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Sexo, Saquê e Zen: a história e influência de Ikkyu Sojun na arte e espiritualidade japonesa

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Publicado originalmente em Disinformation – Sex, Sake and Zen

O que intriga a maioria dos ocidentais é a reputação que o zen-budismo tem como antiautoritário, liberal e individualista. Esta noção foi reforçada por escritores como Alan Watts, que expôs o zen como algo relaxado e sem preocupações.

Porém, basta uma breve visita a qualquer tempo zen-budista para ilustrar a terrível diferença entre as expectativas e a realidade. Os cotidianos nesses templos costumam ser, em fato, estruturados, regimentados e fortemente organizados, dissipando qualquer traço de romantismo criado pela literatura.

Longe das interpretações de moimentos como o new-age e o hippie, a disciplina zen é exigente e severa.

Porém, às vezes, mesmo estereótipos errados podem nascer de fatos verdadeiros. Como a história do monge japonês Ikkyu Sojun, que durante o Século XV, foi realmente livre, selvagem e alérgico a qualquer noção de autoridade.

Devido ao fato de Ikkyu ser filho ilegítimo do imperador japonês, sua infância foi vítima de conspirações que buscavam distancia-lo de uma possível candidatura ao trono. Para que sua vida fosse poupada, sua mãe o entregou a um templo zen quando tinha apenas cinco anos de idade.

Para Ikkyu, o Zen não foi uma vocação espontânea, mas sim um meio de não ser assassinado em sua infância, levando em conta as opções, o treinamento na doutrina Zen não parecia ser uma escolha ruim de todo.

Talvez não fosse o ambiente mais descontraído para uma criar uma criança, mas com certeza mais interessante do que ser assassinado.

O treinamento aplicado pelos monges zen era severo e fez com que Ikkyu tivesse uma infância extremamente difícil. Apesar do ambiente deprimente e tedioso, não demorou em os professores perceberem o intelecto e vocação de Ikkyou para o Zen.

Porém, mesmo seu talento não significava  que Ikkyou  se sentia em casa. Mesmo genuinamente amando o Zen (ou talvez, por causa disso), ele não se sentia inspirado com a burocracia espiritual dos templos, o mesmo era válido em relação a seus colegas sacerdotes: envolvidos em conspirações políticas, perdendo tempo com seus suseranos ricos.

E veio o dia que seu mestre o condecorou com um certificado de sabedoria – uma grande honra e um documento necessário para ascender na hierarquia do Zen – Ikkyu  então, para a surpresa de todos, o queimou e deu adeus a sua carreira monástica.

Isto não quis dizer que ele tinha desistido do Zen, pelo contrário, em seu raciocínio, era toda a instituição a cerca do Zen que tinha abandonado o verdadeiro caminho, transformando o Zen em uma paródia dogmática daquilo que ele deveria ser.

A vida nos templos era lotada de muitas regras e pouco espaço para respirar. Os então proclamados profissionais do Zen, aos olhos de Ikkyu não eram nada além de charlatões – muito ocupados posando como “espiritualizados” para serem capazes de experimentar a espiritualidade em seus aspectos mais simples.

Algumas pessoas acreditavam que a iluminação Zen só podia ser alcançada através de nuvens de incenso e meditação silenciosa, Ikkyu, em outra mão, percebeu que o saquê, sexo e a boemia eram mais do seu agrado.

Como ele colocou em um de seus poemas: “A brisa do outono após uma noite de amor é melhor que um século de meditação estéril” ou de forma mais literal: “não hesite: faça sexo – isso é sabedoria. Ficar sentado entoando sutras: isso é besteira”

Guiado por uma sede de viver, Ikkyu se tornou um monge viajante, testando suas teorias Zen longe da reclusão dos monastérios, o que fez ganhar o apelido de “Nuvem Louca”.

O ponto de suas escapadas eróticas e aventuras era argumentar que o “sagrado” é nada além de uma experiência de vida regular vivenciada com toda sua plenitude. Ou talvez, a bebedeira de saquê e quantidades absurdas de sexo não precisava de nenhuma justificativa além do fato que era – e continua sendo – bastante divertido.

