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Near Myths #5 – The Checkmate Man (ou a morte de Marx e mais algumas pirações temporais)

E após superar a preguiça e falta de criatividade pra escrever pro blog, vou finalmente chegar à ultima edição da Near Myths, com a última participação do Morrison através de "The Checkmate man". E calma galera, esse post não vai discutir teoria, marxismo x pós-modernismo, blabla, ao menos não diretamente.

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No editorial da Near Myths #5 escrito pro Bryan Talbot podemos mapear o que o Morrison andava fazendo entre uma edição da NM e outra: ele planejava a construção de uma HQ de 100 páginas coloridas chamada "Abraxas", em parceria com Tony O’Donnell, Morrison seria o roteirista e O’Donnell o desenhista – até onde sei, o projeto fracassou e só foi parcialmente publicado 7 anos depois (1987); escrevia novelas; tocava numa banda de rock; escrevia e desenhava em STARBLAZER da DC; e ainda produzia "Captain Clyde" pra Govan Press. Pelo visto o careca tava aceitando qualquer coisa pra sobreviver, e dando seus pulos, arriscando tudo que podia como no caso do “projeto Abraxas” no intuito de atrair atenção do público e sedimentar seu nome enquanto roteirista.

The Checkmate Man

É um dia claro e frio. Um barbudo que nos parece familiar, com chapéu longo e casaco, sai do hotel carregando uma caixa. Ele ouve um zumbido e olha na direção do som. Uma bala é cravada na sua cabeça e ele tomba, derrubando a caixa, fazendo papéis voarem. Foi assim que Marx foi assassinado por “The Checkmate Man”.

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O nome do cara é Lyall Conrad, ele era um técnico em eletrônica trabalhando na construção da Viking V (uma sonda espacial que seria usada para explorar Marte), quando acidentalmente caiu da plataforma de construção e ficou entre a vida e a morte. O cientista Marcos, da NASA, reconstrói o corpo de Conrad, o transformando em um cyborgue e o colocando a serviço da CIA num programa de viagem temporal. É assim que Lyall Conrad se torna um assassino temporal.

Sua função? Reconstruir a história, eliminando figuras centrais que ameaçam o governo americano. Se ele se recusar a cumprir a ordens, Marcos, o cientista que o reconstruiu, pode desativá-lo apertando um botão.

Marx, Lincoln, Mao-Tse-Tung, Bobby Kennedy, Marylin Monroe, todos assassinados. A II Guerra Mundial foi encerrada em 1945, aumentando o poder americano sobre o mundo. O caso Watergate foi mantido oculto, o que aumentou o poder da CIA sob a presidência. Tornando o governo mais poderoso do mundo numa marionete da CIA.

O interessante em “The Checkmate Man” é uma vontade que o Morrison tem de matar principalmente os comunistas, o que deixa latente o período de guerra fria da época, em que o que o governo americano mais temia era o terror vermelho, no entanto talvez também esteja apontando que o projeto de Morrison para um futuro melhor, não era exatamente o caminho das tradições de esquerda.

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Para além disso temos também um personagem que é obrigado a trabalhar modificando a história ou será morto. Cada viagem que ele faz ao passado, quando retorna ao “presente”, o mundo está diferente, então, afinal de contas, quem é ele? Não existe mais marxismo (nunca existiu), mas ele sabe do marxismo; não existem mais os Kennedys, mas ele lembra deles. Isso vai fazendo o personagem começar a pirar, porque ele se torna uma espécie de fantasma do tempo. Ele tem os resíduos do que não existe mais dentro de sua cabeça.

Ele perde a identidade, não tem um lar, já que cada viagem feita o mundo se modifica. Então porque ele continua viajando no tempo? Se ele não tem um lugar pra voltar, uma identidade, se nada do que ele gostou um dia existe mais, qual o sentido de manter sua vida a qualquer custo?

A idéia do plot na verdade não é lá muito genial, acho que uma criança de 12 anos pensa sobre esse tipo de coisas às vezes. No entanto é o desenho tem o melhor traço do Morrison na Near Myths, e ele usa um plot bem simples pra se fazer perguntas que vão ser sempre interessantes: se pudermos editar a história como se fosse um filme em que cortamos as partes que não gostamos, o que nós seriamos? Como seria o mundo? Qual seria a graça da vida? A imutabilidade do passado e a imprevisibilidade do futuro é o que parece mais interessante, e não o seu oposto, como a CIA deseja fazer em “The Checkmate men”.

Entropias grant-morrisianas #3 – Gideon Stargrave e o fim dos tempos

Esta é a parte que mais me interessa em todas essas publicações do Morrison na Near Myths. Uma história sobre Gideon Stargrave publicada em 3 capítulos através de dois números da revista (nº3 e nº4). Aliás, é por causa de Gideon Stargrave que esta série de posts se chama “entropias morrissonianas”. Entropia é a palavra que faz parte dos plots relacionados ao personagem e que também será muito usada por Morrison no conjunto de suas obras. Entropia é uma forma de se chegar ao caos exatamente pela… super-concentração de energia. Digamos que socialmente quanto mais rígida é uma sociedade, maior vai ser sua desordem quando “n” fatores entrarem em descontrole. E com o “tempo” acontece algo similar, quanto mais o tempo se concentrar em uma dimensão, em uma realidade, mais próximo ele chegará de sua própria extinção. E o que acontece quando o tempo deixa de existir? Bem, vai lá se saber.

