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Sexo, Saquê e Zen: a história e influência de Ikkyu Sojun na arte e espiritualidade japonesa

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Publicado originalmente em Disinformation – Sex, Sake and Zen

O que intriga a maioria dos ocidentais é a reputação que o zen-budismo tem como antiautoritário, liberal e individualista. Esta noção foi reforçada por escritores como Alan Watts, que expôs o zen como algo relaxado e sem preocupações.

Porém, basta uma breve visita a qualquer tempo zen-budista para ilustrar a terrível diferença entre as expectativas e a realidade. Os cotidianos nesses templos costumam ser, em fato, estruturados, regimentados e fortemente organizados, dissipando qualquer traço de romantismo criado pela literatura.

Longe das interpretações de moimentos como o new-age e o hippie, a disciplina zen é exigente e severa.

Porém, às vezes, mesmo estereótipos errados podem nascer de fatos verdadeiros. Como a história do monge japonês Ikkyu Sojun, que durante o Século XV, foi realmente livre, selvagem e alérgico a qualquer noção de autoridade.

Devido ao fato de Ikkyu ser filho ilegítimo do imperador japonês, sua infância foi vítima de conspirações que buscavam distancia-lo de uma possível candidatura ao trono. Para que sua vida fosse poupada, sua mãe o entregou a um templo zen quando tinha apenas cinco anos de idade.

Para Ikkyu, o Zen não foi uma vocação espontânea, mas sim um meio de não ser assassinado em sua infância, levando em conta as opções, o treinamento na doutrina Zen não parecia ser uma escolha ruim de todo.

Talvez não fosse o ambiente mais descontraído para uma criar uma criança, mas com certeza mais interessante do que ser assassinado.

O treinamento aplicado pelos monges zen era severo e fez com que Ikkyu tivesse uma infância extremamente difícil. Apesar do ambiente deprimente e tedioso, não demorou em os professores perceberem o intelecto e vocação de Ikkyou para o Zen.

Porém, mesmo seu talento não significava  que Ikkyou  se sentia em casa. Mesmo genuinamente amando o Zen (ou talvez, por causa disso), ele não se sentia inspirado com a burocracia espiritual dos templos, o mesmo era válido em relação a seus colegas sacerdotes: envolvidos em conspirações políticas, perdendo tempo com seus suseranos ricos.

E veio o dia que seu mestre o condecorou com um certificado de sabedoria – uma grande honra e um documento necessário para ascender na hierarquia do Zen – Ikkyu  então, para a surpresa de todos, o queimou e deu adeus a sua carreira monástica.

Isto não quis dizer que ele tinha desistido do Zen, pelo contrário, em seu raciocínio, era toda a instituição a cerca do Zen que tinha abandonado o verdadeiro caminho, transformando o Zen em uma paródia dogmática daquilo que ele deveria ser.

A vida nos templos era lotada de muitas regras e pouco espaço para respirar. Os então proclamados profissionais do Zen, aos olhos de Ikkyu não eram nada além de charlatões – muito ocupados posando como “espiritualizados” para serem capazes de experimentar a espiritualidade em seus aspectos mais simples.

Algumas pessoas acreditavam que a iluminação Zen só podia ser alcançada através de nuvens de incenso e meditação silenciosa, Ikkyu, em outra mão, percebeu que o saquê, sexo e a boemia eram mais do seu agrado.

Como ele colocou em um de seus poemas: “A brisa do outono após uma noite de amor é melhor que um século de meditação estéril” ou de forma mais literal: “não hesite: faça sexo – isso é sabedoria. Ficar sentado entoando sutras: isso é besteira”

Guiado por uma sede de viver, Ikkyu se tornou um monge viajante, testando suas teorias Zen longe da reclusão dos monastérios, o que fez ganhar o apelido de “Nuvem Louca”.

O ponto de suas escapadas eróticas e aventuras era argumentar que o “sagrado” é nada além de uma experiência de vida regular vivenciada com toda sua plenitude. Ou talvez, a bebedeira de saquê e quantidades absurdas de sexo não precisava de nenhuma justificativa além do fato que era – e continua sendo – bastante divertido.

