fora rodar jogos de Game Cube com os MiniDVDs, joysticks e memory cards do aparelho. Então, assim que comprei o maldito Wii pensei em uma miríade de jogos que perdi e agora podia jogar. Como de costume, no fim do ano, fiz uma lista de coisas (coisas = livros) pra comprar e coloquei no meio um espaço pra jogos. Não tinha dinheiro suficiente para comprar jogos do próprio Wii  – fora que tinha alguns comprados que não tinha zerado ainda – e resolvi comprar alguns de Game Cube. Como não tinha nada em mente a não ser The Legend of Zelda: Wind Waker, fui até a minha caixa de revistas pra ver alguma sugestão de jogos. Coloquei a mão na caixa e puxei duas revistas aleatórias… uma Nintendo World com a capa estampando a chamada Eternal Darkness e outra com a segunda parte do detonado do jogo. Me pareceu um sinal suficientemente forte e coloquei o jogo na lista junto com Zelda e Final Fantasy: Crystal Chronicles.

Pouco depois do Natal tava com todos os jogos em casa, nenhum calote e nenhum atraso na entrega. Comecei com Eternal Darkness. O jogo é o que se pode chamar de terror psicológico, com uma trama bem construída (ganhou diversos prêmios de Melhor História) e nível de dificuldade na medida. Logo nas cenas iniciais você é colocado no controle de Alexandra Roivas presa num quarto lotado de zumbis. Mas era só um sonho, ela acorda e recebe a ligação de um chefe de polícia, que a convida a ir a mansão da família dela em Rhode Island. O chefe de polícia é um cara sem nenhum tato e coloca Alex pra reconhecer o corpo sem cabeça do próprio avô. Depois da polícia mostrar que não tá muito interessada no caso de assassinato do avô dela, Alex decide investigar por conta própria… e é aí que as coisas ficam realmente estranhas.

Alex encontra uma sala de leitura secreta na mansão do avô dela e um livro: o Tomo da Escuridão Eterna. Toda a mecânica do jogo gira em torno desse livro e todos os que o encontram. Alex se põe a ler o Tomo, cada página é uma fase e a história de um protagonista do jogo, que se viu envolvido numa batalha secreta pelo controle do mundo. Ao fim de cada capítulo o jogo volta a mansão, onde Alex pode usar seus novos conhecimentos para caçar mais capítulos escondidos pelo ambiente. No início, essa mecânica de controlar um personagem por fase e ainda precisar procurar novos capítulos pra jogar outras fases pode parecer confusa, mas com uns dois ou três capítulos lidos logo se está profundamente envolvido com a história. Eu coloquei o jogo no Wii somente para ver se ele funcionava a contento e Eu não tinha sido vítima de calote de algum espertinho do Mercado Livre, e quando vi já estava no terceiro capítulo, completamente imerso. Se não tivesse envolvido nos atos finais de um clássico – The Legend of Zelda: Twilight Princess – provavelmente viraria a noite e o dia seguinte jogando.

 

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Um dos servos dos Anciãos, da Inquisição

Após matar Ganondorf no quinto Zelda da minha carreira – se bem que em Majora’s Mask ele não é o vilão – mergulho de cabeça definitivamente em Eternal Darkness. Nunca fui de ligar muito pra gráficos e inovações técnicas significativas (mas também não dispenso um game de encher os olhos) e Eternal realmente não é um primor nessas áreas, apesar da competência, mas compensa em jogabilidade e história. Esteticamente o jogo é um discípulo de Alone in the Dark, se distanciando de Resident Evil no fator clima genuíno de terror. Enquanto Resident é uma contínua busca obsessiva por sustos repentinos – cachorros quebrando janelas, alguém?! – Alone vai se aprofundando num equilibrado clima de horror genuinamente apavorante e dificilmente se aproxima do gore absoluto. Eternal segue essa cartilha muito bem e ainda dá um passo a mais: adiciona "sanidade" ao processo. Junto com seu medidor de vida e de energias mágicas, o jogo possui um medidor de sanidade. A falta dele causa inúmeros efeitos imprevisíveis no ambiente. Do nada você afunda no chão, jorra sangue das paredes, crianças rindo, gente berrando, seus braços caindo… qualquer tipo de merda pode rolar se sua sanidade tiver baixa. E os efeitos da loucura variam de acordo com os medos específicos de cada personagem. As alucinações chegam a transcender o possível dentro do ambiente do jogo e atingem camadas metalinguísticas tão marcantes quanto aquele momento em que Psycho Mantis "adivinhava" os games que você gostava, em Metal Gear Solid, simplesmente lendo seu memory card. Em alguns momentos de Eternal Darkness – cujo subtítulo não é Sanity’s Requiem à toa – rolam simulações de desligamento de videogame, de jogo resetando, de volume diminuindo, de joystick defeituoso… e acredite, por mais que esteja avisado, se rolar com você, a tensão do jogo não vai deixar você lembrar disso.

