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HQ nacional nova na área: Gemini 8!

2011 foi realmente um belo ano para o mercado e autores brasileiros de HQ. São inúmeros artistas trabalhando para o mercado internacional em grandes títulos, artistas faturando prêmios, grandes editoras nacionais investindo em quadrinhos e uma enxurrada de lançamentos independentes.

Quando a editora Abril passou o direito de publicação dos títulos da DC Comics para a editora Panini em 2002, muitos acharam que a Abril estava praticamente encerrando seus investimentos no ramo, ficando apenas com os gibis da Disney. Foi com grande surpresa e alegria que no ano passado vimos a volta da editora ao ramo de super-heróis.

Aparentemente com um foco em leitores mais jovens e ocasionais, foram lançadas revistas com as versão em quadrinhos dos desenhos animados do Superman, Batman, Jovens Titãs e Liga da Justiça. Todas com histórias fechadas em sua maioria e traços que lembram as versões animadas.

E, confirmando seu foco nos leitores mais novos, 2012 começou com uma TRÊS lançamentos produzidos totalmente no Brasil: “Gemini 8,” “UFFO – Uma Família Fora de Órbita” e “Garoto Vivo na Villa Cemitério”. Já consegui colocar as mãos nos três, mas hoje vou falar somente sobre o primeiro.

Com um traço estilizado que me lembrou bastante “As Meninas Superpoderosas”, um roteiro dinâmico e muito bom humor, “Gemini 8” nos apresenta Marco, um garoto guloso, curioso e que vive se atrasando para a escola. Em um dia que era pra ser como qualquer outro, ele é misteriosamente sugado por um portal e vai parar em Gemini 8, um planeta habitados por seres praticamente humanos (exceto pelas cores de cabelo exóticas) e muito avançado tecnologicamente.

Marco descobre que foi parar em outro planeta devido às experiências desastradas de Polo, um jovem cientista que usa secretamente o laboratório de sua escola. Resta agora ao cientista atrapalhado arrumar um jeito de levar o “extrageminiano” (ou EG) de volta para casa.

Para complicar ainda mais a situação, os garotos Órion e Ned, típicos valentões que insistem em pegar no pé de Polo, ficam desconfiados de que ele está escondendo algo e passam a persegui-lo mais ainda. E como se isso não fosse confusão o suficiente, temos a Diretora Urânia e sua cadeira-robô, além de suas ordens absurdas para colocar os alunos na linha.

E para manter a molecada ocupada até a próxima edição revista, temos ainda um jogo no site da editora onde você pode ajudar Polo a levar Marco pra casa através da Máquina de Dança. Vai jogar sozinho ou vai fazer uma competição com seus amigos?

Criado por Celia Catunda e Kiko Mistorigo, a primeira edição de Gemini 8 tem roteiro de Marcela Catunda, desenhos de Ricardo Sasaki, arte-final de Leonardo Carpes e cores de Fernando Ventura.

Parabéns à Abril Jovem pela iniciativa e que venham as próximas edições!

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Gotham City Contra o Crime – Meia Vida

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Renee Montoya é uma coadjuvante recorrente na mitologia do Batman, nasceu na celebrada adaptação animada de 1992, foi rapidamente transportada para as páginas das HQs em Batman #475, na história “O Retorno de Scarface”, escrita por Alan Grant.

A personagem ganhou notoriedade ao protagonizar o arco “Meia Vida”, da série ganhadora de diversos prêmios “Gotham Central” (publicada aqui no Brasil pela Panini Comics como “Gotham City contra o Crime”).

Gotham Central surgiu da parceria dos roteiristas Ed Brubaker e Greg Rucka, em uma premissa similar a seriados policiais, a trama contou ao longo de quarenta edições diversas histórias estreladas pelos policiais de Gotham City.

A série não apenas buscou explorar o papel da profissão em uma cidade notória por seus vigilantes mascarados e vilões psicóticos, como também se aprofundou na intimidade de seus personagens, tecendo rotinas, laços familiares, relacionamentos e comentário social.

Em “Meia Vida”, que corresponde às edições #6-10 de Gotham Central, Renee passa a ser perseguida por um detetive particular e tem aos poucos sua intimidade invadida, no desfecho de uma das edições, uma fotografia de Renee mantendo relações com outra pessoa do mesmo sexo é exposta para seus familiares e colegas de trabalho.

É aqui que o roteirista Greg Rucka transpõe um dos retratos mais fidedignos da realidade para as revistas em quadrinhos, com sua predileção sexual revelada contra sua vontade, Renee é alvo de preconceitos e chacotas por parte de seus colegas no distrito policial.

A situação de nossa protagonista se complica ainda mais quando o detetive particular que investigava a sua vida íntima é assassinado e graças a evidências plantadas, ela se torna a única suspeita do crime.