Ikkyu não dava a mínima sobre o que as autoridades religiosas de seu tempo pensavam dele. Porém, em suas viagens, Ikkyu conseguiu influenciar um grande número de artistas, poetas, calígrafos, músicos e atores de um modo que deixou uma marca profunda no desenvolvimento das manifestações artísticas nipônicas por séculos a fio.

Até mesmo sua vida amorosa é celebrada através dos tempos, pois seu relacionamento com a Senhorita Mori acabou sendo um dos romances mais famosos da história japonesa.

Ikkyu sempre foi um amante dos paradoxos, quando a guerra civil destruiu a maioria dos templos Zen do país, foi ele que veio ao resgaste das instituições que outrora ferozmente criticou.

Quando o futuro do Zen esteve em perigo, Ikkyu foi capaz de conseguir favores de muitos que conheceu durante sua vida de viagens, reconstruindo assim alguns dos principais templos do Japão.

Por ironia do destino, muito do Zen moderno tem um grande débito com a existência de um homem que em seu tempo, preferiu a companhia de prostitutas a monges.

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Blues urbano de um flâneur paulistano: Liberdade

Existe algo no bairro da Liberdade que eu considero como místico, um bairro de história e notáveis contrastes, caminhando pela praça, durante o entardecer de uma Quarta Feira, o lugar é vazio, quase inóspito, pessoas de rostos comuns caminham pela praça, alheios ao passado do lugar, uma loja de CDs usados ao lado de uma mercearia chinesa, o cheiro de nuggets no McDonalds ali perto. O céu cinzento de São Paulo se põe e o cheiro ocre do lixo abandonado permanece nas ruas, uma senhora sai da Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados, dizem as más línguas que o local é assombrado.

Sobre os alicerces do Tori, adesivos contendo mensagens subversivas e ícones pop fazem contraste com o vermelho do monumento, sem organização alguma, o passado perene é lentamente desgastado pela cola velha, erosão e inúmeros stencils espalhados pelo local. No viaduto da Galvão Bueno, uma senhora boliviana, trajando indumentárias típicas, vende seus panos enquanto disputa a voz com diversos outros ambulantes, pilhas de DVDs lotam a calçada, com filmes e shows de idorus, cantores de enka, doramas, animes que lado de coletâneas de Black Music e pornôs das Brasileirinhas.

Olhem os prédios ao redor, paralisados na década de 70, o desgaste do branco pelo tempo e pela poluição contribui com um tom sépia nostálgico para a paisagem do local. Antes dos japoneses, por este bairro já passaram portugueses, italianos e até árabes, cada um deles adicionando algo a mais para o DNA desta entidade urbana.

Descendo a ladeira da Thomaz Gonzaga nós ainda podemos encontrar vestígios de senzalas, janelas pequenas c/ grades enferrujadas, tímidas, escondidas das vistas menos atentas, ou no casarão reformado na Rua da Glória, onde hoje abriga uma DP da Polícia Militar, dizem que lá dentro uma enorme senzala ainda é conservada, há, nada mais apropriado para os cães de guarda do nosso Prefeito Kassab.

O bairro também é local de histórias envolvendo contravenção e desafio à autoridade, durante o regime populista de Getúlio Vargas, foi-se proclamada uma lei que proibida o estudo de outros idiomas, qualquer brasileiro que tivesse interesse no estudo de línguas estrangeiras era suspeito de ser “comunista”, imigrantes e descendentes se encontravam em porões de vários comércios da regiãom com o intento de estudar de forma clandestina o seu idioma natal.

Hoje em dia, diversos elementos da fauna urbana paulistana freqüentam o local, em especial nos finais de semana, a praça ao lado do metrô é um dos locais mais queridos das memórias de minha adolescência, moleques ficavam lá noite adentro, falando merda, tomando bebida vagabunda, comendo marmitas de yakisoba da feira que acontece todo fim de semana, podíamos encontrar de todos os tipos, espalhados pelas escadarias, bancos ou até sentados no chão: cosplayers, B-Boys, darks, lolitas, otakus, headbangers e tantos outras tribos urbanas que contracenavam com famílias que vinham visitar o bairro em seu tempo vago.