Fora isso a jogabilidade do jogo é a clássica dos discípulos de Alone in the Dark: cenários pré-renderizados, botão de ação pra interagir com objetos, armas de fogo e espadas. Os combates, aliás, têm uns aditivos interessantes. É possível mirar na cabeça, no dorso, ou nos braços do inimigo e isso ajuda pra caralho. Além de matar mais rápido, dar golpes mirados recuperam sua tão preciosa sanidade – quanto menos sanidade, menos dura sua energia e mais suscetível a morte você está. Arrancar a cabeça de um zumbi o fará dar golpes a esmo, às vezes atacando até outros zumbis, por exemplo. Quando o inimigo cai semi-morto, existe também a opção Finish Him, um golpe final que ajuda a recuperar a sanidade.

Assim que o personagem da fase encontrar o Tomo, ele tem acesso às magias, e puta que pariu, Eternal Darkness deve ter o melhor sistema de magias que os games já criaram. É um pouco complexo, mas logo se pega o jeito. Para se conseguir uma magia, é necessário possuir um Círculo de Poder (que pode ser de 3, 5 ou 7 pontas… quanto mais pontas, mais poderosa é a magia, mas isso também aumenta o tempo para ela ser completada), um Codex com as instruções do feitiço, as runas necessárias para completar a magia e uma pedra para alinha-la com as três entidades presentes no jogo (já explico esse lance). Então, tenha certeza que criar uma magia, ou mesmo conjura-la não é simplesmente apertar um botãozinho e tá tudo certo. Primeiramente é preciso ter energias mágicas suficiente para completar e em segundo lugar e mais importante: NÃO se mexer enquanto tiver completando o círculo mágico e usando as runas no seu devido tempo. Se mexer ou tomar uma porrada de algum zumbi enquanto completa a magia é vê-la não surtindo efeito nenhum e sua energia mágica ainda é gasta no processo. A Magia não é somente um adereço ao jogo, às vezes não ter energia mágica é pior que não ter sangue – embora correr um pouco ajude a recuperar sua energia mágica… se tiver com pouca sanidade, recupera mais rápido, pra ver que toda coisa ruim pode ter seu lado bom.

 

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Alex na sala secreta, de frente ao Tomo da Escuridão Eterna

A história de Eternal não está no centro das atenções à toa. O primeiro capítulo é confuso, você controla o centurião romano Pious Augustus, que comanda uma legião durante uma campanha na Pérsia. Depois de ser transportado para um estranho templo e matar uma horda de seres das trevas, Pious se vê numa sala e precisa tomar uma decisão: escolher o artefato de um das três entidades do jogo. São os três Anciões, seres transdimensionais (alguns diriam extraterrestres, mas pelo que o jogo mostra, prefiro a abordagem "de outra dimensão") que procuram um servo para abrir um portal que dê passagem para a entrada de um deles na Terra. Como são seres em guerra, a escolha que o jogador fará nesse capítulo – sem saber – é de suma importância durante o jogo. Existe Chattur’gha (Vermelho), Deus da Força Física; Xel’lotath (Verde), Deusa da Sanidade, da Força Mental, e Ulyaoth (Azul), Deus da Magia. Naturalmente, a escolha inicial no capítulo de Pious afeta todo o jogo. Tornar-se servo de Ulyaoth significa que você enfrentará uma multidão de servos dele durante o jogo, e servos de Ulyaoth têm o poder de arrancar suas energias mágicas somente olhando pra você. O mesmo vale para os outros, cada um associado a uma de suas energias. O psiquiatra Edward Roivas, avô de Alex, relaciona essas três entidades com os trabalhos dos três mais importantes psicólogos dos últimos séculos: Skinner estaria relacionado a Chattur’gha, Freud com Xel’lotath e Ulyaoth com Jung (analogia brilhante, por sinal).