Ikkyu não dava a mínima sobre o que as autoridades religiosas de seu tempo pensavam dele. Porém, em suas viagens, Ikkyu conseguiu influenciar um grande número de artistas, poetas, calígrafos, músicos e atores de um modo que deixou uma marca profunda no desenvolvimento das manifestações artísticas nipônicas por séculos a fio.

Até mesmo sua vida amorosa é celebrada através dos tempos, pois seu relacionamento com a Senhorita Mori acabou sendo um dos romances mais famosos da história japonesa.

Ikkyu sempre foi um amante dos paradoxos, quando a guerra civil destruiu a maioria dos templos Zen do país, foi ele que veio ao resgaste das instituições que outrora ferozmente criticou.

Quando o futuro do Zen esteve em perigo, Ikkyu foi capaz de conseguir favores de muitos que conheceu durante sua vida de viagens, reconstruindo assim alguns dos principais templos do Japão.

Por ironia do destino, muito do Zen moderno tem um grande débito com a existência de um homem que em seu tempo, preferiu a companhia de prostitutas a monges.

J-horror: conciliando folclore e tecnologia na sociedade japonesa

Esses dias eu tive a oportunidade de jogar Nanashi no Game, de 2008, desenvolvido pela Square-ENIX, a premissa do game é simples, mas inova em trabalhar seu meio, o Nintendo DS. Na pele de um estudante universitário, você descobre por acaso sobre a lenda urbana do videogame amaldiçoado que mata seu jogador após sete dias.

Este tipo de história é recorrente no folclore moderno japonês, na década passada , impulsionados pelo sucesso do filme The Ring, o ocidente presenciou uma onda de adaptações de filmes orientais de terror, como Ju-on, Kairo, Dark Water e Chakushin Ari.

Conhecido pelas audiências ocidentais como “J-Horror”, o gênero ficou famoso por possuir uma série de peculiaridades que serão exploradas no decorrer da leitura.

Costumam contar histórias de fantasmas e assombrações,  geralmente do sexo feminino, além de relaciona-las a algum meio de comunicação e difusão, como fitas-cassetes, sms, websites e outros.

Geralmente nesses filmes o protagonista é um inocente ou curioso que por uma fatalidade precisa descobrir a verdade por trás da assombração antes que a mesma tome a sua vida.

A intenção deste artigo é explicar para os leitores as razões por trás desse gênero, e como ele é intimamente relacionado a cultura popular japonesa, assim como o xintoísmo, a principal religião do país.

Kayako, de Ju-on

Kayako, de Ju-on

 

De acordo com a tradição xintó, todos os seres humanos carregam o “reikon”, um conceito muito similar ao de espirito ou “alma” em religiões ocidentais. Quando o corpo morre, a alma parte para o purgatório, onde espera por seus ritos fúnebres apropriados, para só então partir do mundo físico.

Porém, pessoas que morrem de forma súbita e/ou violenta, como acidentes ou homicídio, sem que recebam os rituais necessários ou que em vida, carregaram sentimentos negativos fortes como fúria, inveja ou ciúmes, acabam acumulando “kegare”, uma espécie de impureza espiritual que precisa ser exorcizada.

Caso o exorcismo do “kegare” seja negligenciado, o reikan se torna um yurei e passa a assombrar aquilo que ainda o prende no mundo material.

É interessante saber que o “kegare” em si não é maligno, mas sim relacionado à noção de higiene espiritual praticada pelo xintoísmo, o mesmo também é relacionado a pessoas vivas, objetos inanimados e até lugares, não se limitando a espíritos.

Apesar de mesclar folclore japonês e literatura de terror ocidental, a série de videogames Silent Hill ilustra bem o conceito de “Kegare”.

Nela, o personagem constantemente é levado para um “outro mundo”, uma versão sombria da cidade homônima do jogo, lá tudo é repleto de ferrugem, desgaste, manchas de sangue e objetos abandonados.

