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Daytripper e os momentos preciosos de nossas vidas

 

Daytripper é uma daquelas resenhas por onde você não sabe começar, cada página apresenta ao leitor uma nova questão, uma nova beleza, um pensamento que ao mesmo tempo é nostálgico, melancólico e inquietante.

Para quem ainda não sabe, Daytripper é uma história em quadrinhos escrita e desenhada pela dupla brasileira Gabriel Bá e Fábio Moon e lançada pelo selo Vertigo, o braço da DC Comics responsável por histórias mais adultas e autorais.

O que me chamou a atenção foi toda repercussão que a série causou na mídia especializada, ganhando prêmios de peso lá fora, como o Eisner, Eagle e Harvey, quase todos envolvendo critérios como “melhor nova história em quadrinhos” ou “melhor série limitada”.

A premissa apresenta um roteiro simples, embora detentor de uma profundidade emocional incomum ao meio, conta diversos episódios cruciais na vida do jornalista paulistano Brás de Oliva Domingos (seu nome é uma possível referência a Brás Cubas, do clássico de Machado de Assis)

No passado, nesse mesmo blog, já critiquei diversas vezes as pretensões por volta da ideia daquilo que é considerado um “título adulto”, utilizando também em meus exemplos o selo Vertigo, porém Daytripper provou que ainda existe esperança.

Todos os capítulos compartilham a mesma fórmula de roteiro, sem uma continuidade exata, seguem diversos momentos cruciais da vida do personagem, em capítulos intitulados de acordo com a idade do mesmo e todos buscam explorar os sentimentos de Brás em relação a vida: carreira, relacionamentos, amizades, paternidade e luto são temas comuns nas tramas.

Uma dose de fatalismo é recorrente em cada capítulo, onde Brás inevitavelmente finda perante a vida, acredito que a intenção de Fábio Moon e Gabriel Bá seja demostrar o leitor a fragilidade da vida e a preciosidade de nossos momentos, empregando a noção literária de memento mori nas HQs.

Em diversos momentos da minha leitura eu me peguei ansioso para saber qual seria o desfecho de Brás em determinado episódio, acredito que embora seja um recurso de roteiro que “fisgue” o leitor, o mesmo pode causar certo nível de ansiedade e prejudicar a apreciação da obra.

Não é a toa que Daytripper é tão aclamado pela crítica, aqui não temos tramas policiais amargas ou a ficção-científica psicodélica, Brás de Oliva Domingos é um personagem universal, os problemas vivenciados na trama são comuns ao ser humano, é impossível que o leitor não se simpatize.

Em contrapartida, o ritmo lento e introspectivo da revista pode desagradar os leitores mais impacientes ou ávidos por ação, justamente aqueles mais adeptos das histórias adultas mais tradicionais, com suas tramas sombrias e dotadas de humor negro.

Se Brás é um personagem universal, o mesmo não pode ser dito da sua ambientação, Daytripper se passa no Brasil, em paisagens conhecidas como São Paulo e Rio de Janeiro, porém as mesmas são apresentadas com certo teor onírico, talvez até proposital, com o intuito de captar o público estrangeiro.

O traço de Fábio Moon tem referencias pra lá de propositais, cada cidade brasileira é apresentada como se fosse um cartão postal, São Paulo é desenhada com a intenção de lembrar a arquitetura do centro velho, a escolha das cores de Dave Stewart, em tons de sépia, apenas reforça o clima nostálgico. Outro ponto é a retratação de Salvador, todo construído em ladeiras, coqueiros, igrejas barrocas, além de praças repletas de vendedores ambulantes e mesas de bares.

Este Brasil possui um certo caráter introdutório, que sacrifica a verossimilidade da trama em prol da extrapolação daquilo que é exótico em nossa cultura aos olhos estrangeiros, em um caso óbvio, qualquer brasileiro adulto sabe quem é Iemanjá, ainda assim, uma personagem apresenta a divindade a Brás como: “Iemanjá, a deusa dos oceanos…” , além é claro da retratação de pontos turísticos, como o Corcovado e o Teatro Municipal de São Paulo porém isso é equilibrado episódios recentes como a queda do Voo TAM 3054 e o Apagão de 2009.