Existe uma interação entre essas entidades: Vermelho vence Verde que vence Azul que vence Vermelho. Esse diagrama é de muita importância na hora em que o jogador for realizar os feitiços. Um escudo mágico contra um Horror servo de Chattur’gha só será efetivo se for alinhado a Ulyaoth. Parece confuso lendo, mas no jogo se torna bem instintivo. Porém Existe uma solução para essa relação, que é a runa de Mantorok, uma quarta entidade, misteriosa, supostamente mais fraca e chamada de Deus do Caos, mas cujo o alinhamento vence a todos. Usar magias alinhadas a Mantorok – é necessário achar uma runa bem escondida na quarta ou quinta fase – significa uma garantia de eficácia em 90% dos casos.

Os ambientes principais do jogo são quatro: o Templo dos Anciãos, na Pérsia; um templo perdido em Angkor Thom, no Camboja; a Catedral Oublié, em Amiens, França; e a mansão dos Roivas, em Rhode Island (e a Cidade Perdida de Ehn’gha, no subsolo da mansão). Como cada capítulo se passa numa época diferente, o ambiente explorado sempre vai variar. Se numa época o monge Paul Luther explora a catedral francesa em busca da Mão da Glória, 500 anos depois, durante a I Guerra Mundial, o repórter Peter Jacob explora o mesmo local onde enfrenta um poderoso guardião que protege um artefato que pode destruir a entidade a qual Pious serve. Cada personagem possui características únicas também. Um monge pode ser fisicamente mais fraco, mas possui mais sanidade e mais facilidade com a magia, enquanto um soldado não se cansa e possui mais resistência, mas a taxa de sanidade dele é bem menor.

 

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Meu envolvimento com o jogo cresceu a tal nível que as influências dele começaram a transcender aos "simples" efeitos (da falta de) de sanidade do jogo. Quando estava no sétimo capítulo e fui retoma-lo, uma coisa inédita aconteceu: quando fui tirar o MiniDVD da caixa e ele quebrou. Ah, você é um ogro barbudo e descuidado, não sabe nem tirar o jogo da embalagem, alguém já deve estar bradando. Me deixe explicar melhor pra todos entenderem que não foi bem assim. Eu tenho vários jogos de Game Cube e realmente a embalagem dos jogos dele são meio traiçoeiras, mais apertadas no centro do que deveriam (sem referências sexuais na frase). Mas é só apertar o centro que o disco pula, e isso não ocorreu naquela madrugada. Tirei todos os meus jogos de Game Cube da embalagem pra ver se não era Eu, e todos saíram. Confiante, tentei tirar mais uma vez o Eternal e ele quebrou de fora a fora, não tendo a mínima possibilidade de uso posterior. Ainda fui corajoso e coloquei o disco no Wii, mas o barulho que ouvi me encorajou a apertar Eject rapidamente. Mantive o save e recorri a única opção disponível: comprar outro jogo! Depois ainda coloquei dois MiniDVDs dentro da embalagem do jogo e todas saíram sem nenhum problema.

Dessa vez o jogo atrasou… mais de oito dias de enviado e nada de chegar. Reclamei do fato no Twitter e (sem brincadeira) cinco segundos depois chega meu pai com a caixa de Correio na mão. Interpreto como outro sinal.

