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Scott Snyder e o Batman do Novo 52

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Escolhido a dedo pelo conceituado romancista Stephen King, Scott Snyder, que até então nunca tinha trabalhado no meio das revistas em quadrinhos, debutou nas páginas de American Vampire, sucesso de vendas da Vertigo, o selo “adulto” da DC Comics, voltado para contos de terror e mistério policial.

 Com as histórias de terror protagonizadas pelo vampiro estadunidense Skinner Sweet, Snyder e King, em parceria com o desenhista brasileiro Rafael Albuquerque, conquistaram público e crítica e em 2011 levaram para casa prêmios importantes do mercado de entretenimento, como o Eisner e o Harvey de melhor nova série.

Com uma inclinação para o sombrio e para o mistério, Snyder começou sua contribuição para um dos títulos mais antigos da DC Comics: a Detective Comics, protagonizada pelo Batman, um dos personagens mais queridos do portfólio da editora.

Em Detective Comics #871, Snyder surpreendeu a todos ao apresentar ao longo de 10 edições, uma Gotham City ainda mais assustadora e claustrofóbica, introduzindo novos elementos no canônico do homem-morcego e revivendo antigos traumas do elenco.

É nesta fase que podemos presenciar uma das melhores – e mais trágicas – histórias envolvendo o Comissário Gordon e sua família, rivalizando em repercussão com The Killing Joke escrita pelo gênio Alan Moore.  

Nesta encarnação de Gotham City, tivemos psicopatas e dramas familiares, sociedade secretas de ricos, um vilão perturbado e carente de atenção, além de cenas de violência explicita que não observamos na editora desde os tempos áureos da Vertigo na década de noventa.

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Snyder, em Batman, parece ter uma fixação pela aristocracia decadente da cidade, que rendeu antagonistas clássicos como Pinguim e Silêncio, como também o próprio passado da cidade é visitado com frequência em suas histórias.

Isto fica claro na minissérie “Batman – Gates of Gotham” lançada em meio do ano passado, onde o roteiro mostra a relação entre um terrorista em série e um segredo antigo das principais famílias de Gotham City.

“Batman – Gates of Gotham” também é uma das poucas histórias do homem-morcego que busca explorar a arquitetura sobre a qual a cidade foi concebida.

Image Este clima denso, quase um thriller de suspense, tornou Snyder a escolha óbvia para alguns dos títulos do “Novo 52” de sua editora, gerando expectativa e comoção quando o mesmo foi escalado para assinar o roteiro da nova revista do Swamp Thing, um dos personagens mais cults e quistos pelo público.

Mesmo sendo um reboot, Snyder na nova revista do Batman resgata elementos de seus trabalhos anteriores em Gates of Gotham e Detective Comics.

Nesta nova história, Batman investiga a relação entre o passado de Gotham City e uma conspiração de assassinos conhecidos como “Court of Owls”.

Existem dois aspectos peculiares na passagem de Snyder pelo Batman, sua fixação pela arquitetura em Gotham City e o simbolismo da Coruja, uma ave conhecida por ser predadora natural dos morcegos e famosa por roubar ninhos de outras aves.

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Recomendo ao leitor interessado que ele preste atenção nas incríveis e sombrias ilustrações de Jock e Francaviella para entender as entrelinhas daquilo que ainda está por vir para o homem-morcego e seus aliados.

O sucesso da publicação é tamanho que em nota emitida pela imprensa a DC Comics divulgou que o número de vendas da revista ultrapassa as 100.000 cópias.

Esta repercussão positiva fez com que a editora aumentasse o número de páginas da revista de 32 para 40, com o acréscimo de um dólar no preço final, outra novidade é que em Batman, Scott Snyder se reunirá com seu antigo parceiro de ilustração, Rafael Albuquerque.

Snyder é uma ótima alternativa para quem está enfastiado das histórias lisérgicas e nostálgicas da era de prata que Grant Morrison escreveu, ou que busca um pouco mais de refino e sofisticação nos roteiros grim n’ gritty de Frank Miller.

Aqui no Brasil, a passagem de Scott Snyder pela Detective Comics pode ser conferida na revista “A Sombra do Batman” a partir da edição nº 18, lá fora, as histórias foram coletadas em uma edição capa dura chamada “The Black Mirror”, disponível na Amazon.com

Sexo, Saquê e Zen: a história e influência de Ikkyu Sojun na arte e espiritualidade japonesa

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Publicado originalmente em Disinformation – Sex, Sake and Zen

O que intriga a maioria dos ocidentais é a reputação que o zen-budismo tem como antiautoritário, liberal e individualista. Esta noção foi reforçada por escritores como Alan Watts, que expôs o zen como algo relaxado e sem preocupações.

Porém, basta uma breve visita a qualquer tempo zen-budista para ilustrar a terrível diferença entre as expectativas e a realidade. Os cotidianos nesses templos costumam ser, em fato, estruturados, regimentados e fortemente organizados, dissipando qualquer traço de romantismo criado pela literatura.

Longe das interpretações de moimentos como o new-age e o hippie, a disciplina zen é exigente e severa.

Porém, às vezes, mesmo estereótipos errados podem nascer de fatos verdadeiros. Como a história do monge japonês Ikkyu Sojun, que durante o Século XV, foi realmente livre, selvagem e alérgico a qualquer noção de autoridade.

Devido ao fato de Ikkyu ser filho ilegítimo do imperador japonês, sua infância foi vítima de conspirações que buscavam distancia-lo de uma possível candidatura ao trono. Para que sua vida fosse poupada, sua mãe o entregou a um templo zen quando tinha apenas cinco anos de idade.

Para Ikkyu, o Zen não foi uma vocação espontânea, mas sim um meio de não ser assassinado em sua infância, levando em conta as opções, o treinamento na doutrina Zen não parecia ser uma escolha ruim de todo.

Talvez não fosse o ambiente mais descontraído para uma criar uma criança, mas com certeza mais interessante do que ser assassinado.

O treinamento aplicado pelos monges zen era severo e fez com que Ikkyu tivesse uma infância extremamente difícil. Apesar do ambiente deprimente e tedioso, não demorou em os professores perceberem o intelecto e vocação de Ikkyou para o Zen.

Porém, mesmo seu talento não significava  que Ikkyou  se sentia em casa. Mesmo genuinamente amando o Zen (ou talvez, por causa disso), ele não se sentia inspirado com a burocracia espiritual dos templos, o mesmo era válido em relação a seus colegas sacerdotes: envolvidos em conspirações políticas, perdendo tempo com seus suseranos ricos.

E veio o dia que seu mestre o condecorou com um certificado de sabedoria – uma grande honra e um documento necessário para ascender na hierarquia do Zen – Ikkyu  então, para a surpresa de todos, o queimou e deu adeus a sua carreira monástica.

Isto não quis dizer que ele tinha desistido do Zen, pelo contrário, em seu raciocínio, era toda a instituição a cerca do Zen que tinha abandonado o verdadeiro caminho, transformando o Zen em uma paródia dogmática daquilo que ele deveria ser.

A vida nos templos era lotada de muitas regras e pouco espaço para respirar. Os então proclamados profissionais do Zen, aos olhos de Ikkyu não eram nada além de charlatões – muito ocupados posando como “espiritualizados” para serem capazes de experimentar a espiritualidade em seus aspectos mais simples.

Algumas pessoas acreditavam que a iluminação Zen só podia ser alcançada através de nuvens de incenso e meditação silenciosa, Ikkyu, em outra mão, percebeu que o saquê, sexo e a boemia eram mais do seu agrado.

Como ele colocou em um de seus poemas: “A brisa do outono após uma noite de amor é melhor que um século de meditação estéril” ou de forma mais literal: “não hesite: faça sexo – isso é sabedoria. Ficar sentado entoando sutras: isso é besteira”

Guiado por uma sede de viver, Ikkyu se tornou um monge viajante, testando suas teorias Zen longe da reclusão dos monastérios, o que fez ganhar o apelido de “Nuvem Louca”.

O ponto de suas escapadas eróticas e aventuras era argumentar que o “sagrado” é nada além de uma experiência de vida regular vivenciada com toda sua plenitude. Ou talvez, a bebedeira de saquê e quantidades absurdas de sexo não precisava de nenhuma justificativa além do fato que era – e continua sendo – bastante divertido.

Ikkyu não dava a mínima sobre o que as autoridades religiosas de seu tempo pensavam dele. Porém, em suas viagens, Ikkyu conseguiu influenciar um grande número de artistas, poetas, calígrafos, músicos e atores de um modo que deixou uma marca profunda no desenvolvimento das manifestações artísticas nipônicas por séculos a fio.

Até mesmo sua vida amorosa é celebrada através dos tempos, pois seu relacionamento com a Senhorita Mori acabou sendo um dos romances mais famosos da história japonesa.

Ikkyu sempre foi um amante dos paradoxos, quando a guerra civil destruiu a maioria dos templos Zen do país, foi ele que veio ao resgaste das instituições que outrora ferozmente criticou.

Quando o futuro do Zen esteve em perigo, Ikkyu foi capaz de conseguir favores de muitos que conheceu durante sua vida de viagens, reconstruindo assim alguns dos principais templos do Japão.

Por ironia do destino, muito do Zen moderno tem um grande débito com a existência de um homem que em seu tempo, preferiu a companhia de prostitutas a monges.