No século XVII as histórias de terror (conhecidas como “kaidan”, dos kanjis “kai” estranho e “dan” contar) se popularizaram entre as castas mais nobres da sociedade japonesa, impulsionado também pela tecnologia de reprodução gráfica importada da China, o país vivenciou uma explosão de contos de fantasmas, principalmente relacionados a figura do Yurei.

Nesta mesma época, o artista Maruyama Okyo, após sonhar com Oyuki, uma antiga gueisha falecida e querida por ele, iria pintar o ukyo-e “O Fantasma de Oyuki”, que se tornaria a inspiração para todos os fantasmas modernos do folclore nipônico.

O Fantasma de Oyuki, 1750

O Fantasma de Oyuki, 1750

Oyuki é interpretada no quadro como uma mulher pálida, de longos cabelos negros, trajando um yukata branco, seu corpo é quase imaterial e parte de sua cintura não pode ser vista.

Retomando a nossa época, observem, por exemplo, a personagem Sadako Yamamura (conhecida no ocidente também como Samara Morgan), a assombração da fita amaldiçoada do filme Ring é apenas uma leitura moderna do “Yurei”, tanto em aspecto quanto em sua história trágica.

Sadako Yamamura, de "Ring"

Sadako Yamamura, de Ring

Hoje, o Kaidan é um gênero literário extinto, porém sua influencia deixou marcas nas gerações seguintes de japoneses, uma inspiração comum para o J-horror são as histórias conhecidas como “Toshi Densetsu”.

Bastante populares entre adolescentes, um Toshi Densetsu não é muito diferente das lendas urbanas ocidentais com suas loiras do banheiro ou bonecos assassinos, a diferença é que no resgate aos valores folclóricos, na adaptação de seus temas para o mundo contemporâneo, com o advento de novas narrativas e da própria internet, a capacidade de disseminação de mitos e rumores apenas se espalhou.

Esses mitos costumam ter moral similar a uma fábula, advertindo pessoas sobre perigos relacionados ao ambiente urbano, mas resgatam noções como o Yurei e até mesmo Yokai, bestas místicas do folclore oriental.

Um exemplo é o mito da Kuchisake-onna, uma mulher que teve sua face mutilada nos extremos do rosto, cortando as bochechas e o lábio e que pode ser encontra tarde da noite vagando nas ruas.

A lenda começou há 400 anos, no Periodo Edo da história japonesa e sobrevive até hoje, durante a década de oitenta a mesma ganhou uma máscara cirúrgica – acessório comum no cotidiano japonês – o espirito, por sua vez, passou a abordar pessoas, questionando-os sobre sua aparência e, dependendo da resposta, assassinando ou mutilando aqueles que ousarem responder.

O Mito ganhou tanta projeção durante a década de oitenta que existem relatos de escolas onde estudantes pediram permissão a seus professores para saírem da escola em grupos ou acompanhados de um responsável.

A popularidade do mito da Kuchisake-onna é tamanha que em 2007 sua figura inspirou o J-horror “Carved”, onde o espirito vingativo em vida uma mãe solteira que foi mutilada pelo próprio filho, a história vai além do mito urbano e agrega comentário social sobre o bem-estar infantil, maternidade e ser mãe solteira em uma sociedade como a japonesa.

Kuchisake-onna, na cada de "Carved", de 2007

Kuchisake-onna, na cada de "Carved", de 2007

É preciso entender que mitos não são esquecidos ou abandonados por suas sociedades, eles evoluem, acompanham novos adventos – sociais e tecnológicos – e principalmente, transcendem para novas mídias e adaptam seus diálogos com novas audiências, e quando tramamos de histórias sobre fantasmas, estamos falando de quatrocentos anos desde o surgimento do Kaidan até o surgimento do J-Horror nos cinemas orientais, uma história que está longe de acabar

Lei Seca na Virada Cultural: Hipocrisia Pública

Não contente em tirar todos os artistas de rua da Av. Paulista usando a polícia de forma violenta, não contente em fundar um partido oportunista e fisiologista e não contente em não cumprir sequer a metade das metas de seu mandato, o ilustríssimo prefeito de São Paulo Gilberto Kassab nos dá mais uma prova de que é um grande filho da puta instituindo a “Lei Seca” durante a edição deste ano da Virada Cultural.