Um dos diálogos chaves da edição é a conversa entre Renee e sua oficial superior, Maggie Sawyer, toda  construída sob a retórica do “don’t ask, don’t tell” norte-americano.

Renee argumenta perante Maggie – homossexual assumida – que o problema não se resume apenas a homossexualidade de uma pessoa, mas também o julgo da cultura, etnia e laços familiares dela.

A pressão familiar contra sua sexualidade é explorada ao longo das cinco edições, a família Montoya, composta por imigrantes dominicanos e católicos fervoroso, insistem que logo ela estará “velha demais para ter filhos”, enquanto os pais comentam com pouco caso o comportamento promíscuo de seu outro filho.

No desfecho do arco, Renee esclarece e “sai do armário” para seus parentes, no fim da conversa, “Meia Vida” termina em lágrimas, nem todas de alívio.

A arte, que fica por conta de Michael Lark segue o padrão das edições anteriores, tons pastéis e closes fechados, retratando uma Gotham intensamente urbana e suja. Em uma cidade povoada por milionários e femme fatales, Renee é traçada como humilde e tímida.

O arco “Meia Vida” é responsável em 2004 pela conquista dos prêmios Eisner de melhor história serializada e o Harvey de melhor história individual ou série, além do Gaylatic Spectrum Award, uma premiação de ficção fantástica destinada a histórias que retratem homossexuais de forma construtiva.

Aqui no Brasil o arco saiu no encadernado “Gotham City contra o Crime Vol. 2 – Meia Vida”, em acabamento de brochura contendo 148 páginas, por R$14,90, podendo ser facilmente encontrado em lojas especializadas e convenções de HQs.

O Homem Animal do Novo 52 da DC Comics

Buddy Baker não é um herói qualquer, ele é o Homem Animal, ex-dublê de cinemas, super-herói de carreira e ativista dos direitos dos animais, ele emprega sua capacidade de imitar – em larga escala – características de diversos animais de nosso planeta para combater o crime e a injustiça.

Homem-Animal (ou Animal Man para os gringos) ganhou status de cult no universo de sua editora, a DC Comics, após vivenciar um período mais experimental na década de noventa nas mãos do escritor Grant Morrison, que escreveu histórias que hoje são consideras verdadeiros clássicos dos quadrinhos, como “O Evangelho Segundo o Coiote”.

Grant Morrison, conhecido por ser vegetariano e defensor dos direitos dos animais, refletiu diversos de seus argumentos políticos no personagem ao longo de sua estadia na série, quando a série passou para o selo Vertigo, conhecido por suas histórias mais maduras e ousadas, o escritor Jamie Delano, que teve uma ótima fase em Hellblazer, tomou as rédeas do personagem, atribuindo novos elementos místicos e aproximando a narrativa da série para as histórias de terror e suspense.

Quando veio a notícia esse ano que o universo criativo da DC Comics sofreria um “reboot”, ou seja, um reinicio em sua continuidade, entre seus cinquenta e dois títulos anunciados, constavam diversos títulos estrelados por personagem que passaram pela Vertigo e a Wildstorm, entre eles, uma nova revista estrelada pelo Homem Animal.

A dupla criativa dessa vez é Jeff Lemire assinando o roteiro e Travel Foreman no desenho, Lemire é bastante conhecido no selo Vertigo, principalmente pela série Sweet Tooth, ainda sem previsão para ser publicada no Brasil.

Logo na primeira edição Buddy Baker é apresentado ao leitor na forma de uma entrevista da revista independente “The Believer” – o que serve apenas pra reforçar o apelo “indie” tanto do herói como do escritor – lá, Lemire amarra as influências de Grant Morrison, apresentando o herói como alguém prestes a estrelar um filme de produção independente, ativista dos direitos dos animais e “símbolo da juventude hipster esquerdista”.

Se levássemos em consideração tanto o passado do Homem-Animal, assim como nosso cenário sócio-político e a proposta do “reboot” da DC Comics, em modernizar e atualizar seu repertório de heróis, pode parecer uma escolha sensata alinhar o herói com o discurso de grupos como a rede Anonymous ou o Movimento Ocupa, porém para a surpresa de todos, Lemire passa longe disso e prefere deixar esse aspecto da mitologia do herói em segundo plano.

Logo Lemire nos transporta para a vida doméstica do herói, conhecido pelas pelos leitores por histórias onde sua família exerce participação ativa, aqui nos encontras Baker discutindo com sua esposa sobre a rentabilidade de seu papel em um filme independente, ao mesmo tempo em que sua filha mais nova pede por novo animal de estimação.

