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Gotham City Contra o Crime – Meia Vida

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Renee Montoya é uma coadjuvante recorrente na mitologia do Batman, nasceu na celebrada adaptação animada de 1992, foi rapidamente transportada para as páginas das HQs em Batman #475, na história “O Retorno de Scarface”, escrita por Alan Grant.

A personagem ganhou notoriedade ao protagonizar o arco “Meia Vida”, da série ganhadora de diversos prêmios “Gotham Central” (publicada aqui no Brasil pela Panini Comics como “Gotham City contra o Crime”).

Gotham Central surgiu da parceria dos roteiristas Ed Brubaker e Greg Rucka, em uma premissa similar a seriados policiais, a trama contou ao longo de quarenta edições diversas histórias estreladas pelos policiais de Gotham City.

A série não apenas buscou explorar o papel da profissão em uma cidade notória por seus vigilantes mascarados e vilões psicóticos, como também se aprofundou na intimidade de seus personagens, tecendo rotinas, laços familiares, relacionamentos e comentário social.

Em “Meia Vida”, que corresponde às edições #6-10 de Gotham Central, Renee passa a ser perseguida por um detetive particular e tem aos poucos sua intimidade invadida, no desfecho de uma das edições, uma fotografia de Renee mantendo relações com outra pessoa do mesmo sexo é exposta para seus familiares e colegas de trabalho.

É aqui que o roteirista Greg Rucka transpõe um dos retratos mais fidedignos da realidade para as revistas em quadrinhos, com sua predileção sexual revelada contra sua vontade, Renee é alvo de preconceitos e chacotas por parte de seus colegas no distrito policial.

A situação de nossa protagonista se complica ainda mais quando o detetive particular que investigava a sua vida íntima é assassinado e graças a evidências plantadas, ela se torna a única suspeita do crime.

Um dos diálogos chaves da edição é a conversa entre Renee e sua oficial superior, Maggie Sawyer, toda  construída sob a retórica do “don’t ask, don’t tell” norte-americano.

Renee argumenta perante Maggie – homossexual assumida – que o problema não se resume apenas a homossexualidade de uma pessoa, mas também o julgo da cultura, etnia e laços familiares dela.

A pressão familiar contra sua sexualidade é explorada ao longo das cinco edições, a família Montoya, composta por imigrantes dominicanos e católicos fervoroso, insistem que logo ela estará “velha demais para ter filhos”, enquanto os pais comentam com pouco caso o comportamento promíscuo de seu outro filho.

No desfecho do arco, Renee esclarece e “sai do armário” para seus parentes, no fim da conversa, “Meia Vida” termina em lágrimas, nem todas de alívio.

A arte, que fica por conta de Michael Lark segue o padrão das edições anteriores, tons pastéis e closes fechados, retratando uma Gotham intensamente urbana e suja. Em uma cidade povoada por milionários e femme fatales, Renee é traçada como humilde e tímida.

O arco “Meia Vida” é responsável em 2004 pela conquista dos prêmios Eisner de melhor história serializada e o Harvey de melhor história individual ou série, além do Gaylatic Spectrum Award, uma premiação de ficção fantástica destinada a histórias que retratem homossexuais de forma construtiva.

Aqui no Brasil o arco saiu no encadernado “Gotham City contra o Crime Vol. 2 – Meia Vida”, em acabamento de brochura contendo 148 páginas, por R$14,90, podendo ser facilmente encontrado em lojas especializadas e convenções de HQs.

Das prensas para os neurônios

Publicado originalmente no Farrazine #23

 

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O processo que envolve a leitura e apreciação de uma obra de quadrinhos é muito maior do que folhear umas páginas de papel couché, ler os balões com falas escritas por Grant Morrison e admirar os desenhos de Frank Quitely. Esses momentos são apenas o final, a cereja de um bolo gigantesco que às vezes não admitimos que existe. Dizer que nossas expectativas não afetam o modo como avaliamos algo que lemos/assistimos/ouvimos é o mesmo que dizer que o cheiro da comida que sentimos 10 minutos antes de comê-la não influencia no modo como percebemos o sabor dela.