E como a própria HQ argumenta: “Aqui nós todos nós somos turistas”, mostrando que indiferente de ser caucasiano ou afrodescendente, brasileiro ou estrangeiro, católico ou umbandista, a diversidade cultural fala mais do que todos nós, e por isso, é importante salienta que essas situações não chegam a causar tanta estranheza e portanto não prejudicam a leitura, embora possam servir como referencial para um futuro amadurecimento artístico de ambos os autores.

Daytripper é uma raridade para o selo Vertigo e o ramo editorial dos quadrinhos adultos, detentora de um lirismo que não víamos no selo desde – pasme – Sandman, seu ritmo lento e até mesmo melancólico não será capaz de agradar a todos os gostos, mas ainda assim, é uma ótima leitura, recomendo para todos que buscam algo diferente, mais autoral e com uma sensibilidade que cada vez mais incomum entre as HQs ocidentais.

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Eve no Jikan: Anime, Asimov, Café e Relacionamentos!

Robótica e animes são coisas que há muito tempo andam de mãos dadas, o fruto do interesse dos autores neste ramo específico da ciência resultou em obras que mesmo após décadas ainda são discutidas e repercutidas em seus meios, podemos ir lá trás, nos primórdios da animação japonesa com Astroboy de Osamu Tezuka, passando pelo uso de robôs no serviço cívico em Patlabor ou a ficção cientifica beligerante de Mobile Suit Gundam, sem esquecer de mencionar – é claro – Ghost in the Shell, de Masamune Shirow, um dos mais preciosos e assertivos tratados sobre o gênero literário cyberpunk, existem outros – muito outros – tão importantes quanto estes citados, como a adaptação pra anime feita pelo estúdio Ghibli de Metropolis, filme expressionista alemão da década de 20, dirigido por Fritz Lang, seguindo essa linha, também tivemos animes sobre a influência das redes sociais e a vida na Web 2.0, desde a abordagem densa e cheia de metáforas em Serial Experiments Lain, passando pela integração das redes no novo clássico Summer Wars e até mesmo Durarara!! Tratando da vida urbana e seu reflexo em imageboards e smart-mobs (Que um dia será objeto de resenha neste blog…)

Animes e Mangás – assim como diversas outras manifestações culturais – têm essa característica em informar e abordar assuntos atuais, não é por menos, se considerarmos o cotidiano das cidades japonesas – e por extensão, do mundo – fábricas de automóveis completamente automatizadas, sistemas de informática para hospitais, transporte público, transmissão para os meios de comunicação em massa, sistemas de vigilância e até mesmo coisas menos tangíveis, como softwares inteligentes agindo em buscadores e sites de compra, querendo ou não, a presença de robôs e informática nos atinge de um modo ou outro.

Seguindo essa linha, o anime Eve no Jikan aborda de um jeito tenro as relações interpessoais entre humanos e máquinas, claramente inspirado no universo de ficção criado por Isaac Asimov, onde robôs verossímeis a forma humana são empregados na realização dos mais diversos labores, a história começa – pra variar – sob a perspectiva do estudante colegial Rikuo Sakisaka, que após analisar os logs de sua robô doméstica (houseroid) Sammy, descobre a mensagem: “Are you enjoying the Time of Eve?”

Originalmente lançado em seis capítulos em formato ONA (Original Network Animation) e exibido via streaming pelo Yahoo!Japan e pelo o Crunchyroll,posteriormente sendo relançado em uma compilação de 1h5min de duração.

O anime é rápido em inteirar o espectador no universo da estória, logo observamos questões comuns no gênero, como o lobby de grupos anti-robôs, a situação industrial e comercial do Japão e até mesmo um estranho caso de depedência/carência afetiva entre humanos e robôs, chamado “Deki-kei”, pessoas – graças a aparência familiar dos robôs – têm dificuldade para estabelecer uma política de relacionamento com seus servos robóticos, comprimentos e intimidade são vistas como tabu nessa sociedade.

Sakisaka, junto com seu amigo Masakazu Masaki, descobrem em uma ruela um pequeno – e escondido – café chamado “Time of Eve”, onde a única norma de conduta é que indiferente de humanos e robôs, todos devem ser tratados como iguais. É neste café, junto com a proprietária e barista Nagi que Sakisaka descobre o quão cinzento e complexo são as relações entre homens e máquinas. Muitas das discussões entre Sakisaka e os freqüentadores do Time of Eve são fundamentadas nas Leis da Robótica escritas por Asimov no romance “Eu, Robô”, esmiuçando a fundo o emprego delas.