Após essa introdução a rotina do herói, Lemire mostra o que é capaz ao resgatar elementos trazidos por Delano nas séries passadas, em cenas repletas de morbidez, após frustrar uma invasão a um hospital, o herói sofre sangramentos inexplicáveis na derme e, ao voltar para casa, descobre que sua filha despertou poderes, revivendo diversos animais mortos pela vizinhança, não podemos esquecer de tudo isso acompanhado pelo clichê do “posso ficar com eles papai?”.

A nova revista do Homem-Animal tem sido bem recebida pela crítica, estando entre os cinco títulos mais vendidos do novo universo da DC Comics, a primeira edição ganhou uma terceira reimpressão em Outubro, a série tem mantido um bom nível artístico, sendo capaz de sustentar uma trama, que tudo indica – e levando em conta o sucesso da série – ainda vai se estender por meses.

Vale a pena mencionar que o material para esse resenha foi obtido no aplicativo da DC Comics para iPad, que até agora mantém a proposta de lançamento simultâneo entre o material impresso e digital, fora a questão do fuso-horário, eu consegui obter a edição mais recente na data de lançamento.

Se você busca mais referencias para o “Novo 52”, outros membros do Nerdevils escreveram ótimas resenhas, você pode conferir elas nos links abaixo!

Justice League #1 é um “foda-se” para os nerds reclamões, por Alessio Esteves

Action Comics #1: o novo Superman é o antigo Superman, por Agostinho Torres

“Eu não leio HQs, só mangás” e porque isso é um erro comum!

Em dentro de dois meses acontecerá o Anime Friends 2011, e assim como nas edições anteriores, estarei trafegando em um mar de fantasias adolescentes, sexualidade reprimida e incertezas sociais, óbvio que eu não estarei só, muito menos de mãos vazias, o mês anterior ao evento é a oportunidade perfeita para estocar armas de fogo, álcool, drogas leves e toda pornografia do mundo que me ajude a bloquear o bukakke sinestésico transdimensional que esse acontecimento representa, e como sempre, eu vou passear entre os stands cheirando a revista velha e acabar me deparando com aquela personalidade clássica, o garoto anônimo, que de uma forma ingênua e detestável fala: “eu não leio HQs, só mangás”, supondo que eu não o mate, irei explicar pra ele, com paciência paternal, que o negócio não é bem assim.

Claro, HQs já tem rodado o país – e gerações de consumidores – há mais de três décadas, desde os tempos de Ebal, Mythos, Editora Abril e agora, a Panini Comics, sem contar as outras atuantes do mercado, como a Devir e a Cia. Das Letras, a presença dos mangás, e se isso, a gente excluir as empreitadas da Editora Globo com Akira e a bem quista pretensão quixotesca da Animangá, é algo relativamente recente, basta lembrar que a JBC e a Conrad começaram a lançar títulos no mercado em meados de 2001. Estamos falando de uma década, apenas uma geração de leitores.

O erro comum é entender mangá como “gênero” e não mídia, em sua essência, histórias em quadrinhos “ocidentais” e mangás são a mesma coisa, encadernados de baixo-médio custo de produção, organizados por diagramação de tiras e painéis entre espaços da folha, aquilo que sim, chamamos vulgarmente de “quadrinhos”. Em tese, todo leitor de mangás é um leitor de quadrinhos, o que nós observamos são questões culturais fortes o bastante para destacar essa diferenciação e é ela que devemos explorar.

É interessante perceber que nós não precisamos sair do solo nacional para analisar este erro, basta ver o marketing do “Turma da Mônica Jovem”, onde na capa a revista anuncia “Em estilo mangá”, o que significa isso? Em essência, a edição continua a mesma – até mesmo o esquema de leitura ocidental – então onde os roteiristas e editores apostam? Na simulação de convenções comumente associadas ao gênero, como estereótipos de heróis e construções narrativas, mas para todos os efeitos, Turma da Mônica Jovem continua sendo uma revista em quadrinhos como qualquer outra.

Historicamente, o mangá ganhou maior projeção graças a ocupação americana no Japão, com uma lei que proibida qualquer material de retratar sentimentos nacionalistas ou de glorificação militarista, o que permitiu então – graças a influencia de temas ocidentais, como a Ficção Cientifica – que artistas como Osamu Tezuka concebessem obras como Astro Boy. Tecnicamente, Tezuka desenvolveu um método de narrativa visual cinematográfica, onde acompanha não só a velocidade de leitura de seu público, como alocava de forma estratégica os painéis, para a arte japonesa, esta “sensação de movimento” seria a ruptura com o passado “estático” que até então os artistas cultivavam. Artistas como Frank Quitely e Stuart Immonen absorvem muito desta técnica de desenho, seus trabalhos, para a crítica ocidental, são freqüentemente celebrados pela fluidez da seqüência narrativa entre os painéis.

