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O Homem Animal do Novo 52 da DC Comics

Buddy Baker não é um herói qualquer, ele é o Homem Animal, ex-dublê de cinemas, super-herói de carreira e ativista dos direitos dos animais, ele emprega sua capacidade de imitar – em larga escala – características de diversos animais de nosso planeta para combater o crime e a injustiça.

Homem-Animal (ou Animal Man para os gringos) ganhou status de cult no universo de sua editora, a DC Comics, após vivenciar um período mais experimental na década de noventa nas mãos do escritor Grant Morrison, que escreveu histórias que hoje são consideras verdadeiros clássicos dos quadrinhos, como “O Evangelho Segundo o Coiote”.

Grant Morrison, conhecido por ser vegetariano e defensor dos direitos dos animais, refletiu diversos de seus argumentos políticos no personagem ao longo de sua estadia na série, quando a série passou para o selo Vertigo, conhecido por suas histórias mais maduras e ousadas, o escritor Jamie Delano, que teve uma ótima fase em Hellblazer, tomou as rédeas do personagem, atribuindo novos elementos místicos e aproximando a narrativa da série para as histórias de terror e suspense.

Quando veio a notícia esse ano que o universo criativo da DC Comics sofreria um “reboot”, ou seja, um reinicio em sua continuidade, entre seus cinquenta e dois títulos anunciados, constavam diversos títulos estrelados por personagem que passaram pela Vertigo e a Wildstorm, entre eles, uma nova revista estrelada pelo Homem Animal.

A dupla criativa dessa vez é Jeff Lemire assinando o roteiro e Travel Foreman no desenho, Lemire é bastante conhecido no selo Vertigo, principalmente pela série Sweet Tooth, ainda sem previsão para ser publicada no Brasil.

Logo na primeira edição Buddy Baker é apresentado ao leitor na forma de uma entrevista da revista independente “The Believer” – o que serve apenas pra reforçar o apelo “indie” tanto do herói como do escritor – lá, Lemire amarra as influências de Grant Morrison, apresentando o herói como alguém prestes a estrelar um filme de produção independente, ativista dos direitos dos animais e “símbolo da juventude hipster esquerdista”.

Se levássemos em consideração tanto o passado do Homem-Animal, assim como nosso cenário sócio-político e a proposta do “reboot” da DC Comics, em modernizar e atualizar seu repertório de heróis, pode parecer uma escolha sensata alinhar o herói com o discurso de grupos como a rede Anonymous ou o Movimento Ocupa, porém para a surpresa de todos, Lemire passa longe disso e prefere deixar esse aspecto da mitologia do herói em segundo plano.

Logo Lemire nos transporta para a vida doméstica do herói, conhecido pelas pelos leitores por histórias onde sua família exerce participação ativa, aqui nos encontras Baker discutindo com sua esposa sobre a rentabilidade de seu papel em um filme independente, ao mesmo tempo em que sua filha mais nova pede por novo animal de estimação.

Após essa introdução a rotina do herói, Lemire mostra o que é capaz ao resgatar elementos trazidos por Delano nas séries passadas, em cenas repletas de morbidez, após frustrar uma invasão a um hospital, o herói sofre sangramentos inexplicáveis na derme e, ao voltar para casa, descobre que sua filha despertou poderes, revivendo diversos animais mortos pela vizinhança, não podemos esquecer de tudo isso acompanhado pelo clichê do “posso ficar com eles papai?”.

A nova revista do Homem-Animal tem sido bem recebida pela crítica, estando entre os cinco títulos mais vendidos do novo universo da DC Comics, a primeira edição ganhou uma terceira reimpressão em Outubro, a série tem mantido um bom nível artístico, sendo capaz de sustentar uma trama, que tudo indica – e levando em conta o sucesso da série – ainda vai se estender por meses.

Vale a pena mencionar que o material para esse resenha foi obtido no aplicativo da DC Comics para iPad, que até agora mantém a proposta de lançamento simultâneo entre o material impresso e digital, fora a questão do fuso-horário, eu consegui obter a edição mais recente na data de lançamento.

Se você busca mais referencias para o “Novo 52”, outros membros do Nerdevils escreveram ótimas resenhas, você pode conferir elas nos links abaixo!

Justice League #1 é um “foda-se” para os nerds reclamões, por Alessio Esteves

Action Comics #1: o novo Superman é o antigo Superman, por Agostinho Torres

Otaxploitation: um mercado de obsessões

Recentemente o supergrupo de música pop japonesa AKB48 lançou uma nova ação em seu site, o AKBaby, através de uma aplicação de reconhecimento facial e mistura de elementos, por um preço, o fã interessado pode “upar” sua foto e misturar com elementos da integrante que quiser e assim ter a foto do seu “bebê”, o apelo é tamanho, que na homepage, uma das meninas aparece com a blusa levantada, amamentando um bebê, em uma cena cheia de subjetividade erótica, na arte está escrito, traduzido do japonês “você quer ter um filho comigo?”.