Após ler todos os capítulos do Tomo, descobrir todos os segredos dos seus antepassados (seu avô havia sido devorado por um Guardião durante um momento de estudos) e estar de posse de todos os Codex mágicos, é vez de Alex fazer a sua participação derradeira na batalha sobre o controle da humanidade. Não coincidentemente, um alinhamento planetário se aproxima e esse é o último elemento que Pious precisa pra abrir o portal e dar entrada a entidade a qual ele serve (no meu caso, Xel’lotath). Cabe a Alex descer a cidade de Ehn’gha, fazer uso de um Círculo Mágico de Nove Pontas que está lá (e que seu avô usou a algumas décadas atrás) e enfrentar o próprio Pious, em um final razoavelmente épico (Eu ia contar o final, mas depois de matar várias surpresas do jogo nesse texto, deixo ao menos essa pra quem resolver jogar. Só posso dizer que não acaba quando termina, afinal, são TRÊS entidades na jogada). Como me empenhei, ainda fui recompensado com uma espada secreta com magia infinita durante o jogo, algo não muito fácil.

 

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No fim, Eternal Darkness se mostrou quase uma angustiante experiência espiritual, além de possuir uma poderosa construção mitológica que muito se inspira nos monstros de H. P. Lovecraft – não é difícil comparar o fator transdimensionalidade e o modo de invocação, e até a aparência dos monstros de Eternal com o clássico Cthulhu. É o melhor jogo de terror que já pus as mão, recomendo a todos (e bem que ficaria feliz com uma continuação, que o diretor Denis Dyack disse que rolaria, com mais histórias ambientadas no mesmo universo e tudo o mais).

LSD e Vazamentos… a repressão é previsível

 

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Ele [Timothy Leary] é o homem mais perigoso da América

Richard Nixon

Devemos tratar o sr. Assange da mesma forma que outros valiosos alvos terroristas: matá-lo

Jeffrey T Kuhner, no Washington Times

 

No verão de 1960, Timothy Leary, em viagem de férias ao México, recebeu de Anthony Russo,um amigo antropólogo, um presente: alguns cogumelos alucinógenos conhecidos como Psilocibina. Leary, após pegar o título de PhD em Psicologia, estudou o cérebro humano e a relação dele com o comportamento por 10 anos. O efeito dos cogumelos durou 5 horas, e Leary disse posteriormente que essas horas foram mais importantes que toda a vida acadêmica anterior dele, com mais de 15 anos. Foi o tipo de transformação iniciática que toda pessoa deveria experimentar, que joga num caminho doido e sem volta. Ele agora tinha a convicção que o mundo visto pelos humanos – com aparência concreta, absoluta – era apenas uma projeção mutável do cérebro, extremamente maleável e manipulável. É o que os hindus chamam de maya.

Depois de voltar das férias, Leary pôs se a espalhar seu evangelho psicodélico, inclusive entre pesquisadores de Harvard, onde dava aulas. Ele convenceu o Departamento de Psicologia a permitir que ele fizesse testes com a substância em alunos voluntários. No mesmo período ele conheceu o LSD, descoberto pelo suíço Dr. Albert Hoffman, nos anos 40. A substância seria a chave para a intensificação das suas pesquisas com seus próprios alunos, auxiliado na tarefa pelo também professor Richard Alpert.

Entretanto, parece que os anos 60 realmente tinham certa propensão ao Caos, já que as coisas começaram a sair do controle. Professores não estavam gostando do uso livre de drogas em Harvard, mesmo com fins científicos. Alunos que não conseguiram se inscrever nas pesquisas, se puseram a arrumar alucinógenos de outras formas, aumentando ainda mais a desconfiança de certos setores de Harvard para o trabalho de Leary e Alpert. O polícia foi chamada e convocou o departamento anti-drogas, que avisou a CIA. No fim das contas, Leary foi pressionado, e junto com Alpert, acabou deixando seu cargo de professor e pesquisador em Harvard.