Negação e Antagonismo no Diálogo Público Brasileiro

Esta semana, internautas de todo o Brasil ficaram indignados com um vídeo – publicado originalmente no Youtube – onde uma mulher, identificada como a enfermeira Camilla Corrêa Alves de Moura Araújo dos Santos, mãe de uma criança de três anos de idade, agrediu até a morte um cachorro da raça yorkshire.

O vídeo, gravado por Claudemir Rodrigues Maciel, frequentador do mesmo condomínio da agressora, que ciente de casos passados de maus tratos contra o animal protagonizados por Camilla, resolveu registrar o ato com o objetivo de denuncia-la as autoridades do município de Formosa, Goiânia.

Enquanto muitos ficaram revoltados e indignados com o episódio de brutalidade, algumas pessoas denunciaram o alarde em relação ao mesmo, alegando exagero e acusando que as comunidades nas redes sociais não demonstraram o mesmo sentimento em casos de violência homofóbica, racista ou infantil.

Entre os comentários que criticaram a reação dita como “excessiva” dos internautas, me chamou a atenção o artigo “A enfermeira histérica e a nação infantiloide” do jornalista Diogo Luz.

Nele, Diogo argumenta – citando o filósofo Janer Cristaldo – que o devido à fragmentação de nosso convívio e a dificuldade de estabelecer vínculos afetivos entre seres humanos fez com que a figura do animal de estimação alcançasse um novo patamar superestimado de afeição entre as pessoas.

O mesmo – em tom de caráter especista – ainda diz que o impacto proporcionado pelo vídeo é uma agressão ao vazio existencial da nação brasileira, menosprezando a natureza violenta e explicita do ato.

Para Diogo Luz, o ato protagonizado por Camilla é consequência de um desiquilíbrio emocional, argumentado de forma genérica sobre as pressões e insalubridades cultivadas por nossa sociedade pós-moderna.

O que Diogo defende é uma retórica cada vez mais comum na sociedade que ele tanto condena: que todos nós somos vitimas das circunstâncias, um artificio um tanto adolescente para alguém que acusa a reação de uma parcela majoritária da sociedade de “infantil”.

Igualando o nível do debate filosófico, quando você trata uma pessoa como um construto social ou uma confluência de acasos, você abre – nem sempre em sã consciência – toda uma nova gama de desculpas que isentam a pessoa de uma coisa chamada responsabilidade.

Nós não somos vítimas de uma sociedade, e sim responsáveis pela mesma, se em muito, se argumenta o porquê de tanto alarde em relação a um cachorro – o que eu julgo ser puro especismo – o que existe de tão superior (sic) na raça humana que justifique a agressão contra um animal doméstico?

E mesmo assim, o ato de agressão não se resumiu apenas ao animal doméstico, e a criança – filho da agressora – que presenciou o ato sucedidas vezes? Qual será a melhor forma de aborda-la, sendo que em todos os sentidos, embora não seja algo físico, ela também foi vítima de uma agressão.

Qual seria a lógica que justificasse tal ato? Ou até mesmo condenasse a reação das pessoas? A meu ver, mesmo que existam opiniões exaltadas sobre o caso, é saudável ver que pessoas se demonstrem indignadas.

Podíamos começar a nos preocuparmos se essas mesmas pessoas se demonstrassem indiferentes ou apegadas a uma espécie de apatia travestida de “racionalidade”.

Vídeos contendo denúncias de maus-tratos em animais não são novidades na internet, o que se presencia agora é um sentimento de negação, um tiro pela culatra do intento inicialmente proposto.

Embora o conteúdo de materiais desse tipo seja de natureza indigesta, sua intenção não é meramente chocar, mas sim conscientizar de uma realidade atroz e velada.

O problema é que devido a mesma natureza de vídeos, uma reação comum ao choque é a de negação dos fatos.

Em prol de seu conforto psicológico – uma defesa contra a mesma sociedade “denunciada” por Diogo Luz – o ser humano é omisso a realidade, seja ela de si mesma ou do outro.

Esta “negação” vem sido nutrida como forma de se defender do ataque sensorial promovido por esta modalidade de ativismo, seu intento, quando articulada entre sociedade, é marginalizar seu discurso para descreditar um possível diálogo.

Existe também uma questão de memória, a noção que o episódio do Yorkshire gerou mais comoção que casos de agressão contra homossexuais ou etnias são abstratos e até mesmo maliciosos, a verdade é que não existem meios de quantificar isso.

Vale lembrar o assassinato de Alexandre Ivo – homossexual, 14 anos de idade – que em 2010 fez emergir na mídia a urgência por mais severidade por parte da justiça contra ações homofóbicas.

A questão não é que uma demonstração de sentimento ou apoio isenta ou torna excludente a opinião da pessoa. Uma pessoa que se indigna com o assassinato de um animal doméstico não é necessariamente omissa a casos de abusos contra crianças, negros ou homossexuais.

Um mal crescente entre a população brasileira é a má-interpretação do diálogo público nas demais pautas pertinentes ao nosso cotidiano, no Brasil não se debate ou pondera, se antagoniza.

Este fenômeno é chamado pelo filósofo Vladimir Safatle de “pensamento binário do debate nacional”, segundo o qual a mente humana, como computadores pré-programados, só suporta a composição “zero” ou “um”.

Ou seja: estamos condicionados a um debate que só serve para dividir os argumentos em “a favor” ou “contra”, “aliado” ou “inimigo”. USP x PM, PT x PSDB e assim vai…

O pensamento binário é acompanhado do Falso Dilema, um problema comum no diálogo, que sempre surge quando, no discurso falado ou escrito, alguém insiste ou insinua que duas opções são mutuamente excludentes.

É um argumento que força a pessoa a escolher lados, “A ou B, se não A, logo B”, é uma reação comum, se a reação em relação ao episódio contra o Yorkshire levou a questionamentos sobre a necessidade de atenção para casos envolvendo gays ou negros, este mesmo discurso seria questionado por aqueles que vêm necessidade em focar os esforços no combate à corrupção e assim se sucede nossa escalada.

Em tempos como os nossos, de reinvindicações e diálogos, é necessário ter ciência da lógica por trás de nossos argumentos, sempre existirá aqueles – como Diogo Luz e suas inspirações – que se posicionam em um suposto patamar moral elevado e buscam desacreditar a opinião alheia, nesses casos, identificar uma falácia argumentativa é a diferença entre ser ou não manipulado por alguém.

J-horror: conciliando folclore e tecnologia na sociedade japonesa

Esses dias eu tive a oportunidade de jogar Nanashi no Game, de 2008, desenvolvido pela Square-ENIX, a premissa do game é simples, mas inova em trabalhar seu meio, o Nintendo DS. Na pele de um estudante universitário, você descobre por acaso sobre a lenda urbana do videogame amaldiçoado que mata seu jogador após sete dias.

Este tipo de história é recorrente no folclore moderno japonês, na década passada , impulsionados pelo sucesso do filme The Ring, o ocidente presenciou uma onda de adaptações de filmes orientais de terror, como Ju-on, Kairo, Dark Water e Chakushin Ari.

Conhecido pelas audiências ocidentais como “J-Horror”, o gênero ficou famoso por possuir uma série de peculiaridades que serão exploradas no decorrer da leitura.

Costumam contar histórias de fantasmas e assombrações,  geralmente do sexo feminino, além de relaciona-las a algum meio de comunicação e difusão, como fitas-cassetes, sms, websites e outros.

Geralmente nesses filmes o protagonista é um inocente ou curioso que por uma fatalidade precisa descobrir a verdade por trás da assombração antes que a mesma tome a sua vida.

A intenção deste artigo é explicar para os leitores as razões por trás desse gênero, e como ele é intimamente relacionado a cultura popular japonesa, assim como o xintoísmo, a principal religião do país.

Kayako, de Ju-on

Kayako, de Ju-on

 

De acordo com a tradição xintó, todos os seres humanos carregam o “reikon”, um conceito muito similar ao de espirito ou “alma” em religiões ocidentais. Quando o corpo morre, a alma parte para o purgatório, onde espera por seus ritos fúnebres apropriados, para só então partir do mundo físico.

Porém, pessoas que morrem de forma súbita e/ou violenta, como acidentes ou homicídio, sem que recebam os rituais necessários ou que em vida, carregaram sentimentos negativos fortes como fúria, inveja ou ciúmes, acabam acumulando “kegare”, uma espécie de impureza espiritual que precisa ser exorcizada.

Caso o exorcismo do “kegare” seja negligenciado, o reikan se torna um yurei e passa a assombrar aquilo que ainda o prende no mundo material.

É interessante saber que o “kegare” em si não é maligno, mas sim relacionado à noção de higiene espiritual praticada pelo xintoísmo, o mesmo também é relacionado a pessoas vivas, objetos inanimados e até lugares, não se limitando a espíritos.

Apesar de mesclar folclore japonês e literatura de terror ocidental, a série de videogames Silent Hill ilustra bem o conceito de “Kegare”.

Nela, o personagem constantemente é levado para um “outro mundo”, uma versão sombria da cidade homônima do jogo, lá tudo é repleto de ferrugem, desgaste, manchas de sangue e objetos abandonados.

No século XVII as histórias de terror (conhecidas como “kaidan”, dos kanjis “kai” estranho e “dan” contar) se popularizaram entre as castas mais nobres da sociedade japonesa, impulsionado também pela tecnologia de reprodução gráfica importada da China, o país vivenciou uma explosão de contos de fantasmas, principalmente relacionados a figura do Yurei.