Escritores como Alan Moore defendem que, culturalmente, a existência do gênero super-heróico está relacionado com a tradição beligerante intervencionista dos Estados Unidos, o que vem a divergir com o antecedente “não-imperialista” das primeiras gerações de desenhistas de mangá, embora isto seja fato, autores como Nobuhiro Watsuki já assumiram que diversas de suas decisões criativas foram influenciadas pela leitura de quadrinhos ocidentais, o próprio design de alguns vilões do mangá Samurai X, uma das obras mais famosas de Watsuki, é conseqüência disto.

E ai fica a reflexão, quais gêneros comumente encontrados no mangá não remetem a vaga noção de “super-heroísmo”?

Chara” é um dos conceitos que eu julgo ser mais interessante na cultura pop japonesa, um “Chara” é um ícone, uma espécie de atalho semiótico, que possui o mínimo de carga informativa mas ainda assim, capacidade fácil de reconhecimento por parte de suas audiências, pense na imagem da Hello Kitty, ela pode ser considerado um “Chara” perfeito, é pertinente notar que para a cultura pop, o “Chara” é intrínseco ao fator “moe”, e por isso, tem alto valor mercadológico, isso pode ser transportado para a cultura de HQs ocidentais, vide símbolos que nos trazem o gatilho associativo, como o “S” no uniforme do Superman, o morcego de Batman, o relâmpago de Flash ou até mesmo o “X” dos X-men. A idéia de “Chara” é completamente compatível com o argumento de Grant Morrison cujo os super-heróis ocupam o espaço do consciente coletivo que antes era destinado a mitologia

Um argumento comum entre os leitores de mangá é que as histórias no meio “têm fim”, uma deferida inocente, que claramente ignora as contrações do mercado editorial não só japonês, mas de todo o mundo. Basta pegar uma das grandes séries, como Naruto, onde suas encarnações sofrem com os ditames Shueisha, onde executivos não anseiam em abrir mão de uma de suas principais vacas leiteiras, salvo alguns casos, séries consideradas “curtas”, foram aquelas que não obtiveram sucesso de público em periódicos de peso como o Shonen Jump.

Ainda assim, embora as HQs ocidentais não tenham “fim”, não podemos fazer vistas grossas para inúmeras obras autorais, mini-séries e publicações de selos como a Vertigo e a Avatar Press que já obtiveram completude (e piadas a parte, não posso imaginar um mundo onde “Sandman” não tenha tido “fim”), sem contar o aspecto mercadológico, séries antológicas como Dragon Ball ainda sobrevivem graças a exploração de licenciamento da marca, porem, o maior argumento se encontra em Mobile Suit Gundam, que em 32 anos de série, já passou por inúmeras transformações, séries e idéias, muitas vezes graças as empreitadas executivas da Bandai.

Como vocês podem ver, essa é apenas a ponta do iceberg que envolve perspectivas estreitas e falta de conhecimento do gênero e sua historicidade, claro, não vamos cobrar este nível de informação de todos, mas é saudável manter uma noção mais abrangente quanto a natureza da HQ como meio e o mercado onde a mesma funciona, existem muitos outros exemplos há serem mencionados, mas com apenas um pouco, eu quis ilustrar que essa distância não só de ocidente/oriente, mas entre fandoms se encontra equivocada e a longo prazo é uma atitude insalubre.

Card Captor Sakura: Ágape, Magia e Idílio

 

Se por acaso um dia você perguntasse quais desenhos japoneses marcaram minha infância, eu temo que minha resposta fosse um pouco atípica em relação as suas expectativas, eu iria responder o seguinte: “Gundam Wing, Patlabor e Sakura Card Captor”. Embora os dois primeiros tenham lá seu status de cult, para as audiências brasileiras eles foram considerados programas chatos e confusos, de pouco apelo na programação, ainda mais se lembrarmos que na época, as transmissoras investiam pesados nos hits como Dragon Ball Z e Pokémon, como eu não tinha o pacote de assinatura que liberava o extinto Locomotion e a realidade da banda larga e dos torrents subbados parecia algo distante, eu tinha que me contentar com o que via…

Mas ai você vai dizer: “ei, espera ai, e Sakura?” Bom amigo, ai a coisa é diferente, o desenho tinha um traço mais fluido, uma animação mais recente em comparação ao que tinha sido exibido por aqui. A gente poderia discorrer sobre vários aspectos semióticos da qualidade da obra, mas eu gostaria de resumir em uma coisa: “novidade”. O enredo em si é interessante, a protagonista Sakura Kinomoto descobre um livro, e nele desperta uma série de cartas mágicas que se espalham pela cidade, com a ajuda de um guardião sobrenatural, a mesma é incumbida de resgatar todas e evitar uma potencial catástrofe.

