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A Árvore da Vida: o peso da autoridade na psique humana

 

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Para início de conversa, vou tratar de deixar uma coisa bem clara: acho os filmes de Terrence Malick bem chatos. Ele é basicamente um Stanley Kubrick pelo seu estilo caaaaaaaaalmo, com cenas longuíssimas, um belo trabalho com planos e movimentos de câmera e um senso de estética perfeccionista quase absoluta. O resultado é uma filmografia curta, com apenas seis filmes, apesar dos quarenta anos de trampo do texano. Porém, Malick passa uma imagem de inocência – assista O Novo Mundo e me diga o que achou -, além de dar a impressão de que acha que seus filmes são maiores do que ele próprio, o que sempre resulta em falta de coesão em seus trabalhos.

A Árvore da Vida, seu mais novo filme, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, é um filme bem estranho. Ao mesmo tempo em que mantém o estilo visual-contemplativo clássico de Terrence Malick – em dose suficiente para ser incensado pela crítica -, o filme não possui uma linha narrativa linear, ou mesmo qualquer vestígio de uma história definida – o bastante para atrair pedradas de detratores do diretor. O resultado é um filme excelente em diversos momentos – ao ponto de se aproximar do incerto status de obra-prima – que é entrecortado por cenas bem entediantes.

O filme narra a relação familiar de Jack – uma espécie de personagem clássico da psicologia freudiana -, espremido entre a autoridade excessiva do pai e a bondade da mãe. O longa-metragem não possui uma história central, mas é uma construção muito bem feita de memórias e divagações de Jack, no presente um adulto amargurado, ao mesmo tempo que mostra a origem do Universo e da vida.

Em outras palavras, o filme tinha tudo para ser uma obra-prima inesquecível, mas não passa de uma tentativa de Malick de repetir o sucesso do igualmente arrastado Além da Linha Vermelha – filme com o melhor elenco já reunido na história do cinema, colado com O Poderoso Chefão. A primeira coisa que vem a mente com o estilo adotado por Malick é 2001 – Uma Odisséia no Espaço, mas sem a carga filosófica universal empregada por Stanley Kubrick para construir sua jornada que percorre toda a história do mundo – embora empregando Douglas Trumbull, supervisor de efeitos especiais de… 2001.

 

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Porém, Malick utiliza diversos truques técnicos para demonstrar de que forma seu filme se diferencia do épico de Kubrick. O mais aparente deles é a câmera, sempre à altura dos olhos de um adolescente, uma forma clara de ressaltar mais uma vez o peso da autoridade hierárquica paterna na formação da personalidade humana. Outra delas é a narração filosófica dividida entre Jack e sua mãe, polos quase opostos de um cabo-de-guerra familiar.

Apesar do notável equilíbrio entre esses dois conceitos relaxadamente abordados pelo filme, o destaque de toda a obra é a relação familiar, que se sobressai até mesmo às ótimas interpretações de todos os atores – que poderiam ser mais notáveis se o tempo em tela dado a eles fosse maior. Pela forma mostrada por Malick, o peso autoritário da relação pai-e-filho é viva, não depende de agentes para ser passada adiante… é quase uma obrigação na criação de rebentos.

Na visão do filme, o autoritarismo não provém do pai de Jack – vivido por Brad Pitt -, ou mesmo da rigidez social dos anos 1950, ainda mais no Texas, mesmo estado onde foi criado o próprio Malick, acrescentando toques autobiográficos ao longa-metragem; mas sim da própria relação orgânica entre pais e filhos. Nesse cenário, Pitt se destaca por conseguir criar um personagem aprofundado, pois mesmo com modos próximos aos militares – ressoados pelo passado dele, que foi marinheiro -, seus momentos carinhosos são redentores, e se somam aos seus discursos sobre querer fortalecer os filhos para a vida. Ou seja: se o autoritarismos não parte dele, mas da próprio vida, de forma muito mais cruel. O pai é como uma vacina para a vida, um mal menor para evitar que o filho seja destroçado pela vida.

A visão do filme é abertamente religioso-monoteísta, uma espécie de equilíbrio entre castigo autoritário e redenção, uma dicotomia exposta na relação entre os caminhos da vida – o amoroso da Graça e rígido da Natureza. Entretanto, mesmo os não-religiosos terão uma experiência reconfortante, embora em níveis de intensidade diferentes, já que toda a estrutura do filme é baseada no uso de símbolos nem sempre universais, mas que buscam provocar reações adversas nos expectadores.

 

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Apesar dessa porção religiosa, o próprio Deus Todo-Poderoso é uma ausência no filme, mesmo que algumas cenas desempenhem um papel mais metafísico, por exemplo quando a Sra O’Brien é vista voando em uma dança particularmente envolvente ou na aparição de vitrais espiralados. O “Deus” do filme é a relação paterna exposta na dicotomia do carinho da mãe e a rigidez do pai, uma mostra das faces divinas do “deus” cristão, em sua construção do Velho e do Novo Testamento.

Para uns, A Árvore da Vida é uma sucessão de imagens de primeira que carecem de conteúdo que as tornem vívidas, enquanto para outros é como um despertar místico-religioso completo. Para mim, o filme ficou no meio do caminho e fugiu do rótulo de “ame ou odeie” – é uma bela construção visual e estética, mas é desnecessariamente enfadonho em outros momentos, o que contribui para tornar o filme uma experiência interessante, porém esquecível.

Uma pena, pois a forte pretensão de Malick parecia que finalmente ia tornar um filme dele excelente.

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O Homem Animal do Novo 52 da DC Comics

Buddy Baker não é um herói qualquer, ele é o Homem Animal, ex-dublê de cinemas, super-herói de carreira e ativista dos direitos dos animais, ele emprega sua capacidade de imitar – em larga escala – características de diversos animais de nosso planeta para combater o crime e a injustiça.

Homem-Animal (ou Animal Man para os gringos) ganhou status de cult no universo de sua editora, a DC Comics, após vivenciar um período mais experimental na década de noventa nas mãos do escritor Grant Morrison, que escreveu histórias que hoje são consideras verdadeiros clássicos dos quadrinhos, como “O Evangelho Segundo o Coiote”.

Grant Morrison, conhecido por ser vegetariano e defensor dos direitos dos animais, refletiu diversos de seus argumentos políticos no personagem ao longo de sua estadia na série, quando a série passou para o selo Vertigo, conhecido por suas histórias mais maduras e ousadas, o escritor Jamie Delano, que teve uma ótima fase em Hellblazer, tomou as rédeas do personagem, atribuindo novos elementos místicos e aproximando a narrativa da série para as histórias de terror e suspense.

Quando veio a notícia esse ano que o universo criativo da DC Comics sofreria um “reboot”, ou seja, um reinicio em sua continuidade, entre seus cinquenta e dois títulos anunciados, constavam diversos títulos estrelados por personagem que passaram pela Vertigo e a Wildstorm, entre eles, uma nova revista estrelada pelo Homem Animal.

A dupla criativa dessa vez é Jeff Lemire assinando o roteiro e Travel Foreman no desenho, Lemire é bastante conhecido no selo Vertigo, principalmente pela série Sweet Tooth, ainda sem previsão para ser publicada no Brasil.

Logo na primeira edição Buddy Baker é apresentado ao leitor na forma de uma entrevista da revista independente “The Believer” – o que serve apenas pra reforçar o apelo “indie” tanto do herói como do escritor – lá, Lemire amarra as influências de Grant Morrison, apresentando o herói como alguém prestes a estrelar um filme de produção independente, ativista dos direitos dos animais e “símbolo da juventude hipster esquerdista”.

Se levássemos em consideração tanto o passado do Homem-Animal, assim como nosso cenário sócio-político e a proposta do “reboot” da DC Comics, em modernizar e atualizar seu repertório de heróis, pode parecer uma escolha sensata alinhar o herói com o discurso de grupos como a rede Anonymous ou o Movimento Ocupa, porém para a surpresa de todos, Lemire passa longe disso e prefere deixar esse aspecto da mitologia do herói em segundo plano.