Nesta mesma época, o artista Maruyama Okyo, após sonhar com Oyuki, uma antiga gueisha falecida e querida por ele, iria pintar o ukyo-e “O Fantasma de Oyuki”, que se tornaria a inspiração para todos os fantasmas modernos do folclore nipônico.

O Fantasma de Oyuki, 1750

O Fantasma de Oyuki, 1750

Oyuki é interpretada no quadro como uma mulher pálida, de longos cabelos negros, trajando um yukata branco, seu corpo é quase imaterial e parte de sua cintura não pode ser vista.

Retomando a nossa época, observem, por exemplo, a personagem Sadako Yamamura (conhecida no ocidente também como Samara Morgan), a assombração da fita amaldiçoada do filme Ring é apenas uma leitura moderna do “Yurei”, tanto em aspecto quanto em sua história trágica.

Sadako Yamamura, de "Ring"

Sadako Yamamura, de Ring

Hoje, o Kaidan é um gênero literário extinto, porém sua influencia deixou marcas nas gerações seguintes de japoneses, uma inspiração comum para o J-horror são as histórias conhecidas como “Toshi Densetsu”.

Bastante populares entre adolescentes, um Toshi Densetsu não é muito diferente das lendas urbanas ocidentais com suas loiras do banheiro ou bonecos assassinos, a diferença é que no resgate aos valores folclóricos, na adaptação de seus temas para o mundo contemporâneo, com o advento de novas narrativas e da própria internet, a capacidade de disseminação de mitos e rumores apenas se espalhou.

Esses mitos costumam ter moral similar a uma fábula, advertindo pessoas sobre perigos relacionados ao ambiente urbano, mas resgatam noções como o Yurei e até mesmo Yokai, bestas místicas do folclore oriental.

Um exemplo é o mito da Kuchisake-onna, uma mulher que teve sua face mutilada nos extremos do rosto, cortando as bochechas e o lábio e que pode ser encontra tarde da noite vagando nas ruas.

A lenda começou há 400 anos, no Periodo Edo da história japonesa e sobrevive até hoje, durante a década de oitenta a mesma ganhou uma máscara cirúrgica – acessório comum no cotidiano japonês – o espirito, por sua vez, passou a abordar pessoas, questionando-os sobre sua aparência e, dependendo da resposta, assassinando ou mutilando aqueles que ousarem responder.

O Mito ganhou tanta projeção durante a década de oitenta que existem relatos de escolas onde estudantes pediram permissão a seus professores para saírem da escola em grupos ou acompanhados de um responsável.

A popularidade do mito da Kuchisake-onna é tamanha que em 2007 sua figura inspirou o J-horror “Carved”, onde o espirito vingativo em vida uma mãe solteira que foi mutilada pelo próprio filho, a história vai além do mito urbano e agrega comentário social sobre o bem-estar infantil, maternidade e ser mãe solteira em uma sociedade como a japonesa.

Kuchisake-onna, na cada de "Carved", de 2007

Kuchisake-onna, na cada de "Carved", de 2007

É preciso entender que mitos não são esquecidos ou abandonados por suas sociedades, eles evoluem, acompanham novos adventos – sociais e tecnológicos – e principalmente, transcendem para novas mídias e adaptam seus diálogos com novas audiências, e quando tramamos de histórias sobre fantasmas, estamos falando de quatrocentos anos desde o surgimento do Kaidan até o surgimento do J-Horror nos cinemas orientais, uma história que está longe de acabar

Entropias grant-morrisianas #3 – Gideon Stargrave e o fim dos tempos

Esta é a parte que mais me interessa em todas essas publicações do Morrison na Near Myths. Uma história sobre Gideon Stargrave publicada em 3 capítulos através de dois números da revista (nº3 e nº4). Aliás, é por causa de Gideon Stargrave que esta série de posts se chama “entropias morrissonianas”. Entropia é a palavra que faz parte dos plots relacionados ao personagem e que também será muito usada por Morrison no conjunto de suas obras. Entropia é uma forma de se chegar ao caos exatamente pela… super-concentração de energia. Digamos que socialmente quanto mais rígida é uma sociedade, maior vai ser sua desordem quando “n” fatores entrarem em descontrole. E com o “tempo” acontece algo similar, quanto mais o tempo se concentrar em uma dimensão, em uma realidade, mais próximo ele chegará de sua própria extinção. E o que acontece quando o tempo deixa de existir? Bem, vai lá se saber.

O personagem Gideon Stargrave foi baseado em "Jerry Cornelius", um personagem de Michael Moorcock. Uma espécie de assassino perigoso que viajou no tempo numa máquina defeituosa e acabou originando uma desordem no tempo-espaço.

Essa é a parte que mais me interessa porque comecei a pesquisar sobre as outras publicações de Grant Morrison justamente no intuito de compreender melhor a obra Os Invisíveis, que foi a primeira HQ do Morrison que li e que na época explodiu a minha cabeça. Muito do que seria desenvolvido nessa HQ que só iria começar a ser publicada em 1994, com Morrison já em relativa ascensão dentro da área dos quadrinhos, já aparece exposta nesses volumes de Gideon Stargrave de dezembro de 1978 e setembro de 1979 respectivamente.

A verdade é que todas as obras do Morrison se conectam de alguma forma na sua figura de administrador/criador do universo ou em sua característica mais marcante: o uso do caos e da desinformação como destruidor da aparente racionalidade e ordem da realidade. Isso vai estar presente tanto em seus roteiros mais mainstream (como Batman e Superman) quanto (e principalmente) nas obras mais introspectivas/autorais (como The Invisibles/ Filth).

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Near Myths #3 – Gideon Stargrave – Part I: The Vatican Conspiracy

A história começa com uma cena de um corpo em chamas. Trata-se de Joana D’Arc. De repente estamos num ambiente retrô-pop-futurista-psicodélico, com imagem até do Mickey e Donald em uma das paredes.

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Nesse ambiente uma moça acabou de entrar após tocar a campainha e encontra um cara de cabelos claro, tamanho mediano sentado numa cama (ou sofá?) limpando uma arma, ele tem a aparência de um veterano em combates, tipo ex-agente ou coisa do tipo.

Você é Gideon Stargrave? – pergunta a moça, com boina francesa e cabelo curto e escuro.

– Geralmente sim – ele responde fazendo charme. – Mas você sabe como são as coisas nos dias de hoje – completa fazendo a arma brilhar a colocando contra a luz.

Assim começa as histórias de Gideon Stargrave, que se não fosse pelo nível de loucura do enredo, não passaria de uma cópia quadrinesca de James Bond. Mas é muito mais, logo em seguida a moça diz que se chama Jan Dark e prontamente um padre explode a porta da casa e tenta matá-los, mas Gideon é mais rápido.

A menina falou que o “caos ameaça”. Gideon ri. Eles saem andando por Londres e Gideon acaba sendo baleado por um guarda real com… boca de pato! Segundo o guarda, eles estão em uma zona de entropia e por isso estão dentro de um perímetro em que as forças policiais podem matar livremente!

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A história toda é sobre CAOS. Algo está prestes a levar o mundo a um último nível de entropia e desarranjando o tempo. Arquétipos, traição, caos, engramas, poesias intercalando os cortes de cenários, conspirações, ressurreições, neuro-psicologia, anarquia, Londres, suicídio em massa… o fim do mundo pelo Ragnarok e entropia terminal. Tudo isso orquestrado pelo maligno papa do Vaticano tentando destruir esse mundo incrédulo, ateísta!! E Jan Dark faz parte do plano. O que Gideon Stargrave pode fazer quase sozinho?

Near Myths #4 – Gideon Stargrave – Part II: The Vatican Conspiracy

Nessa segunda parte Jan Dark e Gideon Stargrave partem em direção ao Vaticano, querem resposta para os acontecimentos recentes. Na neve enfrentam os capangas do Vaticano que os monitora em tempo real. Apesar de todos os esforços descomunais de Gideon, uns caras vestidos ao estilo Ku Klux Kan acabam levando Jan Dark e mais uma vez atiram certeiramente no ex-espião.

Atingido, caído no chão e abandonado, a neve cobre o corpo de Stargrave. Teria sido seu fim? Não, algo extremamente relevante pra quem curte os Invisíveis acontece, fora de si, Gideon se levanta ressuscitado ao estilo “mortos-vivos” no meio da neve! Então é aqui que Morrison cola na página um trecho de Rei Lear:

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Gideon Stargrave é um Tom! Um pobre e louco Tom, como Tom O’ Bedlam de Invisíveis! No capítulo anterior Gideon também invocou um espírito do “tempo”, para poder conter o caos que estava se expandindo em Londres, bem ao estilo Dane e Jack Frost! Seria uma espécie de espírito protetor? Bem, não quero com isso dizer que os dois universos (Invisíveis e Gideon Stargrave da Near Myths) sejam o mesmo, apenas quero salientar que desde o meio dos anos 70 Morrison já estava amadurecendo algo, algum esquema de realidade mágico-tecnologica-anarquica que só se concretizaria com Os Invisíveis.

Uma freira é enviada para finalizar com Gideon. Os homens do Vaticano sabem que ele não está morto. A freira tem o poder de arremessar matéria através de portais temporais e alcançar o caos de nível 0 (seja lá o que isso quer dizer)! Mas Gideon resiste à tentativa de rasgarem a sua concepção de realidade, consegue despertar do transe atinge a freira com uma bala. Agora ele precisa localizar Jan Dark!