Os coadjuvantes também ajudam a enriquecer a trama, em maioria pertencendo a rotina escolar de Sakura, nós observamos o desenvolver de triângulos amorosos, paixões platônicas, relacionamentos homossexuais ou apenas romances, embora em seu sentido mais idílico. É um ponto que eu discuto muito com outros fãs do mangá, o fator “idílico”, então, por motivos de spoilers, dissertarei sobre a questão no próximo parágrafo.

Tomoyo, a “BBF” da Sakura, conhece sua identidade secreta e acompanha a amiga nas aventuras, filmando elas – um aspecto, digamos, voyeur – com diversos trajes confeccionados por ela também – e ai a gente vê um fetichismo por maids, lolitas e assim vai… – mais tarde na trama nós descobrimos que ambas possuem um parentesco distante, primas de terceiro grau, o que, dependendo do critério de quem olha, pode ser considerado algo incestuoso, e sabe qual é a idade delas? 10 anos. Pois é, esta forma branda de “homossexualismo” (se é que podemos chamar assim…) é recorrente na trama, o irmão de Sakura, Touya, muitas vezes sugere que possui algo-além-do-bromance com seu amigo Yukito, que por sua vez, é a paixão de Sakura. Sim amigos, muitos triângulos amorosos, todos intricados e complexos.

Como adultos experientes nessa vida, nós poderíamos abordar pelo ângulo simples, Sakura e Tomoyo estão confusas, faz parte do “amadurecimento” psicológico delas, os mais velhos, como Touya, devem estar passando pelos primeiros questionamentos envolvendo a própria sexualidade, mas o meu ponto é: precisamos olhar por este ângulo? Card Captor Sakura é uma produção dos estúdios CLAMP, um grupo de mangakás formados por quatro moças, que embora já tenham trabalhado com diversos gêneros e faixas etárias, sua especialização é aquilo que chamamos de Shojo.

Shojo pode ser traduzido como “Menina”, ou “Pequena Garota”, e são histórias focadas no público feminino adolescente, geralmente contando romances e histórias de relacionamento, o traço costumo ser suave, propositalmente delicado, e seguindo conceitos estéticos e sexuais, a presença de andrógina (também considerada, mas não limitada ao termo “Bishonen”) é algo recorrente, e em muitos casos, a situação é idílica, comumente rumando para um “todos viveram felizes para sempre”, típico dos contos de fada.

Contos de fada é um termo que define bem Card Captor Sakura, sendo pertencente ao subgênero mahou shoujo (“garota mágica”), não é algo incomum para o público brasileiro, que acompanhou duas vezes Sailor Moon e agora pode encontrar inúmeros títulos em qualquer banca de jornal ou Loja de HQs, porem a construção do aspecto místico na trama de Card Captor Sakura é digna de comentário, referências a magia hermética, espíritos (a “magia” das cartas são os kamis do shintô? Os elementais de Paracelso? Aqueles espíritos Astecas que habitam objetos inanimados que Grant Morrison mencionou em Kid Eternity?), a natureza das cartas, seriam elas sigilos ou uma referencia sutil ao tarô? (coisa que foi mais bem explorada em outro título, X-Japan) a própria “arma” da protagonista, o báculo mágico, é uma referência a seres da mitologia grega, comumente associados com o ocultismo, como Hermes e Esculápio.

O aspecto “idílico” da trama é que me interessa, da mesma forma que no passado eu defendi que era necessário encarar de mente aberta animes que faziam apologia a violência, conteúdo pornográfico e outros temas controversos, acredito que o inverso também é válido, cabe o espectador se esforçar para entender o universo da trama de Card Captor Sakura, e que aquilo não é real, ou ao menos não segue a mesma moralidade da nossa realidade cotidiana.

Em um dos casos mais famosos, graças a um alarde desnecessário por parte da imprensa japonesa, foi no episódio que o professor da Sakura, Yoshiyuki, presenteia sua aluna Rika Sasaki, com um anel de noivado, tamanha polêmica fez com que a adaptação para anime omitisse completamente essa parte da trama.

Este tipo de romance é recorrente na trama, onde da mesma forma que em títulos masculinos ou polêmicos, o leitor pode experimentar uma fantasia de poder ou sexo comumente masculina, porque não livrar o mesmo mundo daquilo que, por falta de termo, só poderia ser considerado “malicioso” ou “imoral”? Porque não se livrar disto tudo e aceitar a ágape. A proposta do CLAMP é justamente essa.

(O que também, acaba deixando muito relativo o debate Seinen/Shojo)

E é essa “mágica” (em vários sentidos…) do universo da série que importa, onde até certos relacionamentos são pautados na natureza sobrenatural de alguns personagens (principalmente quando envolvem Yukito) o sentimento de estranheza que é calcado na cabeça dos espectadores é digno de nota, muitas vezes um alívio comovente, como se algo tivesse dado certo, não importando os limites do nosso mundo.