Explico: neste ano as barracas oficiais do evento não venderão bebidas alcoólicas, a vigilância em cima do ambulantes será redobrada e será cumprida a risca (e a força, tenham certeza) a lei que manda os bares fecharem a 1 hora da manhã. Os motivos alegados são:

Diminuição da sujeira gerada durante o evento;

Evitar confusões geradas pelo consumo excessivo de álcool;

Prevenir os cidadãos de prejudicarem sua saúde ao comprar bebida de origem duvidosa.

Tudo muito lindo e maravilhoso. Traz-me lágrimas aos olhos a preocupação da nossa Prefeitura com o bem estar daqueles que querem aproveitar o evento, não? O pior é que muito gente engoliu esse papinho e está comemorando esta decisão. Como alguém que se sentiu prejudicado com essa decisão, gostaria de analisar cada item acima um pouco mais a fundo.

“Diminuição da sujeira gerada durante o evento.” Quer dizer então que os consumidores de água, refrigerante, suco e guloseimas em geral jogam TODOS O LIXO DELES no lixo? “Ah, mas o pessoal passa mal, vomita.” Em qualquer lugar que eu vou no fim de semana tem disso e esse mesmo pessoal que agora reclama já fez passou mal em mais de uma ocasião.

Galera, o problema da sujeira é um só: muvuca. Você não tem tempo hábil de ir até um local propício gorfar e nem saco de ficar segurando sua latinha de qualquer líquido vazia até achar uma maldita lixeira, então você taca no chão mesmo. A real é que não tem jeito e nesse caso cabe sim ao poder público se organizar para minimizar os efeitos desse monte de gente sujando tudo. Triste, mas inevitável.

“Evitar confusões geradas pelo consumo excessivo de álcool”. Essa afirmação até procederia, mas quem quiser encher a cara vai fazê-lo, com ou sem Lei Seca. Seja levando seu próprio isopor cheio de cerveja ou seja levando sei lá quantas garrafas de destilados em uma mochila, quem quiser encher a cara vai encher. Sem contar a compra desenfreada de bebidas perto da 1 da manhã para estocar pra mais tarde, o que vai gerar um surto de bêbados perto deste horário, anotem.

E as confusões são geradas pela bebida ou pela falta de segurança e organização? Aquela batalha campal que houve no show dos Racionais anos atrás foi realmente causada pelo álcool? Nesse caso vamos esperar os dados após o evento e então aprofundar o assunto.

“Prevenir os cidadãos de prejudicarem sua saúde ao comprar bebida de origem duvidosa”.  Essa é piada, né? Porque vai acontecer justamente o contrário! Será que ninguém na prefeitura sabe o fracasso que foi a Lei Seca nos EUA? O que mais vai ter serão sujeitos no meio do povão com cerveja quente e os chamados “vinhos duvidosos” dentro de uma mochila. Claro que eles vão vender ao preço que quiser e vão vender muito, acreditem.

Os ambulantes nunca seguiram a lei e vão continuar não seguindo. Essa proibição só vai aumentar o Nível de Desafio do trabalho deles, mas no final das contas quem vai se prejudicar vai ser aquele que fazia tudo mais as claras e quem vai lucrar mesmo são os mais obscuros.

Isso tudo foi só citando a proibição da venda. Mas ainda temos a cereja do bolo: o fechamento dos bares à 1 da manhã. Só eu acho incoerência em um evento que dura 24 horas você proibir os donos destes estabelecimentos de trabalhar?

A vida noturna (com seus bares inclusos) não faz parte de cultura desta cidade? Uma das coisas mais legais da Virada pra mim é sentar em um boteco de vez em quando entre os eventos pra tomar alguma coisa e comer algo. Bem, esse ano não vou mais poder fazer isso.

E vocês meninas que pagavam R$1,00 para entrar em algum boteco minimamente limpo para usar o banheiro, vão ter agira que fazer naqueles adoráveis banheiros químicos.