Como dizia Nietzsche, "somos artistas muito maiores do que imaginamos", se referindo ao fato que nosso sistema nervoso afeta profundamente o modo como vemos (vemos, no sentido literal mesmo) o mundo que nos cerca. Às vezes nossos sentidos são viciados, como em testes em que os instrutores mostram vídeos de crianças brincando numa rua e dão ordens aos que assistem de ver quantas vezes uma criança específica quica uma bola; o fato dos espectadores ficarem atentos a esse aspecto acaba por impedir que vejam outras coisas – como um gorducho fantasiado de coelho passando atrás das crianças (Eu vi isso rolar nas minhas aulas de Psicologia Social).

Às vezes nosso cérebro literalmente filtra sinais que vemos simplesmente porque eles não condizem com as décadas de aprendizado que acumulamos, como quando o presidente Dwight Eisenhower cumprimentou a todos os seus convidados num jantar oficial com a frase "Eu esfaqueei minha esposa essa manhã" e NENHUM dos mais de cinquenta convidados cumprimentados se alarmou ou ficou assustado. É mais ou menos como a experiência descrita por Colin Wilson em seu livro A Criminal History of Mankind, onde sensores eram colocados no ouvido de um gato e registraram uma gama de cerca de 300 vibrações por segundo provenientes dos sons que ele ouvia; e após um rato ser colocado no campo de visão dele, esses ruídos diminuíram para menos de 40. Ou seja: o sistema cognitivo do gato simplesmente filtrou os barulhos após ser colocado em situação de alerta.

São em meandros assim que trabalha nosso sistema nervoso. Dizem os psicólogos da percepção que somente cerca de 10% dos mais de 90 mil sinais cognitivos que recebemos por segundo são tornados "conscientes" (ou seja: tomamos conhecimento deles), o restante é possivelmente processado e armazenado no que alguns chamam de Subconsciente, uma unidade cerebral que alguns cientistas mais ousados afirmam que toma as decisões antes mesmo de nós as conhecermos, o que filosoficamente se aproxima das afirmações de mestres hindus de que "temos duas cabeças, e uma delas está sonhando hipnotizada, enquanto a outra controla tudo a nossa volta" – tal declaração também se soma a metáforas de místicos como George Ivanovich Gurdjieff, que divide nosso sistema nervoso em Baixa e Alta Cabeça.

Essa seria a explicação para o fato de, às vezes, não entendermos porque odiamos tanto alguma coisa, ou nos afeiçoamos a outra. De acordo com essa teoria, o Subconsciente (ou a Alta Cabeça) processou informações que nós nem sabemos que possuímos e tomou a decisão antes da gente. "Até a porcaria da barulheira que a minha vizinha velha faz pode afetar o modo como avalio um livro", conta Nick Hornby em um livro sobre crítica literária que não lembro o nome agora. Em outras palavras: a experiência de avaliação e o modo como uma obra nos influencia não é nada parcial, não se inicia quando abrimos a primeira página e não termina quando fechamos a revista (tô usando o exemplo de revistas em quadrinhos por motivos óbvios, mas pode ser aplicado a qualquer produto ou obra cultural).

É aí que entra três canais importantes: as editoras, as críticas e os scans. São três fatores interdependentes e, ao mesmo tempo, conflitantes. As editoras querem te mostrar apenas um aspecto das obras lançadas por elas, muitas vezes o modo como ela se relaciona com aquela saga nada épica lançada por ela, ou a fama do desenhista. O fato é que editoras são empresas, que precisam de dinheiro, e lançam um monte de produtos pra isso. Elas, com toda a certeza, têm consciência que nem tudo que lançam é bom, mas não podem perder dinheiro e têm metas a cumprir. Pra isso usam a propaganda, e escancaram a parte que julgam mais vendável em suas revistas e o resto que se dane. Eles tentam nos colocar em situação de alerta para uma parte do seu produto, para que filtremos sinais que poderiam estragar nossa experiência do ponto de vista deles. É exatamente a ideia de soltar um rato na frente de um gato.