O personagem Gideon Stargrave foi baseado em "Jerry Cornelius", um personagem de Michael Moorcock. Uma espécie de assassino perigoso que viajou no tempo numa máquina defeituosa e acabou originando uma desordem no tempo-espaço.

Essa é a parte que mais me interessa porque comecei a pesquisar sobre as outras publicações de Grant Morrison justamente no intuito de compreender melhor a obra Os Invisíveis, que foi a primeira HQ do Morrison que li e que na época explodiu a minha cabeça. Muito do que seria desenvolvido nessa HQ que só iria começar a ser publicada em 1994, com Morrison já em relativa ascensão dentro da área dos quadrinhos, já aparece exposta nesses volumes de Gideon Stargrave de dezembro de 1978 e setembro de 1979 respectivamente.

A verdade é que todas as obras do Morrison se conectam de alguma forma na sua figura de administrador/criador do universo ou em sua característica mais marcante: o uso do caos e da desinformação como destruidor da aparente racionalidade e ordem da realidade. Isso vai estar presente tanto em seus roteiros mais mainstream (como Batman e Superman) quanto (e principalmente) nas obras mais introspectivas/autorais (como The Invisibles/ Filth).

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Near Myths #3 – Gideon Stargrave – Part I: The Vatican Conspiracy

A história começa com uma cena de um corpo em chamas. Trata-se de Joana D’Arc. De repente estamos num ambiente retrô-pop-futurista-psicodélico, com imagem até do Mickey e Donald em uma das paredes.

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Nesse ambiente uma moça acabou de entrar após tocar a campainha e encontra um cara de cabelos claro, tamanho mediano sentado numa cama (ou sofá?) limpando uma arma, ele tem a aparência de um veterano em combates, tipo ex-agente ou coisa do tipo.

Você é Gideon Stargrave? – pergunta a moça, com boina francesa e cabelo curto e escuro.

– Geralmente sim – ele responde fazendo charme. – Mas você sabe como são as coisas nos dias de hoje – completa fazendo a arma brilhar a colocando contra a luz.

Assim começa as histórias de Gideon Stargrave, que se não fosse pelo nível de loucura do enredo, não passaria de uma cópia quadrinesca de James Bond. Mas é muito mais, logo em seguida a moça diz que se chama Jan Dark e prontamente um padre explode a porta da casa e tenta matá-los, mas Gideon é mais rápido.

A menina falou que o “caos ameaça”. Gideon ri. Eles saem andando por Londres e Gideon acaba sendo baleado por um guarda real com… boca de pato! Segundo o guarda, eles estão em uma zona de entropia e por isso estão dentro de um perímetro em que as forças policiais podem matar livremente!

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A história toda é sobre CAOS. Algo está prestes a levar o mundo a um último nível de entropia e desarranjando o tempo. Arquétipos, traição, caos, engramas, poesias intercalando os cortes de cenários, conspirações, ressurreições, neuro-psicologia, anarquia, Londres, suicídio em massa… o fim do mundo pelo Ragnarok e entropia terminal. Tudo isso orquestrado pelo maligno papa do Vaticano tentando destruir esse mundo incrédulo, ateísta!! E Jan Dark faz parte do plano. O que Gideon Stargrave pode fazer quase sozinho?

Near Myths #4 – Gideon Stargrave – Part II: The Vatican Conspiracy

Nessa segunda parte Jan Dark e Gideon Stargrave partem em direção ao Vaticano, querem resposta para os acontecimentos recentes. Na neve enfrentam os capangas do Vaticano que os monitora em tempo real. Apesar de todos os esforços descomunais de Gideon, uns caras vestidos ao estilo Ku Klux Kan acabam levando Jan Dark e mais uma vez atiram certeiramente no ex-espião.

Atingido, caído no chão e abandonado, a neve cobre o corpo de Stargrave. Teria sido seu fim? Não, algo extremamente relevante pra quem curte os Invisíveis acontece, fora de si, Gideon se levanta ressuscitado ao estilo “mortos-vivos” no meio da neve! Então é aqui que Morrison cola na página um trecho de Rei Lear:

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Gideon Stargrave é um Tom! Um pobre e louco Tom, como Tom O’ Bedlam de Invisíveis! No capítulo anterior Gideon também invocou um espírito do “tempo”, para poder conter o caos que estava se expandindo em Londres, bem ao estilo Dane e Jack Frost! Seria uma espécie de espírito protetor? Bem, não quero com isso dizer que os dois universos (Invisíveis e Gideon Stargrave da Near Myths) sejam o mesmo, apenas quero salientar que desde o meio dos anos 70 Morrison já estava amadurecendo algo, algum esquema de realidade mágico-tecnologica-anarquica que só se concretizaria com Os Invisíveis.

Uma freira é enviada para finalizar com Gideon. Os homens do Vaticano sabem que ele não está morto. A freira tem o poder de arremessar matéria através de portais temporais e alcançar o caos de nível 0 (seja lá o que isso quer dizer)! Mas Gideon resiste à tentativa de rasgarem a sua concepção de realidade, consegue despertar do transe atinge a freira com uma bala. Agora ele precisa localizar Jan Dark!