E no final das contas, graças a Card Captor Sakura, uma nova geração de fãs foi formada no Brasil, pavimentando para as editoras todo um leque de oportunidades no qual hoje podemos desfrutar de uma variedade de títulos,  sejam eles mágicos ou não.

O Falo tentacular: sexo bizarro e ocultismo no legado de Lovecraft

Atenção: a única coisa realmente obscena neste post são as quantidades de spoilers sobre um monte de coisas, leia com sua própria conta a risco

Em 1814, o artista Katsushika Hokusai concebeu o ukyo-e “Tako to ama”, conhecido posteriormente no ocidente como “O Sonho da Mulher do Pescador”, a xilogravura retratava uma mulher japonesa, de ventre nu, tendo relações sexuais com dois polvos (tako). a mulher em questão era uma mergulhadora “ama”, recorrente no Japão, são grupos de mulheres que mergulham com o mínimo de equipamento em busca de pérolas e frutos do mar, o fato de serem mulheres tem haver com uma crendice popular japonesa, onde se fala que a “gordura” do corpo feminino é melhor distribuída, garantido assim, uma maior conservação do calor durante os mergulhos.

A gravura pertencia ao gênero Shunga, popular entre os japoneses, era comum o Shunga retratar o imaginário sexual de forma fantasiosa e simbólica: genitálias de tamanho exagerado, botão de flores crescendo para representar uma ejaculação.

O interessante era perceber como o Shunga era bem quisto pela mentalidade feudal, servia como guia sexual para famílias mais abastadas (lembrando, em alguns pontos, o próprio Kama Sutra), era considerado um objeto supersticioso, trazendo zelo e boa sorte para estabelecimentos que os contêm.

Isto abre uma brecha para interpretamos o Shunga como um objeto canalizador de “orgônio”, considerada pseudociência, o orgônio é a energia primal contida em nossos corpos, muito similar ao Prana ou Chi, ela é liberada através de estímulos físicos/sexuais – orgasmo – catarse e satisfação da libido.

O imaginário fálico do tentáculo foi concebido na cultura pop japonesa pelo manga-ká Toshio Maeda, em seu “Yōjū Kyōshitsu” (Demon Beast Invasion), alienígenas planejam invadir a terra, reconhecendo que o planeta possui uma atmosfera hostil, eles elaboram um plano para engravidar a população nativa  e criar uma raça hibrida que reinaria o planeta ao desígnio dos invasores.

A idéia de Toshio era burlar a censura japonesa, que proibia a retratação de genitálias em seus meios de comunicação, em entrevista, o mesmo comentou:

Na época, era ilegal criar uma cena de sexo na cama, eu pensei que devia fazer alguma coisa para evitar desenhar tal cena erótica. Então eu criei essa criatura, seu “tentáculo” não é um “pênis”, eu poderia dizer, como uma desculpa, que isto não é um “pênis”, é apenas parte da criatura, e você sabe, essas criaturas não tem gênero (sexual). Então se não é obsceno, não é ilegal”.

(se você se interessar pelo assunto de Hentai, Ecchi, Mangá, Eroge e etc., eu já dissertei sobre erotismo na cultura pop japonesa em um post no meu antigo blog, aqui

A idéia de fazer uma conexão retroativa com a gravura de “Tako to Ama” é apenas por uma questão de coincidência histórica, não podemos dizer que uma influenciou a outra, as próprias motivações são diferentes e fazem jus as mentalidades de suas respectivas épocas.

Nos contos de H.P. Lovecraft, tentáculos eram utilizados para retratar algo “não-humano”, ao invés de uma descrição objetiva, os deuses e criaturas ancestrais que assombravam a humanidade eram massas disformes, com pseudopodes, falsos membros e tentáculos, sem a vaga noção de humanidade reconhecível, seja física ou mental. Em um dos seus contos mais famosos, “O Chamado de Cthulhu”, a criatura homônima ao texto não é dada uma descrição válida, recorrendo a expressões como “a prole verde das estrelas”, “uma caricatura simultânea de polvo, dragão e humano”.

Ao contrário da mentalidade dos escritores japoneses, o erotismo na literatura de Lovecraft era quase nulo, se distanciando do platonismo doentio de suas inspirações como Poe e Byron, os contos de Lovecraft retratavam o sexo, embora deturpado, em sua visão mais puritana, como forma de acasalamento e propagação da prole, tal dita “frigidez” até hoje é motivo de debate entre fãs e acadêmicos quanto a orientação sexual do escritor.