Near Myths #5 – Gideon Stargrave – The Fenris Factor

Gideon invade o local onde Jan Dark está sendo torturada e ao estilo Bruce Lee (sim, há há há) derrota todos os caras vestidos ao modo Ku Klux Kan que trabalham pro Vaticano e liberta a moça.

Num quarto novamente com figuras pops (só reconheci agora o Che Guevara) Jan Dark revela ser Joana D’Arc. Ela diz que só seu poder pode derrotar “o lobo” e que por outro lado, apenas Gideon está destinado a derrotá-lo, então ela quer dar seu poder a ele. Os dois fazem sexo ritualístico e quando terminam, após absorver um poder maior que a vida e que a morte, Stargrave mata Jan Dark, sabendo que seu ciclo de ressurreição acaba ali.

Em seguida nos é apresentada a irmã de Gideon, que era dona do quarto em que ele e Jan Dark estavam. Ela é apresentada de maneira sexualmente provocante, se chama Genevieve e parece ser um trauma na mente de Gideon (creio que ela é aquela loiraça que aparece em The Invisibles em alguns momentos).

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Por fim Gideon invade o Vaticano e tenta interromper um ritual de invocação do Papa. Mas já é tarde, o lobo Fenris já foi invocado. O ritual libertou o filho de Loki da corrente mágica forjada pelos anões e agora ele vai cumprir sua missão de devorar o mundo. “Ragnarok, o fim de tudo no gelo e no fogo.”

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Gideon não se enfraquece e convoca as hordas dos infernos para ajudá-lo contra o lobo. Ele invoca Vine, Flauros e Andras! Três demônios muito conhecidos da demonologia medieval. Com ajuda dos demônios Gideon consegue derrotar Fenris, mas perde uma de suas mãos.

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No fim da página, tem escrito que no próximo número Gideon Stagrave retornaria com “The Entropy Concerto”. Uma fato que infelizmente nunca chegou a acontecer. Infelizmente mesmo, porque as pirações dessas histórias do ex-espião são muito interessantes, misturam mitologia, neuropsicologia, ciência e um monte de baboseira pop, além de frases de efeito e um mix religioso-cultural impressionante. Gideon retornaria apenas em Os Invisíveis, mas já em outro contexto dentro dos quadrinhos. Retornaria como parte de uma “hyper-narrativa”.

Os desenhos do Morrison aqui são muito melhores do que em Time Is A Four Lettered Word. A narrativa é tensionada o máximo possível pelos traços na tentativa de nos jogar dentro das entropias ou memórias confusas de Gideon. Enfim, claro que olhando de agora parece uma espécie de esquema do que seria “Os Invisíveis”, mas ver APENAS assim seria tirar o mérito de Gideon Stargrave em si. Talvez na verdade Morrison nem tivesse idéia do que lhe viria à frente, ou talvez já pensasse em alguns arquétipos de personagens como King Mob, quem diabos vai saber? Só fiquei surpreso em não haver comentários mais demorados sobre Gideon em Supergods¸ talvez o careca esteja evitando a confusão que o personagem causou. Gideon é considerado por alguns apenas plágio na cara dura de Jerry Cornelius, o já citado personagem de Moorcock.

Action Comics #1: o novo Superman é o antigo Superman

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Action Comics em sua edição #1 não tem a cara do Grant Morrison. Posso dizer de outra forma: não tem o que SEMPRE se esperou do Morrison, ou seja, não vimos ainda paradoxos temporais, hyper-paranóia, entropia dissipatória, magia sensorial, gênesis cosmogônica e etc., essas coisas distantes do realismo pragmático que foram o marco de seus roteiros.

O próprio Superman não está como de costume. Ele não é tão invencível, não voa ainda, está bem mais novo e no meio de uma cidade enfrentando a policia! Parece mais um adolescente explodindo de hormônios e super-poderoso do que o antigo herói sábio e ponderado com a cueca por cima da roupa, mas calma… isso não é tão ruim.

Grande parte das brigas conceituais do Morrison com Alan Moore foram justamente sobre o realismo decadente dos super-heróis dos quadrinhos instalados pós-Watchmen, que Morrison sempre se recusou a partilhar e que Alan Moore se resumiu a rir dessa resistência ao realismo numa era de queda do Muro de Berlim e falência do socialismo soviético.

Morrison sempre foi saudosista dos Super-Heróis como modelos de arquétipos primitivos dos valores mais elevados da humanidade. Basicamente ele sente falta do tempo em que os heróis simplesmente salvavam o mundo do mal e pronto. Mas a verdade é que embora ele manifeste este saudosismo no documentário Talking With Gods e no seu livro Supergods, suas próprias HQs nunca usaram as formulas da Idade de Ouro dos quadrinhos, pelo contrário, elas sempre foram complicadas demais (basta ver Homem Animal e Doom Patrol) e foi isso que fez sua fama.

Talvez Action Comics, seja uma oportunidade em que Morrison vai finalmente colocar em prática tudo aquilo da Era de Ouro que ele sabe em teoria. Sim, ele deixa claro em Supergods que é um conhecedor profundo do alvorecer dos quadrinhos, e aliás, o que se pode ver no AC #1 é exatamente aquilo que ele considera ser base do Superman lançada por Jerry Siegel e Joseph Shuster.

“Se as visões de um pesadelo distópico na época previam um mundo desumanizado e mecanizado, Superman aparecia com outra possibilidade: a imagem de um amanhã fortemente humano, que entregue a um individualismo triunfante exerceria sua soberania sobre uma opressão industrial implacável. Não é uma grande surpresa que ele tenha feito sucesso entre os oprimidos. Ele era tão inculto, pobre, como qualquer messias nascido no chiqueiro.”

Defensor dos pobres e fracos, uma espécie de herói social vindo de outro planeta, quase um socialista de ação – certas vezes diz Morrison no Supergods -, esse é o Superman até o momento em que o EUA entra na Segunda Guerra mundial e ele como um dos alistados se voltar para um patriotismo incondicional. Esse Superman dos princípios dos comics é o que Morrison aparentemente pretende resgatar. A primeira sequencia de cenas da nova HQ é de um super-humano obrigando um corrupto a confessar todas as merdas que ele fez, o que na verdade acaba irritando a policia, que quase sempre está na defesa do status quo e cai em sua perseguição… quem nos últimos anos iria imaginar que a policia teria cara de enfrentar o homem de aço? Isso torna ele mais próximo de nós, o torna menos aquele titã invencível num patamar acima do humano.

Acredito que mais na frente o Morrison vai arrumar um jeito de enfiar suas viagens meta-narrativas dentro da história do herói ex-cuecudo, mas não penso que para isso vai abandonar essa característica central de herói das massas! Por enquanto, só podemos mesmo esperar e ver no que vai dar. Mas apesar de bem diferente dos trabalhos do Morrison, acredito que pode vir algo muito bom por aí.

O charme e a elegância de Catherine

Comentei no ano passado sobre o quão inexato é o rótulo “adulto” na indústria de entretenimento, usando como base, principalmente, seu emprego nas indústrias de HQ e jogos eletrônicos, para os desenvolvedores e roteiristas, o “adulto” é quase uma desculpa para o polêmico e apelativo, do fim da repreensão de todas as fantasias púberes, são bens culturais de cunho misógino, envolvendo mulheres objetificada e doses consideráveis de violência gráfica, temas que envolvem o universo dito como “adulto” raramente são abordados da forma apropriada.

Quando Catherine (para Playstation 3 e X-box 360), desenvolvido pela japonesa ATLUS, foi anunciado na mídia há mais ou menos um ano atrás, o jogo causou uma certa comoção, primeiramente pelo envolvimento do “ATLUS Persona Team” responsáveis pelo sucesso da franquia Shin Megami Tensei Persona na época do Playstation 2, e em segundo lugar, pelo conteúdo altamente erótico do jogo, durante um tempo, muito se especulou sobre o jogo, seria uma Visual Novel? Um JRPG? Um Puzzle Game?

Antes do lançamento oficial, a ATLUS começou uma campanha viral no Youtube perguntando aos fãs questões sobre matrimonio, relacionamentos e amizade,  isso não apenas agregou ao título uma base mais “humana”,como também serviu a um propósito maior, que será explicado a seguir.

Catherine narra a história de Vincent Brooks, 32 anos, trabalha com programador em uma indústria de softwares, um homem simples, cheio de incertezas com a vida e o seu futuro profissional, Vincent vive um desgastado relacionamento de 5 anos com Katherine McBride, uma mulher confiável, preocupada, mas igualmente exigente com o futuro do seu namoro.

Vincent é boêmio e tem o hábito de passar suas noites no pub “Stray Sheep”, onde costuma encontrar diversos amigos e conhecidos, um dia, após beber mais do que devia, ele conhece a enigmática e sensual Catherine, e ambos acabam tendo uma one night stand. Após esse ato de traição, Vincent, não apenas aprofunda suas dúvidas sobre o seu relacionamento duradouro, como também começa a ter pesadelos, que podem ou não estar relacionados com uma série de mortes que vem ocorrendo na cidade.

O jogo é dividido entre duas inteirações, as noites de boemia de Vincent no Stray Sheep e os pesadelos. No pub, Vincent interage com seus colegas e freqüentadores, descobrindo mais sobre suas vidas pessoais, em um mecânica que lembra o Social Link da série Persona, ,também existe um jukebox (com diversas faixas dos jogos da ATLUS) e um mini-game, o jogo faz questão de manter a interatividade, a cada drink que Vincent termina, o jogador recebe uma “dica” envolvendo bebidas alcoólicas, como receitas para coquetéis, curiosidades sobre a cerveja e outros fatos, lá ele também pode responder SMS de suas namoradas (vale notar as imagens que Catherine manda pra ele…), além de ter um preview sobre os chefes do jogo.