Near Myths #5 – Gideon Stargrave – The Fenris Factor

Gideon invade o local onde Jan Dark está sendo torturada e ao estilo Bruce Lee (sim, há há há) derrota todos os caras vestidos ao modo Ku Klux Kan que trabalham pro Vaticano e liberta a moça.

Num quarto novamente com figuras pops (só reconheci agora o Che Guevara) Jan Dark revela ser Joana D’Arc. Ela diz que só seu poder pode derrotar “o lobo” e que por outro lado, apenas Gideon está destinado a derrotá-lo, então ela quer dar seu poder a ele. Os dois fazem sexo ritualístico e quando terminam, após absorver um poder maior que a vida e que a morte, Stargrave mata Jan Dark, sabendo que seu ciclo de ressurreição acaba ali.

Em seguida nos é apresentada a irmã de Gideon, que era dona do quarto em que ele e Jan Dark estavam. Ela é apresentada de maneira sexualmente provocante, se chama Genevieve e parece ser um trauma na mente de Gideon (creio que ela é aquela loiraça que aparece em The Invisibles em alguns momentos).

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Por fim Gideon invade o Vaticano e tenta interromper um ritual de invocação do Papa. Mas já é tarde, o lobo Fenris já foi invocado. O ritual libertou o filho de Loki da corrente mágica forjada pelos anões e agora ele vai cumprir sua missão de devorar o mundo. “Ragnarok, o fim de tudo no gelo e no fogo.”

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Gideon não se enfraquece e convoca as hordas dos infernos para ajudá-lo contra o lobo. Ele invoca Vine, Flauros e Andras! Três demônios muito conhecidos da demonologia medieval. Com ajuda dos demônios Gideon consegue derrotar Fenris, mas perde uma de suas mãos.

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No fim da página, tem escrito que no próximo número Gideon Stagrave retornaria com “The Entropy Concerto”. Uma fato que infelizmente nunca chegou a acontecer. Infelizmente mesmo, porque as pirações dessas histórias do ex-espião são muito interessantes, misturam mitologia, neuropsicologia, ciência e um monte de baboseira pop, além de frases de efeito e um mix religioso-cultural impressionante. Gideon retornaria apenas em Os Invisíveis, mas já em outro contexto dentro dos quadrinhos. Retornaria como parte de uma “hyper-narrativa”.

Os desenhos do Morrison aqui são muito melhores do que em Time Is A Four Lettered Word. A narrativa é tensionada o máximo possível pelos traços na tentativa de nos jogar dentro das entropias ou memórias confusas de Gideon. Enfim, claro que olhando de agora parece uma espécie de esquema do que seria “Os Invisíveis”, mas ver APENAS assim seria tirar o mérito de Gideon Stargrave em si. Talvez na verdade Morrison nem tivesse idéia do que lhe viria à frente, ou talvez já pensasse em alguns arquétipos de personagens como King Mob, quem diabos vai saber? Só fiquei surpreso em não haver comentários mais demorados sobre Gideon em Supergods¸ talvez o careca esteja evitando a confusão que o personagem causou. Gideon é considerado por alguns apenas plágio na cara dura de Jerry Cornelius, o já citado personagem de Moorcock.

Entropias grant-morrisianas #2 – Time Is A Four Lettered Word

“Time Is A Four Lettered Word” publicado em outubro de 1978 na edição nª. 2 da Near Myths foi a primeira obra pela qual Grant Morrison recebeu alguma grana pra fazer. Este seu primeiro trabalho “profissional” contou com apenas cinco páginas e ainda eram no final da revista, o que deixa claro que entre todos os outros autores ele era o menos prestigiado. Até porque era novo na equipe. Na edição nª. 5, o último suspiro da Near Myths no mercado de quadrinhos britânico antes de morrer asfixiada, a magistral história “The Checkmate Man” de Morrison seria a primeira da revista, deixando registrado o quanto ele convenceu o público e os editores quanto a qualidade de se não seus desenhos, pelo menos seus roteiros.

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A Near Myths era uma revista pequena e seu caráter inovador na questão da mudança de foco dos super-heróis para público infantil, agora redirecionado para ficção científica para adultos, não era muito promissora nas perspectivas de vendas, então era normal que o editor só pegasse trabalhos completos de um artista ou outro e publicasse. Se houvesse divisão do trabalho entre roteirista e desenhista, isso iria significar mais grana a se pagar; ou pros artista, menos a se receber porque teriam que dividir. Então enquanto publicava na Near Myths Morrison tanto desenhava quanto criava os roteiros. Ele queria trabalhar com quadrinhos, exatamente em qual das duas áreas ele ainda não tinha se decidido.

Grant Morrison era o “cara de Glasgow”, como Rob King diz no editorial da ed. nª. 2. Ele ainda aponta que no próximo número, Grant iria começar uma série de histórias chamada “Gideon Stargrave”, que era seu trabalho principal. “Gideon Stargrave” era aquele trabalho apresentado por Morrison a Rob King na Primeira Convenção de Quadrinhos de Glasgow, quando ele procurava desesperado por uma oportunidade.

Mas afinal de contas, do que se trata “Time Is A Four Lettered Word”?

Do fim do mundo através paradoxos temporais/dimensionais, como quase tudo que Morrison trabalhará depois. Desde o princípio, como nessa obra, ele está envolvido com noções como “saturação do tempo”, no entanto nessa história, esse plot é enfeitado com toques da mitologia celta.