E você que bebe água e refrigerante acredita mesmo que as barraquinhas da Prefeitura vão dar conta de atender a demanda de consumidores da Virada Cultural? Eles vão ter estrutura pra manter as bebidas geladas a noite inteira? Eu duvido.

E você já viram a alimentação destas barraquinhas? Não? Pois vão ver essa ano e serão OBRIGADOS a comer nelas, umas vez que a opção de comer um misto-quente confortavelmente sentado em um local coberto me foi podada.

Por essas e outras que eu acho essa “Lei Seca” uma baita palhaçada. Eu não preciso da Prefeitura me dizendo como me divertir atendendo a interesses obscuros, visando trabalhar menos e lucrar com multas ao invés de fazer o que realmente precisa ser feito.



O gâmbito de Ishihara Shintaro e o renascimento do orgulho otaku!

Ishihara Shintaro é um sujeito curioso, governador da província de Tóquio, é uma das figuras políticas mais importantes de seu país, basta observar a relevância administrativa, econômica e até sócio-cultural que a metrópole sob sua gestão representa para o resto do mundo, Ishihara, porem, também é uma figura controversa, um senil reacionário, fato que contradiz fortemente o vibrante crescimento de Tóquio, a frente de lobbystas e outros políticos, Ishihara lidera uma cruzada pessoal contra o florescimento da criatividade artística e o direito de livre-expressão em Mangás e Animes.

Recentemente, li uma notícia que o bairro de Akihabara, também conhecido como “paraíso dos pedestres”, voltou a ter suas passarelas abertas ao público dois anos depois do incidente envolvendo um homem que atropelou e esfaqueou cerca de oito pessoas, Akihabara também é conhecida por alguns como “A Meca dos Otakus”, devido a grande quantidade de lojas de artigos relacionados presentes na região, sendo considerada um dos principais pólos da cultura pop contemporânea, tendo em vista as recentes diretrizes do governo de Tóquio, é possível notar uma severa contradição.

A lei de banimento ao anime/mangá (conhecida como “Lei 156”) causou certo revisionismo social, o argumento que animes envolvendo conteúdo erótico e até semi-legal apazigua os anseios violentos de seus leitores é um pensamento preconceituoso, pois implica no pressuposto que todos os leitores são criminosos sexuais em potencial, esse é o tipo de visão que permitiu solo fértil para a 156.

Em um discurso emitido ao vivo pela televisão, Ishihara comentou o seguinte impropério: “as três coisas que arruinaram a juventude são: smartphones, televisão e pcs e “jovens conseguem obter vastas quantidades de informação, porem não existe “substância”, sequer pode ser considerado cultura de verdade”.

Novamente a gente se vê perante uma prerrogativa amplamente cultivada pelos políticos da ala direitista de todo mundo, a pauta do “o que é cultura?”, uma necessidade de institucionalização da mesma, negando o fator espontâneo que existe por trás de todas as manifestações culturais, priorizando aquilo que entendemos como “erudição”, carregada de alto teor informativo, transformando cultura em um bem de difícil acessibilidade.

É nesse cenário que passamos a questionar a necessidade de uma legislação como a Lei 156, se mesma encontra-se no auge de sua aceitação por parte de políticos da ala de direita do governo japonês, porque observamos mais uma vez o bairro de Akihabara crescer? É interessante notar que na cultura otaku o fator “fogo de palha” persiste e é querido, onde observamos fan-art, doujins, modding, cosplay, gatilhos meméticos desafiando uma linha tênue entre a propriedade intelectual e a apreciação colaborativa.

Para uma lei que visa mitigar o conteúdo dito como escandaloso ou subversivo dos mangás e animes japoneses, tendo Ishihara como um dos seus principais cabeças é no mínimo controverso, conciliando com sua carreira política, Ishihara foi escritor e jornalista.