Logo Lemire nos transporta para a vida doméstica do herói, conhecido pelas pelos leitores por histórias onde sua família exerce participação ativa, aqui nos encontras Baker discutindo com sua esposa sobre a rentabilidade de seu papel em um filme independente, ao mesmo tempo em que sua filha mais nova pede por novo animal de estimação.

Após essa introdução a rotina do herói, Lemire mostra o que é capaz ao resgatar elementos trazidos por Delano nas séries passadas, em cenas repletas de morbidez, após frustrar uma invasão a um hospital, o herói sofre sangramentos inexplicáveis na derme e, ao voltar para casa, descobre que sua filha despertou poderes, revivendo diversos animais mortos pela vizinhança, não podemos esquecer de tudo isso acompanhado pelo clichê do “posso ficar com eles papai?”.

A nova revista do Homem-Animal tem sido bem recebida pela crítica, estando entre os cinco títulos mais vendidos do novo universo da DC Comics, a primeira edição ganhou uma terceira reimpressão em Outubro, a série tem mantido um bom nível artístico, sendo capaz de sustentar uma trama, que tudo indica – e levando em conta o sucesso da série – ainda vai se estender por meses.

Vale a pena mencionar que o material para esse resenha foi obtido no aplicativo da DC Comics para iPad, que até agora mantém a proposta de lançamento simultâneo entre o material impresso e digital, fora a questão do fuso-horário, eu consegui obter a edição mais recente na data de lançamento.

Se você busca mais referencias para o “Novo 52”, outros membros do Nerdevils escreveram ótimas resenhas, você pode conferir elas nos links abaixo!

Justice League #1 é um “foda-se” para os nerds reclamões, por Alessio Esteves

Action Comics #1: o novo Superman é o antigo Superman, por Agostinho Torres

Big Sur e a maldição de On The Road

“A sabedoria é só um outro jeito de fazer com que as pessoas adoeçam.” – Jack Kerouac

Passaram-se somente algumas horas desde que terminei de ler o livro “Big Sur” de Jack Kerouac. Confesso fiquei muito surpreso com o foco da narrativa, é inteiramente inesperado em relação aos outros livros do “Rei dos Beats” e me vejo na obrigação de comentar algo. O livro é extremamente triste, denso, depressivo, não posso não resenhá-lo. Me pergunto: afinal, para que serve a merda de uma resenha? Para expor as obras a possíveis compradores? Parte externa do complexo editorial? Se for assim, os autores de resenhas são os responsáveis por colocar tantas obras geniais debaixo do tapete, por relegá-las ao esquecimento, como é o caso de Big Sur. Hoje em dia não é tanto assim, porém há 50 anos atrás uma tropa de críticos literários composta dos principais jornais de um país é que definiam aquilo que seria lido ou não. Big Sur só não é completamente esquecido porque é uma obra do Kerouac, e tudo do Kerouac vende como água até hoje, mas é um livro subestimado literariamente justamente por isso, as pessoas dizem: “ah, essa merda só foi publicada porque é do Kerouac”. O livro “Tristessa” sofre um processo similar. Mas porque isso?

Quando ouvimos o nome de Jack Kerouac nos vem a cabeça o livro “On The Road”, considerada sua obra-prima. Em On The Road acompanhamos Sal Paradise e Dean Moriaty (Kerouac e Neal Cassady) viajando os EUA de costa a costa por diversas vezes discutindo literatura e filosofia, tendo visões xamãnicas no deserto mexicano, misturando budismo e cristianismo numa síntese que pela primeira vez expõe os segredos do oriente, experimentando drogas (mescalina, heroína, ayahuasca, metanfetamina), fodendo diversas garotas em grupo, fazendo um monte de coisas non-sense, enfim, aproveitando cada instante da vida de uma forma intensa que era o oposto do padrão pretensamente puritano de vida americana na época. Era um Jack Kerouac jovem, pobre e fodido tentando sobreviver como escritor da maneira mais feliz possível em meio a toda aquela rigidez estadunidense do pós-Segunda Guerra Mundial e atolado nas merdas adversas do destino. A narrativa é fluída, como um quadro se descortinando em cores quentes diante dos nossos olhos, ou uma composição de blues recém improvisada na boca de um negro dos inícios dos anos 30. On The Road é uma ode à vida! É um tipo de livro que só pode ser escrito quando se é jovem (mas que pode ser livro por todas as idades sem qualquer sentimento de culpa). Mas lembremos que On The Road sofreu uma série de censuras, correções e modificações substanciais por parte da editora, o que o tornou de fato entre todos os livros de Kerouac no mais reacionário em termos de estética (mesmo que seja lembrado pela história como o “mais revolucionário da literatura americana moderna”).

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Em Tristessa e Big Sur temos uma outra faceta desse cara iluminado e sábio que elevou os Beats ao grupo de escritores de ponta da sociedade americana com On The Road. Em Tristessa Kerouac é um viciado em morfina e heroína vagando feito um zumbi pelo México na companhia (e tolamente apaixonado por) uma prostituta local, em meio a picos de drogas ele tem visões sagradas sobre as pessoas nas ruas, conversa com o gato, se vê perdidamente fora de si e compreende que na verdade não há nada fora do “eu”. Tristessa tem um fluxo narrativo levado mais a sério que On The Road, com frases que são cortadas pela metade pra dar vida a uma outra frase que surgiu na cabeça do autor no momento e ele quis colocar, é uma loucura pura. No entanto vou falar aqui mais de Big Sur, que pelo que pude entender é o penúltimo livro de Kerouac, mas o que encerraria quase de vez aquilo que ele denominou de “Saga de Dulouz” (que seria todos os livros dele colocado em ordem cronológica dos fatos e não de publicação).

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Em Big Sur temos um Kerouac decadente, velho e bêbado, angustiado pela sua fama. Jovens invadem constantemente a casa da sua mãe (onde ele mora) em sua procura, imaginando que ele ainda é o mesmo personagem de On The Road com 25 anos e rigor físico para delírios, quando ele na verdade já não tem mais tanta perspectiva, tanta paciência, em suma, não tem mais a ingenuidade da juventude. Para lidar com as desgraças advindas da fama ele se atola em bebidas, gasta muito dinheiro com produtos quase inúteis que só vai usar por um dia como ternos e calças para aparecer em programas de televisão, paga bebidas e jantares para desconhecidos, etc. Kerouac também passa a ficar paranóico, imaginando que as pessoas só estão a sua volta para tirar uma lasquinha do seu sucesso, pois estão o tempo todo lhe lendo poemas, pedindo para que ele aprovasse seus textos, etc. Enfim, o sucesso de On The Road o atormenta mais do que o faz bem, o Jack Kerouac real tem que escapar do assédio dos leitores que o consideram o homem mais iluminado do mundo todo dia, são pessoas lançando em cima dele suas esperanças em dias melhores, fugindo de suas responsabilidades e cultuando sua figura, o que apenas torna Kerouac mais e mais angustiado. Pensando em fugir disso tudo ele resolve passar umas semanas isolado numa cabana na região oceânica de Big Sur.

Kerouac já não é mais aquele jovem esperançoso, se antes lutava com as palavras para poder sobreviver financeiramente como escritor, agora se pergunta qual a finalidade de escrever já que palavras não são nada, a escrita se tornou uma prisão, uma maldição e ele passa a lutar CONTRA elas. Nesse ponto de desilusão com as palavras, ele tem certa similaridade com conclusões que levaram o poeta brasileiro Torquato Neto a se suicidar em 1972. Essa depressão fica clara nos trechos abaixo retirados de Big Sur:

“Você passou o verão inteiro aqui escrevendo os supostos sons das ondas sem perceber a seriedade mortal da sua vida e do seu destino, você é um idiota, um garotinho deslumbrado com um lápis, não tá vendo que você vem usando as palavras como se elas fossem uma brincadeira alegre[….] Que merda, estou de saco cheio da vida – Se eu tivesse um mínimo de coragem eu me afogaria naquelas águas cansadas mas não adiantaria nada, eu vejo os grandes planos e transformações virando gosma lá no fundo para nos atormentar com algum outro sofrimento miserável.”