As críticas já trabalham em mares diferentes, pois visam mostrar que a propaganda das editoras não é lá muito de confiança, no fim das contas, e se põe a indicar ao público as coisas boas e ruins de uma forma mais imparcial e livre da influência editorial. As críticas devem ser amplas, pois os que as escrevem simplesmente não sabem do que cada leitor gosta, e precisam abranger o maior número de fatores possíveis – arte, cores, roteiro, cronologia, diálogos, etc.

Isso num mundo ideal. Antes tínhamos jornais, revistas e sites que faziam esse serviço de avaliar previamente pra nós leitores, o que é possivelmente bom e o que é descartável. Às vezes esses dois lados brigavam, como o dia em que Frank Miller rasgou uma edição da revista Wizard, em abril de 2001, durante um Harvey Awards. "Tenha sempre em mente que se você se deitar com cachorros, pegará pulgas. Se deitar com vermes (o autor pega uma edição da revista Wizard), pegará vermes. Os executivos de Hollywood não lêem quadrinhos. Eles lêem a Wizard. Ou, pelo menos, as editoras pensam isso. De qualquer maneira, o resultado é o mesmo. Embora essa vulgaridade mensal (Miller rasga a capa da revista) reforce todo o preconceito que as pessoas têm sobre os quadrinhos (começa a rasgar as páginas), eles dizem para todo o mundo que somos tão baratos, estúpidos e sem valor quanto pensam que somos. E nós patrocinamos essa agressão", falou na época de forma ácida.

Em outro episódio, a crítica se uniu para detonar qualquer possibilidade de sucesso de A Saga do Clone, do Homem-Aranha. Se a obra é boa ou não, foge ao propósito desse meu texto opinar de forma detalhista (Eu particularmente odeio, e até dei todas as revistas para um amigo), mas na época, diversos sites combinaram notas e avaliações com o objetivo de detonar a obra frente ao público. Em outro momento, executivos inflaram as vendas das edições de Homem-Aranha, de Todd McFarlane, e de X-Men, de Jim Lee, através de especulações, que chegaram a casa dos milhões de exemplares, prática que ajudou a explodir o mercado de quadrinhos no fim dos anos 90.

No meio de todo esse fogo cruzado, estão os leitores. É difícil ser leitor num ambiente psicológico e complicado desse. Principalmente longe do mundo ideal, quando as editoras fazem o possível para influenciar as avaliações dos críticos/blogueiros e criam sagas de quadrinhos interligadas e feitas de forma industrial com o único intuito de vender. É aí que entram os scans e outras formas de distribuição não-oficiais (ou piratas, na concepção da indústria). É meio que um discurso pronto de várias editoras de quadrinhos que os scans (ou os filmes e música para baixar) que a chamada "pirataria" destruiu a indústria, usando como argumentos os números de vendas nada positivos por parte da chamada Indústria Cultural. O discurso geralmente funciona, mas é leviano e só deveria ser aceito em um mundo que só conhecesse os mecânicos lógicos do puxa-empurra da física newtoniana… e os séculos XX e XXI nos fizeram conhecer a Relatividade e a Mecânica Quântica, que deveria, em tese, abrir a mente das pessoas a modelos de realidade muito mais abrangentes e complexos.

Os scans parecem mais com uma resposta do público a um monte de porcaria lançada. É a reação do público – teoricamente impotente – frente a esse jogo comercial. Não estou falando aqui de questões morais, mas simplesmente de fatores práticos. Apenas as obras ruins parecem prejudicadas pelos scans, e existe um motivo bastante lógico para isso: os fãs lêem a revista de graça, e só compram as que gostam. Geralmente o boca-a-boca faz o resto.

Sem dinheiro envolvido, outras questões entram em jogo na avaliação, várias delas nem foram abordadas nas linhas acima. Com ferramentas poderosas de cópia, o poder voltou aos leitores, que antes pareciam o lado mais fraco do triângulo. As propagandas influenciam menos, as críticas também e tudo se equilibrou um pouco mais. Logicamente que ainda existe muita rapinagem de todos os lados, mas pode-se dizer que a interdependência das vértices do triângulo agora estão mais seguras.