Em 1990, Ishihara em entrevista negou o episódio do “Estupro de Nanquim” Onde na década de 30, no período pré-guerra, tropas japonesas, inspiradas por um sentimento nacionalista perverso, invadiram a cidade chinesa, dizimando a cidade e cometendo atrocidades com sua população, entre elas o uso de prisioneiros em treinamentos do exército, o estupro de mulheres de todas as idades e o uso de cobaias humanas para finalidades de “curiosidade científica”.

De forma pertinente, o site Sankaku Complex investigou a bibliografia da carreira de escritor de Ishihara, identificando alguns contos cujo as sinopses eu vou transcrever a seguir:

Em “Kanzen na Yuugi” (algo do tipo “O jogo perfeito”), de 1956, um grupo de jovens seqüestra uma garota mentalmente incapacitada, mantendo-a como escrava sexual e estuprando-a de forma brutal, após não consegui vendê-la para um bordel, os mesmos se livram dela jogando-a por um abismo.

(Viu? A premissa da história nos lembra vagamente alguns clássicos da série Guinea Pigs, como “The Devil’s Experiment”, e até mesmo o incidente envolvendo a colegial Junko Furuta)

Outro livro, chamado “Shokei no Heiya” (“Sala de execução”, ou bosta do tipo) envolvem adolescentes que embebedam e dopam duas amigas, a trama contém descrições explicitas de abusos sexuais e atos de vingança. Um fato interessante é que em 1957, um grupo de jovens acusados de estupro coletivo declararam abertamente terem buscado inspiração neste conto.

(Vale tomar ciência que o mesmo esteve no auge do movimento que se transcendeu hoje por aquilo que chamamos de “Ero-guro”, este tipo de narrativa trágica é comum no Japão, diversos artistas contemporâneos trabalham com isto, como Suehiro Maruo, cujo diversos trabalhos já foram divulgados no Brasil).

É curioso notar que os contos de Ishihara são best-sellers em seu país de origem e podem ser vendidos ao público menor de idade sem restrição alguma, quando confrontado sobre sua carreira de escritor, o mesmo comentou: “literatura de qualquer tipo não induz crianças a cometerem crimes ou atos de delinqüência”. Bom, os fatos falam por si só, não?

E pra ser sincero, nunca pensei que viveria para ver o dia onde trocar pornografia se tornaria um ato de resistência e/ou contravenção, novos tempos exigem novas formas de manifestação, e da mesma forma que a cultura geek passou por atribulações no passado apenas pra voltar fortalecida, este caso não será diferente, então eu digo em plenos pulmões: Moe moe kyun! Seu velho gagá.

The Walking Dead e a fixação de uma geração por Zumbis

Estou acompanhando The Walking Dead, creio que c/ o mesmo fôlego que seis anos atrás, quando eu comecei a ver Lost, nunca tinha lido a série antes, até mesmo porque minha primeira experiência c/ o Kirkman foi o enfadonho Marvel Zombies,  sem contar que minha má vontade em investir numa série sendo publicada por uma editora relativamente desconhecida do mercado somado a falta de hábito de baixar scans de HQs em continuidade no exterior apenas ajudou para fazer a HQ homônima a série passar batido pra mim. Vi em alguns fóruns, até discuti com alguns amigos sobre o tom da série, o argumento presente no roteiro, na humanização dos personagens, inclusive sobre uma delicada relação de viúvo x zumbi, algo, permita-me a piada, muito mais amargo que o divorcio. Não acho que este tenha sido um artifício criativo novo, incomum ou até inédito, se trata apenas de uma geração, que em partes, desconheceu o comentário social dos filmes de terror na década de 70, terreno intelectual onde floresceu George A. Romero e seu Night of the Living Dead, precursor de tudo que nós estamos acompanhando agora.