“Escondido” é uma boa definição para um bairro onde tudo é vestígio e lembrança, a Liberdade é um lugar de mistérios, onde cada casa, restaurante, loja e praça guardam histórias que anseiam por serem descobertas, cada passeio inevitavelmente nos leva em direção a uma epifânia. É em uma dessas escadarias escondidas que eu descobri o Café Kohii, localizado na Rua da Glória, nº 326, um lugar de paredes brancas que ostentam um enorme painel de recados para as vítimas do terremoto que atingiu o Japão no início do mês passado.

O painel representa bem o clima cosmopolita do bairro, mensagens em japonês, chinês, mensagens de apoio no próprio idioma português, tímidos “Gambarê Japão!”, assinaturas que lembram pichações, animais desenhados por um traço infantil e até rascunhos de mangás. Tive uma conversa agradável com o proprietário do local, Jun Takaki, um rapaz instruído e com uma visão empreendedora para o bairro, Jun me falou sobre as primeiras famílias, que desceram do navio Kasato Maru, fotos históricas, curiosidades como o Cine Niterói, foi como se essa historicidade tivesse passado por mim diante dos meus próprios olhos, também conversamos sobre a delicada geopolítica do bairro, envolvendo a Associação do Comércio, Empresas e a Prefeitura.

Liberdade é isso, uma egregóra dentro da paisagem urbana de São Paulo, de fantasmas que clamam por enforcamentos públicos e restaurantes escondidos em portinholas, onde bêbados cantam em karaokês. Bairro esquizofrênico, que se expande e se molda de forma frenética e imprevisível, Liberdade, dos imigrantes do Kasato Maru e tantos outros, das turbas que clamam pelos enforcados, dos paulistanos, dos turistas curiosos e adolescentes fanfarrões, Liberdade, meu lugar favorito para ser flâneur.

O Falo tentacular: sexo bizarro e ocultismo no legado de Lovecraft

Atenção: a única coisa realmente obscena neste post são as quantidades de spoilers sobre um monte de coisas, leia com sua própria conta a risco

Em 1814, o artista Katsushika Hokusai concebeu o ukyo-e “Tako to ama”, conhecido posteriormente no ocidente como “O Sonho da Mulher do Pescador”, a xilogravura retratava uma mulher japonesa, de ventre nu, tendo relações sexuais com dois polvos (tako). a mulher em questão era uma mergulhadora “ama”, recorrente no Japão, são grupos de mulheres que mergulham com o mínimo de equipamento em busca de pérolas e frutos do mar, o fato de serem mulheres tem haver com uma crendice popular japonesa, onde se fala que a “gordura” do corpo feminino é melhor distribuída, garantido assim, uma maior conservação do calor durante os mergulhos.

A gravura pertencia ao gênero Shunga, popular entre os japoneses, era comum o Shunga retratar o imaginário sexual de forma fantasiosa e simbólica: genitálias de tamanho exagerado, botão de flores crescendo para representar uma ejaculação.

O interessante era perceber como o Shunga era bem quisto pela mentalidade feudal, servia como guia sexual para famílias mais abastadas (lembrando, em alguns pontos, o próprio Kama Sutra), era considerado um objeto supersticioso, trazendo zelo e boa sorte para estabelecimentos que os contêm.

Isto abre uma brecha para interpretamos o Shunga como um objeto canalizador de “orgônio”, considerada pseudociência, o orgônio é a energia primal contida em nossos corpos, muito similar ao Prana ou Chi, ela é liberada através de estímulos físicos/sexuais – orgasmo – catarse e satisfação da libido.

O imaginário fálico do tentáculo foi concebido na cultura pop japonesa pelo manga-ká Toshio Maeda, em seu “Yōjū Kyōshitsu” (Demon Beast Invasion), alienígenas planejam invadir a terra, reconhecendo que o planeta possui uma atmosfera hostil, eles elaboram um plano para engravidar a população nativa  e criar uma raça hibrida que reinaria o planeta ao desígnio dos invasores.