Recentemente, o site japonês Biglobe lançou um ranking Top 10 das animações mais bonitas – em um sentido estético e técnico – já feitas, tendo em seu primeiro lugar, Eve no Jikan, entre os concorrentes, podíamos encontrar nomes de peso, como Ghost in the Shell: Stand Alone Complex, Evangelion 2.0: You Can (Not) Advance e até mesmo Puella Magi Madoka Mágica, que já foi resenhado aqui

Admito que foi este fator “beleza” que me motivou a procurar por esta animação, e os valores de produção são excelentes, personagens com uma gama variada de expressões, uma atenção dedicada a questões como luz, sombras, reflexos e transparência, claro que tudo isso é graças ao uso de diversas técnicas de computação gráfica, embora realmente seja bonito, não podemos observar nenhuma técnica inovadora – como, por exemplo, em Madoka, que alcançou a décima posição no ranking da Biglobe –

“Bonito” é uma boa definição para esta animação, além do apreço na arte, temos um roteiro bastante humano, que busca desconstruir aos olhos do protagonista, as barreiras deste relacionamentos, diversos tópicos são retratados: amor, preconceitos, sentimentos paternais, identidade, propósito e etc. Este não é um anime para os afobados ou sedentos por ação, o clima é letárgico e com muitos diálogos, a trilha sonora é serena, e sim, irá despertar bocejos entre os espectadores mais casuais.

Talvez uma única falha seja o fim abrupto do longa, onde embora o roteiro explore bastante as relações e vicissitudes do universo robótico, diversas tensões construídas são ignorados ou terminam sem grandes explicações, de acordo com o site oficial, uma segunda temporada – e por conseqüência, longa metragem – está planejada para este ano, porem, ao momento da conclusão deste post, nenhuma outra notícia foi emitida pelo estúdio de animação.

É um bom anime, recomendo para muitos públicos, entusiastas do filão clássico da Ficção-Científica ficarão aliviados em saber que o debate de Asimov é retomado de forma sensacional, já aqueles apaixonados por dramas, encontrarão ai uma boa e interessante história sobre relacionamentos, enquanto os fissionados por animações vão poder se deleitar com os aspectos técnicos e gráficos.

O Falo tentacular: sexo bizarro e ocultismo no legado de Lovecraft

Atenção: a única coisa realmente obscena neste post são as quantidades de spoilers sobre um monte de coisas, leia com sua própria conta a risco

Em 1814, o artista Katsushika Hokusai concebeu o ukyo-e “Tako to ama”, conhecido posteriormente no ocidente como “O Sonho da Mulher do Pescador”, a xilogravura retratava uma mulher japonesa, de ventre nu, tendo relações sexuais com dois polvos (tako). a mulher em questão era uma mergulhadora “ama”, recorrente no Japão, são grupos de mulheres que mergulham com o mínimo de equipamento em busca de pérolas e frutos do mar, o fato de serem mulheres tem haver com uma crendice popular japonesa, onde se fala que a “gordura” do corpo feminino é melhor distribuída, garantido assim, uma maior conservação do calor durante os mergulhos.

A gravura pertencia ao gênero Shunga, popular entre os japoneses, era comum o Shunga retratar o imaginário sexual de forma fantasiosa e simbólica: genitálias de tamanho exagerado, botão de flores crescendo para representar uma ejaculação.

O interessante era perceber como o Shunga era bem quisto pela mentalidade feudal, servia como guia sexual para famílias mais abastadas (lembrando, em alguns pontos, o próprio Kama Sutra), era considerado um objeto supersticioso, trazendo zelo e boa sorte para estabelecimentos que os contêm.

Isto abre uma brecha para interpretamos o Shunga como um objeto canalizador de “orgônio”, considerada pseudociência, o orgônio é a energia primal contida em nossos corpos, muito similar ao Prana ou Chi, ela é liberada através de estímulos físicos/sexuais – orgasmo – catarse e satisfação da libido.