Com mudanças tão dramáticas assim é difícil especular como estará o mercado daqui a cinco anos, ainda mais com estudos cada vez mais profundos sobre como nosso cérebro funciona. Mas, uma coisa parece cada vez mais certa: longas batalhas entre esses lados do triângulo continuarão cada vez mais fortes e emocionantes de se acompanhar, afinal, tudo isso influencia na forma como possivelmente apreciamos uma obra de quadrinhos!

Supergods: O que um careca escocês pode nos ensinar sobre quadrinhos?

Se você pegar o encarte de Supergods, o primeiro livro do escritor Grant Morrison, vai encontrar a seguinte citação de Stan Lee: “Grant Morrison is one of the great comic writers of all time. I wish i didn’t have to compete with someone as good as him” se Jack Kirby estivesse vivo, provavelmente diria: “cai dentro!”, mas a verdade é que sem Lee ou Kirby, não existiria Morrison, ao menos não da forma como conhecemos.

Supergods é a primeira empreitada do escocês careca na literatura convencional, neste livro, o mesmo busca desenvolver – sem pretensões acadêmicas – suas visões profissionais, ideológicas e espirituais sobre o meio, analisando o espírito de cada época assim como desenvolvendo um paralelo biográfico.

O livro começa no início do século passado, no auge dos males daquela época, a Grande Depressão, a Bomba e a sombra de Adolf Hitler pairando sobre a Europa e assim Morrison toma seu tempo para explicar, de forma empolgada e eletrizante, o advento do Super-homem e o início da Era de Ouro das HQs.

Logo de cara, podemos detectar a principal falha do livro, a constante perda de fôlego que Morrison exibe em sua dissertativa, capítulos como “The Sun God and The Dark Knight” ou “Superpop” apresentam não apenas um nível alto de argumento, como também humor e atmosfera, mas em compensação, em demais outros, o escocês patina, como se entrasse em um modo automático, preenchendo lacunas até chegar em um ponto mais pertinente.

É espantosa a intimidade do autor com o meio, conhecendo a essência criativa por trás das principais obras e as motivações dos escritores e desenhistas da época, Morrison inclusive, trata com carinho períodos “negros” da indústria, como a Era de Prata, enfatizando o esforço criativo da época em contornar ou criticar o Comics Code Authority.

Interessante analisar como Morrison “distribui” a culpa dos eventos que levaram à Era de Prata, não apenas evidenciando de forma sardônica certos sentimentos enrustidos de Frederic Wertham, autor do controverso “Sedução dos Inocentes”, onde argumenta que a degeneração moral da juventude norte-americana se encontra, em partes, nas HQs.

Assim como a indústria de HQs na época, incapaz de realizar uma contingência de reação perante a opinião pública e o próprio declínio criativo dos artistas da época.

Entre os capítulos mais louváveis dessa fase, é “Shamans of Madison Avenue” e o surgimento de New Gods por Jack Kirby e o início da “meta-espiritualidade” nas HQs e “Brighest Day, Blackest Night” onde Dennis O’Neil em Green Lantern/Green Arrow evidenciou as inquietações sociais americanas e mostrou o quanto isto era contraditório à proposta do CCA.

Para os leitores atuais, é engraçado perceber como Morrison evita comentar sobre a Marvel Comics, como se o autor – por uma série de razões até mesmo editoriais – se sentisse desconfortável para comentar sobre a editora concorrente.

Claro, o livro não deixa de dar mérito pra importância de títulos como Fantastic Four, Spiderman e Captain America, mas como o próprio Morrison afirma em suas notas biográficas, ele achava que os títulos da Marvel tinham uma certa dose de realidade que ele considerava intragável para sua infância.

E o mesmo reconhece que foi em Stan Lee, que surgiram diversas das suas inspirações, como a idéia de trabalhar metalinguagens em trabalhos como Animal Man e Doom Patrol na DC/Vertigo.

A parte biográfica é um show a parte, e em diversos momentos considerei mais atraente que a própria proposta do livro, desde sua infância pacata em Glasgow, o crescente tédio na adolescência, o divórcio de seus pais e sua inevitável empreitada no mercado editorial, assim como o início da fama, com Zenith na 2000 AD, seu contato com as drogas, o vegetarianismo, as experiências lisérgicas e sua primeira crise existencial, há quase duas décadas atrás.