A idéia de Toshio era burlar a censura japonesa, que proibia a retratação de genitálias em seus meios de comunicação, em entrevista, o mesmo comentou:

Na época, era ilegal criar uma cena de sexo na cama, eu pensei que devia fazer alguma coisa para evitar desenhar tal cena erótica. Então eu criei essa criatura, seu “tentáculo” não é um “pênis”, eu poderia dizer, como uma desculpa, que isto não é um “pênis”, é apenas parte da criatura, e você sabe, essas criaturas não tem gênero (sexual). Então se não é obsceno, não é ilegal”.

(se você se interessar pelo assunto de Hentai, Ecchi, Mangá, Eroge e etc., eu já dissertei sobre erotismo na cultura pop japonesa em um post no meu antigo blog, aqui

A idéia de fazer uma conexão retroativa com a gravura de “Tako to Ama” é apenas por uma questão de coincidência histórica, não podemos dizer que uma influenciou a outra, as próprias motivações são diferentes e fazem jus as mentalidades de suas respectivas épocas.

Nos contos de H.P. Lovecraft, tentáculos eram utilizados para retratar algo “não-humano”, ao invés de uma descrição objetiva, os deuses e criaturas ancestrais que assombravam a humanidade eram massas disformes, com pseudopodes, falsos membros e tentáculos, sem a vaga noção de humanidade reconhecível, seja física ou mental. Em um dos seus contos mais famosos, “O Chamado de Cthulhu”, a criatura homônima ao texto não é dada uma descrição válida, recorrendo a expressões como “a prole verde das estrelas”, “uma caricatura simultânea de polvo, dragão e humano”.

Ao contrário da mentalidade dos escritores japoneses, o erotismo na literatura de Lovecraft era quase nulo, se distanciando do platonismo doentio de suas inspirações como Poe e Byron, os contos de Lovecraft retratavam o sexo, embora deturpado, em sua visão mais puritana, como forma de acasalamento e propagação da prole, tal dita “frigidez” até hoje é motivo de debate entre fãs e acadêmicos quanto a orientação sexual do escritor.

Porem, um dos temas recorrentes em seus contos é a “hereditariedade maldita”, no conto “A Sombra sobre Innsmouth”, o narrador anônimo, aos poucos descobre sua ligação com um culto pagão (“A Ordem Esotérica de Dagon”) na cidade de Innsmouth, cuja as lendas envolviam acasalamento com monstros marinhos, ao final da história, o choque de descobrir ser descendente da mesmas criaturas – conhecidas como “Deep Ones” – que outrora abominava é mitigado a partir de sua transformação, aceitando sua condição pós-humana e cogitando ir morar em cidades subaquáticas.

Este tipo de niilismo é uma retórica comum para Lovecraft, no auge das descobertas, do colonialismo na África e na Ásia, o destino manifesto ocidental se iludiu da hegemonia sobre o mundo e as ditas “culturas inferiores”, os contos subentendiam duras críticas a mentalidade pretensiosa do homem daquela época.

Para o narrador protagonista de “A Sombra sobre Innsmouth” aceitar sua nova condição significava expandir o seu consciente, entender que há mais no mundo que nos acreditamos, bactéria de arsênico, saca?

É interessante dizer que o mesmo Dagon que inspirou o conto de terror, foi em nossa história ancestral um deus da fertilidade da mitologia Cananéia, este tipo de deturpação era comum na mitologia fictícia criada por Lovecraft, Derleth e seus colegas, outra criatura, Shub-Niggurath, é retratada como uma figura feminina e seu título é “A Cabra negra do bosque com centenas de crias”, Lovecraft, em correspondência, traça analogias com deusas da fertilidade como Astarte e Cibele.

Sendo que Shub-Nigurath é uma das criaturas de Lovecraft que mais se aproxima do imaginário religioso judaico-cristão, a figura do bode associada a Baphomet, cujo rumores indicavam no passado ser cultuado por grupos de mulheres pagãs.