O imaginário fálico do tentáculo foi concebido na cultura pop japonesa pelo manga-ká Toshio Maeda, em seu “Yōjū Kyōshitsu” (Demon Beast Invasion), alienígenas planejam invadir a terra, reconhecendo que o planeta possui uma atmosfera hostil, eles elaboram um plano para engravidar a população nativa  e criar uma raça hibrida que reinaria o planeta ao desígnio dos invasores.

A idéia de Toshio era burlar a censura japonesa, que proibia a retratação de genitálias em seus meios de comunicação, em entrevista, o mesmo comentou:

Na época, era ilegal criar uma cena de sexo na cama, eu pensei que devia fazer alguma coisa para evitar desenhar tal cena erótica. Então eu criei essa criatura, seu “tentáculo” não é um “pênis”, eu poderia dizer, como uma desculpa, que isto não é um “pênis”, é apenas parte da criatura, e você sabe, essas criaturas não tem gênero (sexual). Então se não é obsceno, não é ilegal”.

(se você se interessar pelo assunto de Hentai, Ecchi, Mangá, Eroge e etc., eu já dissertei sobre erotismo na cultura pop japonesa em um post no meu antigo blog, aqui

A idéia de fazer uma conexão retroativa com a gravura de “Tako to Ama” é apenas por uma questão de coincidência histórica, não podemos dizer que uma influenciou a outra, as próprias motivações são diferentes e fazem jus as mentalidades de suas respectivas épocas.

Nos contos de H.P. Lovecraft, tentáculos eram utilizados para retratar algo “não-humano”, ao invés de uma descrição objetiva, os deuses e criaturas ancestrais que assombravam a humanidade eram massas disformes, com pseudopodes, falsos membros e tentáculos, sem a vaga noção de humanidade reconhecível, seja física ou mental. Em um dos seus contos mais famosos, “O Chamado de Cthulhu”, a criatura homônima ao texto não é dada uma descrição válida, recorrendo a expressões como “a prole verde das estrelas”, “uma caricatura simultânea de polvo, dragão e humano”.

Ao contrário da mentalidade dos escritores japoneses, o erotismo na literatura de Lovecraft era quase nulo, se distanciando do platonismo doentio de suas inspirações como Poe e Byron, os contos de Lovecraft retratavam o sexo, embora deturpado, em sua visão mais puritana, como forma de acasalamento e propagação da prole, tal dita “frigidez” até hoje é motivo de debate entre fãs e acadêmicos quanto a orientação sexual do escritor.

Porem, um dos temas recorrentes em seus contos é a “hereditariedade maldita”, no conto “A Sombra sobre Innsmouth”, o narrador anônimo, aos poucos descobre sua ligação com um culto pagão (“A Ordem Esotérica de Dagon”) na cidade de Innsmouth, cuja as lendas envolviam acasalamento com monstros marinhos, ao final da história, o choque de descobrir ser descendente da mesmas criaturas – conhecidas como “Deep Ones” – que outrora abominava é mitigado a partir de sua transformação, aceitando sua condição pós-humana e cogitando ir morar em cidades subaquáticas.

Este tipo de niilismo é uma retórica comum para Lovecraft, no auge das descobertas, do colonialismo na África e na Ásia, o destino manifesto ocidental se iludiu da hegemonia sobre o mundo e as ditas “culturas inferiores”, os contos subentendiam duras críticas a mentalidade pretensiosa do homem daquela época.

Para o narrador protagonista de “A Sombra sobre Innsmouth” aceitar sua nova condição significava expandir o seu consciente, entender que há mais no mundo que nos acreditamos, bactéria de arsênico, saca?

É interessante dizer que o mesmo Dagon que inspirou o conto de terror, foi em nossa história ancestral um deus da fertilidade da mitologia Cananéia, este tipo de deturpação era comum na mitologia fictícia criada por Lovecraft, Derleth e seus colegas, outra criatura, Shub-Niggurath, é retratada como uma figura feminina e seu título é “A Cabra negra do bosque com centenas de crias”, Lovecraft, em correspondência, traça analogias com deusas da fertilidade como Astarte e Cibele.

Sendo que Shub-Nigurath é uma das criaturas de Lovecraft que mais se aproxima do imaginário religioso judaico-cristão, a figura do bode associada a Baphomet, cujo rumores indicavam no passado ser cultuado por grupos de mulheres pagãs.