Claro que o livro reflete os maneirismos criativos de Morrison, a relação entre espiritualidade e cultura pop é amplamente explorada, exemplos como o dualismo Apolo/Dionísio entre Superman/Batman, a questão de símbolos e palavras mágicas e ai o mesmo argumenta que Captain Marvel, ao pronunciar “SHAZAM”, se tornou o primeiro grande xamã da ficção moderna.

A verdade é que, tirando suas discussões sobre a Era de Ouro e de Prata, se o leitor conhece a obra recente de Morrison, então pouco sobra do livro, em muito, o livro é considerado um manifesto em prol da edificação do arquétipo super-heróico.

Na terceira parte do livro, Morrison prefere chamar a “Era Moderna”, iniciada por Frank Miller e Alan Moore como a “Era das Trevas”, onde se deu início a uma obsessão pelo “realismo” nas histórias, trazendo o vício insalubre que ficou conhecido pela crítica como “grim n’ gritty”

Morrison condena o “realismo” por duas instâncias: primeiro, pois ele é fruto de uma mente adulta e limitada pelas vicissitudes do cotidiano adulto, e que, por fim, o mesmo não passa de um exagero de violência e repreensão sexual que visa não transformar as histórias em algo real, mas sim “desmoralizá-las”.

E ai o escritor reforça sua crítica em cima de “Watchmen”, onde de forma ambígua, elogia o esforço criativo de Alan Moore em talhar sua história em uma “perfeita simetria”, mas condena a obsessão do barbudo com suas personagens, deixando bem claro que “realismo” não é sinônimo para “fatalismo”, “humanizar” personagens não é o mesmo que “humilhar”.

Alguns fóruns acusaram que o livro, levando em conta a recente reformulação do Universo DC, se tornou um golpe publicitário, é importante frisar que Morrison tem dado uma série de entrevistas sobre o futuro criativo da editora, roteirizando três dos personagens mais importantes da editora, a famosa “trinidade” composta por Superman, Wonder Woman e Batman.

Em diversos momentos, Morrison argumenta a inspiração popular, quase socialista do Superman de 1938, assim como os fetiches BDSM de William Moulton Marston, o escritor original de Wonder Woman, idéias que ele afirmou que vai retomar e por em prática em trabalhos futuros.

Não é mentira que a ascensão do escocês tem causado incomodo no público e na mídia, vamos ser sinceros quanto a um ponto, Grant Morrison é um nerd que vive seus quinze minutos de fama, com livro e documentário, onde muitos optariam por sofrer uma “síndrome do undeground”, Morrison busca através dessa visibilidade dar uma projeção maior a seus projetos e idéias.

Supergods é o início do que pode ser o “próximo passo” do mercado de HQs, da mesma forma que Kirby, Lee, O’Neil, Moore, McFarlane e tantos outros contribuíram com o futuro do meio, só o tempo poderá nos dizer sobre o êxito dessa empreitada.

Ficam aqui meus votos para o fim dos anti-heróis carrancudos e a volta das capas esvoaçantes e heróis sorridentes, assim como no passado, esses são tempos em que mais do que nunca, precisamos deles novamente.

O Fim da Mordaça dos Quadrinhos

[Texto originalmente publicado no Farrazine #20, 21 de fevereiro de 2011]

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Os EUA são um lugar bem estranho: possuem uma cultura recheada de incentivo a uma violência velada em seus meios de comunicação de massa, mas ao mesmo tempo hesitam em falar abertamente sobre sexo, por exemplo. E qualquer um com um mínimo de conhecimento em comportamento animal sabe que violência – por qualquer razão, mas principalmente por território e hierarquia – e sexo são praticamente instintivos. Os EUA, assim como a maioria das democracias ocidentais (e dos Estados em geral), gostam de repressão e de políticas de combate, de apontar culpados ao invés de tentarem olhar para as causas do problema. É como culpar as chuvas pelas contínuas enchentes e soterramentos de uma área serrana, sendo que a construção de casas nessas áreas termina por destruir a vegetação que mantém a terra firme.