A narrativa é dividida em três histórias localizadas em tempos e situações diferentes que se passam confusamente misturadas nas mesmas páginas. Eu achei a arte horrível e confusa demais até pra coisas complicadas como paradoxos temporais… Morrison pode ser um bom desenhista de esboço, mas não de obra final. Dizem que ele tem vergonha desses trabalhos iniciais, porque ele não costuma mencionar, diz apenas que trabalhou pra Near Myths, no máximo comenta sobre Gideon Stargrave, porque o personagem se tornaria importante na trama de Invisíveis.

Em “Time Is A Four Lettered Word” a primeira narrativa é sobre Beachdair, um guerreiro que vai até a Stonehenge atrás do Deus Chifrudo e encontra uma mulher estranha por lá. Ele não aceita a presença da mulher naquele local sagrado dos druídas e quer retirá-la, através de ameaças, a mandando de volta aos campos da “deusa mãe”. A mulher o chama de tolo e diz que a “deusa mãe” está presente ali e que “o ciclo agora está terminando”.

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O segundo plot é o principal, se passa em 1982, nele tem um cara chamado Quentin e uma bruxa nomeada de Dana, que analisam pontos de saturação no tempo. Quentin descobre que todo o mundo está prestes a entrar numa transbordação temporal generalizada.

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A terceira narrativa é sobre, (aparentemente) um druida (“heathen slut” pra sacerdotisa) que vê uma sacerdotisa da deusa da colheita (Corn Maiden) tomando banho num rio em um período sagrado no qual ela não pode ser tocada (May Day) e a estupra.

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Quentin e Dana acabam parando na Stonehenge. Eles encontram lá uma força guardada por milhares de anos, uma força mágica contida que parece estar esperando por algo, que eles não sabem o quê, para ser liberta. E descobrem tardiamente que são eles mesmos os últimos elementos do quebra-cabeça que desencadeia o poder da Stonehenge. Juntamente com eles a combinação é completa pela presença de Beachdair no local e o sangue do druida que violentou a sacerdotisa, ambos em outras temporalidades. No penúltimo quadro da HQ vemos as três mulheres juntas, talvez sejam a mesma pessoa… talvez sejam justamente a “deusa mãe” pela qual Beachdair tanto pedia para encontrar. E no último quadro, uma visão em perspectiva do universo, talvez para dizer que o tempo havia se extinguido, ou reiniciado, naquele instante.

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Em geral “Time Is A Four Lettered Word” é muito confusa. Há uma deficiência de Morrison em tentar contar três histórias de uma vez. O roteiro é mais ou menos bem interligado, apesar de cortes bruscos e pouquíssima explicação de qualquer coisa, mas o que atrapalha mesmo é a incapacidade do desenho transparecer sequer a diferença anatômica entre os personagens… talvez por isso em geral, esse seja um trabalho que realmente Morrison não queira lembrar muito. De qualquer forma, é importante pra trajetória de Morrison porque já estão dispostos nesse primeiro trabalho temas que serão bem abordados em seus trabalhos futuros, tanto na Near Myths como em outras editoras maiores, que nesse momento ele nem sonhava que poderia um dia fazer parte.

(a próxima análise será de Gideon Stargrave no nª. #3 e /#4 da Near Myths)

Entropias grant-morrisianas #1 – Near Myths

Começo aqui uma série de posts sobre a produção do Grant Morrison. Desejo, se for possível e se a paciência deixar, analisar desde HQs mais obscuras como Bible John – A Forensic Meditation, Kid Eternity, The New Adventures of Hitler, Kill Your Boyfriend, Dan Dare e The Mystery Play, até as mais populares como SuperMan All Star, Liga da Justiça da América, The Invisibles e New X-Men.

Como não poderia ser diferente, vou começar do princípio da carreira de Morrison, que pode ser considerada como sendo as suas contribuições à revista Near Myths. Quando for preciso explicar algo além dos quadrinhos em si, como agora em relação a Near Myths e ao contexto histórico em que a obra foi produzida, farei posts específicos. Usarei de base para isso entrevistas e declarações do autor em documentários, revistas, blogs e principalmente no seu livro, Supergods.

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A Near Myths foi uma revista em quadrinhos de ficção científica e fantasia para adultos que durou apenas cinco edições, com a primeira sendo de 1978 e a última de 1980. Apesar de uma vida tão curta em relação a outras revistas, ela teve um papel relevante na indústria dos quadrinhos britânicos, seja por ter sido o primeiro emprego relativamente profissional na área que Grant Morrison teve, ou por ter dado destaque a outros artistas como Bryan Talbot e Graham Manley.

Na primeira Convenção de Quadrinhos de Glasgow, Morrison estava com sua auto-estima elevada, ele a pouco tinha se tornado punk. Ser punk, aquela idéia do “faça você mesmo”, da importância da atitude em detrimento do profissionalismo, o fazia sentir capaz de qualquer coisa, tinha revivido sua paixão pelos quadrinhos. Foi então que Morrison decidiu levar alguns de seus trabalhos, mais especificamente tiras de Gideon Stargrave, para a convenção na tentativa de arrumar algum lugar pra trabalhar. Lá ele encontrou Rob King:

“Rob King simplesmente gostou das minhas páginas e imediatamente me ofereceu £ 10 para cada uma que ele colocasse na Near Myths. Pela primeira vez na minha vida eu estava sendo levado a sério por alguém que não fosse minha mãe ou pai, ou cinco anos mais novo do que eu.” (Supergods – Capítulo 11)

Tony O’ Donnell, que também tinha acabado de ser aceito na Near Myths, disse que ao ver o trabalho de Morrison teve que admitir a Rob King a sua genialidade, principalmente após saber que Morrison tinha apenas 17 anos de idade!