Recentemente eu comecei a ler “Neonomicon”, da Avatar Press, escrito pelo Alan Moore e desenhado pelo Jacen Burrows, a proposta da HQ é uma modernização da Mitologia de Cthulhu, porem, a partir desta premissa, Moore abre espaço para conduzir algo muito mais nefasto.

A própria HQ brinca com seus sentidos – da mesma forma, talvez, que Cthulhu influenciava indivíduos através de sonhos – porem nossa ingenuidade c/ o hábito de leitura de quadrinhos faz com que isso passe desapercebido, se a idéia era com que as abominações imaginadas por Lovecraft se escondessem nas profundezas do planeta, Morre e Burrows fazem com que o leitor participe desta “descida”.

Cada quadro movimenta a história para baixo, desenvolvendo a narrativa através de corredores, sótãos, brincando com profundidade e distância, tirando as personagens da zona de conforto, trazendo-os para perto da incompreensão, a série de vídeos, disponíveis no Youtube, chamados “Breaking the Fourth Panel: Neonomicon and the Comic Book Frame” explica a malícia metatextual por trás dos criadores da série.



Nas edições seguintes, descobrimos que os protagonistas estão envolvidos com o Culto de Dagon, durante um diálogo os mesmos questionam da suposta sexualidade reprimida de Lovecraft.

A trama se intensifica a partir do momento que uma das protagonistas, cujo historio psicológico sugere ninfomania, sofre um estupro coletivo pelo próprio culto, um dos cultistas menciona que as “criaturas” são, de fato, atraídas por energias orgônicas.

A criatura invocada em questão, nada mais é do que um Deep One, do conto “A Sombra sobre Innsmouth”, e é aqui que Moore e Lovecraft entram em conflito, se para o último, a moralidade das criaturas era tão alienígena que para nós, reles humanos, só podia ser interpretada como “vil”, o Deep One de Moore – cuja silhueta é extremamente fálica – é uma criatura, um “animal” sob a concepção humana, cuja necessidade sexual não difere muito de uma cadela no cio, cuja moralidade anormal é a mesma que leva um leão a devorar o próprio filhote, ou seja, puro instinto.

Este é o legado de Lovecraft, entre sexo bizarro e ocultismo, em sua própria retórica anti-racionalista, pode questionar a noção de “depravação”, pois, quando lidamos com uma criatura de base moral tão superior a nossa, como entender que aquilo é algo vil ou deturpado? Que a angústia de inúmeros protagonistas nada mais é do que a necessidade de encarar seus inúmeros grilhões, da mesma forma que Neonomicon trabalha inúmeras “camadas” da realidade, para o fatalismo de Lovecraft, não vamos acabar apenas encarcerados em hospícios, mas também em nossa própria consciência…

Bram Stoker e a tradição de ruptura

[Texto originalmente publicado no Navilouca]

Drácula, escrito por Bram Stoker é um livro morbidamente curioso escrito no ano de 1897, era o ápice de uma sociedade funcional, baseada na tecnocracia positivista.

O livro é o principal responsável pelo universo mítico do vampiro moderno, que sobrevive parcialmente até os dias de hoje em diversas mídias. O tom sombrio das descrições e falas quando há a presença do Conde Drácula é a principal atração do livro, além, é claro de que para grande parte dos leitores da época as informações sobre os vampiros – não poder ser visto no espelho, controlar animais, se transformar em fumaça, grudar nas paredes e super agilidade entre outras coisas – eram novidades impressionantes.

“Ficamos em silêncio durante algum tempo. Do vale, vinham os uivos de muitos lobos.

— Ouça-os… os filhos da noite — disse o Conde, com os olhos brilhando. — Que música fazem!

E, notando, sem dúvida, minha estranheza, acrescentou:

— Os senhores, habitantes da cidade, não podem compreender os sentimentos de um caçador.”

Há também a presença do professor Van Helsing, que em sua sapiência atingiu um novo patamar de ciência, misturando-a com teologia, sendo uma clara crítica metafórica do autor ao ceticismo pragmático.