Porem, um dos temas recorrentes em seus contos é a “hereditariedade maldita”, no conto “A Sombra sobre Innsmouth”, o narrador anônimo, aos poucos descobre sua ligação com um culto pagão (“A Ordem Esotérica de Dagon”) na cidade de Innsmouth, cuja as lendas envolviam acasalamento com monstros marinhos, ao final da história, o choque de descobrir ser descendente da mesmas criaturas – conhecidas como “Deep Ones” – que outrora abominava é mitigado a partir de sua transformação, aceitando sua condição pós-humana e cogitando ir morar em cidades subaquáticas.

Este tipo de niilismo é uma retórica comum para Lovecraft, no auge das descobertas, do colonialismo na África e na Ásia, o destino manifesto ocidental se iludiu da hegemonia sobre o mundo e as ditas “culturas inferiores”, os contos subentendiam duras críticas a mentalidade pretensiosa do homem daquela época.

Para o narrador protagonista de “A Sombra sobre Innsmouth” aceitar sua nova condição significava expandir o seu consciente, entender que há mais no mundo que nos acreditamos, bactéria de arsênico, saca?

É interessante dizer que o mesmo Dagon que inspirou o conto de terror, foi em nossa história ancestral um deus da fertilidade da mitologia Cananéia, este tipo de deturpação era comum na mitologia fictícia criada por Lovecraft, Derleth e seus colegas, outra criatura, Shub-Niggurath, é retratada como uma figura feminina e seu título é “A Cabra negra do bosque com centenas de crias”, Lovecraft, em correspondência, traça analogias com deusas da fertilidade como Astarte e Cibele.

Sendo que Shub-Nigurath é uma das criaturas de Lovecraft que mais se aproxima do imaginário religioso judaico-cristão, a figura do bode associada a Baphomet, cujo rumores indicavam no passado ser cultuado por grupos de mulheres pagãs.

Recentemente eu comecei a ler “Neonomicon”, da Avatar Press, escrito pelo Alan Moore e desenhado pelo Jacen Burrows, a proposta da HQ é uma modernização da Mitologia de Cthulhu, porem, a partir desta premissa, Moore abre espaço para conduzir algo muito mais nefasto.

A própria HQ brinca com seus sentidos – da mesma forma, talvez, que Cthulhu influenciava indivíduos através de sonhos – porem nossa ingenuidade c/ o hábito de leitura de quadrinhos faz com que isso passe desapercebido, se a idéia era com que as abominações imaginadas por Lovecraft se escondessem nas profundezas do planeta, Morre e Burrows fazem com que o leitor participe desta “descida”.

Cada quadro movimenta a história para baixo, desenvolvendo a narrativa através de corredores, sótãos, brincando com profundidade e distância, tirando as personagens da zona de conforto, trazendo-os para perto da incompreensão, a série de vídeos, disponíveis no Youtube, chamados “Breaking the Fourth Panel: Neonomicon and the Comic Book Frame” explica a malícia metatextual por trás dos criadores da série.



Nas edições seguintes, descobrimos que os protagonistas estão envolvidos com o Culto de Dagon, durante um diálogo os mesmos questionam da suposta sexualidade reprimida de Lovecraft.

A trama se intensifica a partir do momento que uma das protagonistas, cujo historio psicológico sugere ninfomania, sofre um estupro coletivo pelo próprio culto, um dos cultistas menciona que as “criaturas” são, de fato, atraídas por energias orgônicas.

A criatura invocada em questão, nada mais é do que um Deep One, do conto “A Sombra sobre Innsmouth”, e é aqui que Moore e Lovecraft entram em conflito, se para o último, a moralidade das criaturas era tão alienígena que para nós, reles humanos, só podia ser interpretada como “vil”, o Deep One de Moore – cuja silhueta é extremamente fálica – é uma criatura, um “animal” sob a concepção humana, cuja necessidade sexual não difere muito de uma cadela no cio, cuja moralidade anormal é a mesma que leva um leão a devorar o próprio filhote, ou seja, puro instinto.

Este é o legado de Lovecraft, entre sexo bizarro e ocultismo, em sua própria retórica anti-racionalista, pode questionar a noção de “depravação”, pois, quando lidamos com uma criatura de base moral tão superior a nossa, como entender que aquilo é algo vil ou deturpado? Que a angústia de inúmeros protagonistas nada mais é do que a necessidade de encarar seus inúmeros grilhões, da mesma forma que Neonomicon trabalha inúmeras “camadas” da realidade, para o fatalismo de Lovecraft, não vamos acabar apenas encarcerados em hospícios, mas também em nossa própria consciência…

Alessio´s Freakies – Diga-me com quem andas…


Se quiserem seguir algumas destas figuras:

Bruno – @darthgelidus

Lesma – @T4VOR4

Alessio´s Freakies – Na Balada: Uma Tragédia em Três Atos

Resenha: The Filth e nossa imundice cotidiana

Volta e meia eu pego aquela discussão doméstica, uma criança põe algo na boca, um objeto estranho, estrangeiro ao corpo, anômalo a moral higienista de nossa sociedade, a criança esfrega esse objeto – inseto, cocô, uma peça de lego – na boca, passa a língua, engole, muitos dizem que isto é anti-higiênico, nocivo ao corpo, que a criança inevitavelmente irá contrair uma doença. Esquecemos da natureza sobrevivente do nosso organismo, o constante convívio com germes e bactérias, coisa que o fortalece, o torna mais resistente para encarar as mazelas externas, talvez a educação de exclusão de uma mãe mais preocupada, de fato, poupe o filho de um resfriado ou outro, mas em longo prazo, qual é o benefício disso?