Recentemente eu comecei a ler “Neonomicon”, da Avatar Press, escrito pelo Alan Moore e desenhado pelo Jacen Burrows, a proposta da HQ é uma modernização da Mitologia de Cthulhu, porem, a partir desta premissa, Moore abre espaço para conduzir algo muito mais nefasto.

A própria HQ brinca com seus sentidos – da mesma forma, talvez, que Cthulhu influenciava indivíduos através de sonhos – porem nossa ingenuidade c/ o hábito de leitura de quadrinhos faz com que isso passe desapercebido, se a idéia era com que as abominações imaginadas por Lovecraft se escondessem nas profundezas do planeta, Morre e Burrows fazem com que o leitor participe desta “descida”.

Cada quadro movimenta a história para baixo, desenvolvendo a narrativa através de corredores, sótãos, brincando com profundidade e distância, tirando as personagens da zona de conforto, trazendo-os para perto da incompreensão, a série de vídeos, disponíveis no Youtube, chamados “Breaking the Fourth Panel: Neonomicon and the Comic Book Frame” explica a malícia metatextual por trás dos criadores da série.



Nas edições seguintes, descobrimos que os protagonistas estão envolvidos com o Culto de Dagon, durante um diálogo os mesmos questionam da suposta sexualidade reprimida de Lovecraft.

A trama se intensifica a partir do momento que uma das protagonistas, cujo historio psicológico sugere ninfomania, sofre um estupro coletivo pelo próprio culto, um dos cultistas menciona que as “criaturas” são, de fato, atraídas por energias orgônicas.

A criatura invocada em questão, nada mais é do que um Deep One, do conto “A Sombra sobre Innsmouth”, e é aqui que Moore e Lovecraft entram em conflito, se para o último, a moralidade das criaturas era tão alienígena que para nós, reles humanos, só podia ser interpretada como “vil”, o Deep One de Moore – cuja silhueta é extremamente fálica – é uma criatura, um “animal” sob a concepção humana, cuja necessidade sexual não difere muito de uma cadela no cio, cuja moralidade anormal é a mesma que leva um leão a devorar o próprio filhote, ou seja, puro instinto.

Este é o legado de Lovecraft, entre sexo bizarro e ocultismo, em sua própria retórica anti-racionalista, pode questionar a noção de “depravação”, pois, quando lidamos com uma criatura de base moral tão superior a nossa, como entender que aquilo é algo vil ou deturpado? Que a angústia de inúmeros protagonistas nada mais é do que a necessidade de encarar seus inúmeros grilhões, da mesma forma que Neonomicon trabalha inúmeras “camadas” da realidade, para o fatalismo de Lovecraft, não vamos acabar apenas encarcerados em hospícios, mas também em nossa própria consciência…

The Baader Meinhof Complex

Eu nasci em uma época, que para muitos apressadinhos, foi denominada “Fim da História”, lembro-me de ter escutado sobre este termo no início da faculdade, num livro do Francis Fukuyama, claro, como toda idéia postulada de forma precoce, a história em si provou o contrário, ela não tinha acabado, não assim, tão fácil.

Bom, antes mesmo do livro, algumas torres caíram, a porrada comeu no leste da Europa, na África e bom, a troca de tapas ainda persiste no Oriente Médio, talvez, o que realmente tenha terminado, é aquilo que Lyotard – e por extensão, todos nós – chamamos de “metarrelatos”, as polaridades, a dialética, o embate ideológico, se não morreu, está definhando.

Graças a uma combinação de mídia e memória, uma coisa nós temos certezas, memórias – assim como a história em si – se tornaram imortais, replicantes, vivemos pela necessidade de transmitir para as próximas gerações não apenas um senso de historicidade, mas sim identidade.

Esse foi o primeiro pensamento que surgiu, enquanto eu assistia de forma bastante entusiasmada o longa alemão “The Baader Meinhof Complex”, para explicar este filme, necessariamente, eu preciso explicar o contexto:

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Europa Pós-Guerra, com o fascismo suprimido, a injeção econômica do interesse americano trás para o continente uma presença cultural e beligerante marcante, aquilo que até uma década atrás chamávamos convenientemente de “Imperialismo”.