“Depois de muita reflexão, resolvi escrever ao meu velho amigo e mestre, o Professor Van Helsing, de Amsterdam, que conhece mais a respeito de enfermidade desse tipo que qualquer outra pessoa do mundo. Pedi-lhe que viesse examinar Miss Westenra, e expliquei a minha interferência e seus laços com Miss Westenra. Estou certo que ele virá, pois nunca deixou de atender a um pedido meu. Aparentemente, ele é um homem esquisito, arbitrário, mas isso se dá porque sabe o que diz. É um filósofo, um metafisico, um dos mais avançados cientistas de nossos dias; e tem, estou convencido, uma mentalidade muito arejada.”

A narrativa é constituída através da organização de registros fictícios como diários, telegramas, bilhetes, notícias de jornais e memorandos em um plano seqüencial, conceito chamado de “literatura epistolar”. A sensação dada é como se o leitor estivesse acompanhando a leitura do autor através desses documentos que persistiram ao tempo.

Em anos de vampiros politicamente corretos (lindos, dispostos a morrer pela amada, cheio de frases recortadas dos livros de auto-ajuda), como os de livros entre os quais destaco True Blood e Crepúsculo, a caracterização de todos os vampiros, principalmente o de Drácula chega a ser repulsiva no livro de Bram Stoker.

“Até então, eu tinha notado as costas, de suas mãos, que tinham me parecido brancas e finas; mas, vendo-as mais de perto, pude notar que eram bem grosseiras, com dedos fores. Por mais estranho que pareça, as palmas das mãos tinham cabelos. As unhas eram compridas e finas, terminando em ponta. Como o Conde se curvasse sobre mim, encostando-me as mãos, não pude conter um tremor. Talvez tenha sido por causa do seu mau hálito, mas o fato é que me dominou uma horrível sensação de náusea, que não pude esconder. O Conde notou-a, evidentemente, e recuou; e com uma espécie de sorriso que deixava ver melhor seus dentes salientes, sentou-se, de novo, do outro lado da lareira.”

O romance gira em torno de uma caçada que constantemente muda de sentido. Em certos momentos o Conde é o caçador e em outros ele não passa da caça dos mortais, sedentos de ver seu corpo destruído.

Como toda criação humana, o livro de Bram Stoker está relacionado com a sua época. Ele nos apresentam acidentalmente uma sociedade muito diferente da nossa, na qual a mulher não pode, por exemplo, se sentir mal pela morte de outro homem que não fosse o seu marido. Uma sociedade que tenciona as pessoas a se manterem “normais” acima de tudo. São vários os momentos do livro em que os personagens se questionam se estão ficando loucos. Sendo isto uma clara evidência de que estavam rompendo com a tradição de seus semelhantes.

“DIÁRIO DO DR. SEWARD

Que significa tudo isto? Estou começando a imaginar se não estarei também ficando louco, de tanto viver entre loucos.”

Sendo uma sociedade do final do século XIX, ainda estava sob o efeito das asas de um positivismo empirista que tirava de seu circulo de interesse qualquer coisa que não pudesse ser esquematizado para estudo.

O personagem Van Helsing, como já foi dito anteriormente, é uma crítica a essa organização social em que os cientistas diplomados acham que conhecem a realidade em sua totalidade e tem o último veredito quanto ao que é a verdade. As pessoas comuns não têm liberdade para descrerem do conhecimento científico, pois esse saber pragmático é que trouxe as luzes contra a escuridão teológica medieval, é a luz da razão que vai levar a humanidade em direção ao paraíso através de suas descobertas. Fato que foi desmistificado e duramente criticado principalmente após as Guerras Mundiais.

Van Helsing representa uma ruptura intelectual, ele um cientista que em meio ao positivismo é metafísico. Trecho de uma conversa entre Dr. Seward e Dr. Van Hellsing:

“— Está querendo dizer, amigo John, que não desconfia do que a desventurada Lucy morreu?

— Foi em conseqüência de uma prostração nervosa, produzida por grande perda de sangue.

— E a perda de sangue por que foi causada? Você é inteligente, mas tem muitos preconceitos. Não acha que existem coisas que não podemos compreender, mas que existem? Que algumas pessoas vêem coisas que os outros não podem ver? Existem coisas velhas e novas que não podem ser contempladas pelos olhos dos homens, porque eles conhecem algumas coisas que os outros lhes disseram. Nossa ciência não pode explicá-las e, então, diz que não há nada a explicar. Creio que você não acredita na materialização, nem na transmissão de pensamento, nem no hipnotismo…

—O hipnotismo foi perfeitamente provado por Charcot — observei.