A Near Myths era editada por Rob King. E Rob King era um dos donos de uma livraria especializada em ficção científica na cidade de Edinburgh. O fim dos anos 70 eram anos confusos, a utopia da geração hippie pouco se sustentava depois que a década de 60 não mudou o mundo, o que deu brecha para o punk criar novas bases comportamentais entre a juventude, deixando claro que as coisas estavam mudando como um todo. Não mudando revolucionariamente, ou para melhor como a geração anterior queria, mas estavam mudando à sua própria maneira e os quadrinhos não ficariam de fora desta mudança.

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A importância de relacionarmos a paixão de Rob King por ficção científica com sua função de editor da Near Myths é simples: sua revista em quadrinhos não era de super-heróis normais, era uma revista acima de tudo de ficção científica. O que apontava prematuramente para o gênero que com Neuromancer e Star Wars, por exemplo, dominaria todas as mídias na primeira metade dos anos 80. Além disso, o público alvo da revista eram os adultos, contrariando toda a lógica da época que focava principalmente em capturar crianças e adolescentes.

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Se a Era de Prata acenava a decadência do gênero horror nos quadrinhos –levando pra cova as histórias de detetives também-, o fim dela acenava a decadência de todo o gênero dos super-heróis. No instante em que os super-heróis foram jogados na sarjeta por “Watchmen”, a ficção científica se tornou o combustível que manteria os quadrinhos em movimento. Ficção científica e tecnologia tinham muito mais a ver com o punk e a nova geração do que heróis cuecudos salvando o mundo. Para Morrison durante essa época “quadrinhos e super-heróis eram entediantes. Eu era sci-fi punk. Foda-se”.

As contribuições de Morrison na Near Myths (e que vou analisar uma delas por semana, postando nos sábados aqui no NerDevils) foram:

#2 – Time Is A Four Lettered Word

#3/#4 – Gideon Stargrave

#5 – The Checkmate Man

Fontes:

Interview with Morrison about his early work including Near Myths:

http://homepage.ntlworld.com/fish1000/index/lostcontent/gm-afterimage6-jan88.txt

Interview with Tony O’ Donnell – comic artist (Ivy the Terrible and early collaborator with Grant Morrison): http://www.garenewing.co.uk/home/writing/tony.php

Lançamento do livro “Vagabundo sem nome”!

Dando mais uma amostra de vasta influência cultural deste blog e do profundo esforço intelectual dos autores do mesmo, o nosso querido Agostinho Rodrigues Torres (vulgo Agrt) lançou no última dia 16 (estamos no mês de setembro do ano de 2011, caso esteja acessando este blog após o fim do mundo em 2012) o seu romance “Vagabundo sem nome” e posto abaixo dois vídeos dele comentando sobre o que fala sua obra e do processo para escrevê-la.

Parte 1

Parte 2

Parabéns e ficamos na espera de quando vai vender pro país todo, né?

PS: Agradecimentos especiais ao Vinícius pela filmagem!!

Supergods: O que um careca escocês pode nos ensinar sobre quadrinhos?

Se você pegar o encarte de Supergods, o primeiro livro do escritor Grant Morrison, vai encontrar a seguinte citação de Stan Lee: “Grant Morrison is one of the great comic writers of all time. I wish i didn’t have to compete with someone as good as him” se Jack Kirby estivesse vivo, provavelmente diria: “cai dentro!”, mas a verdade é que sem Lee ou Kirby, não existiria Morrison, ao menos não da forma como conhecemos.

Supergods é a primeira empreitada do escocês careca na literatura convencional, neste livro, o mesmo busca desenvolver – sem pretensões acadêmicas – suas visões profissionais, ideológicas e espirituais sobre o meio, analisando o espírito de cada época assim como desenvolvendo um paralelo biográfico.

O livro começa no início do século passado, no auge dos males daquela época, a Grande Depressão, a Bomba e a sombra de Adolf Hitler pairando sobre a Europa e assim Morrison toma seu tempo para explicar, de forma empolgada e eletrizante, o advento do Super-homem e o início da Era de Ouro das HQs.

Logo de cara, podemos detectar a principal falha do livro, a constante perda de fôlego que Morrison exibe em sua dissertativa, capítulos como “The Sun God and The Dark Knight” ou “Superpop” apresentam não apenas um nível alto de argumento, como também humor e atmosfera, mas em compensação, em demais outros, o escocês patina, como se entrasse em um modo automático, preenchendo lacunas até chegar em um ponto mais pertinente.

É espantosa a intimidade do autor com o meio, conhecendo a essência criativa por trás das principais obras e as motivações dos escritores e desenhistas da época, Morrison inclusive, trata com carinho períodos “negros” da indústria, como a Era de Prata, enfatizando o esforço criativo da época em contornar ou criticar o Comics Code Authority.

Interessante analisar como Morrison “distribui” a culpa dos eventos que levaram à Era de Prata, não apenas evidenciando de forma sardônica certos sentimentos enrustidos de Frederic Wertham, autor do controverso “Sedução dos Inocentes”, onde argumenta que a degeneração moral da juventude norte-americana se encontra, em partes, nas HQs.