(um male menor, em todos os casos, ainda é um male e precisa ser expurgado)

No seio da rotina acadêmica alemã, começa-se a contestar a frivolidade da vitória do fascismo em relação a crescente hegemonia capitalista, e daí começa a articulação de lideres políticos, universitários, jornalistas e etc. para a formação de uma resistência.

A “noção” de resistência é bem explorada no filme, do ato simbólico ao protesto, do seqüestro ao assassinato de alvos estratégicos, o título do filme vem de uma das células terroristas que futuramente viriam a ser parte da RAF, Andreas Baader (interpretado por Moritz Bleibtreu) e Ulrike Meinhof (Martina Gedeck).

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A formação do grupo fica evidente no contraste de suas duas lideranças, Baader possui espírito revolucionário, largou os estudos formais e viveu como marginal, foi trazido para a extrema esquerda por sua namorada, Gudrun Ensslin, Baader foi carismático, impetuoso e propenso a destruição e danos colaterais.

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A Outra líder, Ulrike Meinhof, de formação acadêmica, atuou como jornalista esquerdista na década de 60, mãe de duas filhas, contribuindo para o periódico universitário “Konkret” traduzia as motivações e atos do grupo em cartas abertas.

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O filme mostra os acontecimentos que influenciaram o grupo, observamos a visita de Reza Pahlavi ao ocidente, o Verão do Amor, Hồ Chí Minh e a guerra do Vietnã, o início da causa palestina – que levaria ao episódio do Setembro Negro – a captura e execução de Che Guevara, o rapto do boing da Lufthansa.

A tendência do roteiro é explorar os lados, sem apelar ao romantismo ou criminalização de um ou outro, tendo em vista as motivações, são exploradas as relações de causa e conseqüência e os extremismos de cada lado, estamos falando de ataques a inocentes e a implementação do estado policial.

De forma quase prognóstica, o filme, em seus momentos finais, ilustra a visão de Andreas Baader, dizendo que a revolução perde seu sentido na medida em que as atitudes trazem vítimas inocentes e o próprio estado passa a lucrar com a emergência de grupos insurgentes.

Baader, Meinhof e tantos outros morreram sob circunstâncias misteriosas, executados em suas próprias celas, enquanto aguardavam o veredicto de um longo e desgastante julgamento.

Uma última consideração seria a participação do ator Bruno Ganz (Der Himmel über Berlin, Der Untergang), com sua atuação sólida, convincente, interpretando um oficial da lei, que entre dilemas ideológicos, visa suprimir a escalada de violência em seu país.

Para os mais velhos, é inevitável a comparação c/ o longa nacional “O que é isso companheiro”, porem eu recomendo o filme em especial para os mais jovens, que vêem a década de 60 e 70 e seus movimentos culturais como meras curiosidades históricas em seus livros pedagógicos, que engajamento e responsabilidade existiram – e ainda, existem, por sinal-  e que se você, hoje, pode esnobar de sua falta de compromisso, foi porque alguém a vinte anos atrás lutou em nome da sua futura liberdade…

Liberdade, ontem e hoje (e um pequeno empecilho…)

Antes, uma pequena curiosidade mórbida, o bairro paulistano conhecido como “Liberdade” tem este nome devido a uma pequena ironia na época do Império, as redondezas do bairro eram conhecidas pela população como um campo de forca, onde escravos e dissidentes eram executados na forca, então para muitos, aquele era o único meio para alcançar a derradeira liberdade, não é a toa, que a Igreja próxima a estação de metrô é chamada de “Igreja dos Enforcados” e até hoje existem lendas sobre assombrações e espíritos no local.

O legal é que o bairro da Liberdade, de uma forma ou outra, agrega um contraste na tradição de emancipação e repreensão, para entender o último episódio, talvez seja interessante, ilustrar um pequeno contexto.

Antes de 1912, ou seja, antes do Kasato Maru, o Bairro era predominantemente português, sobre a paisagem cultural do bairro, a ocorrência de sobreposições e atritos sempre foram fenômenos comuns, primeiro os portugueses, então os japoneses, chineses e agora a imigração coreana, dos folclores tradicionalistas para a explosão do pós-moderno superflat, do acarajé ao lado do gyoza.