“Mas você não vê que tudo isso se transformou em um monte de palavras vazias, agora eu percebo que eu vinha brincando como uma criança alegre com palavras palavras palavras em uma grande tragédia séria, olha ao teu redor!”

A fama foi destrutiva para Kerouac, se antes era alcoólatra se tornou um desregrado embebedado paranóico permanente. Diante de sua impotência frente aos problemas do mundo, ele só bebia e criava conspirações cósmicas de arcanjos e demônios que imaginava estarem tramando para prová-lo que viver é sofrer e por isso sua vida era horrível. Do outro lado da paranóia, as pessoas lançavam todas as esperanças numa coisa que ele não era, talvez nunca tenha sido!

“O rei dos beats”, era coisa do passado para Kerouac e as pessoas queriam obrigá-lo a ser aquilo o tempo todo. Sempre queriam conhecê-lo porque era o grande escritor americano doidão, e mesmo quando ele não queria receber ninguém as pessoas arrombavam portas e quebravam coisas para encontrá-lo. “O que ontem era belo e puro se transformou por motivos irracionais e inexplicáveis em um lúgubre tonel de merda.” Em outro trecho do livro, um amigo seu lhe diz algo como “você dizia que era o escritor mais genial do mundo” e ele responde “ai eu acordei e agora eu sei que não presto pra nada e assim me sinto livre”.

Big Sur não agradou as pessoas talvez porque não seja uma visão bem otimista das coisas. Um bêbado, paranóico, depressivo, velho, que vê tudo morrer a sua volta sem qualquer esperança de que as coisas vão melhorar, este é um resumo do livro. Morre seu gato, uma lontra, um rato, um peixe, etc. durante a narrativa, e por cada morte que presencia, Kerouac se culpa, as coisas só morrem por que existem e só existem porque ele existe já que tudo está conectado, ele é a causa de toda a dor e mesmo assim as pessoas insistem em olhá-lo como se fosse um santo iluminado. A palavra idiota para se referir a si mesmo é usada inumeráveis vezes, acho que a cada 5 páginas ela aparece! É um livro que vale muito a pena se ler, principalmente depois de da leitura de On The Road e Vagabundos Iluminados, é um contraponto ao otimismo dos dois, então ajuda a pensar nas próprias contradições que todos somos.

Big Sur é um painel sombrio sobre a geração Beat, longe do glamour e da sabedoria radiante. Se On The Road foi uma previsão xamãnica da sociedade hippie que se deflagraria nos anos 60, Big Sur foi uma previsão da ressaca cultural/social da onda hippie que só viria acontecer no final dos anos 70 com a geração punk/pós-punk. O que para mim deixa claro que Kerouac sempre esteve nas rédeas de seu tempo.

Sobre Bukowski e “Pergunte ao pó” de John Fante

Confesso que demorei muito tempo para começar a ler Bukowski, o motivo? No meu círculo semi-social os leitores de Bukowski odeiam os Beats, consideram o “intelectualismo” de Burroughs e o zen-budismo de Ginsberg e Kerouac uma farsa/auto-enganação literariamente lucrativa. Eles cultivaram um ódio principalmente por Ginsberg e Burroughs, que foram severamente criticados por Bukowski porque misturavam “artificialmente” sua literatura com movimentos sociais, nas palavras do bêbado em “Notas de um Velho Safado”:

“Eles passeiam pelos parques com o ídolo de Che, com fotografias de Castro em seus amuletos, fazendo OOOOOOOOMMMMMOOOOOOOMMM enquanto William Burroughs, Jean Genet e Allen Ginsberg os lideram. Esses escritores ficam delicados, malucos, uns cocozinhos, umas fêmeas – não homos mas fêmeas – e se eu fosse tira eu não hesitaria em lhes cacetear os seus cérebros confusos.”

Pois bem, como já havia lido e era apaixonado principalmente pelo modo de escrita dos três beats, sendo também estudante dos movimentos sociais dos anos 60/70, criei uma barreira que me impedia de ler Bukowski. Assim como os beats pareciam artificiais para alguns o fodedor de bocetas e velho bêbado me parecia um tanto quanto canastrão, aquela pose de macho ômega e drogado que os leitores me passavam do cara me privou por muito tempo de lê-lo. Hoje em dia já pego livros do Bukowski e entendo sua grandiosidade, não exatamente literária mas de capacidade expressiva, e encontro inclusive sincronia com os próprios beats que ele tanto criticava!

Graças a Bukowski conheci a literatura de John Fante e por conseguinte chegou às minhas mãos o livro “Pergunte ao pó”. O prefácio, escrito por Bukowski, nos convence que “cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção.” E não é que a porra do livro realmente é tudo isso?

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“Pergunte ao pó” nos conta a história de Arturo Bandini, alter-ego de John Fante, um escritor que só havia publicado um conto em toda sua vida e como ele enfrenta sua pobreza e sua idiotice intelectual. Um dos centros principais da narrativa é como Arturo Bandini chega a escrever suas histórias e se apaixona por uma mestiça indígena. Preconceituoso, racista, confuso, virginal, religioso Arturo entra em parafuso por causa de sua paixão por Camilla, uma relação ambivalente de desprezo, masoquismo emocional e idolatria. Sua deusa “maia” e ao mesmo tempo uma pobre mestiça que trabalha de garçonete e usa sandálias asquerosas.

A saga de um escritor buscando seu espaço no fétido mercado editorial e lutando contra os deuses da criatividade, isso resumiria porcamente “Pergunte ao pó”, um livro que pinta em tons intensos traços de pensamentos de alguém muito distante temporalmente mas que poderia ser qualquer um de nós. Um dia Arturo Bandini está pobre, no outro ganha 130 dólares por um conto e em menos de uma semana depois já está novamente fodido porque não controlou seu dinheiro. O personagem é inseguro, não tem certeza de nada que está fazendo, aliás, apenas que quer ser escritor, esta é sua única certeza.

A sinceridade com que assume suas contradições é a principal atração do livro, um trecho em especial basicamente me pediu que fosse citado:

“Não li Lenin, mas o ouvi citado: a religião é o ópio do povo. Falando comigo mesmo nos degraus da igreja: sim, o ópio do povo. Quanto a mim, sou ateu: li O anticristo e o considero uma obra capital.

Acredito na transposição de valores, cavalheiro. A Igreja precisa acabar, é o refúgio da burroguesia, de bobos e brutos e de todos os baratos charlatães.

Puxei a imensa porta, abrindo-a, e ela emitiu um pequeno grito como um choro. Acima do altar, crepitava a luz eterna vermelho-sangue, iluminando em sombra carmesim a quietude de quase dois mil anos. Era como a morte, mas também me fazia lembrar de bebês chorando no batizado. Ajoelhei-me.

Era um hábito, ajoelhar. Sentei-me. Melhor ajoelhar, pois a pontada aguda nos joelhos era uma distração da terrível quietude. Uma prece. Certo, uma prece: por motivos sentimentais. Deus Todo Poderoso, lamento ser agora um ateu, mas o Senhor leu Nietzsche? Ah, que livro! Deus Todo Poderoso, vou jogar limpo nesta questão: vou Lhe fazer uma proposta: Faça de mim um grande escritor e eu voltarei à Igreja. E lhe peço, caro Deus, mais um favor: faça minha mãe feliz. Não me importo com o Velho; ele tem seu vinho e sua saúde, mas minha mãe se preocupa tanto. Amém.”

