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Revolution NOW

 

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Fotos do F/16 Studio’s

O período que estamos presenciando está tão louco, que se se Terrence McKenna estivesse vivo, ele iniciaria uma pesquisa de uma década pra descobrir que tipo de droga psicoativa despertou o Espírito de Revolta nas massas novamente, após anos soterrado por consumismo e conformismo. Já intelectuais da comunicação iam se debruçar sobre as ferramentas que tornaram essa rebeldia generalizada mais facilmente transmitida que impulsos nervosos no corpo humano.

Para exprimir esse momento tão importante – e que futuramente será tão mal interpretado – da nossa história atual, é preciso um misto de verve suicida e distanciamento crítico, não necessariamente de forma equilibrada.

Bom, não vou discorrer aqui sobre as revoltas generalizadas entre os cannabistas de São Paulo, bombeiros do Rio, estudantes do Espírito Santo, monges budistas, populações do Egito, Líbia, Síria e Iêmen, e várias outras camadas da população, porque creio que em três textos é possível ter uma idéia básica do que tá rolando, e cabe a cada um decidir uma espécie de posicionamento prévio sobre a questão.

Então, LEIA os textos abaixo.

1) Convulsões sociais contemporâneas: a revolta no século XXI, texto do também NerDevil Agostinho Torres, no Nerds Somos Nozes.

2) Protestos estudantis em Vitória, texto meu pra cobrir pra revista Vice as revoltas de universitários e outras classes de estudantes aqui na capital do Espírito Santo.

3) Tiros e Gás na Marcha da Maconha de São Paulo, outro texto meu, com o nome bem explicativo.

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Papo Rápido: A falha experiência democrática no Brasil e as manifestações populares no Oriente Médio

A família toda estava reunida na mesa de jantar, comendo a famigerada pizza da sexta-feira, televisão ligada, o Jornal Nacional da Globo entra no ar, discutimos as notícia que passavam, cada um com sua opinião borderline ao senso comum, como esperado, uma hora o âncora do jornal anuncia as manifestações políticas no Oriente Médio, em meio ao “debate” (entre aspas mesmo), alguém fala com um certo tom de deboche “até que outro ditador vem e assume o poder”.

Como se a nossa experiência democrática, com menos de uma década, tenha progredido tanto de lá pra cá, vide PMDB e seus políticos jurássicos.

Isso foi no mesmo dia que a polícia paulistana novamente entrou em confronto com estudantes contrários ao aumento da passagem no transporte público (agora o metrô),  até agora ainda não claramente justificado a população do município de São Paulo.

E pra piorar, os rumores de que Gilberto Kassab entrará para o partido citado acima, querido por todos nós, ameaçam se concretizar.

Embora exista uma multidão de dedos políticos nesta onda de manifestações, realizar vistas grossas para a panela de pressão econômica e social que tem conflagrado o Oriente Médio é uma idiotice sem tamanho, é um início saudável começar a conscientizar que monarquias plutocráticas que enriqueceram sob o dinheiro do petróleo não são boas para a população ou melhores do que fundamentalistas islâmicos, que toda aquela suntuosidade apresentada a nós como mera “curiosidade ocidental” não atinge sequer uma ínfima parcela da população.

Isto não é novidade, desde a visita de Reza Palahvi a Berlim, há mais de 40 anos atrás, a jornalista Ulrike Meinhof (sim, aquele Meinhof…) tentou denunciar através de um artigo o abismo social existente na região e a vista grossa por parte da imprensa ocidental.

Não foi apenas política que inquietou as mentes da população no Egito e na Tunísia, foi a fome, foi a inacessibilidade, foi o alto custo de vida, a ausência de luxo, a necessidade de se reintegrar a uma malha social global.

Mais importante do que especular se um novo ditador assumirá ou não, é perceber que o status quo foi alterado, a população, que a muitos já não é aquilo que “intelectuais” da classe média jocosamente chamam de “massa” se articulou e vivenciou uma das primeiras grandes experiências sociais e políticas da década, maldita inclusão digital, não?

E para nós, Brasileiros, mais especificadamente, paulistanos, somos terrorizados pelo silogismo que nos faz confundir “autoridade” e “funcionário público”, se, na questão do transporte público, muitos temem confrontar um “cobrador de ônibus” – um cargo, que, sinceramente, sequer deveria existir – quiçá teremos convicção para questionar uma força policial retrograda, fundamentada na violência e repreensão ou nossos órgãos políticos, que em um nascimento aberrante, trouxe do seio de uma ditadura uma democracia acéfala.