Claustrofóbico, sitiado por zumbis, o maior inimigo dos protagonistas não eram os desmortos devoradores de carne, mas sim a própria ignorância dos protagonistas, a desconfiança e a falta de preparo, Romero ousou pra época – de forma ácida – ao apontar o personagem mais sensato da trama como sendo um negro, sob um olhar histórico, nada mais do que o esperado, o início da década seria marcado pelo movimento Black Power. Era uma época crítica, satélites americanos levavam até os subúrbios fotos de jovens esquartejados em conflitos no Vietnã, uma guerra idiota, o inimigo não estava além do mar, estava dentro de casa, engravatado, mandando pessoas para morrer, matando com a ponta de uma caneta. Por isso que quase na mesma década de Night of the Living Dead, nós tivemos Texas Chainsaw Massacre e The Hills Have Eyes, o “inimigo” não era mais o monstro clássico da literatura européia, os tempos de Bela Lugosi, Boris Karloff e Vicent Prince acabaram, o “monstro” agora era cidadão deformado e abandonado, um reflexo das deficientes políticas sociais do estado norte-americano, canibais, incestuosos e radioativos, a denúncia da carne, machete e motosserra – símbolos fálicos – perseguindo jovens desamparadas. Não é preciso ir muito longe, em nosso país, mais atrasado que os EUA, a violência ocorre não por uma incapacidade do estado em educar seus protegidos, mas sim por ser um derivado do ímpeto de sobrevivência. 

Mas The Walking Dead não é sobre discursos afirmativos, estes, aos poucos, se tornam fatos consumados, é sobre o convívio e fricção, sim, temos nossa parcela de conflitos étnicos e caipiras cheios de anfetaminas, mas a série busca se humanizar pela nostalgia, pela tentativa de se agarrar ao passado, pacato, suburbano e idílico, personagens comentam sobre livros de fotos e passeios familiares e assim como Lost, o apelo emocional – piegas até – se torna um foco maior do que a sobrevivência e é ai que cativa o público. É o terror pós-moderno, do cidadão metropolitano, onde o maior medo não se encontra na criatura ou próximo, mas sim a mera retomada do convívio comunitário, da regressão da metrópole, agora destruída, para o rural, tribal e subsistente, é o medo, muitas vezes velado, de sentir-se humano, coisa que o “choque” sempre foi eficaz.

Humanizar-se, piada curiosa, não? Lembro-me de um jogo antigo pra PC, controverso pela mídia nacional tacanha, se chamava Carmageddon, inspirado no filme Death Race 2000 (de 1975, mesma época de Night of the Living Dead e Texas Chainsaw Massacre) onde no ano de 2000, pilotos de carros de corrida se digladiavam em competições onde o atropelamento de pedestres era recompensado com pontos (mal eles sabiam que 35 anos depois isto viria a se tornar uma realidade…) o pânico moral de Carmageddon fez com que diversos países adotassem medidas de censura, como substituir humanos porcamente pixelados por zumbis ou robôs, seres, que por tradição na ficção ocidental, são igualmente antropoformes. É a grande ironia do gênero “Apocalipse Zumbi”, e talvez, o motivo de obsessão de toda uma geração por esta criatura estranhamente familiar, incapazes de pensamento crítico e famintas, assim como nossas massas de consumidores, sem nenhuma auto-preservação, lembrando a maioria dos engravatados do mundo, será que, por vias de fatos, nós não estamos vivendo um Apocalipse Zumbi faz tempo?

Liberdade, ontem e hoje (e um pequeno empecilho…)

Antes, uma pequena curiosidade mórbida, o bairro paulistano conhecido como “Liberdade” tem este nome devido a uma pequena ironia na época do Império, as redondezas do bairro eram conhecidas pela população como um campo de forca, onde escravos e dissidentes eram executados na forca, então para muitos, aquele era o único meio para alcançar a derradeira liberdade, não é a toa, que a Igreja próxima a estação de metrô é chamada de “Igreja dos Enforcados” e até hoje existem lendas sobre assombrações e espíritos no local.

O legal é que o bairro da Liberdade, de uma forma ou outra, agrega um contraste na tradição de emancipação e repreensão, para entender o último episódio, talvez seja interessante, ilustrar um pequeno contexto.

Antes de 1912, ou seja, antes do Kasato Maru, o Bairro era predominantemente português, sobre a paisagem cultural do bairro, a ocorrência de sobreposições e atritos sempre foram fenômenos comuns, primeiro os portugueses, então os japoneses, chineses e agora a imigração coreana, dos folclores tradicionalistas para a explosão do pós-moderno superflat, do acarajé ao lado do gyoza.