O nome “Pergunte ao pó” se refere aos desertos que predominam no ambiente de Los Angeles e Califórnia. Certos momentos, quando o livro tira um pouco o foco de Arturo, o principal personagem é o deserto. Esse lugar silencioso, monótono, desolador e seco que sempre esteve presente no planeta e estará até o seu fim, homens e civilizações passaram e o deserto permanecerá. Quem sabe um dia o deserto vai dominar todo o mundo, se pergunta em certo momento John Fante, vai engolir todos os outros ecossistemas. E isso não tem a ver com poluição, camada de ozônio, não… é porque o deserto foi feito para reinar, para atrapalhar, a única coisa que é constante no mundo é a areia do deserto.

John Fante não é um bêbado e fodedor de bocetas como Bukowski, nem um santo vagabundo iluminado como os beats, mas é um escritor filho da puta e tanto. Vale muito a pena ler, embora o livro não seja regado de visões de paraísos, sexo e uso de drogas, não é uma São Francisco hipster (hippie), nem uma Nova York nojenta, mas uma Los Angeles que só existe para um individuo: Arturo Bandini, o escritor fraco e imbecil que sonha em viver de suas palavras e possuir sua princesa maia Camilla.

Superman: Entre a Foice e o Martelo

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E se a nave do Super-homem tivesse caído na URSS? E se o socialismo soviético tivesse se tornado sistema político hegemônico graças a ele? Como seria o mundo e o que aconteceria com os outros heróis do universo da DC? Qual seria o lugar dos antigos vilões no mundo? É em cima dessas proposições que se baseia o fantástico roteiro de Mark Millar na HQ Super-Homem: Entre a foice e o Martelo (o título em inglês é bem mais pertinente e preciso Superman: Red Son), publicada nos EUA no ano de 2003.

Essa idéia de deslocar o Super-Homem de sua posição tradicional faz parte da iniciativa nomeada pela DC como Elseworld, em geral traduzido no Brasil como Realidade Alternativa. É um selo da editora no qual os heróis têm sua cronologia oficial alterada por fatos históricos ou mesmo invenções totalmente casuais para os roteiristas, ou seja, é uma possibilidade para se observar como seriam os personagens caso tivessem nascido em outra época, país e/ou dentro de outras perspectivas sociais.

No entanto a proposta de Mark Millar é mais do que uma brincadeira… ela parece satisfazer um antigo desejo seu de brincar com os símbolos da supremacia norte-americana no mundo, pois ele nos apresenta uma verdadeira sacudida dos valores norte-americanos e um chute no saco dos fãs tradicionais do homem de aço. Super-man, que foi uma criação de Jerry Siegel e Joe Shuster e representava principalmente uma expectativa de superação e da inabalável força da América do Norte recém saída de uma crise econômica nos anos 30, passa agora pro outro lado da política internacional. De herói quase invencível, protetor do planeta que espalha a justiça norte-americana para todas as regiões, defensor do american way of life que representa o espírito americano de superação e de força, ele se torna um disseminador do comunismo e única pessoa no planeta capaz de tirar essa idéia do plano utópico!

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Misturando Orwell, o panóptico de Foucault, retomando o confronto já secular entre anarquismo libertário e comunismo pleno (Marx x Phroudon, na HQ será Batman x Super-man) e fragmentos de teoria do caos-temporal, Mark Millar constrói um roteiro formidável, no qual em três números aparecem Batman, Mulher Maravilha e Lanterna Verde, que pouco se assemelham nesse universo paralelo com os personagens tradicionais. Os principais inimigos do homem de aço na trama vão ser Braniac e Lex Luthor, que num brainstorm delirante irão surpreender o leitor a cada página decorrida. Além de tudo isso, ele faz uma critica a própria existência de certo arquétipo heróico, o do ser invencível. Este que percorre a história humana desde os tempos primitivos pela figura do demiurgo selvagem que depois será a mãe-natureza, passa séculos depois nos gregos pela imagem do herói Hercules e na era moderna é representado na cultura pop pelo Super-Homem.

A grande pergunta que percorre subterraneamente a HQ acaba sendo: como a humanidade seria se alguém que pudesse ver/ouvir tudo, que fosse capaz de se locomover quase instantaneamente para qualquer lugar do planeta, tivesse força incomensurável e fosse invencível, existisse? O mundo não seria como ele acreditasse que deveria ser? Por mais que ele fosse bom, não acabaria moldando o planeta a sua imagem?O mundo não se renderia aos seus pés sem reclamar? Isso é heroísmo? Bom, leiam essa HQ do caralho e tirem suas próprias conclusões.

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Resenha: Puella Magi Madoka Magica

Um dos aspectos mais interessantes da pós-modernidade é a capacidade de desconstruir convenções presentes nos mais diversos gêneros do entretenimento, é um processo básico de engenharia criativa, desmontando e analisando clichês, passo-a-passo, nós não apenas podemos compreender melhor seu funcionamento como também podemos incrementá-lo. O anime Puella Magi Madoka Mágica segue esta linha, esmiuçando para as audiências as situações comuns do majokko e também seguindo adiante, introduzindo novos elementos a caminho de se tornar um verdadeiro clássico do gênero . Se no passado, eu comentei da utopia idílica do mangá Card Captor Sakura, em Madoka – como o desenho é chamado pelos fãs – nós podemos explorar o quão frágil é a relação de poder e desejo das “mahou shojo” do anime e mangá.

A premissa da trama é a seguinte, uma “criatura” chamada Kyubey detecta “potencial” em diversas garotas adolescentes, tendo ciência disto, oferece para as mesmas uma barganha faustiana: ter a possibilidade de ter qualquer desejo realizado, e em troca, elas devem se tornar “Puella Magi” e a utilizar seus poderes na luta contra criaturas denominadas “witches”. É em Madoka Kanami – a protagonista da série – que Kyubey detecta um potencial nunca antes visto, tanto Madoka quanto suas amigas ficam maravilhadas pelas possibilidades de se tornarem heroínas, porem logo o sonho se transforma em um pesadelo quando elas criam ciência da dimensão do perigo com que estão lidando.

Madoka vê, uma a uma, suas colegas de aventuras falecerem ou quebrarem psicologicamente diante de seu olhos, tornando-se então cada vez mais arredia a idéia de se transformar em Puella Magi, embora o anime tenha recebido pressão da crítica japonesa – em especial pelo movimento político de Ishihara – , sendo considerado pela BPO (Broadcasting Ethnics & Program Improvement Organization), principal órgão de vigilância e censura da televisão do governo japonês, como “muito cruel” para as audiências, o mesmo não retrata uma cena sequer de violência explícita ou sexual, deixando claro que embora os produtores desejam desconstruir o gênero “garota mágica”, os mesmos se posicionam longe de uma possível exploitation, o que é uma atitude madura e louvável.

A série possui valores de produção altíssimos, não só pela qualidade da animação, mas também pelo uso de recursos inusitados (principalmente envolvendo sombras e dimensões) e pelo belíssimo design dos cenários, a própria concepção das “witches” são um show a parte no desenho, são criaturas que nós não podemos descrever como “antropomórficas”, sendo mais fácil considerar elas um “lugar” ou “fenômeno”, elas aparecem no cenário, de inspirações que vão da arte clássica, stencil, colagem e até mesmo patchwork, é como ver personagens de anime andando em um fundo de Pop Art, algo completamente destoante e ainda assim muito bonitode se ver,  podendo ser considerado até metalingüístico, como um protesto contra a idéia de “superflat” que vem sendo disseminada no gênero.

Embora a princípio a trama envolva as tribulações que Madoka e suas amigas se vêm obrigadas a superar, a mesma se aprofunda em questões como o karma e os princípios de entropia no universo, onde os desejos realizados das Puella Magi trazem a tona uma tragédia ou maldição de equivalência igual, as próprias motivações de Kyubey adicionam um viés de horror cósmico a trama, bem na veia de H.P. Lovecraft.