Tal comportamento, segundo a Etologia, é derivado de instintos primatas que todo o ser humano possui. É só observar um gorila líder de um bando; quando ele se sente ameaçado ele acha o líder de um bando mais fraco e o ataca, como que colocando a culpa de seus problemas nele. Atacar física e psicologicamente é interpretado como um sinal de força e termina por desviar a atenção do bando para um possível problema mais complexo. Bata publicamente em algo e tá tudo certo, é assim que a maioria dos ditadores são seguidos quase cegamente por seus súditos. A ascensão de Hitler e Stalin (ou qualquer outro) não difere da da tomada de poder de um gorila ou um elefante em seu bando. Da mesma forma não diferem as posições autoritárias que eles assumem em seus discursos. Esse é um dos motivos para as duas grandes religiões do mundo serem basicamente repressoras e monoteístas. Elas ensinam como a autoridade suprema não deve ser contestada e ainda criaram um inimigo que pode ser culpado de tudo: o Diabo e suas variações. Tais constatações parecem excessivamente metafísicas, longe do nosso dia-a-dia, mas tem mais similaridade com coisas bem próximas a gente do que se pode imaginar. Uma delas o leitor de quadrinhos conhece bem: o Comic Code Authority.

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The Boys: um mundo de heróis sem escrúpulos

Não é nenhuma novidade, você pega o jornal ou assiste um noticiário na TV e se depara com notícias sobre a última overdose da Amy Whinehouse ou sobre o próximo pornô transexual do Alexandre Frota que faz uma música do UDR parecer uma canção de ninar, ou até mesmo o festival de nonsense protagonizado por nossas autoridades, é policial usando spray de pimenta em criança, político coagindo a secretária a tirar a roupa, uma coisa pra mim ficou clara como o dia, tendo em mente esses exemplos – e muitos outros episódios – eu posso concluir que o ser humano é despreparado para lidar com fama e/ou autoridade, de fato, mais um dia decadente na selva de concreto ocidental.

Cresci lendo HQs da década de noventa, principalmente do gênero super-heróico do filão Marvel Comics, tratando de heroísmo “cabeça”, observamos aquilo que a gente podia falar de uma humanização dos heróis, Matthew Murdock, advogado cego e vigilante noturno, Peter Parker, universitário desempregado e herói, toda a questão étnica e adolescente entre os X-men, bom, não é a toa que eles dizem “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades”.

Depois de adulto você passa a questionar isso, qual é o treinamento que esses heróis recebem? Como isto pode ser empregado em um ambiente público? Quais são os danos secundários? Quem aqui cresceu na mesma época que eu, deve-se lembrar da saga Massacre e a climática batalha no Central Park, envolvendo os Vingadores, o Quarteto Fantástico e os X-men contra um vilão titânico.

Naquele evento, e tantos outros, nunca ficou exatamente claro se um civil foi fulminado por um raio da morte perdido ou quantos foram pegos em uma explosão, ou se o Aranha entrando em um prédio em chamas ocasionou na morte desnecessária de alguém. E o pior, com tantos heróis alcançando status de celebridade, quanto tempo levaria para um deles surtar em público? E se um super-herói fosse Mel Gibson, Amy Whinehouse ou Charlie Sheen? A expressão “elefante na cristaleira” nunca fez tanto sentido, certo?

É a partir desta premissa que Garth Ennis e Darick Robertson criam o universo de The Boys, pela editora Dynamite Entertainment. Ennis, já conhecido pela sua aversão ao gênero super-heróico, mostra um mundo onde heróis descontrolados estão mais preocupados com publicidade e royalites, onde lobistas do conglomerado corporativo Vought American promovem ativamente o emprego de super-heróis no governo norte-americano. Uma verdadeira – e plausível- perversão do sonho fomentado pela Marvel e DC.