Durante os diálogos com os freqüentadores do bar, o jogador é obrigado a responder uma série de questões, o conteúdo escolhido reflete em uma espécie de “indicador moral” do personagem, que reflete nas atitudes de Vincent ao longo dos momentos chave da história.

Terminando a bebedeira, Vincent volta pra casa e durante seu sono, começa a seqüência de pesadelos que ele é obrigado a encarar, é nesta parte que se desenrolam a ação do jogo, envolvendo corrida contra o tempo e uma noção de puzzles. O jogador é obrigado a encarar uma “escalada” cheia de adversidades e para isso, é preciso movimentar e organizar blocos de forma que viabilize o movimento de Vincent.

Muitos críticos mencionaram a dificuldade dessas seqüências, mas devo discordar, que embora sejam sim difíceis e em alguns casos até punitivas, em nenhum momento o jogo trata o jogador de forma injusta, a dificuldade dos puzzles é representada de forma progressiva, como se os desenvolvedores tivessem a preocupação de “preparar” psicologicamente o jogador, ensinando diversas técnicas e colocando-o em situações adversas, em determinados momentos é exigido uma velocidade de reação excepcional, mas nada que seja estressante. O jogo inclusive oferece algumas facilidades, como nível de dificuldade e a possibilidade de “corrigir” erros cometidos ao longo da escalada.

No final de casa fase, Vincent é confrontado por uma série de perguntas envolvendo a intimidade dele (e do jogador), após respondê-las, é apresentado um gráfico mensurando as respostas de outros jogadores, com algumas divisões como faixa etária e gênero, é interessante ver a reação de ambos os sexos para algumas questões, a maneira como o jogo adentra a intimidade de seus pensamentos é impressionante, em muito refletindo a posição do jogador sobre questões como relacionamentos, futuro profissional, casamento, infidelidade e afins.

Talvez esse tenha sido o grande mérito de Catherine, não apenas a proposta em apresentar um roteiro adulto acima da média, mas também em amadurecer junto com seu público, levando em conta que já faz três anos desde o lançamento de Persona 4, embora nostálgico, a rotina colegial e juvenil da série já não consegue coincidir com parte do público, que envelheceu e se vê distante daquela proposta, com Catherine, novas possibilidades e argumentos são explorados.

As animações ficam por conta do Studio 4ºC, que no currículo tem obras de qualidade como Tekkonkinkreet e Memories, embora o jogo não disponha da opção de dublagem em japonês, uma equipe de peso cede a voz pra versão americana do jogo, entre os nomes, podemos citar Troy Baker, Laura Bailey, Liam O’Brien e Yuri Lowenthal.

A trilha sonora fica por conta do excelente Shoji Meguro, porém para quem esperava – assim como eu – um repeteco de música pop e eletrônica como visto em Persona, aqui vai se surpreender com a diversidade do trabalho de Meguro, com diversas interpretações de música clássica e um apelo para o lounge e ambiental. Cito como referência, as faixas “Also Sprach Brooks”, Dvorak Symphony No. 9 in E minor, sem contar o tema de abertura, “Yo!”.

Se uma palavra poderia resumir Catherine, ela seria “sofisticação”, é um jogo simples, mas ainda assim elegante, bem produzido, exigente com o jogador e com uma história que transmite uma mensagem sincera, o jogo tem sido bem recebido por parte das audiências ocidentais, e recomendo pelo enorme diferencial em uma indústria abarrotada de títulos superficiais e pretensiosos.

Dia do Orgulho Nerd: orgulho sim, ufanismo não

Como estou sem blog pessoal, vou postar aqui mesmo, que se dane.

Dia 25 é Towel’s Day, um dia controverso na comunidade nerd, comemorado desde 2001, é a data dedicada ao aniversário de morte do escritor britânico Douglas Adams, famoso pela série The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, muitos vêm na data a oportunidade para uma comemoração mais generalista, o tal “Dia do Orgulho Nerd”, ou Nerd Pride’s Day. Ok, vou ser sincero, mesmo sem o intento de menosprezar o espaço de Adams na mídia especializada, quantas vezes nós nos deparamos com citações ou eventos relacionados a obra do mesmo? Se você levar em consideração a imensa quantidade de material que é produzida em base diária para outras franquias de maior peso e relevância, como Star Wars e Star Trek, sem querer parecer ofensivo perante os fãs de Adams, mas os mesmos aparentemente só lembram do aniversário póstumo do autor na data. Deixando o autor 364 dias na obscuridade.

Muitos consideram que Adams é um dos grandes escritores de ficção, porém, em pleno Towel’s Day, a Wired.com foi pertinente em lembrar de outro feito na literatura, algo bem mais importante e de cunho científico, há 66 anos atrás, o escritor e físico Arthur C. Clarke publicaria o ensaio “The Space-Station: Its Radio Applications”  sugerindo o uso de satélites orbitais para a transmissão de sinal para televisão e rádio, é válido mencionar que em 1945, televisão não tinha nenhuma viabilidade comercial, sendo que os meios favoritos pela sociedade eram o rádio e o cinema.

Clarke não apenas popularizou uma idéia extensivamente empregada nos dias de hoje, como também impactou a cultura pop com obras como “Encontro com Rama” e – minha favorita – “O Fim da Infância”, que inclusive influenciou Hideaki Anno na conclusão do anime Neon Gênesis Evangelion”.

(Vale lembrar também que, por curiosidade, o primeiro filme da saga Star Wars foi lançado em 25 de Março de 1977, e ainda assim, o fandom comemora o “May the 4th”)

Mas não estou aqui para promover uma discussão sobre as motivações – e fãs – de Adams e Clarke, ontem eu e uma amiga fomos ao Centro Cultural São Paulo, próximo a Estação Vergueiro, em sua imensa biblioteca, existia uma parte reservada para HQs e RPGs, lá eu pude encontrar coisas relativamente preciosas, caixas com edições da Dragão Brasil – algumas inclusive em “formatão” -, periódicos sobre anime como Henshin e até mesmo a amadora publicação de Ranma ½ pela Animangá, e a gente se lembrou um pouco do passado.

Comentei algo aqui no blog já, o início do orgulho nerd no Brasil, os primeiros eventos, encontros, as dificuldades e vitórias da época, se tínhamos motivo para sentir orgulho, era na hora de superarmos as tribulações, traduzir um livro em inglês/japonês, conseguir montar um cosplay, ir a um evento de anime para ver exibições de coisas até então “raras”, eram coisas que pela devida escassez, nós aprendíamos a dar valor, o Aléssio, que também posta nesse blog, pode endossar o que eu estou dizendo.

Hoje com um cartão de crédito eu encomendo uma action figure direto do Japão, compro HQs importadas na Livraria Cultura e influencio/sou influenciado por mais de 425 pessoas no Twitter, alguns saudosistas argumentam que hoje vivemos tempos mais fáceis, “tempos de Big Bang Theory”, eu só digo que são tempos diferentes, sem acrescentar ou tirar.

O que me incomoda é a aceitação cega do termo “nerd” por parte de alguns leigos, vem de uma mentalidade chauvinista e tipicamente americana, para distinguir dentro do meio social aqueles que são ineptos, estamos falando de pessoas com problemas para relacionamento, problemas de saúde, isolamento e fracasso, se for por essa ótica, estou longe de ser um nerd, faço exercícios quase que diariamente, saio durante os fins de semana, tenho amigos de longa data, não me enquadro nessa noção, porem ainda assim, tenho orgulho de minhas predileções intelectuais e reconheço o esforço e interesse de tantos outros, vivemos em um mundo onde acesso a cultura, infelizmente, ainda é algo distante e caro, por isso o preconceito.

Claro, um bocado de coisas mudou no mundo, o mercado exigiu a criação de uma área profissional capaz de lidar com altas doses de informação, o TI deixou de ser um departamento isolado nos fundos das empresas e veio a tona, se tornando pedra fundamental dos grandes negócios, o mundo aceita melhor essas pessoas excêntricas, porque oras, o mundo precisa dessas pessoas pra funcionar agora, a “Vingança dos Nerds” é um mito.

A aceitação do termo hoje em dia se dá em uma lógica muito parecida as tribos urbanas que obtiveram seus “nomes” relacionados a algum termo ofensivo e pejorativo pela sociedade vigente, como “punk” ou “gótico”, para que no meio de um mar de interesses, gostos e predileções tão heterogênicas, nós encontramos um senso de identidade em comum, a vontade de conhecer, de querer mais, de não conformismo, ao invés de uma mentalidade insular, isolacionista.

Não seja nerd porque é fácil se denominar nerd ou cômodo encaixar seus gostos dentro desse termo guarda-chuva, como se vê muita gente fazendo por ai, não seja Nerd na mesma forma que os fãs de Douglas Adams só se lembram uma vez por dia, em busca de um senso de identidade desesperado.

Quer um motivo pra sentir orgulho? Sinta todos os dias orgulho pelas dificuldades superadas, pelos objetivos alcançados – “nerds” ou não -, por aquilo que você é, mas também por aquilo que você pode ser, comemorar um dia, de forma tão vã e leviana me soa algo como ofensivo e depreciador para pessoas consideradas inteligentes. Nós não precisamos desse tipo de ufanismo.