Assim como Neon Genesis Evangelion na década passada, o elenco de Puella Magi Madoka Mágica consegue transpor os arquétipos criados pelos animes de seu tempo, a série é relativamente curta,  possuindo apenas 13 episódios, porém com uma trama concisa e sem pontas soltas, um verdadeiro tratado sobre como amadurecer e explorar melhor as convenções que o gênero vem fomentando desde a década passada, recomendo, pois assim como Evangelion, Madoka se transformará na próxima referência em seu meio.

Resenha: Lobão 50 anos a mil

O primeiro contato que tive com a colossal obra musical erigida por Lobão ao longo de seus mais de 30 anos de carreira foi no segundo ano do ensino médio, através de um colega da escola. Por volta dessa época, eu ouvia poucas bandas e apenas coisas estrangeiras: Led Zeppelin, System of a Down, Nirvana, Pink Floyd e etc., então não via com bons olhos a produção local. Talvez porque como sou nordestino o forró sempre foi algo maciço nas rádios e nas festas, enquanto na TV só via o lixo musical produzido em todo território nacional.

Esse colega – que depois se tornaria um grande amigo no terceiro ano -, se chama Márcio e desde os seus 15-6 anos já era uma espécie de Neal Cassady! Um verdadeiro Adônis de Denver – ao menos em pose -, como comentava Allen Ginsberg no poema “Uivo”. Ele gostava de coisas estranhas, um dia me botou pra ouvir um cara que a princípio achei totalmente desafinado, mas que no fim da música havia me deixado completamente embasbacado! A letra era de amor e mesmo assim forte, pulsante, sincera, violenta, não sei direito o quê, um turbilhão de sensações passaram pelo meu corpo, e entendi que não era desafinação, era o modo próprio do cara cantar! Eu havia sido apresentado ao Lobão, com a música “Essa noite, não”.

Depois disso me tornei um fã e admirador de toda a discografia do Lobão e acompanhava todas a polêmicas que ele causava no mainstream brasileiro. Recentemente ele lançou sua auto-biografia, num volume imenso com mais de 500 páginas! É uma leitura interessante pra quem quer entender o cenário do rock progressivo brasileiro no fim dos anos 70, ver como eram os bastidores do rock-pop nacional e principalmente, é claro,  entender a versão do Lobão sobre a influência dos acasos da vida na formação das suas músicas.

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Sempre vi Lobão como um punk nato, mesmo com seus discos de samba-rock que eu já havia escutado. Pois bem, descubro na biografia que Lobão na infância era caretíssimo e manteve isso até mais ou menos uns 15-6 anos! E outra, ele era um proto-hippie que fazia uns progressivos legais numa banda chamada Vímana, composta pelo Ritchie (garoto “menina-veneno” pra quem não sabe), Lulu Santos e no teclado e baixo ex-integrantes do módulo 1000. Além disso o tecladista Patrick Moraz (ex-Yes, uma das bandas mais conhecidas da época) que quis se juntar a banda em projetos que acabaram levando a dissolução do grupo e o retorno de Moraz à Europa.

Em outra época eu ficaria assustado com os rumos que Lulu Santos e Ritchie tomaram na música, no entanto não tenho mais 15 anos e sei que as pessoas podem mudar completamente. Foi este o caso… Lobão na biografia diz que ficava impressionado com a velocidade e técnica de Lulu Santos na guitarra, quem diria isso dele nos dias de hoje? Aliás, a 10 anos atrás enquanto rebolava na TV? Pois é.

Ficamos sabendo no livro que Lobão fez sua mãe fumar maconha quando estava em depressão… que bateu com um violão no pai o deixando completamente ensangüentado, porque o pai o estava prendendo, lhe deu um soco na cara e queria arrumar mais confusão. Esse episódio é um típico ritual de passagem (como ele mesmo diz no livro), porque o pai está puto com o filho por ele não ter se tornado aquilo que ele imaginava, e o filho puto com o pai por ter maltratado sua mãe (ele a estava traindo), sua irmã e a si mesmo.O pai o expulsou de casa, ele só entrou lá pra pegar os violões… então seu pai o surpreende quando saia do banho lhe dando um soco covarde. Lobão ainda tem tempo de escolher entre o violão com cordas de aço ou o de nylon, quebrando um deles (o que menos lhe interessava musicalmente) no pai até deixá-lo acabado no chão. Talvez vendo assim pareça algo absurdo, mas lendo na biografia é como uma cena passando na nossa frente e entendemos mais ou menos porque ele fez aquilo, se não fizesse, ficaria preso em casa psicologicamente frágil para sempre. Seria um “virgem existencial”, como o próprio Lobão costuma dizer.

A biografia é cheia de fatos interessantíssimos sobre a formação do cenário de pop-rock BR. Passam pelas descrições do Lobão: Ultraje a Rigor, Cazuza, Bnegão, Gang 90, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, e ainda o confronto entre a galera de Brasília e a do Rio, enfim, mostra muita coisa sobre o desenvolvimento desse tipo de música por aqui. Os festivais e shows que viu ou participou junto com O Terço, Os Mutantes, Raul Seixas, do próprio Vímana, Módulo Mil, Julio Barroso entre outros. Ah! Só pra titulo de nota: o rock progressivo foi assassinado pela força do punk, ao menos é assim que descreve Lobão e desta maneira está justificado porque o Vímana acabou decaindo… o ex do Yes voltou da Inglaterra desolado: Sex Pistols e Ramones haviam demolido o rock rocócó e substituíram pelo punk.

O próprio Lobão mudou muito, começou com um pop-rock descarado, passou por uma fase mais pesada que estava atrelada diretamente a sua prisão lá pela segunda metade dos anos 80. Foi nesta fase que produziu o “Vida Bandida”, seu disco de maior venda! Na época ele havia sido preso de forma injusta por carregar quantidades irrisórias de maconha e cocaína. Foi este fato também que o elevou no imaginário popular a um estereotipo que existe até hoje: Lobão é drogado, homosexual aidético e imbecil. Minha mãe mesmo ao me ver lendo uma biografia com a cara do Lobão estampado na capa disse: TÚ TÁ LENDO ESSE DROGADO! RUM UM! (mal sabe ela que leio caras mais barras pesados que o Lobitcho)! Depois da prisão Lobão ficou amigo de traficantes nos morros do RJ, visitava muito as áreas e tal, até tentou organizar uma invasão do morro ao Palácio da Guanabara, mas os traficantes estavam muito divididos, em rixas internas, então amarelaram. Tem uma cena fantástica no livro, que é quando os policiais entram na favela e o Lobão estava tocando um sambinha com os chefes do tráfico por lá, rola bala pra tudo que é lado e alguém lhe dá uma pistola, Lobão sai atirando pra tudo que é lado e se esconde dentro de uma casa de uma conhecida. Ele disse que foi uma das maiores sensações da sua vida, mas que depois ponderou e viu que ele era artista e não traficante… então abandonou aquela prática de sentar em mesa com traficante e etc. Claro que ele também fala que tinha policial que chegava no morro e faltava pedir bença pro líder do tráfico… isso é de praxe.

Um disco que me marcou muito foi “Sob o sol de parador”, e Lobão o gravou nos EUA enquanto sob habeas corpus fugiu de uma possível revogação do privilegio! No livro tem explicado de forma mais clara porque ele fugiu. Em suma, estavam o julgando pela imagem de drogado e inconseqüente que foi criada em cima de seu nome e era debatida nos jornais, e não pelas suas atitudes em si. Consideravam que ele era um mal exemplo pra juventude e deveria ser punido como exemplo. Lobão era réu primário e as quantidades de drogas apreendidas o enquadravam em consumo e não em tráfico, mas isso não impediu que fosse preso por uns 3 meses, com a pena real de 1 ano. Esse disco tem uma levada punk pesada e umas letras politizadas pra caralho! Era um outro Lobão, não pior ou melhor que os da fase posterior, apenas diferente. Nas fases pós-rock in rio, ele se preocuparia mais com questões de transcendência, poética e de amor, e não algo exatamente social, se voltaria para o humano, pro individuo e não mais pro coletivo.