Os “garotos” do título são individuais recrutados pela CIA com o objetivo de investigar e manter em cheque a comunidade super-heróica, a equipe é formada por Mother’s Milk, um ex-soldado afro-americano, no qual a família se envolveu em uma briga judicial com a Vought American, The Frenchman, um suposto ex-militar francês, aparentemente insano que nutre uma imensa afeição pela The Female, uma ex-cobaia traumatizada, potencial psicopata, com aversão a qualquer um que a toque, Hughie “Mijão”, o novato, recrutado após ter a namorada morta em um incidente super-heróico, teórico da conspiração, tenta entender as motivações por trás de Billy Butcher, o líder da equipe, que nutre um ódio incondicional por super-heróis.

 

 

Boa parte da história é contada sobe a perspectiva de Hughie Mijão, como se o leitor também desbravasse a rede de intrigas do universo criado pelo Garth Ennis, o choque em descobrir que todo o heroísmo não passa de uma fachada, que as mortes, ressurreições e invasões alienígenas não passam de desculpas feitas pro assessores de imprensa para overdoses, acidentes ou orgias em paraísos tropicais.

Ennis se preocupa em balancear seu “argumento” com o background da história e dos protagonistas, claro, cenas que consagraram o roteirista na indústria de HQs são freqüentes e quase gratuitas! Não se surpreenda pela quantidade de sangue, tripas e outros fluidos e dejetos humanos que aparecem em cada edição. Cada arco de história geralmente costuma focar na reinterpretação de um grupo de heróis da Marvel ou da DC, transformando heróis em pessoas sádicas, irresponsáveis ou sem controle, Ennis toma o seu tempo com a trama, dedicando cada página para transmitir ao leitor seu ódio por super-heróis, criando situações ultrajantes, questionáveis, como uma verdadeira terapia de choque.

A série tem um comentário social forte ao cenário político americano, Ennis faz uma crítica ácida a falta de direitos trabalhistas para a população mais carente, a reação em relação ao episódio do 11/9 e toda a tramóia política que isto originou, os escândalos que envolveram a PMC Blackwater durante a administração do governo Bush.

O legal é ver que todos os planos dos The Boys são friamente calculados, meticulosos, quem espera por freqüentes cenas de pancadaria vai acabar um pouco frustrado, já que as mesmas não ocorrem sem antes toda uma investigação nos incontáveis podres e esqueletos no armário da comunidade super-heróica, mas quando acontecem, costumam ser sangrentas e viscerais, mérito do Darick Robertson, é claro.

Darick Robertson, conhecido por ter colaborado com sua arte no aclamado Transmetropolitan, de Warren Ellis, mostra uma arte bem dedicada, tentando equilibrar o aspecto “sem-noção” dos heróis com o resto do mundo “normal”, um fato curioso é que para alguns personagens, Darick foi buscar inspiração em Transmetropolitan, como as similaridades de The French com Spider Jerusalém e The Female c/ a  Yelena Rossini, outro fato envolvendo a criação dos personagens se encontra na proposital semelhança entre Hughie Mijão e o ator nerd idol Simon Pegg, famoso por filmes de comédia como Hot Fuzz e sua participação como Scotty no remake de Star Trek dirigido pelo J.J. Abrams

 

 

No Brasil, apenas o primeiro volume, intitulado “O nome do jogo”, foi lançado pela Devir Comics, se esta série te interessa, recomendo procurar alguns scans (e se tiver algum para recomendar, pode postar nos comentários! :])  ou comprar importado, indico para todos que procuram uma crítica séria a mentalidade super-heróica dos quadrinhos americanos ou para os leitores que há muito tempo estão carentes de algo no nível de Preacher.

Resenha: The Filth e nossa imundice cotidiana

Volta e meia eu pego aquela discussão doméstica, uma criança põe algo na boca, um objeto estranho, estrangeiro ao corpo, anômalo a moral higienista de nossa sociedade, a criança esfrega esse objeto – inseto, cocô, uma peça de lego – na boca, passa a língua, engole, muitos dizem que isto é anti-higiênico, nocivo ao corpo, que a criança inevitavelmente irá contrair uma doença. Esquecemos da natureza sobrevivente do nosso organismo, o constante convívio com germes e bactérias, coisa que o fortalece, o torna mais resistente para encarar as mazelas externas, talvez a educação de exclusão de uma mãe mais preocupada, de fato, poupe o filho de um resfriado ou outro, mas em longo prazo, qual é o benefício disso?