Assim como a indústria de HQs na época, incapaz de realizar uma contingência de reação perante a opinião pública e o próprio declínio criativo dos artistas da época.

Entre os capítulos mais louváveis dessa fase, é “Shamans of Madison Avenue” e o surgimento de New Gods por Jack Kirby e o início da “meta-espiritualidade” nas HQs e “Brighest Day, Blackest Night” onde Dennis O’Neil em Green Lantern/Green Arrow evidenciou as inquietações sociais americanas e mostrou o quanto isto era contraditório à proposta do CCA.

Para os leitores atuais, é engraçado perceber como Morrison evita comentar sobre a Marvel Comics, como se o autor – por uma série de razões até mesmo editoriais – se sentisse desconfortável para comentar sobre a editora concorrente.

Claro, o livro não deixa de dar mérito pra importância de títulos como Fantastic Four, Spiderman e Captain America, mas como o próprio Morrison afirma em suas notas biográficas, ele achava que os títulos da Marvel tinham uma certa dose de realidade que ele considerava intragável para sua infância.

E o mesmo reconhece que foi em Stan Lee, que surgiram diversas das suas inspirações, como a idéia de trabalhar metalinguagens em trabalhos como Animal Man e Doom Patrol na DC/Vertigo.

A parte biográfica é um show a parte, e em diversos momentos considerei mais atraente que a própria proposta do livro, desde sua infância pacata em Glasgow, o crescente tédio na adolescência, o divórcio de seus pais e sua inevitável empreitada no mercado editorial, assim como o início da fama, com Zenith na 2000 AD, seu contato com as drogas, o vegetarianismo, as experiências lisérgicas e sua primeira crise existencial, há quase duas décadas atrás.

Claro que o livro reflete os maneirismos criativos de Morrison, a relação entre espiritualidade e cultura pop é amplamente explorada, exemplos como o dualismo Apolo/Dionísio entre Superman/Batman, a questão de símbolos e palavras mágicas e ai o mesmo argumenta que Captain Marvel, ao pronunciar “SHAZAM”, se tornou o primeiro grande xamã da ficção moderna.

A verdade é que, tirando suas discussões sobre a Era de Ouro e de Prata, se o leitor conhece a obra recente de Morrison, então pouco sobra do livro, em muito, o livro é considerado um manifesto em prol da edificação do arquétipo super-heróico.

Na terceira parte do livro, Morrison prefere chamar a “Era Moderna”, iniciada por Frank Miller e Alan Moore como a “Era das Trevas”, onde se deu início a uma obsessão pelo “realismo” nas histórias, trazendo o vício insalubre que ficou conhecido pela crítica como “grim n’ gritty”

Morrison condena o “realismo” por duas instâncias: primeiro, pois ele é fruto de uma mente adulta e limitada pelas vicissitudes do cotidiano adulto, e que, por fim, o mesmo não passa de um exagero de violência e repreensão sexual que visa não transformar as histórias em algo real, mas sim “desmoralizá-las”.

E ai o escritor reforça sua crítica em cima de “Watchmen”, onde de forma ambígua, elogia o esforço criativo de Alan Moore em talhar sua história em uma “perfeita simetria”, mas condena a obsessão do barbudo com suas personagens, deixando bem claro que “realismo” não é sinônimo para “fatalismo”, “humanizar” personagens não é o mesmo que “humilhar”.

Alguns fóruns acusaram que o livro, levando em conta a recente reformulação do Universo DC, se tornou um golpe publicitário, é importante frisar que Morrison tem dado uma série de entrevistas sobre o futuro criativo da editora, roteirizando três dos personagens mais importantes da editora, a famosa “trinidade” composta por Superman, Wonder Woman e Batman.

Em diversos momentos, Morrison argumenta a inspiração popular, quase socialista do Superman de 1938, assim como os fetiches BDSM de William Moulton Marston, o escritor original de Wonder Woman, idéias que ele afirmou que vai retomar e por em prática em trabalhos futuros.

Não é mentira que a ascensão do escocês tem causado incomodo no público e na mídia, vamos ser sinceros quanto a um ponto, Grant Morrison é um nerd que vive seus quinze minutos de fama, com livro e documentário, onde muitos optariam por sofrer uma “síndrome do undeground”, Morrison busca através dessa visibilidade dar uma projeção maior a seus projetos e idéias.

Supergods é o início do que pode ser o “próximo passo” do mercado de HQs, da mesma forma que Kirby, Lee, O’Neil, Moore, McFarlane e tantos outros contribuíram com o futuro do meio, só o tempo poderá nos dizer sobre o êxito dessa empreitada.

Ficam aqui meus votos para o fim dos anti-heróis carrancudos e a volta das capas esvoaçantes e heróis sorridentes, assim como no passado, esses são tempos em que mais do que nunca, precisamos deles novamente.

Anarquia nos Quadrinhos #2: O Caos Invisível

[Versão Sem Cortes do texto originalmente publicado no Farrazine #18]

 

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King Mob coloca seu capacete/chapéu absurdamente estranho e estiloso – de origem desconhecida e mística – e parte para invadir uma instituição educacional que nada mais é do que um centro de doutrinações e lavagens cerebrais. Lá dentro está um adolescente problemático e desbocado que pode ser o integrante que faltava para o grupo secreto de KM cumprir seu objetivo de livrar o mundo de vilões transdimensionais que desejam o poder absoluto. Antes disso, King Mob invoca John Lennon para pedir uns conselhos, num dos momentos mais psicodélicos dos quadrinhos. No caminho, ele combate um ser que transfere sua consciência para insetos e abandona o Jovem Escolhido para ser iniciado pela sabedoria urbana… tudo fluindo numa velocidade insana.