(cujo até hoje o STJ discute a constitucionalidade de seu aborto…)

The Baader Meinhof Complex

Eu nasci em uma época, que para muitos apressadinhos, foi denominada “Fim da História”, lembro-me de ter escutado sobre este termo no início da faculdade, num livro do Francis Fukuyama, claro, como toda idéia postulada de forma precoce, a história em si provou o contrário, ela não tinha acabado, não assim, tão fácil.

Bom, antes mesmo do livro, algumas torres caíram, a porrada comeu no leste da Europa, na África e bom, a troca de tapas ainda persiste no Oriente Médio, talvez, o que realmente tenha terminado, é aquilo que Lyotard – e por extensão, todos nós – chamamos de “metarrelatos”, as polaridades, a dialética, o embate ideológico, se não morreu, está definhando.

Graças a uma combinação de mídia e memória, uma coisa nós temos certezas, memórias – assim como a história em si – se tornaram imortais, replicantes, vivemos pela necessidade de transmitir para as próximas gerações não apenas um senso de historicidade, mas sim identidade.

Esse foi o primeiro pensamento que surgiu, enquanto eu assistia de forma bastante entusiasmada o longa alemão “The Baader Meinhof Complex”, para explicar este filme, necessariamente, eu preciso explicar o contexto:

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Europa Pós-Guerra, com o fascismo suprimido, a injeção econômica do interesse americano trás para o continente uma presença cultural e beligerante marcante, aquilo que até uma década atrás chamávamos convenientemente de “Imperialismo”.

(um male menor, em todos os casos, ainda é um male e precisa ser expurgado)

No seio da rotina acadêmica alemã, começa-se a contestar a frivolidade da vitória do fascismo em relação a crescente hegemonia capitalista, e daí começa a articulação de lideres políticos, universitários, jornalistas e etc. para a formação de uma resistência.

A “noção” de resistência é bem explorada no filme, do ato simbólico ao protesto, do seqüestro ao assassinato de alvos estratégicos, o título do filme vem de uma das células terroristas que futuramente viriam a ser parte da RAF, Andreas Baader (interpretado por Moritz Bleibtreu) e Ulrike Meinhof (Martina Gedeck).

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A formação do grupo fica evidente no contraste de suas duas lideranças, Baader possui espírito revolucionário, largou os estudos formais e viveu como marginal, foi trazido para a extrema esquerda por sua namorada, Gudrun Ensslin, Baader foi carismático, impetuoso e propenso a destruição e danos colaterais.

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A Outra líder, Ulrike Meinhof, de formação acadêmica, atuou como jornalista esquerdista na década de 60, mãe de duas filhas, contribuindo para o periódico universitário “Konkret” traduzia as motivações e atos do grupo em cartas abertas.

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O filme mostra os acontecimentos que influenciaram o grupo, observamos a visita de Reza Pahlavi ao ocidente, o Verão do Amor, Hồ Chí Minh e a guerra do Vietnã, o início da causa palestina – que levaria ao episódio do Setembro Negro – a captura e execução de Che Guevara, o rapto do boing da Lufthansa.

A tendência do roteiro é explorar os lados, sem apelar ao romantismo ou criminalização de um ou outro, tendo em vista as motivações, são exploradas as relações de causa e conseqüência e os extremismos de cada lado, estamos falando de ataques a inocentes e a implementação do estado policial.

De forma quase prognóstica, o filme, em seus momentos finais, ilustra a visão de Andreas Baader, dizendo que a revolução perde seu sentido na medida em que as atitudes trazem vítimas inocentes e o próprio estado passa a lucrar com a emergência de grupos insurgentes.

Baader, Meinhof e tantos outros morreram sob circunstâncias misteriosas, executados em suas próprias celas, enquanto aguardavam o veredicto de um longo e desgastante julgamento.

Uma última consideração seria a participação do ator Bruno Ganz (Der Himmel über Berlin, Der Untergang), com sua atuação sólida, convincente, interpretando um oficial da lei, que entre dilemas ideológicos, visa suprimir a escalada de violência em seu país.

Para os mais velhos, é inevitável a comparação c/ o longa nacional “O que é isso companheiro”, porem eu recomendo o filme em especial para os mais jovens, que vêem a década de 60 e 70 e seus movimentos culturais como meras curiosidades históricas em seus livros pedagógicos, que engajamento e responsabilidade existiram – e ainda, existem, por sinal-  e que se você, hoje, pode esnobar de sua falta de compromisso, foi porque alguém a vinte anos atrás lutou em nome da sua futura liberdade…

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