Talvez, um paralelo pertinente a esta questão seja nossa exposição no ambiente urbano, aos dromológicos construtos culturais, buzinaço na hora do rush, junk food, vagões de trem lotados, pornografia, a desagradável música saindo de telefones celulares, exista quem irá dizer que isso é desagradável ao ser humano, que nós estamos, de pouco em pouco, findando nossas vidas nesta desordem sem fim.

Em tempos onde se discute xenofobia de forma tão entusiasmada, vale lembrar que o número de organismos não nativos que habitam seu corpo excede em 10 vezes aquelas células que nasceram c/ você.

E se, em contrapartida, toda exposição a este lixo nos reforçasse, seja em crivo cultural ou até mesmo em maior tolerância para jornadas de desconforto,  que toda a doideira cotidiana nos ajudaria a alcançar um estado de psico-blasé? A premissa inicial de The Filth, roteirizado por Grant Morrison, trata deste assunto.

A história começa com o protagonista, Greg Feely, cujo suas únicas preocupações cotidianas são colecionar pornografia e cuidar de seu gato de estimação moribundo, descobrindo que na verdade, sua personalidade é apenas um constructo para o agente Ned Slade, membro de uma organização conhecida como “The Hand”. A “The Hand” é liderada pela enigmática Mother Filth, e sua função é a preservação daquilo que eles chamam de “Status: Q” (O status quo).

A premissa, a partir daí, é contrária a outras obras do autor, como The Invisibles, se nesta, King Mob e sua trupe revolucionária descobrem, de forma amarga, que a revolução é órgão integrante do sistema, em The Filth, Greg/Ned, a contragosto, encarnam o papel do policial, do lixeiro, agência sanitário ontológico.

O Status: Q é ameaçado por aquilo que a agência denomina “Anti-pessoas”, experimentos falhados, seres de outras dimensões, coisas e criaturas capazes de ameaçar a população e o bem estar geral, como um agente sanitário, Greg/Ned e sua equipe são enviados para conter e posteriormente limpar a ameaça.

O Clima da história é denso, pesado, sendo integrante do selo Vertigo, Morrison permitiu transparecer cenas de agonia e crise existencial na trama, é uma HQ inspirada no clima de transição do início do século, paranóia, poluição sinestésica, solidão, a catarse da rotina pós-moderna através do exploitation, o próprio Morrison, em entrevista ao Comic Books Resources, afirma que escreveu The Filth durante uma fase ruim de sua vida, o que transparece em Greg/Ned, que da mesma maneira que tanta digerir as loucuras proporcionadas por sua vida dupla de agente, tem que conciliar isto com seus temores cotidianos, como a doença de seu gato e o vício por pornografia.

Aos poucos, Greg/Ned – e os leitores -aprendem sobre a natureza doentia do universo, e caso entendam a proposta do roteirista, buscam através de todo pessimismo e negatividade, construir algo melhor para o próprio espírito, o desfecho dessa série, em treze edições, não poderia ser outro, redentor…

Claro que como estamos falando sobre Morrison, nós vamos presenciar as habituais viagens do escritor, espere coisas como: “Planeta Bonsai” ou “Terrorismo Pornográfico”, espermatozóides gigantes, tentáculos, golfinhos gigantes cibernéticos e até alguns elementos corriqueiros desta fase do escritor, já vistos, por exemplo, em Homem Animal e Patrulha do Destino.

Começar a ler The Filth, é como ser apresentado a um remédio, antes do primeiro capitulo, somos confrontados por uma “bula médica”, posologia de HQ, contra-indicações, efeitos adversos, e então, a administração da dose, bom, no meu caso, dores excessivas nas costas e em determinado momento, engasgo com a própria saliva, ai então, percebi que era hora de parar a leitura…

Talvez a “sujeira” em The Filth seja mínima hoje em dia, com a esquizofrenia da cultura pop e a natureza blasé de seus consumidores, mas The Filth ainda não deixa de ser uma boa leitura, ainda mais pro público recente, que assim como eu, desconheceu uma fase tão célebre da Vertigo Comics.

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