— Quer dizer que acredita nele — disse Van Helsing sorrindo. — Mas, então por que não acredita na transmissão de pensamento? Vivemos rodeados de mistérios. Quero lembrar-lhe que existem coisas feitas hoje pela ciência da eletricidade que teriam sido consideradas absurdas pelos próprios homens que descobriram a eletricidade e que, por sua vez, teriam sido, outrora, queimados como feiticeiros. Ninguém descobriu ainda o mistério da vida e da morte. Você poderá dizer por que a tartaruga vive mais que gerações de homens e que o papagaio não morre, a não ser por mordida de cão ou gato ou coisa semelhante? Nós todos sabemos que tem havido sapos que viveram em rochedos durante milhares de anos. Quero que você acredite em coisas que não pode acreditar. Um americano deu a seguinte definição de fé: “a faculdade que nos permite acreditar em coisas que sabemos, não serem verdadeiras.” Quero que você compreenda o que estou querendo dizer.”

Dr. Sward tenta explicar racionalmente como Lucy morreu pela perca de sangue. Van Helsing tenta mostrá-lo que há coisas que estão além do conhecimento científico “moderno”. Atenta para o fato de que existem outras formas de experiências que podem ser tão valiosas quanto aos dados empiristas.

“Os antigos médicos atentavam para coisas que seus sucessores não aceitam e o professor está procurando tratamentos para bruxas e demônios, que podem nos ser úteis mais tarde.”

O que temos aqui é um caso em que a literatura serve como um ataque à realidade convencionada e domesticada. Foucault em “Vigiar e Punir”, comenta que a sociedade tenta prescrever suas normas nos indivíduos através da educação, mídia, entretenimento, etc. Essa prescrição se trata de ensinar ao indivíduo aquilo que ele pode ou não fazer; aquilo que ele deve ou não querer; como ele vai agir sem ser punido; simplificando, prescrever é aprisionar o ser humano em sua mente, limitando seus sentidos através de assimilações culturais predominantes. Qualquer pessoa fora desse circuito é um “estranho” dentro da sociedade, é um outsider que ignora o que a sociedade considera sagrado. Esse tipo de outsider é o vampiro que Bram Stoker nos apresenta, ele desafia a sociedade humana com outro estilo de vida.

Ele acorda na madrugada, o oposto dos mortais. Sua vitalidade depende de sangue humano, negando o valor cristão da vida e do sangue de Jesus. Não se vê no espelho, não tem motivos para se preocupar com estética. É egoísta, megalomaníaco, se considera capaz de tudo, tem auto-confiança mesmo nas piores situações. Faz todos os seus atos infringindo a lei dos mortais, IGNORANDO a ética… o Drácula de Bram Stoker é um exemplo daquilo que Hebert Marcuse considerava a “grande recusa” na arte, é uma arte baseada na cultura negativa.

Do que se trata isso? De uma arte que não seja necessariamente panfletária, mas crie possibilidades fictícias de viver no mundo, que ignore a tradição em seu próprio universo e por isso acabe sendo libertadora dos sentidos, pois dá uma opção de atitude para se confrontar dialeticamente com a sociedade real. Através disso as pessoas podem se indignar com sua situação banal e tirar a bunda da cadeira em busca de liberdade.

A cultura negativa é a incorporação do preceito de tradição de ruptura, romper com as convenções de hoje através da literatura visando a libertação da consciência, que ocasionaria posteriormente na libertação do individuo e em último estágio libertação comunal.

O que vemos em obras atuais como Crepúsculo e True Blood, é que os vampiros centrais deixaram de ser esse ser que dá alternativa de vidas ficcionais que desafiam o modo tradicional, para serem monstros que batem nas portas da sociedade em busca de inclusão. ELES QUEREM IGUALDADE. Isso é a principal cartada da série televisiva True Blood. Os vampiros estão cansados do preconceito que sofrem por parte das bolsas de sangue ambulante (humanos) e resolvem se deixar ver pelo mundo dos mortais, eles buscam serem iguais aos humanos através das instituições judiciais comuns.