As igrejas americanas também não gostaram das pesquisas, nem da parte teórica. Leary dizia que o LSD e outras drogas psicodélicas ativavam partes elevadas do cérebro humano, o que geralmente conduzia a visões de religiões mais calcadas no politeísmo… e como é de se imaginar, a rigidez do monoteísmo não cabe nessas mudanças cerebrais. Governos, igrejas e corporações perderam seu poder, pois os macacos amestrados tomariam consciência de seu amestramento, tendo condições de imprimir uma nova forma de viver, livre de amarras mentais auto-impostas.

"Viver é surfar o caos. Você não pode modificá-lo, mas pode aprender a lidar com ele surfando seus limites. Tem mais, meu caro: ninguém é realmente místico por mais de cinco minutos. Não está contente ainda? Te digo uma coisa que aprendi na minha vida, aprendi muito profundamente: toda a realidade que nos cerca não passa de uma opinião".

Foi a citação dele que provavelmente melhor sintetizou sua crença nas drogas psicodélicas como libertação.

Em 1962, Leary e Alpert continuaram suas pesquisas por conta própria, numa fazenda em Millbrook. Toda sorte de gente foi pra lá, de artistas importantes da época, até hippies que só queriam se drogar um pouco. A condição para receber o ácido era relatar toda a viagem detalhadamente. Com a grande popularidade da Fazenda, o governo Nixon achou que era uma boa idéia usar Leary e suas pesquisas como bode expiatório para uma mudança cultura profunda na época. Uma série de batidas violentas começou, e logo as pesquisas terminaram. O governo anuncia que as pesquisas dele eram “muito perigosas” – estranhamente, as pesquisas nucleares nunca foram classificadas assim. A imprensa naturalmente acompanhou a sanha paranóica do governo, e publicou várias reportagens de psiquiatras que rosnavam que o LSD e a maconha eram as maiores ameaças a humanidade.

 

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As acusações vinham de tantos lados, que certos setores da sociedade o acusaram de ajudar a CIA com seu infame projeto MK ULTRA, que queria exercer o controle mental pleno através de privação dos sentidos e uso de drogas psicodélicas. Como estamos falando de sujeira da CIA, é difícil dizer se Leary participou ou não, afinal é tudo secreto por lá. Mas uma prova que refuta essa afirmação são os resultados da participação de Leary no projeto de reabilitação de presos da penitenciária de Massachussetts, de 1960 a 1962. A prisão era conhecida pelo alto índice de reincidência e pela violência de seus presos. Segundo dados da própria cadeia, 80% dos presos tratados por Leary – usando um misto de LSD, com terapia em grupo (terapia essa que seus professores de Harvard disseram ser anti-científica e impossível de ser aplicada) – jamais retornaram às grades, mesmo 15 anos depois. Os presos entrevistados falaram que tiveram uma compreensão tão ampla da vida durante o tratamento, que perceberam como o crime era patético por si só – enquanto isso, os tratamentos no MK ULTRA eram conduzidos por agentes secretos, e geravam bad trips e suicídios.

Como qualquer ferramenta, o LSD poderia ser usada para o “bem” e para o “mal”. Mas segundo dados de Leary e Alpert, ela agia num nível cerebral anterior a Cultura – é como programar um computador num nível abaixo do sistema operacional – se mostrando como um poderoso agente que pode ser usado para lavagens cerebrais. O que muda são as técnicas e a vontade de quem está usando LSD. No caso do tratamento de Leary em presos, o desejo deles de nunca mais voltar ao crime está documentado, eles eram voluntários. No MK ULTRA não havia voluntários, muito pelo contrário. A idéia da CIA era desenvolver técnicas de ministrar as drogas sem que as pessoas soubessem.