Com o boom da internet, a comunidade de apreciadores da cultura japonesa – com um foco no anime e mangá, principal vetor memético pra uma geração inteira –  tornou-se mais articulada, e, com tantos fóruns e redes sociais do início da web 2.0, foi uma questão de tempo até alguém marcar um encontro lá.

Um dos pontos mais famosos é uma pequena praça que existe logo na saída esquerda da estação do metrô, era comum nos finais de semana encontrar uma população heterogênica da fauna adolescente paulistana: punks de boutique, otakus, estudantes de artes marciais, V-K, góticos, headbangers, todos ali, fazendo uma cena capaz de escorrer uma lágrima no puto olho do Maffesoli.

Não é a primeira vez que o bairro serve de ponto de encontro para interesses em comum, na década de 70 houve uma proliferação de salas de cinemas, como o consagrado Cine Niterói, fundado por Susumu Tanaka, tais salas eram destinadas apenas à exibição de filmes japoneses, por muito tempo, tal circuito foi tão importante para o bairro quanto os restaurantes ou lojas especializadas.

(vale notar que muito desses cinemas hoje estão abandonados e em casos mais drásticos, em ruínas, ou até pior, tiveram sua estrutura aproveitada para Igrejas Evangélicas…)

O Bairro então, seja pela cultura ou pela presença das pessoas, nunca esteve morto, podíamos encontrar esses moleques – e alguns nem tão moleques assim… –  bebendo cerveja, lendo HQs e mangás, comprando DVDs pirateados e logo acima, tínhamos a feira de final de semana, com comidas orientais e muamba artesanal, assim como as associações, promovendo cultura e festivais.

O lugar sempre teve contrastes, podíamos conversar c/ o velho senhor Nikkei da mesma forma que podíamos encontrar aquela menina ocidental aspirante a Gyaru, o lugar sempre foi – e sempre será – uma verdadeira bombarda sensorial e sinestésica: cheiros, cores, sons e tudo o mais que tecnologia e corpo puderem provir, você.vai.encontrar.lá.

Ultimamente, porem, eu tenho percebido uma coisa, que na falta de palavra para definir melhor, é triste, nas últimas vezes que freqüentei o bairro pude notar que a praça estava vazia, mesmo para um fim de semana, e que, por mais estúpido que pareça, o motivo era uma pequena divisa, daquelas faixas que organiza fila pro cinema.

Ela se estendia de um canto para o outro, nos dois lados de acesso e embora existissem algumas pessoas na escada, o lugar estava deserto, imagine um espaço vazio em meio toda a densidade do bairro, é bizarro, não?

Questionei algumas pessoas – inclusive um segurança do metrô – e as alegações chegam a ser patéticas, depredações e lixo? Não muito diferente daquele produzido pela própria feira tradicional, orgulho do bairro. Drogas e Prostituição? Vale lembrar que a praça do metrô é próxima da Sé.

Claro, mais um pequeno entre tantos episódios da política higienista que a dobradinha PSDB/DEM tem promovido, me preocupa a natureza cívica dessa medida, já que a praça é um ambiente público, de acesso a todos e o que aquela faixa simboliza contradiz os mais básicos dos valores cívicos.

Em retrospectiva, não é a primeira vez que uma merda dessas acontece, vale lembrar no passado, c/ o Governo do Getúlio Vargas, banindo publicações e oratórias em idioma japonês, ou atualmente, onde senadores comandam o esquema de concessões em mídia, é natural ver este desdém em relação a proliferações culturais não planejadas.

O que eu sugiro? É que as pessoas insatisfeitas com essa medida, pulem, passem por baixo, ou simplesmente ignorem a maldita faixa, que no final das contas, não é nada, aquela praça – e qualquer outro maldito lugar –  é de todo e qualquer cidadão paulistano e não será mero pudor organizacional que vai impedir a erupção cultural que aquele bairro promove em sua essência.

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