Com o boom da internet, a comunidade de apreciadores da cultura japonesa – com um foco no anime e mangá, principal vetor memético pra uma geração inteira –  tornou-se mais articulada, e, com tantos fóruns e redes sociais do início da web 2.0, foi uma questão de tempo até alguém marcar um encontro lá.

Um dos pontos mais famosos é uma pequena praça que existe logo na saída esquerda da estação do metrô, era comum nos finais de semana encontrar uma população heterogênica da fauna adolescente paulistana: punks de boutique, otakus, estudantes de artes marciais, V-K, góticos, headbangers, todos ali, fazendo uma cena capaz de escorrer uma lágrima no puto olho do Maffesoli.

Não é a primeira vez que o bairro serve de ponto de encontro para interesses em comum, na década de 70 houve uma proliferação de salas de cinemas, como o consagrado Cine Niterói, fundado por Susumu Tanaka, tais salas eram destinadas apenas à exibição de filmes japoneses, por muito tempo, tal circuito foi tão importante para o bairro quanto os restaurantes ou lojas especializadas.

(vale notar que muito desses cinemas hoje estão abandonados e em casos mais drásticos, em ruínas, ou até pior, tiveram sua estrutura aproveitada para Igrejas Evangélicas…)

O Bairro então, seja pela cultura ou pela presença das pessoas, nunca esteve morto, podíamos encontrar esses moleques – e alguns nem tão moleques assim… –  bebendo cerveja, lendo HQs e mangás, comprando DVDs pirateados e logo acima, tínhamos a feira de final de semana, com comidas orientais e muamba artesanal, assim como as associações, promovendo cultura e festivais.

O lugar sempre teve contrastes, podíamos conversar c/ o velho senhor Nikkei da mesma forma que podíamos encontrar aquela menina ocidental aspirante a Gyaru, o lugar sempre foi – e sempre será – uma verdadeira bombarda sensorial e sinestésica: cheiros, cores, sons e tudo o mais que tecnologia e corpo puderem provir, você.vai.encontrar.lá.

Ultimamente, porem, eu tenho percebido uma coisa, que na falta de palavra para definir melhor, é triste, nas últimas vezes que freqüentei o bairro pude notar que a praça estava vazia, mesmo para um fim de semana, e que, por mais estúpido que pareça, o motivo era uma pequena divisa, daquelas faixas que organiza fila pro cinema.

Ela se estendia de um canto para o outro, nos dois lados de acesso e embora existissem algumas pessoas na escada, o lugar estava deserto, imagine um espaço vazio em meio toda a densidade do bairro, é bizarro, não?

Questionei algumas pessoas – inclusive um segurança do metrô – e as alegações chegam a ser patéticas, depredações e lixo? Não muito diferente daquele produzido pela própria feira tradicional, orgulho do bairro. Drogas e Prostituição? Vale lembrar que a praça do metrô é próxima da Sé.

Claro, mais um pequeno entre tantos episódios da política higienista que a dobradinha PSDB/DEM tem promovido, me preocupa a natureza cívica dessa medida, já que a praça é um ambiente público, de acesso a todos e o que aquela faixa simboliza contradiz os mais básicos dos valores cívicos.

Em retrospectiva, não é a primeira vez que uma merda dessas acontece, vale lembrar no passado, c/ o Governo do Getúlio Vargas, banindo publicações e oratórias em idioma japonês, ou atualmente, onde senadores comandam o esquema de concessões em mídia, é natural ver este desdém em relação a proliferações culturais não planejadas.

O que eu sugiro? É que as pessoas insatisfeitas com essa medida, pulem, passem por baixo, ou simplesmente ignorem a maldita faixa, que no final das contas, não é nada, aquela praça – e qualquer outro maldito lugar –  é de todo e qualquer cidadão paulistano e não será mero pudor organizacional que vai impedir a erupção cultural que aquele bairro promove em sua essência.

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