Os Beats – Historicismo nos quadrinhos?

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Quando comprei “Os Beats”, graphic novel lançado pela Editora Bemvirá com tradução de Érico Assis nesse ano de 2010, não sabia muito bem o que esperar do conteúdo, mal li a sinopse. Por um lado imaginava que seria mais uma obra imbecil explorando comercialmente, abusivamente e sem nenhum experimentalismo o movimento beat, de certa forma acertei. Pensei nisso porque considero inadmissível que em pleno ano de 2010, quando até as obras puramente comerciais de editoras super-tradicionais trazem desenhos e roteiros alucinados, se use em uma publicação gráfica sobre os beats apenas técnicas tradicionais de expressão. Na verdade como roteiristas e desenhistas das histórias contadas são mistas, algumas são ousadas e outras não. Os capítulos mais longos que falam sobre vida de Jack Kerouac e Allen Ginsberg não arriscaram se quer em um quadrinho uma técnica de retratação ao estilo psicodélico, em que os traços dos desenhos teriam que se confundir com o roteiro numa espécie de poema-imagético, o traço teria de parecer impreciso, retratar movimento no estático e etc, etc. Por outro lado, eu esperava que “Os Beats” fosse uma narrativa totalmente ficcional e deslumbrada retratando os anos 50/60 de uma maneira puramente subjetiva. Esse era o meu desejo mais profundo projetado na HQ, porque queria me afastar um pouco do movimento beat “histórico” ou até mesmo do modo de escrita dos historiadores. Esperava encontrar o modo de expressão beat na obra e pelo contrário, encontrei aquilo do que fugia: a história.

“Os Beats” é história em quadrinho, porém seria melhor definido como “História nos quadrinhos”. É uma obra que retrata brevemente a biografia dos principais participantes do movimento beat, dando destaque na primeira parte a Kerouac, Ginsberg e Burroughs e na segunda há personagens avaliados como menores para a história dos beats, sendo considerados por isso “perspectivas sobre o movimento”. Por exemplo, no caso das mulheres como Elise Cowen, desprezada pelos rapazes apenas por ser do sexo feminino, a roteiristas termina com uma perspectiva negativa a uma parte da mentalidade dos beats: “Elise era uma renegada entre os renegados.”

A HQ é muito interessante para quem não conhece os beats ter um primeiro contato com o modo de vida que levavam e sobre como chegaram a pensar como pensavam. Apresentei esse ano no EREH um minicurso sobre os beats, então não sou exatamente virgem no assunto e não gostei da abordagem historicistas da HQ apenas empilhando datas e acontecimentos de um modo irritante na primeira parte.

A primeira parte é extremamente pobre porque não passa de uma biografia cronológica desenhada dos que se configuraram como os três maiores personagens dos Beats. É chatíssimo o capítulo sobre Jack Kerouac, quase ausente das citações hipnóticas e extasiantes das obras do próprio biografado, perdendo absurdamente a chance de causar um efeito de catarse complementando o texto com desenhos insanos. Quanto a Allen Ginsberg, é interessante, mas não por causa dos roteiristas/desenhistas da obra, mas porque sua vida por si só já é uma loucura legal de se ler e o mesmo se pode dizer de Burroughs, o mais beat dos beats, traficante, assassino, dono de plantação de maconha e escritor apenas circunstancial que deu ao mundo obras como “Naked Lunch”.allen

Na segunda parte chamada de “Perspectivas” figuram breves biografias de personagens como Michael McLure, Philip Whalen, Rexroth, Gary Snyder, Robert Ducan, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Leroi Jones/Amiri Baraka, Charles Olson, Robert Creeley, Kenneth Patchen, Lamantia, Diane di Prima, Jay Defeo e Tuli Kupferbeg (com sua banda “The Fugs”). Cada um é retratado entre 3-5 páginas, só que essas 3 páginas geralmente valem mais que as 30 sobre a vida do Kerouac, por exemplo. Isso porque os personagens são poucos conhecidos e os desenhistas soltaram a mão em algo mais próximo do espírito daqueles loucos alucinados dos anos 50/60.

Considero “Os Beats”, uma obra de História nos quadrinhos, há quem considere isso positivo, no entanto acho uma péssima escolha a se fazer tendo em conta um tema tão rico como os anos 50/60. Mas vale a pena ler, tanto quem não conhece o assunto pra começar a entender, quanto quem já conhece, principalmente a segunda parte que nos apresenta personagens muito pouco conhecidos dessa época e que foram de fundamental importância no desenvolvimento e na abertura de perspectivas do que talvez tenha se configurado como o movimento cultural mais importante do século XX: o movimento beat.

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Comentários

  • Kiara Domit - @kiadd  On 31/10/2010 at 18:06

    Bom ler isso! Vi a HQ agora a pouco na Comix, me interessei e resolvi pesquisar. Tinha pensado em comprar, mas agora só quero mesmo dar umas folheadas pra ver essas histórias pequenas que vc falou.
    Boa resenha! 🙂

  • Alessio Esteves  On 01/11/2010 at 22:49

    Vou comprar mesmo assim…

    =P

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