Sob o sol de parador pra mim é da mesma qualidade que O rock errou (disco que chamou atenção da crítica e o elevou ao nível de um roqueiro tão bom quanto os de fora do Brasil) e Vida bandida, mesmo que cada um bem diferente do outro. Além disso existe o disco de samba-rock Cuidado que sinceramente, nunca consegui ouvir completo de tão chato que achei, junto com O inferno é fogo… já o samba-rock de Nostalgia da Modernidade é de outro nível. É complexo, é tocante, é simplista e universalmente humano, tudo de uma vez só, é um dos discos mais fodas da fase pós-rock in rio do Lobão.

No Rock In Rio I, chamaram Lobão pra tocar, mas semanas depois cancelaram o contrato sem lhe dizer o motivo. Okay. Na segunda edição do evento Lobão já era um “roqueiro” bem conhecido e polêmico, comia criancinhas… dizia o Diogo Mainard na Veja de uma forma mais polida. Então foi convidado e ele mesmo fez questão de se apresentar no dia do Heavy Metal! Pois bem, ele iria entrar com a bateria da mangueira e sabia que a galera shiita do metal ia ficar doida de raiva, por isso pediu um palco de uns 24 metros de altura… tudo combinado, acataram seu pedido e ele ensaiou no palco certinho. No dia do show haviam contratado em cima da hora o Judas Priest, que entrava de moto na apresentação, eles tocavam antes do Lobão e… o palco que havia sido montado a 24 metros foi reduzido a uns 7 metros (se não me engano ou eram 14), e era bem exprimido, um palquinho dentro do palcão e bem mais baixo! Quando Lobão viu aquilo já estava na hora da sua apresentação, sem dúvidas ele deve ter pensado “FUDEU”, mas resolveu entrar e tentar tocar, depois de brigar com todo mundo da organização. Pois bem, o resultado foi a galera jogando lata cheia de areia, moeda e o que tivesse por perto na banda:

É bom deixarmos claro, que pelo que mostram as imagens, havia um grupo maciço de pessoas que gostavam da apresentação do Lobão. No entanto a linha de frente era dessa galera que gostava de heavy metal mais do que do próprio cérebro ou alma, e fizeram essa cagada histórica!

Depois disso Lobão reviu suas atitudes completamente quanto a música, ele já não era um roqueiro no sentido tradicional do termo (estranho “rock” ser tradicional… mas não é? Se for levado ao pé da letra, como um certo estilo sonoro dentro de padrões, é algo tradicional, mas se for uma atitude de rejeição à cristalização/status quo (musical e/ou social), como Lobão sempre viu, pode ser algo profundamente fecundo por toda a nossa futura história! Como Lobão disse “ninguém nunca foi mais punk que William Burroughs!), depois disso caminharia mais pra uma experimentação com: samba/eletrônica/rap/MPB.

Sua música continuou fantástica, mesmo que de uma forma totalmente diversa a cada CD. Depois de uma paralização de 4 anos após o Rock In Rio ele volta a lutar pela sua carreira musical, lança CDs de forma independente, vendendo nas bancas. Lutou contra a industrial fonográfica que se aproveitava da falta de numerações dos CDs para lucrar ilegalmente e etc. Manteve sempre seu tom polêmico, embora mais maduro e indo de forma direta ao cerne das questões, não mais esperneando infantilmente como antes.

Uma coisa que me frustrou ao ler, foi não ver NENHUMA descrição das relações homossexuais que em outras situações ele já havia declarado que teve… principalmente com o Cazuza, que em um show no Maranhão (com áudio disponível em algum lugar na internet) ele falou que fez amor loucamente com o Cazuza depois de serem assaltados no seu próprio apartamento. E existem partes incoerentes, principalmente algumas datas, algo compreensível, pois a memória não é algo tão limpa/pura quando se imagina, ela é uma pequena devassa (pra não perder a piada do mês com a Sandy/ TUN TUN PÁ *bateria*) do tempo, escolhe para ficar apenas aquilo que não vá lhe prejudicar lá na frente.

Apesar de ser uma biografia quixotesca em volume e conteúdo, recomendo fortemente para aqueles que têm curiosidade ou paixão pela música brasileira ( ou só pelo Lobão mesmo, já que ele mete pau no rock descerebrado) e por uma personalidade de contestação radical! Lobão é um cara que se reinventou musicalmente a cada CD e vale a pena ser ouvido, tanto em música, quanto em questões mesmo intelectuais! O cara é foda.

O Uivo que não é apenas de Ginsberg

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“Eu vi os gênios da minha geração, destruídos pela
    loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
    em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo
    contato celestial com o dínamo estrelado da
    maquinaria da noite,[…]

Como resenhei por aqui uma HQ sobre os beats, resolvi fazer o mesmo com tudo de “novo” (aspas porque tem muitos livros e outros materiais que nunca foram lançados por aqui) que for lançado sobre eles, por isso recomeço falando sobre o filme “Howl” (Uivo), lançado no ano passado.

Sou uma espécie de admirador dos beats, mas não exatamente um babaca apaixonado por modismo, isso eu sou com outras coisas. Quanto aos Beats conheço profundamente, tanto que apresentei no ano passado um minicurso no Encontro Regional dos Estudantes de História do Nordeste (EREH-NE) chamado “Rebeldes sem causa: sexo, drogas, rock’n roll e política”. O engraçado sobre o minicurso é que teve no primeiro dia umas 30 pessoas e foi diminuindo. O título, é claro, atraiu a atenção de um monte de posers metaleiros e etc, que não entenderam a proposta do minicurso, que era mostrar o que foram os beats e sua influência na cultura ocidental. O não entendimento da proposta talvez tenha sido pelo fato de que entender os beats não é tão simples, às vezes simplesmente vagabundos e outras completamente santificados são personagens que costumam ser contraditórios para análises, e perigosos por não se lançarem a um significado de classificação satisfatório.

Kerouac, “the king of beats”, como às vezes é chamado, é muito conhecido por estas bandas pelo seu romance “On the road”, já Ginsberg é aquele tipo de cara mais louvado como “fodão” do que lido. Uma vez falei no twitter pro PdePinguim que o Ginsberg era o Alan Moore da literatura norte-americana moderna, talvez a verdade seja o inverso, não que Alan Moore deva a Ginsberg, só que não tenho dúvidas de que ele serviu de referência para o Moore.

O filme Uivo passou um tanto batido pelo Brasil, sendo no máximo citado que havia terminado sua pós-produção, ou qualquer coisa assim, em alguns sites cults. Mas por parte da crítica o filme colecionou umas varias avaliações negativas. Sua nota no IMDB foi 6,7.

Após refletir sobre qual teria sido o motivo pelo qual Uivo foi tão mal recebido pela crítica e público, cheguei à conclusão de que o modo como ele “foi vendido ao público” falhou. Como assim? Se dizia de Uivo que era sobre a vida de Allen Ginsberg. E o filme, após 20 minutos decorridos nos deixa claro que o personagem principal não é o poeta que criou o poema, mas o próprio poema!

O núcleo do filme não é a vida de Ginsberg, ela é o terceiro plot, misturado a outros dois mais centrais. O segundo plot é o julgamento em cima do livro “Uivo e outros poemas”, que ocorreu nos Estados Unidos e foi um marco nas causas pela liberação das restrições impostas pela censura à linguagem artística. Talvez se o resultado daquele julgamento tivesse sido diferente os beats nunca teriam lançados seus livros, e é claro, se o julgamento nunca tivesse existido, Allen Ginsberg nunca teria chamado tanta atenção para si e seus companheiros, o que também poderia ter minado a maior parte das publicações da geração beat.