 

Em 1965, Leary enfrenta a lei de frente: foi preso na fronteira com o México com um cigarro de maconha. Pena? 30 anos, mas uma apelação resolveu o problema. Em 1968 outra prisão, também por posse de maconha. Mais uma apelação. Em janeiro de 1970 ele é novamente preso e sentenciado a 10 anos de cadeia – por algo que pela lei só deveria no máximo dar seis meses de grade. Ele é resgatado pelo grupo radical The Weather Underground e foge pra a Argélia e se reúne com os Panteras Negras. O próximo destino é a Suíça, onde busca asilo. O governo suíço lhe nega asilo e denuncia sua posição para os EUA. Ele voa para Viena, Beirute e depois Afeganistão, onde é preso pela CIA no aeroporto e mandado para os EUA, em 1972. Ele só sairia da cadeia em 1976, libertado pelo governador da Califórnia Jerry Brown, na época que Watergate mandava abaixo o governo americano. Depois dessa libertação, ele dedicaria a vida a programar computadores.

Timothy Leary morreria em 1996, vítima de câncer de próstata. Em seu leito de morte, as dores eram tantas que chegava a inalar óxido nitroso (gás hilariante) direto do bocal do cilindro. Após o óbito, sua cabeça é separada do corpo e congelada (pedido dele, esperando que as tecnologias de ressurreição progridam no futuro) e suas cinzas são jogadas no espaço, junto com as de  Gene Roddenberry, criador de Star Trek.

 

As personalidades influenciadas diretamente por Leary e pelo LSD são várias, e os resultados obtidos por elas parecem mostrar que as pesquisas dele não deveriam afinal, ser tão perigosas assim. Um sem-número de bandas – das quais se destacam os Beatles e The Who – disse ter desenvolvido melhor sua criatividade sob efeito de LSD. Bob Dylan e Brian Wilson, dos Beach Boys, disseram mudar seus estilos para melhor após experimentarem drogas psicodélicas. Poetas como Allen Ginsberg e  Lawrence Ferlighetti e escritores do naipe de Aldoux Huxley e William Burroughs, disseram alcançar seu máximo com o uso do ácido lisérgico. Grant Morrison disse ter escrito muito de Os Invisíveis sob efeito de LSD. Bill Gates disse ter sido muito influenciado por Leary em seus anos em Harvard, e que usou LSD. Com Steve Jobs é a mesma coisa, ele disse que o LSD foi uma das coisas mais importantes da vida dele. Francis Crick, ganhador do Nobel, só percebeu a feição de dupla hélice do DNA após uma viagem lisérgica; o mesmo para Kary Mullis, que levou o Nobel de Química em 1993 por criar o sistema de detecção de DNA, em material ancestral, hoje conhecido como exame de PCR.

Não são poucos depoimentos para mostrar que ao menos alguma influência que pode ser taxada de positiva, vem do LSD. E Leary nunca quis a liberação total da droga, mas sim seu uso clínico, por psicólogos e médicos experientes. Porém, o governo botou uma tampa em cima das pesquisas para sempre.

 

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Percebe o paralelo? Temos um dissidente social – querendo mostrar que o mundo que vemos não é tão simples assim – acusado por um crime menor após ser caçado pelo mundo, suas atividades são consideradas uma ameaça a vidas inocentes – substitua por establishment – mesmo apoiadas por uma vasta camada da população. As conspirações não ficam de fora, e chovem acusações de que ele trabalhou para o governo (a CIA, mais especificamente). Não, Julian Assange não é o primeiro que enfrenta o governo com um pouco de subversão, e nem será o último. A diferença é que hoje temos algo chamado internet que conecta as informações numa velocidade ultra-rápida, escancarado uma série de tretas governamentais como nunca. Hoje, como previu o próprio Leary, existem hackers, ataques anônimos contra instituições poderosas, a balança não está mais pra um lado, a velha mídia de massa não é mais única no mundo.

Assim como o caso de Leary, muitos estão sendo levianos com o Wikileaks, se focando unicamente nas revelações recentes sobre a diplomacia americana, e se esquecendo que o Leaks mostrou ao mundo detalhes de torturas feitas pela ONU no Quênia e na Somália, procedimentos criminosos em Guantánamo, e operações escusas de petrolíferas na África, fora o já famoso massacre conhecido como Chacina Colateral.