Eve no Jikan: Anime, Asimov, Café e Relacionamentos!

Robótica e animes são coisas que há muito tempo andam de mãos dadas, o fruto do interesse dos autores neste ramo específico da ciência resultou em obras que mesmo após décadas ainda são discutidas e repercutidas em seus meios, podemos ir lá trás, nos primórdios da animação japonesa com Astroboy de Osamu Tezuka, passando pelo uso de robôs no serviço cívico em Patlabor ou a ficção cientifica beligerante de Mobile Suit Gundam, sem esquecer de mencionar – é claro – Ghost in the Shell, de Masamune Shirow, um dos mais preciosos e assertivos tratados sobre o gênero literário cyberpunk, existem outros – muito outros – tão importantes quanto estes citados, como a adaptação pra anime feita pelo estúdio Ghibli de Metropolis, filme expressionista alemão da década de 20, dirigido por Fritz Lang, seguindo essa linha, também tivemos animes sobre a influência das redes sociais e a vida na Web 2.0, desde a abordagem densa e cheia de metáforas em Serial Experiments Lain, passando pela integração das redes no novo clássico Summer Wars e até mesmo Durarara!! Tratando da vida urbana e seu reflexo em imageboards e smart-mobs (Que um dia será objeto de resenha neste blog…)

Animes e Mangás – assim como diversas outras manifestações culturais – têm essa característica em informar e abordar assuntos atuais, não é por menos, se considerarmos o cotidiano das cidades japonesas – e por extensão, do mundo – fábricas de automóveis completamente automatizadas, sistemas de informática para hospitais, transporte público, transmissão para os meios de comunicação em massa, sistemas de vigilância e até mesmo coisas menos tangíveis, como softwares inteligentes agindo em buscadores e sites de compra, querendo ou não, a presença de robôs e informática nos atinge de um modo ou outro.

Seguindo essa linha, o anime Eve no Jikan aborda de um jeito tenro as relações interpessoais entre humanos e máquinas, claramente inspirado no universo de ficção criado por Isaac Asimov, onde robôs verossímeis a forma humana são empregados na realização dos mais diversos labores, a história começa – pra variar – sob a perspectiva do estudante colegial Rikuo Sakisaka, que após analisar os logs de sua robô doméstica (houseroid) Sammy, descobre a mensagem: “Are you enjoying the Time of Eve?”

Originalmente lançado em seis capítulos em formato ONA (Original Network Animation) e exibido via streaming pelo Yahoo!Japan e pelo o Crunchyroll,posteriormente sendo relançado em uma compilação de 1h5min de duração.

O anime é rápido em inteirar o espectador no universo da estória, logo observamos questões comuns no gênero, como o lobby de grupos anti-robôs, a situação industrial e comercial do Japão e até mesmo um estranho caso de depedência/carência afetiva entre humanos e robôs, chamado “Deki-kei”, pessoas – graças a aparência familiar dos robôs – têm dificuldade para estabelecer uma política de relacionamento com seus servos robóticos, comprimentos e intimidade são vistas como tabu nessa sociedade.

Sakisaka, junto com seu amigo Masakazu Masaki, descobrem em uma ruela um pequeno – e escondido – café chamado “Time of Eve”, onde a única norma de conduta é que indiferente de humanos e robôs, todos devem ser tratados como iguais. É neste café, junto com a proprietária e barista Nagi que Sakisaka descobre o quão cinzento e complexo são as relações entre homens e máquinas. Muitas das discussões entre Sakisaka e os freqüentadores do Time of Eve são fundamentadas nas Leis da Robótica escritas por Asimov no romance “Eu, Robô”, esmiuçando a fundo o emprego delas.

Recentemente, o site japonês Biglobe lançou um ranking Top 10 das animações mais bonitas – em um sentido estético e técnico – já feitas, tendo em seu primeiro lugar, Eve no Jikan, entre os concorrentes, podíamos encontrar nomes de peso, como Ghost in the Shell: Stand Alone Complex, Evangelion 2.0: You Can (Not) Advance e até mesmo Puella Magi Madoka Mágica, que já foi resenhado aqui

Admito que foi este fator “beleza” que me motivou a procurar por esta animação, e os valores de produção são excelentes, personagens com uma gama variada de expressões, uma atenção dedicada a questões como luz, sombras, reflexos e transparência, claro que tudo isso é graças ao uso de diversas técnicas de computação gráfica, embora realmente seja bonito, não podemos observar nenhuma técnica inovadora – como, por exemplo, em Madoka, que alcançou a décima posição no ranking da Biglobe –

“Bonito” é uma boa definição para esta animação, além do apreço na arte, temos um roteiro bastante humano, que busca desconstruir aos olhos do protagonista, as barreiras deste relacionamentos, diversos tópicos são retratados: amor, preconceitos, sentimentos paternais, identidade, propósito e etc. Este não é um anime para os afobados ou sedentos por ação, o clima é letárgico e com muitos diálogos, a trilha sonora é serena, e sim, irá despertar bocejos entre os espectadores mais casuais.

Talvez uma única falha seja o fim abrupto do longa, onde embora o roteiro explore bastante as relações e vicissitudes do universo robótico, diversas tensões construídas são ignorados ou terminam sem grandes explicações, de acordo com o site oficial, uma segunda temporada – e por conseqüência, longa metragem – está planejada para este ano, porem, ao momento da conclusão deste post, nenhuma outra notícia foi emitida pelo estúdio de animação.

É um bom anime, recomendo para muitos públicos, entusiastas do filão clássico da Ficção-Científica ficarão aliviados em saber que o debate de Asimov é retomado de forma sensacional, já aqueles apaixonados por dramas, encontrarão ai uma boa e interessante história sobre relacionamentos, enquanto os fissionados por animações vão poder se deleitar com os aspectos técnicos e gráficos.

Dossiê #FORAREITORUFPI

Esse dossiê foi criado graças a hashtag do twitter #FORAREITORUFPI, no qual os estudantes da Universidade Federal do Piauí postaram links com notícias da má administração do Reitor Luiz Junior. Além da minha experiência pessoal na instituição referida.

Talvez esse imenso artigo só interesse a quem vive na UFPI, mas deixo claro que a principio não acredito mais na Universidade como centro de discussão e projeção de idéias, hoje servindo EXCLUSIVAMENTE como extensão do ensino médio e escada para o mercado de trabalho, se servindo da reprodução de reproduções de bibliografias por mitose. Porém vejo que o que vem acontecendo na UFPI pode ser sintomático do que ocorre em todo o ensino superior brasileiro, revelando uma hierarquia fétida das nossas Instituições Federais. Começo agora um relato um pouco detalhado das sujeiras da segunda gestão do Reitor da UFPI.

Segunda Administração de Luiz Junior

2008

Cartões Corporativos e improbidade administrativa

O atual reitor, Luiz Junior, da Universidade Federal do Piauí foi reeleito em maio de 2008, tomando sua segunda posse oficialmente em novembro. Neste mesmo ano acusações antes silenciadas ou que ficavam apenas no âmbito interno da instituição explodiram tanto a nível estadual quanto nacional. O principal veículo de exposição que desencadeou a mídia nacional por inteira foi a Folha de São Paulo que constatou – em meio a lambança de gastos indevidos em todas as UFs do país- que a UFPI havia sido a segunda universidade que mais havia gasto no uso de cartões corporativos. O gasto em 2007 foi de R$ 402,8 mil, para ser preciso. O grande problema no uso do cartão corporativo é porque o dinheiro é sacado em caixa eletrônico, teoricamente para situações emergenciais, mas estava sendo usado para fins de farras administrativas em todo o Brasil. Na Unifesp, R$ 9.500 havia sido usado apenas em restaurantes, na UnB até pra pão e compras de supermercado o cartão foi utilizado, além de festas. Na UFPI ocorreu dois saques de 28 e 30 mil reais respectivamente, muito dinheiro para “emergência”. A desculpa que o reitor deu foi que os números só parecem exorbitantes, mas não são, e que a UFPI está em segundo lugar nos gastos apenas porque outras instituições não usavam o cartão até aquele momento. Indagada pelo Portal AZ em 2008, a professora Carminda Luzia que usou R$ 5.500, disse que compra “material de escritório, como cartuchos, fechaduras, copos, peças para carros da universidade”. 99% dos gastos com o cartão corporativo foi sacado em caixas eletrônicos, o que é minimamente estranho, pois poderia ter sido usado diretamente na compra dos materiais, sendo descontado na fatura, ao retirar no caixa o dinheiro fica sem previsão de gastos.

Por essas e outras (acusação de que havia contratação irregular de propaganda, sem uso do processo de licitação, somando R$ 116 mil, uma bela quantia) o Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar o Reitor. Segundo o Procurador da República no Piauí Kelston Lages diz que Luiz de Sousa Santos Júnior e José Joacir da Silva cometeram “atos de improbidade administrativa, por terem causado lesão ao erário, diante de condutas dolosas” pois “realizaram operação financeira sem observância das normas legais, permitiram despesas não autorizadas em lei, liberaram verba pública sem a observância das normas vigentes e atentaram contra os princípios da administração pública” [1].