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Entretanto no filme tudo isso é como um segundo plano que vai costurando os trechos separados do poema que são narrados áudio-visualmente, com uma animação que me deixou extasiado! Essa interpretação em animação é misturada com a famosa noite de recital poético na Six Gallery, onde “Uivo” foi lido pela primeira vez. Aliás, essa noite foi o dia em que a poesia renasceu nos Estados Unidos, é chamado de “renascimento poético de São Francisco”. O dia em que a poesia, um simples “adorno sem sentido prático” do pós guerra, encontrou vida em corpos bêbados de vagabundos drogados amontoados num galpão. Mais do que um renascimento da poesia do século passado, era uma volta à poesia sonora, para ser declamada e gritada às outras pessoas sem nenhuma vergonha. Foi também naquela noite que a mística do oriente encontrou um forte aliado para romper os muros da razão ocidental. Lá estavam Kerouac, Burrough, Ferlinghetti, Ginsberg, Neal Cassady, entre tantos outros beats.

O problema não é o filme em si, que aliás nem sei se é um filme, é mais como uma performance interpretativa do poema “Uivo”, com pausas para explicações conceituais e psicológicas para aquele trem de imagens que Ginsberg faz correr freneticamente com sua poética descontrolada. Jorrando paz, amor, ódio, comunismo, capitalismo, homossexualismo, pederastia e consumo de drogas ao som de jazz pelas ruas de São Francisco, adoçando trepadas com milhares de garotas pelo Adonis de Denver, e sobre o louco Carl Salomon andando a pé pelos Estados Unidos com os calcanhares sangrados, na procura de um emprego, até encontrar o deus Moloch sobre as milhares de janelas dos prédios de Nova York.

“Uivo” é um poema comprido, e eu tive o disparate de lê-lo no final do minicurso que falei no começo do post – li só as 7 primeiras páginas. Estava exausto quando terminei de ler, mas senti aquele tipo de elevação cósmica que era um dos próprios temas do poema. Afinal, “uma bunda é tão sagrada quantos os anjos dourados do céu”. Tudo é sagrado. Por outro lado, quando olhei para a cara daquele pessoal que estava assistindo a apresentação, fiquei triste, eles bateram palmas, mas estavam horrorizados com o palavreado do poema. Nas suas caras estavam estampadas mais do que o simples “que porra é essa?” que poderia ser uma reação normal em frente a “Howl”, alguns ficaram com nojo da linguagem, outros de trechos que falam de homossexualidade, e daí por diante (coisas como “que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do/ telhado sacudindo genitais e manuscritos,/ que se deixaram foder no rabo por motociclistas/ santificados e berraram de prazer,/ que enrabaram e foram enrabados por esses serafins/ humanos, os marinheiros, carícias de amor/ no atlântico e caribenho”). Não que eu tenha me arrependido de ler o poema, além de fascinante lê-lo em público foi um exercício para o meu próprio espírito, mas me senti frustrado pela incapacidade das pessoas entenderem o que eu estava querendo dizer, mesmo depois de 6 horas de ambientação histórica e explicação conceitual.

Talvez esse seja um problema de “Uivo”, talvez por isso o filme tenha sido considerado negativo pela crítica. Não é um filme que você vai acompanhar uma história, o que você vai ter é uma fascinante declamação de um poema, talvez o mais representativo da rebeldia do século passado. De certa forma, Uivo é um filme bem simples, para quem simplesmente deixar de raciocinar e sentir as imagens que nos são metralhadas, não exatamente na tela, mas pelo som, pela voz que declama o poema. Considero um filme indispensável de se ver, porque além de discursos sobre censura, algo que importa muito nos dias de hoje em que a censura é bem mais sensível, também fala da arte em seu estado primitivo, sei lá, quando ela era simplesmente feita, puramente um exercício consciente do inconsciente, auto-expressão e não algo criado para se vender. Quem sabe um dia vou criar coragem e escrever um post para haters, sobre o porquê da arte genuína não ser feita para venda, ou melhor, o motivo pelo qual ela perde muita coisa quando pensada para um público e não para auto-contemplação do artista.

“[…]que foram queimados vivos em seus inocentes
ternos de flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido
dos batalhões de ferro da moda & os guinchos
de nitroglicerina das bichas da propaganda &
o gás mostarda de sinistros editores inteligentes
ou foram atropelados pelos taxis bêbados
da Realidade Absoluta,[…]
que exigiram exames de sanidade mental acusando
o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua
loucura & mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova Iorque sobre Dadaísmo
e em seguida se apresentaram nos degraus de
granito do manicômio com cabeças raspadas e
fala de arlequim sobre suicídio, exigindo
lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrazol choque elétrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue
& amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma
mesa simbólica de pingue-pongue mergulhando
logo a seguir na catatonia,
voltando anos depois, realmente calvos exceto por
uma peruca de sangue e lágrimas e dedos
para a visível condenação de louco nas celas das
cidades-manicômio do Leste,[…]
que sonharam e abriram brechas encarnadas no
Tempo & Espaço através de imagens justapostas
e capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens
visuais e reuniram os verbos elementares e
juntaram o substantivo e o choque da consciência
saltando numa sensação de Pater Omnipotens
Aeterne Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados
todavia expondo a alma para conformar-se ao
ritmo do pensamento em sua cabeça nua e infinita,[…]”

.hack//G.U.

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Entre tantos RPGS de ps2, tem um em particular que me chamou atenção antes do final de 2010 e que considero pouco divulgado no ocidente: .hack//G.U. ( são 3 jogos Vol. 1: Rebirth, Vol. 2: Reminisce e Vol. 3: Redemption) da franquia multimídia .hack que simula um MMORPG.

O universo de .hack (que conta com inúmeros mangás, animes e duas séries de jogos pra ps2, todos fantasticamente conectados entre si) tem como centro narrativo em si um MMORPG fictício chamado “The World”. O jogo trabalha em 3 níveis de realidade:

1 – Jogador (o você real que vai jogar)

2 – Personagem (dono de um AVATAR no fictício MMORPG ‘The World’)

3 – Avatar (o personagem que está inserido dentro de The World)

O impressionante no jogo é a capacidade de envolver o jogador no nível 2 e 3 de realidade através de simulações de coisas que ocorrem no nível 1, a realidade. Não se trata simplesmente de você jogar como o avatar dentro de The World e sair matando bichos para upar, formar uma guild forte e terminar o jogo, se tornando o ‘fodão’ como se fosse um reles simulador de MMORPG. Muito pelo contrário, .hack é um jogo muito mais conceitual para se jogar e refletir calmamente , acompanhando o desenvolvimento do personagem do que ação em si, talvez por isso fez pouco sucesso no público do ocidente. Ouso dizer que o que prende alguém em .hack é completamente sua história, pois a jogabilidade fica limitada mesmo para um possível jogo em videogames de última geração. Dentro do nível Jogador se simula um computador com internet, e-mail, player e um lugar pra salvar o jogo, claro, e através da Internet ficamos sabendo do que acontece no Japão de 2017, ano em que o jogo se passa.

Em .hack//G.U. somos imersos em fóruns sobre o jogo e em notícias sobre o mundo real fora do jogo que influenciam o que acontece lá dentro.

O plot no nível 2 ( Personagem) é que no ano de 2008, um vírus chamado “Pluto’s Kiss” acabou com a internet como se conhecia. Esse vírus através de uma sequência sincronizada de luzes conseguia fazer com que o cérebro humano entrasse em curto e a pessoa entrasse em coma ou morresse. O criador do vírus foi preso e vemos na internet que ele está sendo levado para julgamento correndo risco de ser morto. Isso criou uma verdadeira crise na rede mundial de computadores, tudo passa a ser vigiado.

No ano de 2010 a internet volta a funcionar normalmente e isso coincide com o lançamento do jogo ‘The World R:1’ , porém dentro do jogo de alguma maneira sobreviveu remanescentes do vírus “Pluto’s Kiss” e através dele se criou um personagem dentro de ‘The World’ capaz de ao derrotar um outro personagem fazê-lo entrar em coma. Mais do que um bug é um vírus que se desenvolveu dentro do jogo e que acaba causando a Segunda Crise na rede mundial de computadores (tudo isso acontece na série de 4 jogos chamada apenas de .hack).