Talvez, um paralelo pertinente a esta questão seja nossa exposição no ambiente urbano, aos dromológicos construtos culturais, buzinaço na hora do rush, junk food, vagões de trem lotados, pornografia, a desagradável música saindo de telefones celulares, exista quem irá dizer que isso é desagradável ao ser humano, que nós estamos, de pouco em pouco, findando nossas vidas nesta desordem sem fim.

Em tempos onde se discute xenofobia de forma tão entusiasmada, vale lembrar que o número de organismos não nativos que habitam seu corpo excede em 10 vezes aquelas células que nasceram c/ você.

E se, em contrapartida, toda exposição a este lixo nos reforçasse, seja em crivo cultural ou até mesmo em maior tolerância para jornadas de desconforto,  que toda a doideira cotidiana nos ajudaria a alcançar um estado de psico-blasé? A premissa inicial de The Filth, roteirizado por Grant Morrison, trata deste assunto.

A história começa com o protagonista, Greg Feely, cujo suas únicas preocupações cotidianas são colecionar pornografia e cuidar de seu gato de estimação moribundo, descobrindo que na verdade, sua personalidade é apenas um constructo para o agente Ned Slade, membro de uma organização conhecida como “The Hand”. A “The Hand” é liderada pela enigmática Mother Filth, e sua função é a preservação daquilo que eles chamam de “Status: Q” (O status quo).

A premissa, a partir daí, é contrária a outras obras do autor, como The Invisibles, se nesta, King Mob e sua trupe revolucionária descobrem, de forma amarga, que a revolução é órgão integrante do sistema, em The Filth, Greg/Ned, a contragosto, encarnam o papel do policial, do lixeiro, agência sanitário ontológico.

O Status: Q é ameaçado por aquilo que a agência denomina “Anti-pessoas”, experimentos falhados, seres de outras dimensões, coisas e criaturas capazes de ameaçar a população e o bem estar geral, como um agente sanitário, Greg/Ned e sua equipe são enviados para conter e posteriormente limpar a ameaça.

O Clima da história é denso, pesado, sendo integrante do selo Vertigo, Morrison permitiu transparecer cenas de agonia e crise existencial na trama, é uma HQ inspirada no clima de transição do início do século, paranóia, poluição sinestésica, solidão, a catarse da rotina pós-moderna através do exploitation, o próprio Morrison, em entrevista ao Comic Books Resources, afirma que escreveu The Filth durante uma fase ruim de sua vida, o que transparece em Greg/Ned, que da mesma maneira que tanta digerir as loucuras proporcionadas por sua vida dupla de agente, tem que conciliar isto com seus temores cotidianos, como a doença de seu gato e o vício por pornografia.

Aos poucos, Greg/Ned – e os leitores -aprendem sobre a natureza doentia do universo, e caso entendam a proposta do roteirista, buscam através de todo pessimismo e negatividade, construir algo melhor para o próprio espírito, o desfecho dessa série, em treze edições, não poderia ser outro, redentor…

Claro que como estamos falando sobre Morrison, nós vamos presenciar as habituais viagens do escritor, espere coisas como: “Planeta Bonsai” ou “Terrorismo Pornográfico”, espermatozóides gigantes, tentáculos, golfinhos gigantes cibernéticos e até alguns elementos corriqueiros desta fase do escritor, já vistos, por exemplo, em Homem Animal e Patrulha do Destino.

Começar a ler The Filth, é como ser apresentado a um remédio, antes do primeiro capitulo, somos confrontados por uma “bula médica”, posologia de HQ, contra-indicações, efeitos adversos, e então, a administração da dose, bom, no meu caso, dores excessivas nas costas e em determinado momento, engasgo com a própria saliva, ai então, percebi que era hora de parar a leitura…

Talvez a “sujeira” em The Filth seja mínima hoje em dia, com a esquizofrenia da cultura pop e a natureza blasé de seus consumidores, mas The Filth ainda não deixa de ser uma boa leitura, ainda mais pro público recente, que assim como eu, desconheceu uma fase tão célebre da Vertigo Comics.

Alessio´s Freakies – No Trabalho III

Essa rolou de verdade também!! Nunca mais vi o Conan da mesma maneira…

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