Quando perguntado, em 1994, qual seria o tema de Os Invisíveis, Grant Morrison respondeu com um simples Tudo! Não é uma definição exagerada ou por demais pretensiosa, mas é unicamente o autor dizendo que não estava preso a amarras estéticas ou narrativas, que permitiu-se viajar sem medo da liberdade. E ele fez questão de realmente incluir tudo que passava na cabeça dele dentro da obra, um exemplo de pós-modernismo balanceado e acelerado, algo como um livro de Thomas Pynchon com quadrinhos. De forma bastante consciente, Os Invisíveis é uma espécie de tratado de Morrison sobre como ele imagina o mundo, recheado de metáforas e elementos metafísicos, além de ser carregado de religiões pouco convencionais. No intercurso de sua luta contra os Arcontes – os vilões da série -, a célula londrina dos Invisíveis viaja no tempo, convoca deuses aztecas, tem seus membros presos e torturados, troca idéia com loas do vodu… enfim, se furtam de todos os elementos a sua disposição para continuarem sua cruzada. Se não fosse o experimento da dúvida que Morrison suscitou ao dizer que a obra é uma mistura de experiências auto-biográficas com textos que ele recebeu de ETs quando foi abduzido em Katmandu, pode-se imaginar que se trata apenas de uma vasta maluquice caconarrativa intensa. Mas existe ali um método, uma forma de combate que muito aproxima a célula dos Invisíveis de teorias (anti)políticas modernas. Os Invisíveis são anti-heróis, da mesma forma que os anarquistas modernos são anti-políticos.

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Resenha: The Filth e nossa imundice cotidiana

Volta e meia eu pego aquela discussão doméstica, uma criança põe algo na boca, um objeto estranho, estrangeiro ao corpo, anômalo a moral higienista de nossa sociedade, a criança esfrega esse objeto – inseto, cocô, uma peça de lego – na boca, passa a língua, engole, muitos dizem que isto é anti-higiênico, nocivo ao corpo, que a criança inevitavelmente irá contrair uma doença. Esquecemos da natureza sobrevivente do nosso organismo, o constante convívio com germes e bactérias, coisa que o fortalece, o torna mais resistente para encarar as mazelas externas, talvez a educação de exclusão de uma mãe mais preocupada, de fato, poupe o filho de um resfriado ou outro, mas em longo prazo, qual é o benefício disso?

Talvez, um paralelo pertinente a esta questão seja nossa exposição no ambiente urbano, aos dromológicos construtos culturais, buzinaço na hora do rush, junk food, vagões de trem lotados, pornografia, a desagradável música saindo de telefones celulares, exista quem irá dizer que isso é desagradável ao ser humano, que nós estamos, de pouco em pouco, findando nossas vidas nesta desordem sem fim.

Em tempos onde se discute xenofobia de forma tão entusiasmada, vale lembrar que o número de organismos não nativos que habitam seu corpo excede em 10 vezes aquelas células que nasceram c/ você.

E se, em contrapartida, toda exposição a este lixo nos reforçasse, seja em crivo cultural ou até mesmo em maior tolerância para jornadas de desconforto,  que toda a doideira cotidiana nos ajudaria a alcançar um estado de psico-blasé? A premissa inicial de The Filth, roteirizado por Grant Morrison, trata deste assunto.

A história começa com o protagonista, Greg Feely, cujo suas únicas preocupações cotidianas são colecionar pornografia e cuidar de seu gato de estimação moribundo, descobrindo que na verdade, sua personalidade é apenas um constructo para o agente Ned Slade, membro de uma organização conhecida como “The Hand”. A “The Hand” é liderada pela enigmática Mother Filth, e sua função é a preservação daquilo que eles chamam de “Status: Q” (O status quo).

A premissa, a partir daí, é contrária a outras obras do autor, como The Invisibles, se nesta, King Mob e sua trupe revolucionária descobrem, de forma amarga, que a revolução é órgão integrante do sistema, em The Filth, Greg/Ned, a contragosto, encarnam o papel do policial, do lixeiro, agência sanitário ontológico.

O Status: Q é ameaçado por aquilo que a agência denomina “Anti-pessoas”, experimentos falhados, seres de outras dimensões, coisas e criaturas capazes de ameaçar a população e o bem estar geral, como um agente sanitário, Greg/Ned e sua equipe são enviados para conter e posteriormente limpar a ameaça.

O Clima da história é denso, pesado, sendo integrante do selo Vertigo, Morrison permitiu transparecer cenas de agonia e crise existencial na trama, é uma HQ inspirada no clima de transição do início do século, paranóia, poluição sinestésica, solidão, a catarse da rotina pós-moderna através do exploitation, o próprio Morrison, em entrevista ao Comic Books Resources, afirma que escreveu The Filth durante uma fase ruim de sua vida, o que transparece em Greg/Ned, que da mesma maneira que tanta digerir as loucuras proporcionadas por sua vida dupla de agente, tem que conciliar isto com seus temores cotidianos, como a doença de seu gato e o vício por pornografia.