Não sei se Assange é estuprador, se é autocrático e ditador como afirmam dissidentes do Wikileaks… assim como não sei se tudo que Leary escreveu sobre o LSD e o condicionamento cultural. Aceito que essas são possibilidades, e sei que a figura simbólica dos dois transcende o tipo de acusação que recebem. Não sei como será o desfecho dessa caçada a Assange e seu Wikileaks, mas sei que o mundo depois desses dias nunca mais será o mesmo – assim como não foi depois que que o LSD invadiu o mundo; e como não foi depois que uma força policial sueca apreendeu os servidores do Pirate Bay, em 2006!

 

Galileu [Via Cogumelos Mágicos e Aldeia dos Insurretos Furiosos Desgovernados]

Anarquia nos Quadrinhos #2: O Caos Invisível

[Versão Sem Cortes do texto originalmente publicado no Farrazine #18]

 

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King Mob coloca seu capacete/chapéu absurdamente estranho e estiloso – de origem desconhecida e mística – e parte para invadir uma instituição educacional que nada mais é do que um centro de doutrinações e lavagens cerebrais. Lá dentro está um adolescente problemático e desbocado que pode ser o integrante que faltava para o grupo secreto de KM cumprir seu objetivo de livrar o mundo de vilões transdimensionais que desejam o poder absoluto. Antes disso, King Mob invoca John Lennon para pedir uns conselhos, num dos momentos mais psicodélicos dos quadrinhos. No caminho, ele combate um ser que transfere sua consciência para insetos e abandona o Jovem Escolhido para ser iniciado pela sabedoria urbana… tudo fluindo numa velocidade insana.

Quando perguntado, em 1994, qual seria o tema de Os Invisíveis, Grant Morrison respondeu com um simples Tudo! Não é uma definição exagerada ou por demais pretensiosa, mas é unicamente o autor dizendo que não estava preso a amarras estéticas ou narrativas, que permitiu-se viajar sem medo da liberdade. E ele fez questão de realmente incluir tudo que passava na cabeça dele dentro da obra, um exemplo de pós-modernismo balanceado e acelerado, algo como um livro de Thomas Pynchon com quadrinhos. De forma bastante consciente, Os Invisíveis é uma espécie de tratado de Morrison sobre como ele imagina o mundo, recheado de metáforas e elementos metafísicos, além de ser carregado de religiões pouco convencionais. No intercurso de sua luta contra os Arcontes – os vilões da série -, a célula londrina dos Invisíveis viaja no tempo, convoca deuses aztecas, tem seus membros presos e torturados, troca idéia com loas do vodu… enfim, se furtam de todos os elementos a sua disposição para continuarem sua cruzada. Se não fosse o experimento da dúvida que Morrison suscitou ao dizer que a obra é uma mistura de experiências auto-biográficas com textos que ele recebeu de ETs quando foi abduzido em Katmandu, pode-se imaginar que se trata apenas de uma vasta maluquice caconarrativa intensa. Mas existe ali um método, uma forma de combate que muito aproxima a célula dos Invisíveis de teorias (anti)políticas modernas. Os Invisíveis são anti-heróis, da mesma forma que os anarquistas modernos são anti-políticos.

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Campanhas políticas, meias-verdades e hipocrisia…

 