Porém antes de toda essa confusão o vice-reitor da gestão de 2004-2008, o professor Antônio Silva do Nascimento já delatava Luiz Junior como gestor autoritário, pois considerava que o “atual reitor impõe e desperta medo nos funcionários, tem uma política de toma-lá-dá-cá, e a academia não pode se submeter a processos dessa ordem” [2]. Ele usa como exemplo a sua remoção do cargo de Diretor do Hospital Universitário da instituição sem aviso prévio, ou qualquer tipo de conversação, sendo uma atitude arbitrária do Reitor que com uma canetada o tirou da função em Agosto de 2005, junto a isso denuncia a ocorrência de várias outras situações similares, em que pessoas foram destituídas dos cargos sem qualquer clareza quanto ao motivo.

Ainda em 2008 o Reitor destacou para o ministro da educação Fernando Haddad a “expansão da UFPI”, destacando dezenas de números enormes, usando a velha estratégia tecnocrática de que quanto mais os números aumentam mais as coisas estão melhores. Mentira. De 2004 para 2008 a instituição aumentou de 42 cursos para 92, porém como veremos adiante, ainda hoje esses cursos (e parte dos antigos “42”) estão totalmente desprovidos da estrutura física mínima para um bom ensino. O alunado, segundo o reitor, aumentou de 13 para 16 mil, porém o HU nunca foi inaugurado (promessa de mais de 20 anos) e os outros Restaurantes Universitários só começaram a funcionar recentemente, mesmo a Residência Universitária só tem espaço para algo em torno de 200 estudantes, não sendo suficiente pra suprir porra nenhuma do número de estudantes que vem do interior do estado ao Campus de Teresina, por exemplo. Na fala ao ministro, ele destaca que 12 novos cursos de pós-graduação haviam sido criados, como se fosse um feito dele e não das coordenações e departamentos de cursos que batalharam muito para conseguir. Já em 2008, o MEC através da intervenção do ministro da educação, transferiu 15 milhões para a conclusão do HU, que segundo o reitor na época, teria suas instalações físicas finalizada em setembro de 2008 (Hospital Universitário este nunca terminado, até hoje).

2009

Cartões Corporativos

O ano 2009 para a UFPI continuava a saga dos cartões corporativos, a procuradoria da união em protocolo de acusação pedia a devolução do dinheiro usado indevidamente. A Folha de São Paulo retorna a publicar um artigo sobre o caso dos cartões, agora especificamente sobre a UFPI e as acusações de improbidade administrativa do Reitor e outros administradores a sua volta. Irritado o Reitor diz que a especulação midiática em relação aos processos que ele está respondendo é apenas “falta de notícia na imprensa” [3]. Em maio deste ano, após ser chamado para depor na 1ª Vara, o pedido de afastamento do Reitor é negado pelo juiz Brunno Chistiano Carvalho Cardoso, da 5ª Vara, por falta de “provas incisivas”. Sendo silenciado até os dias de hoje.

Ministério Público

Outro processo sofrido pelo Reitor neste ano foi o aberto pelo Ministério Público contra a cobrança de taxa em curso de extensão e instrumental na UFPI, pois estes que deveriam ser gratuitos na instituição (que visa uma formação ampla e gratuita) possuem taxas de mais ou menos 100 reais (nos cursos de línguas: “Valor único por semestre de R$ 130,00 (cento e trinta reais) – valor base ago./2009. Os alunos deverão adquirir o material didático separadamente.” [4]), ou mesmo mais que isso por período. É interessante notar as proposições da ADUFPI (Associação dos Docentes da Universidade Federal do Piauí) de que o Reitor escolheu o pró-Reitor Saulo Brandão para relator do citado processo do MP, e este Brandão é o mesmo que implementou as cobranças de taxas a partir do primeiro dia da primeira gestão do Reitor Luiz Junior. Por que ele acabaria com as taxas agora se ele mesmo as instituiu? Pergunta o Observatório Adufpi, realmente, não faz sentido. Depois disso os cursos de extensão de certa forma entraram em colapso, tendo suas execuções atrasadas em todos os períodos subseqüentes a acusação do MP.

Autoritarismo

Para citar um exemplo de autoritarismo em 2009, o Reitor exonerou Kilpatrick Muller da presidência da COPESE (A Coordenadoria Permanente de Seleção do vestibular da instituição) após este acusá-lo de ter “práticas patrimonialistas”, ou seja, agir com a propriedade e dinheiro público, como se fosse um bem individual. A ADUFPI pediu a abertura do inquérito referente a exoneração, mas não foi respondida.

Greve de estudantes

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Contrariando o discurso tecnocrático e numérico do reitor em 2008 para o Ministro da Educação Haddad, os estudantes da UFPI no Campus da cidade de Parnaíba entram em greve contra a falta de infra-estrutura mínima para realização dos seus cursos. Os cursos que entraram em paralisação foram: Fisioterapia, Psicologia, Bio Medicina, Engenharia de Pesca, Matemática e algumas turmas de Turismo; reivindicando mais salas de aulas, equipamentos e laboratórios. “Não é admissível esse total desinteresse da Instituição com a formação de seus alunos, no curso de Fisioterapia, por exemplo, estamos tendo aulas práticas no chão, porque faltam até mesmo macas” [5] diz uma estudante ao Portal AZ. Em 2010 e até em 2011 essas manifestações continuam, e como veremos adiante não são bem vistas pelo magnânimo Reitor.

Violência

No final de 2009, em um episódio trágico estudantes apanham de seguranças da UFPI em uma manifestação que não era violenta. O fato é que a instituição iria ceder ao ex-governador Hugo Napoleão, amigo pessoal do Reitor, um titulo Doutor Honoris Causa, que a comunidade acadêmica recebeu negativamente e compareceu para protestar contra essa afronta a moral da instituição, pois Hugo Napoleão faz parte do grupo político que dominou o estado durante a ditadura militar e até os fins da década de 90, além de ter sido acusado de desvio de 6,7 milhões de reais em 2003.

Um grupo pequeno de apenas 30 estudantes mais ou menos se reuniu em frente ao local onde o titulo estava sendo entregue e gritaram coisas como “Hugo ladrão, Reitor também ladrão” e foram recebidos em um espaço que era normalmente de livre passagem, por uma barreira de guardas que agiram violentamente atacando os estudantes e rasgando faixas que foram levadas, por ordem da administração superior, a magnificência Luiz Junior. Descreditando mais uma vez o nome já sujo da instituição e colocando de vez o nome do Reitor não apenas entre a fauna urbana dos colarinhos brancos do país, mas também entre os mais autoritários administradores públicos. Apenas em abril de 2010 os seguranças foram condenados pelas agressões, porém como sempre, sem atingir a figura do Reitor: http://www.180graus.com/geral/segurancas-da-ufpi-que-agrediram-estudantes-sao-condenados-321842.html.

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Não esqueçamos também, que o ano termina sem o Hospital Universitário se quer estar próximo de sua conclusão estrutural, muito menos de sua inauguração que não aconteceu até hoje.

2010

Nova acusação do MP

Em janeiro de 2010 Kilpatrick Muller, aquele que foi exonerado do cargo de presidência da COPESE em 2009 por não ter assinado um pedido do Reitor, resolve abrir o bico e denuncia ao MP enriquecimento ilícito por parte de Luiz Junior e outros administradores através de dinheiro da universidade. Valores que segundo o proponente da acusação, é superior a um milhão de reais. Diz que cada membro da COPESE recebeu em torno de 31 mil reais, quando só deveria ter recebido no máximo 4 mil. O reitor rebate a acusação dizendo que Kilpatrick é medíocre e faz parte da oposição, como se apenas isso servisse para encerrar as investigações (e serviu). Além disso, ele relembra o motivo pelo qual o referido professor foi exonerado do cargo de presidente da COPESE: “Ele (Kilpatrick Muller Bernardo Campelo) foi demitido por incompetência. Chegou um dia que precisava assinar uma documentação e não aceitou. Eu estava viajando para Fortaleza-CE e liguei para ele para saber o que aconteceu. Mas ele insistu em dizer que não ia assinar. Quer dizer, descumpriu com o que a UFPi estabelece e perdemos a confiança nele. Daí resolvemos demiti-lo” [6]. No entanto, que tipo de documentação era essa que ele queria assinar? Não é dito. O que me parece evidente é que o dinheiro corre solto na COPESE e na Fundação Cultural de Fomento à Pesquisa, Ensino e Extensão da UFPI, principalmente para os aliados do Reitor. Mas é bom notar que todos os aliados do magnânimo em um momento ou outro viram de lado, pois até aqueles que ocuparam cargos de confiança designado por ele, se viram contra sua tirania.

Mídia

O notório é que a mídia olha para a universidade com olhos viciados, apontando a UFPI apenas como um local de eminente progresso tendo em vista as obras advindas do dinheiro do REUNI. Obras essas, porém, que parecem nunca chegar a sua conclusão, como o HU, parte do Centro de Tecnologia e as estradas que cortam o campus de Teresina.

As denuncias ocorridas junto ao MP, tem cobertura inexistente nos jornais impressos, muito poucos desfechos na mídia virtual e alguns flashs desinteressantes no jornalismo televisivo, revelando o pouco interesse da imprensa local com a saída do reitor, talvez porque o estado como um todo bebe da fonte acadêmica da UFPI, ficando literalmente com o rabo preso.

Não podemos esquecer também que a UFPI só fica atrás financeiramente no estado do Piauí na verba recebida, ao Governo do Estado e ao município de Teresina, sendo superior portanto a 99,9% do orçamento de todas as outras instituições do Piauí, o que torna Luiz Junior, Reitor, o terceiro homem politicamente mais forte do estado. Qual o interesse da mídia em meter o nariz em alguém assim? Nenhum.