Aos poucos, Greg/Ned – e os leitores -aprendem sobre a natureza doentia do universo, e caso entendam a proposta do roteirista, buscam através de todo pessimismo e negatividade, construir algo melhor para o próprio espírito, o desfecho dessa série, em treze edições, não poderia ser outro, redentor…

Claro que como estamos falando sobre Morrison, nós vamos presenciar as habituais viagens do escritor, espere coisas como: “Planeta Bonsai” ou “Terrorismo Pornográfico”, espermatozóides gigantes, tentáculos, golfinhos gigantes cibernéticos e até alguns elementos corriqueiros desta fase do escritor, já vistos, por exemplo, em Homem Animal e Patrulha do Destino.

Começar a ler The Filth, é como ser apresentado a um remédio, antes do primeiro capitulo, somos confrontados por uma “bula médica”, posologia de HQ, contra-indicações, efeitos adversos, e então, a administração da dose, bom, no meu caso, dores excessivas nas costas e em determinado momento, engasgo com a própria saliva, ai então, percebi que era hora de parar a leitura…

Talvez a “sujeira” em The Filth seja mínima hoje em dia, com a esquizofrenia da cultura pop e a natureza blasé de seus consumidores, mas The Filth ainda não deixa de ser uma boa leitura, ainda mais pro público recente, que assim como eu, desconheceu uma fase tão célebre da Vertigo Comics.

A Síndrome de Peter Pan nas HQs Adultas.

Eu detesto quadrinhos “adultos”, sério, o próprio termo “adulto” soa como uma atitude pretensiosa e ignorante, tanto da parte de quem escreve quanto da parte de quem consome este tipo de qualificação e erroneamente traduz como “material de qualidade”. Um quadrinho comercializado como “adulto”, é, no máximo, um quadrinho adolescente.

Não que seja uma adolescência, onde, com bom humor, traduz a jovialidade que reina a mentalidade de toda uma indústria, é uma adolescência no sentido de busca por afirmação, onde por falta de tato, deslizes básicos são cometidos, coisas, que a gente – em tom descontraído – chamamos de “coisas de moleque”.

Então eu pego aquela edição de 100 Balas, do Brian Azzarello e vejo alguns halterofilistas trocando balas enquanto alguma mulher de topless aparece correndo no meio da confusão, ok, eu penso “e isso é adulto…?” Se “adulto” na HQ, contrasta com a noção de não ser ingênuo, tudo bem. Agora dizer que a obra alcançou um nível de “maturidade”? Não.

Em nenhum momento eu desmereço o prazer em ler 100 Balas (pelo contrário, eu adoro The Boys, Crossed e etc.), mas em seu roteiro, desculpem o bom humor, é tudo que eu buscava (tá, ainda busco, quando o tempo permite…) quando jovem em filmes de ação descerebrados e pornografia softcore.

Alem do rumo “testosterona”, existe outra corrente, uma que busca “amadurecer” histórias através de uma releitura c/ atmosfera mais opressiva/pertubadora, para muitos casos, “dark”, está, é relativamente mais antiga, ainda no terreno da Vertigo, quem se lembra de Kid Eternidade?

O problema não foi Grant Morrison transformar o protagonista em vítima de abuso sexual, mas sim a sua abordagem, ele apenas “foi” e pouco se ramifica as extensões deste fato, tanto leitor quanto roteirista mínguam de oportunidades para ponderar sobre isto.

(mesmo em outras obras, Morrison ganha pela riqueza e carisma, o nível informacional de uma obra não é sinônimo para uma boa trama, o próprio “Os Invisíveis” demorou muito tempo até que, com própria autocrítica do autor, alcançasse esse patamar)

Então, quando se trata de roteiros “adultos”, eu me aproximo um pouco mais de Brian K. Vaughan, em especial, Y: The Last Man e Ex Machina, ambos detentores de argumentação rica, traçam um perfil sobre vida política, antropologia, sexualidade.

O Próprio protagonista de Ex Machina, o super-herói transformado em prefeito de Nova York, Mitchell Hundred, lida, em paralelo a uma trama de Sci-Fi, com a responsabilidade de gerir uma das maiores cidades do mundo, influenciando diretamente na vida de seus habitantes

“responsabilidade”, talvez seja este o fator de critério para distinguir um roteiro adulto, recentemente tive a chance de desenvolver um interesse por shoujo manga, em especial aqueles escritos pela Ai Yazawa, e neles, ficam evidentes a idéia de personagens que encaram os fatos.

Por trás dos traços suaves e figurino extravagante, o mangá Paradise Kiss trata sobre isto, uma protagonista buscando emancipação, amadurecimento, fazendo escolhas e arcando com as conseqüências (e olha que, o mangá sequer é destinado ao público adulto).

Você pode argumentar, que o “adulto” é uma evolução em relação ao maniqueísmo e infantilização que esta mídia sofreu no passado, acredito que seja infeliz entender que uma antítese seria a resposta mais apropriada.

Claro, sempre existirá um fundo lúdico, nós, como humanos e seres sociais, somos viciados na narrativa, e que também eu não sou nenhum velho sisudo incapaz de descontração, mas que é um erro muito grande por parte das editoras e público disseminador divulgar tais obras como “adultas”, sem antes, refletir sobre suas intenções.

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