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Tempos de eleição… não consigo pensar em época pior aqui no nosso país. É aquela época em que se conhece o pior do ser humano, em que a suposta racionalidade superiora da espécie alcança um dos seus níveis mais baixos. Boa parte dos políticos consegue tornar as guerrinhas, impropérios e ataques a concorrência, uma disputa pior do que uma luta de hienas risonhas pelo último pedaço de carne estragada. Mas, vamos pular essa introdução que descreve coisas que todo o mundo já conhece, e ir direto ao assunto: o tema da candidatura de um certo senador aqui do Espírito Santo. Ele coloca como sua bandeira de campanha a frase “Todos contra a Pedofilia”, o que parece algo bem válido. Pedofilia é o crime da moda, parece que do nada todas as crianças estão ameaçadas por desajustados sexuais que se escondem nos lugares mais bizarros da nossa sociedade, só esperando o momento certo para externar os desejos escondidos. O conjunto aparenta ser amedrontador: bandos de pedófilos reunidos tramando seus crimes, tudo noticiado bombasticamente por uma mídia ávida por histórias explosivas. Algo precisa ser feito contra esses caras, contra essa Ordem Pedófila, ela é perigosa demais, pensa o povo. Daí surge a CPI da Pedofilia, capitaneada pelo Candidato, e que se mostra tão espalhafatosa quanto as investigações do caso do goleiro Bruno. A não ser que se combata a Pedofilia com uma dose de espetáculo circense iluminado por câmeras de TV, com manifestações gigantescas, com caminhadas com o KLB (dois dos seus integrantes estão se candidatando a deputado… bem providencial, não?! Além disso, o site de um deles tem um banner anti-pedofilia gigante), entre outras coisas – tipo viajar pra Índia, onde participaria de um fórum sobre o combate à pornografia infantil, e ficar quatro dias no Dubai com grana pública – que não são Inquérito, o significado do I de CPI.

Não estou questionando o funcionamento da CPI, ou mesmo a forma como o Candidato a está conduzindo, mas tão somente seu uso como instrumento eleitoral, o clássico “vestir a camisa” e mobilizar a sociedade. Nem mesmo tenho nada contra ele, é somente um exemplo de político que faz uso de algo que ele efetivamente não está resolvendo e pedir votos em cima disso. Poderia ser um evangélico (ele também é) que usa a igreja como palanque eleitoral, um médico que usa sua profissão para ganhar votos, ou qualquer coisa que o valha. No caso específico da CPI, se desse certo, tudo bem, mas após as eleições e da vantagem política da Pedofilia ter terminado, a questão vai voltar a obscuridade. Um exemplo? Em 1998, esse mesmo Candidato era presidente da CPI do Narcotráfico e usou-a como bandeira política; Todos contra o Narcotráfico, clamava. Bom, hoje a CPI acabou, ele ganhou a eleição e o Narcotráfico continua aí, tão ruim quanto antes da CPI. Pra essa nova CPI, o Candidato pediu aberturas de perfis do Orkut, instalação de softwares de mapeamento de pedófilos, prisão perpétua para criminosos sexuais… e no fim, as coisas continuarão as mesmas, estagnadas.

Um ponto interessante no combate a luta contra a pedofilia parece ter sido negligenciado: o acompanhamento psicológico das vítimas desse tipo de crime – além de focar o combate no lugar em que ele mais acontece, nas casas das famílias, perpetrados por parentes. Mês passado, fazendo um trabalho de Psicologia Social, visitei uma  instituição de tratamento dessas crianças. Elas são bem tratadas, têm brinquedos… mas não têm qualquer ajuda psicológica para superar o trauma que é o abuso sexual – que muitas delas nem sabem exatamente o que é. Não sei como são as outras, mas a diretora da Casa, disse ser a situação uma constante, ao menos aqui no estado. Uma menina, em especial, toda vez que conhecia alguém novo para ela, esfregava os braços na pessoa de modo claramente sexual, talvez por entender que o contato íntimo é a única forma de se relacionar com alguém. Cadê o combate a Pedofilia nessas horas? Fazer alarde pedindo para o Google liberar álbuns no Orkut é fácil, qualquer um faz… ajudar no acompanhamento das vítimas dessas pessoas (que são futuras pedófilas em potencial) não é; exige tempo, esforço e não dá capital político, muito menos vira tema de camisas de campanha. Criar conspirações com inimigos megalomaníacos e que vivem escondidos por aí também é simples, mas combater o verdadeiro problema (uma espécie de omertà que rola no seio familiar, e impede a denúncia desses crimes) quando ele não traz votos parece não ser.

Hipocrisia é um dos piores defeitos humanos, e meias-verdades às vezes conseguem ser piores que mentiras… e na época das campanhas políticas temos tudo isso reunido, inclusive o uso de crianças para mendigar votos.

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