Há uma perca da força negacionista do vampiro, agora ele passa a ser mero invejoso das normas humanas. Esse tipo de obra faz parte da “cultura afirmativa”, conceito que engloba a cultura que enaltece as crenças, normas e moral de uma cultura tradicional. Elas apenas acrescentam valor à essa cultura.

Que Drácula é parte da cultura negativa é tão evidente, que em um diálogo entre um paciente louco do sanatório do Dr. Seward e o próprio doutor, o louco mostra toda sua capacidade sistemática, desafiando o conceito de loucura:

“De novo fiquei assombrado, pois ele respondeu com a imparcialidade de uma pessoa mentalmente sã.

— Eu mesmo sou o exemplo de um homem que tive uma estranha crença. Não é de admirar que meus amigos tenham se alarmado e tratado de me colocar sob vigilância. Convenci-me de que era possível prolongar indefinidamente a vida consumindo uma multidão de seres vivos, por mais baixos que fossem na escala da criação. Algumas vezes, acreditei com tal convicção que tentei matar. O doutor pode confirmar que, certa vez, tentei matá-lo, a fim de aumentar minhas forças vitais pela assimilação em meu corpo da sua vida, através do sangue, baseando-me, naturalmente, na frase das Escrituras “Pois o sangue é a vida”. Na verdade, o vendedor de certas panacéias vulgarizou o tratamento até o ponto de se tornar desprezível, não é mesmo, doutor?”

O paciente na verdade era vítima de Conde Drácula e acreditava que engolindo moscas, aranhas, pardais, gatos e seres humanos, era capaz de viver eternamente.

O que concluo é que ocorreu um refluxo histórico em relação aos personagens de ficção em geral, o vampiro aqui não passa de um mero exemplo. Frankenstein, um personagem que representa uma ruptura crítica ficcional da ciência assim como o personagem Van Helsing, se tornou uma espécie de “patinho feio” no teatro contemporâneo para ser contado às criancinhas como exemplo moralista de que as pessoas devem ser incluídas na sociedade. Esse refluxo fez uma reformulação dos monstros, símbolos do bizarro, estranhamento e ruptura, os transformando em mendigos da igualdade, seres que ao contrário de negarem os valores “sagrados” da humanidade, agora pedem para fazer parte da comunidade global como apenas mais um. Os monstros agora são apenas anônimos nos dias de hoje, já que “todo mundo é diferente”. É como se fosse a morte das personalidades individuais acontecendo diante de nossos olhos.

Não quero aqui dizer que não deve haver políticas ou arte em busca da igualdade entre os seres humanos. Não, claro que devem haver, mas enquanto na literatura e na política se falarem sempre da mesma coisa, é porque tem algo errado. Essa igualdade tem que ser avaliada, pois quase sempre é um Trojan Horse no nosso sistema operacional mental. Meu intuito aqui foi salientar que a crítica negativista da ordem social vingente morreu, seus símbolos literários foram digeridos e transformados em lanches do McDonald’s. Perderam sua força crítica, se tornaram em geral meros produtos de consumo PER SI. Para usar as palavras de Marcuse, ainda na década de 60:

“A mulher vampiresca, o herói nacional, o beatnik, a dona de casa neurótica, o gangster, o astro, o magnata carismático desempenham uma função muito diferente e até contrária de seus predecessores culturais. Não mais a imagem de outro estilo de vida, aberrações ou tipos da mesma vida, servindo mais como afirmação do que como negação da ordem estabelecida.”

Esse quadro se tornou mais forte. E a arte que antes subvertia a experiência cotidiana, em busca de frestas de desconhecido na realidade, agora se curva diante da vida ordinária pedindo para ser como ela.

Finalizo esse texto com a última frase do próprio livro, dita por Van Helsing, que não deixa de ser uma negação do valor empirista da ciência de sua época:

“— Não precisamos de provas; não pedimos a ninguém que nos acredite! Este menino saberá, algum dia, como sua mãe foi valente e corajosa. Já conhece sua dedicação e carinho; mais tarde, há de saber como alguns homens a amaram tanto que se atreveram a tais coisas para sua salvação.”

 

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