Canteiro de Obras ilimitado

Em março a UFPI recebe mais 30 milhões do Ministério da Educação e Cultura, cujo 19 milhões vão ser investidos no HU mais uma vez, para compras de equipamentos, que o Reitor prometia finalizar a obra em 2008 e comprar equipamentos em 2009, junto a esses 19 milhões se tem os 15 milhões de 2008, somando 34 milhões que superam a expectativa de 30 milhões necessários para a construção da obra, que permanece inacabada até hoje, após 20 anos de desvios constantes, metade deste tempo sob gestão de Luiz Junior.

Numa inauguração de blocos do Centro de Tecnologia, estudantes e professores fizeram manifestações contra o autoritarismo do reitor Junior. Primeiramente pelos desvios de verba que vinha cometendo nos últimos anos e depois contra mais um golpe desferido contra a democracia. O que acontece é que um diretor de centro foi eleito no CT, porém o reitor empossou alguém de sua laia e não aquele escolhido de forma democrática. Com apitos e gritos os estudantes e professores se mantiveram em frenesi gritando frases e segurando faixas contra o ditador da UFPI. A brecha encontrada pelo Reitor para empossar o perdedor nas eleições de centro é que: “por lei, para ser diretor de qualquer centro acadêmico hoje, é preciso ter uma especialização a mais, é preciso ser no mínimo doutor”.

Ainda em 2010, por volta de abril, começou a construção de um Portal inútil academicamente, com custo de mais de 1 milhão de reais, que só foi inaugurado em 2011. O tal Portal serve apenas para coroar o gosto por obras faraônicas do reitor, cujo pelo menos essa foi construída dentro do prazo, já as outras… mas ainda assim, uma obra inútil e se servia para embelezar e dar uma autoridade estética para a instituição, falhou amargamente, pois não passa de um pastiche moderno dos anos 70, totalmente ultrapassado e sem sal, futurismo retrogrado, eu diria. Retrogrado, insalubre, inexpressivo, e desnecessariamente caro.

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PSIU

Sem nenhum debate com os estudantes, ou estudos aprofundados na utilidade do ENEM no ensino superior, o Reitor adere completamente ao SISU, abandonando o Programa Seriado de Ingresso na Universidade. O problema em si não é a adesão ao SISU, mas a falta de atitude democrática, a falta de debate com os principais interessados: os estudantes.

Ocorre uma super-valorização do SISU, esquecendo-se os problemas básicos que permeiam a UFPI. Louvam o que o programa tem de bom, mas se negam a ver os evidentes problemas que serão causados. Por exemplo, a Residência Universitária passa infinitamente longe de suprir a demanda de estudantes do interior do estado que vem para a capital, imagine com os estudantes que vem de outro estado? Mal cabe 150-200 estudantes lá, imagine 500, 1000, e assim por diante. Mesmo assim um dos argumentos para aderir ao SISU é a mobilidade do corpus estudantil… como se tivéssemos na UFPI estrutura mínima para isso.

Mais denuncia no MP

O Ministério Público abre processo através de denuncia da ADUFPI sobre a irregularidade das realizações dos concursos públicos realizados na UFPI. Segundo a ADUFPI o Decreto 6.944, de 21 de agosto de 2009 diz que as apresentações orais e as defesas memoriais devem ser gravadas, para avaliação posterior. Isso visa que a cúpula administrativa não manipule livremente os resultados dos concursos, pois os critérios usados para formação das bancas, são basicamente: ser amigo do rei ou amigo de um amigo do rei.

Mais agressão

As manifestações pedindo estrutura mínima de estudo continuam acontecendo no campus de Parnaíba. Ao saberem da presença do reitor na cidade, os estudantes paralisam o carro do magnânimo quando ele se dirigia para a inauguração do Restaurante Universitário e quando menos esperavam, foram agredidos por seguranças ao mando do reitor. Outros estudantes tentaram se aproximar, para pedir explicações sobre a situação precária dos seus cursos e foram também recebidos com agressões.

Oficialmente a UFPI negou através de nota ter ocorrido alguma agressão, o mesmo que aconteceu em 2009, mas ao menos os guardas que agrediram os alunos em 2009 foram condenados, desmentindo a nota emitida pela instituição. O reitor se negou a conversar com os alunos, mesmo que antes tenha prometido realizar uma audiência. Foi embora do campus após a inauguração do RU ter ocorrido debaixo de intensa vaia do começo ao fim, um demonstrativo da insatisfação dos estudantes de Parnaíba, que o fez correr de volta pra Teresina onde fica mais seguro.

A Direção do Campus de Parnaíba, as únicas pessoas que tiveram a “honra” de entrar em dialogo com o Reitor no momento da inauguração do RU de lá, ainda tiveram o disparate de mandar uma nota de repúdio à manifestação dos estudantes, se referindo a ela como “desrespeitosa” e “ilegítima”. Pois, segundo a direção, através da estratégia tecnocrática de vomitar números, o campus de Parnaíba melhora vistosamente se comparada com antes das eleições de Luiz Junior! O único problema seria que o número de alunos aumentou, como se isso não fosse algo causado justamente pela política do senhor autoritário reitor. Enfim, os mesmos problemas que Junior deixava subentendido em 2008 ao então Ministro da Educação, cabem nos benefícios que o Diretor do Campus diz ter sido garantidos com a existência do magnânimo.

No meio dessa confusão e agressão em Parnaíba, termina 2010 de forma obscura na UFPI.

2011 e os problemas atuais

Vou relatar agora brevemente alguns problemas que vi em 2011. O HU parece que depois de 20 anos em obras vai finalmente ser finalizado, porém, corre sério risco de uma privatização parcial por causa da MEDIDA PROVISÓRIA Nº 520, DE 31 DE DEZEMBRO DE 2010. Vai ter muito burburinho e provavelmente agressão nas manifestações.

O Espaço Cultural Noé Mendes, onde acontecem frequentemente as culturais, calouradas, enfim, os eventos dos estudantes da UFPI estava em reforma desde 2010, mas parece que também vai ser reinaugurado esse ano, após investimentos que chegam a 1,3 milhões. Só que também vai ser parcialmente privatizado. Antigamente para se usar o espaço, bastava um cheque calção, para cobrir eventuais custos, caso fosse necessário, mas o que consta no novo projeto do espaço é que vai ter que se pagar taxas de uso, um cheque calção absurdo, entre outras barreiras. Basicamente vai impossibilitar o uso de um espaço que é publico, por causa de taxas altíssimas que podem chegar a 1000 reais com facilidade. Enfim, uma putaria do caralho que certamente vai beneficiar o bolso de algum amigo do reitor. Em breve vai ter muita confusão por lá, disso não tenho duvidas, é só esperar.

As greves continuam intensas em Parnaíba por parte dos estudantes e o Reitor diz para a imprensa que não EXISTE problema nenhum no campus, e fica por isso mesmo. Nada muda por lá, mesmo marasmo e um canteiro de obras infinito.

A UFPI passou quatro anos expandido seu espaço e só agora tiveram a inteligente idéia de aumentar o número de subestações de energia elétrica. Ou seja, planejamento zero, caso a instituição estivesse realmente zelando por um desenvolvimento minimamente sadio isso deveria ter sido uma das primeiras coisas a ter sido construída. Parabéns Reitor e equipe.

Não é só o Reitor que é problemático, basicamente todos aqueles que estão lotados em cargos de confiança, que são os mais importantes e bem remunerados da Universidade, partilham de seu autoritarismo. Como exemplo cito a Prof.ª Dr.ª Antonia Dalva França Carvalho, chefe da comissão de currículo da UFPI e Coordenadora institucional do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID que vem usando de sua autoridade para de forma vexatória ameaçar e inibir professores e estudantes da instituição. Temos o caso do curso de história, que nunca teve seu novo currículo aprovado nos últimos sete anos, apenas por má vontade da referida professora com o curso. Essa mesma senhora é responsável por me reprovar no primeiro período de 2010 em Psicologia da Educação 1 apenas porque a desafiei em sala de aula, dizendo que sua aula era adestradora, antiquada e positivista, após ELA mesma me perguntar diante da turma. Lembro também que ela ameaçou reprovar em sala de aula quem falasse mal do rei-THOR. Uma vergonha pra uma instituição democrática e produtora de conhecimento… em teoria.

Enfim, já chega, esse post vai ficar gigante assim mesmo, pois é um dossiê sobre as atitudes do crápula.

Por causa de tudo isso que falei até aqui é que ando insistindo nessas ultimas semanas com a tag #FORAREITORUFPI e vou continuar por um tempo se você puder ajudar, seria ótimo!


[1] http://180graus.com/politica/reitor-da-ufpi-e-acusado-pelo-mp-e-a-folha-de-sp-repercute-80467.html

[2] http://www.portalaz.com.br/noticia/geral/97842/623

[3] http://www.cidadeverde.com/ufpi-reitor-diz-que-e-falta-de-noticia-acusacoes-do-mpf-31269

[4] http://www.ufpi.br/cecli/arquivos/file/guia_aluno.pdf

[5]http://www.portalaz.com.br/noticia/municipios/137483_sem_estrutura_estudantes_iniciam_greve_na_ufpi.html

[6] http://180graus.com/geral/reitor-da-ufpi-acusado-de-suposto-desvio-de-r-1-milhao-285265.html

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