Sete anos depois, temos .hack//G.U. onde uma nova versão de The World é lançada a R:2! O Japão voltou a ter confiança na internet, porém o vício das pessoas em jogos on-line ou realidades alternativas preocupa a sociedade nipônica. Ao acessarmos sites através do navegador dentro do jogo (claro que tudo limitado, só podemos acessar o que já tem lá) podemos ver vídeos de viciados que passam o dia todo na rua com óculos que lhes lançam nessa outra dimensão, crianças que formam gangs para roubar outros jogadores e até mesmo jovens rebeldes cyber-terroristas que buscam reagir às limitações impostas pelos governos do mundo todo à internet após o vírus “Pluto’s Kiss”.

Como disse no começo do post, o que interessa muito mais do que a jogabilidade limitada do jogo é a capacidade de nos inserir dentro de seu universo nos diversos níveis! Dentro dele encontramos estudos sobre comportamento de viciados introvertidos, vídeos sobre repressão virtual e cyber-terrorismo, simulação das relações entre oriente e ocidente em acordos nucleares e espaciais e etc. Ainda existe o outro nível que é o próprio Universo dentro de The World, que acompanhamos via fórum, no qual alguns personagens e itens são lendários, em que existiu uma guerra entre humanos e deuses, numa mistura de cyber/steampunk e ultra-modernidade (tem um personagem específico que dentro do jogo diz saber tudo sobre ‘cyberpunk’ e fala um monte de blábláblá mesmo).

Já em .hack//G.U. acompanhamos o personagem Haseo, um P.K.K. (Player Killer Killer) que após enfrentar um inimigo surgido de um bug no jogo desce do nível 133 para o nível 1 e perde todos os seus equipamentos, além de sua amiga entrar em coma após o personagem ser nocauteada in game. Ele busca alguma maneira de enfrentar esse P.K. bugado, chamado de Tri-edge (um backup maligno do personagem da primeira série de jogos .hack e que aparece em alguns animes, ele tem a capacidade de modificar os dados a seu bel prazer dentro de The World, é uma AI extremamente independente e que se esconde). O nome G.U. vem de uma guild formada por G.M (games masters) que recrutam Haseo para solucionar o problema da coma, que além de poder salvar sua amiga, pode salvar a empresa que faz o jogo de um vexame publico novamente na sua segunda versão do jogo.

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Pra quem gosta de um jogo em que se pode curtir a história e os adicionais .hack é ideal, porque além de demorar muito tempo pra explorar tudo isso que acontece nos diversos níveis, ainda tem animes e mangás que explicam muitas coisas dentro do universo. Foi uma jogada certeira da Cyberconnect2 transformar o mangá da Kadokawa Shoten em um jogo e ser eficiente em deixar quem joga afim de saber mais sobre esses mundos.

Porém, se você quer só sentar, relaxar apertando freneticamente milhares de botões e jogar, passe longe desse jogo, ele vai ser simplesmente entediante.

Resenha: The Filth e nossa imundice cotidiana

Volta e meia eu pego aquela discussão doméstica, uma criança põe algo na boca, um objeto estranho, estrangeiro ao corpo, anômalo a moral higienista de nossa sociedade, a criança esfrega esse objeto – inseto, cocô, uma peça de lego – na boca, passa a língua, engole, muitos dizem que isto é anti-higiênico, nocivo ao corpo, que a criança inevitavelmente irá contrair uma doença. Esquecemos da natureza sobrevivente do nosso organismo, o constante convívio com germes e bactérias, coisa que o fortalece, o torna mais resistente para encarar as mazelas externas, talvez a educação de exclusão de uma mãe mais preocupada, de fato, poupe o filho de um resfriado ou outro, mas em longo prazo, qual é o benefício disso?

Talvez, um paralelo pertinente a esta questão seja nossa exposição no ambiente urbano, aos dromológicos construtos culturais, buzinaço na hora do rush, junk food, vagões de trem lotados, pornografia, a desagradável música saindo de telefones celulares, exista quem irá dizer que isso é desagradável ao ser humano, que nós estamos, de pouco em pouco, findando nossas vidas nesta desordem sem fim.

Em tempos onde se discute xenofobia de forma tão entusiasmada, vale lembrar que o número de organismos não nativos que habitam seu corpo excede em 10 vezes aquelas células que nasceram c/ você.

E se, em contrapartida, toda exposição a este lixo nos reforçasse, seja em crivo cultural ou até mesmo em maior tolerância para jornadas de desconforto,  que toda a doideira cotidiana nos ajudaria a alcançar um estado de psico-blasé? A premissa inicial de The Filth, roteirizado por Grant Morrison, trata deste assunto.

A história começa com o protagonista, Greg Feely, cujo suas únicas preocupações cotidianas são colecionar pornografia e cuidar de seu gato de estimação moribundo, descobrindo que na verdade, sua personalidade é apenas um constructo para o agente Ned Slade, membro de uma organização conhecida como “The Hand”. A “The Hand” é liderada pela enigmática Mother Filth, e sua função é a preservação daquilo que eles chamam de “Status: Q” (O status quo).

A premissa, a partir daí, é contrária a outras obras do autor, como The Invisibles, se nesta, King Mob e sua trupe revolucionária descobrem, de forma amarga, que a revolução é órgão integrante do sistema, em The Filth, Greg/Ned, a contragosto, encarnam o papel do policial, do lixeiro, agência sanitário ontológico.

O Status: Q é ameaçado por aquilo que a agência denomina “Anti-pessoas”, experimentos falhados, seres de outras dimensões, coisas e criaturas capazes de ameaçar a população e o bem estar geral, como um agente sanitário, Greg/Ned e sua equipe são enviados para conter e posteriormente limpar a ameaça.

O Clima da história é denso, pesado, sendo integrante do selo Vertigo, Morrison permitiu transparecer cenas de agonia e crise existencial na trama, é uma HQ inspirada no clima de transição do início do século, paranóia, poluição sinestésica, solidão, a catarse da rotina pós-moderna através do exploitation, o próprio Morrison, em entrevista ao Comic Books Resources, afirma que escreveu The Filth durante uma fase ruim de sua vida, o que transparece em Greg/Ned, que da mesma maneira que tanta digerir as loucuras proporcionadas por sua vida dupla de agente, tem que conciliar isto com seus temores cotidianos, como a doença de seu gato e o vício por pornografia.

Aos poucos, Greg/Ned – e os leitores -aprendem sobre a natureza doentia do universo, e caso entendam a proposta do roteirista, buscam através de todo pessimismo e negatividade, construir algo melhor para o próprio espírito, o desfecho dessa série, em treze edições, não poderia ser outro, redentor…

Claro que como estamos falando sobre Morrison, nós vamos presenciar as habituais viagens do escritor, espere coisas como: “Planeta Bonsai” ou “Terrorismo Pornográfico”, espermatozóides gigantes, tentáculos, golfinhos gigantes cibernéticos e até alguns elementos corriqueiros desta fase do escritor, já vistos, por exemplo, em Homem Animal e Patrulha do Destino.

Começar a ler The Filth, é como ser apresentado a um remédio, antes do primeiro capitulo, somos confrontados por uma “bula médica”, posologia de HQ, contra-indicações, efeitos adversos, e então, a administração da dose, bom, no meu caso, dores excessivas nas costas e em determinado momento, engasgo com a própria saliva, ai então, percebi que era hora de parar a leitura…

Talvez a “sujeira” em The Filth seja mínima hoje em dia, com a esquizofrenia da cultura pop e a natureza blasé de seus consumidores, mas The Filth ainda não deixa de ser uma boa leitura, ainda mais pro público recente, que assim como eu, desconheceu uma fase tão célebre da Vertigo Comics.

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