AKBaby, propaganda extraída diretamente do site do supergrupo

Em outro episódio mais antigo, uma nova integrante do grupo foi anunciada em um comercial de uma marca de doces local, a peça exibida no semestre passado chamou a atenção dos fãs por uma série de incoerências: porque uma integrante novata teria papel central na ação? Porque algumas feições dela eram tão familiares? A resolução dessas – e muitas outras – perguntas veio no anuncio que a nova membra da equipe era na verdade uma animação feita por computadores, com feições corporais captadas das principais integrantes do conjunto.

Este tipo de exploitation de garotos e garotas com relativo talento e aparência agradável tem se tornando um fenômeno cada vez mais comum para as audiências ocidentais, embora cause estranheza, esses grupos já são desenvolvidos por agências de talento e gravadoras em seu país de origem há mais de três décadas.

Geralmente são talentos promissores escolhidos logo cedo, podemos inclusive brincar que muitos são criados em “currais”, recebendo ao longo da adolescência a tutela necessária para o estrelato, aulas que vão de fisiculturismo, artes cênicas, etiqueta, dança e etc. tudo com o objetivo de integrar a pessoa em um novo grupo de estrelas.

Como figuras públicas, muitos aspectos de suas vidas são monitorados, principalmente questões como relacionamento, o consumo de bebidas e até cigarros. Em casos de comoção considerados drásticos, a assessoria de imprensa de tais agências chega a emitir pedidos de desculpas público e até suspender a atividade de seus membros.

Em muitos grupos, como o AKB48, existem sistemas de ranking de popularidade, o que deixa no ar um aspecto de rivalidade entre suas integrantes, muitas formações são trocadas inteiramente quando quesitos como “idade” começam a alarmar empresários, algumas chegam a participar de revivals e muitos ex-membros arriscam carreiras solos e tentam sobrepujar o estigma, raros são os casos de sucesso.

O que chama a atenção no AKB48 é o nicho pelo qual o grupo foi construído, “AKB” é uma abreviação para “Akihabara”, conhecida mundialmente como a “Meca dos Otakus” um bairro comercial de Tóquio voltado para o consumo de bens tecnológicos e colecionáveis, a própria sede do supergrupo/franquia se encontra na região. Propondo uma ideia de “ídolos que você pode encontrar”, o enfoque do marketing no grupo é sempre voltado para a exposição das vidas de suas integrantes.

Imagem do comercial estrelado por Eguchi Aimi, a única integrante do grupo construída a partir da computação gráfica

Ser um grupo voltado para “otakus” é pertinente no sentido que esse termo tem na conjectura social do país, ao contrário do ocidente, onde se assume de forma predominante o otaku como o fã de animações e mangás, no Japão, o “Otaku” é todo sujeito que desenvolve o excêntrico comportamento de colecionar e se especializar em determinado assunto, existem grupos de otaku que podem ser considerados sem qualquer envolvimento com o mercado de animes e mangás.

Para a cultura moderna japonesa, um “otaku” é qualquer pessoa de comportamento obsessivo com algum hobbie, não apenas animações japonesas, podemos encontrar características de comportamento “otaku” entre fãs de jogos eletrônicos, música, armas de fogo e até engenharia automotiva, este tipo de comportamento costuma ser amplamente desaprovado pela cultura oriental, comumente associados a episódios de surtos paranóicos e autodestrutivos.

No ocidente o termo “otaku” ganha outra conotação, sendo empregado exclusivamente para a base de fãs de animação japonesa e mangás, o que tende a desenvolver controvérsias, levando em consideração o sentido em seu país de origem e a historicidade por trás da palavra, o termo “otaku” sofre então, uma resignificação de seu sentido, assim como outras palavras que foram inúmeras vezes re-apropriadas no idioma inglês, como “punk” ou “gothic”.

É interessante perceber que bairros como Akihabara adequaram seus negócios para muito dos gostos excêntricos deste público, como cafés e restaurantes temáticos e lojas especializadas. Apesar de ser uma cultura distante e introspectiva, é errado argumentar que os Otakus compartilham de um isolamento social, levando em conta que através do consumo os mesmos continuam ingressos na sociedade japonesa, onde muitos são considerados heavy expenders.

Este mês, a Yano Research Institute, um dos institutos de pesquisa de mercado mais antigos do país divulgou que 25,5% da população japonesa se consideram ou aceitam serem rotulados como “Otaku”, estamos falando em um mercado de 31.858.373 possíveis consumidores, ter seu marketing voltado para um nicho tão extenso tem suas vantagens mercadológicas.

De acordo com a mesma pesquisa, o mercado otaku acompanhou um acréscimo de 40% participação em jogos eletrônicos online e principalmente em simulações de namoro e eroges (games eróticos), outro mercado que demonstrou crescimento foi o relacionado ao “idorus”, o consumo de bens relacionados a grupos como o AKB48. Esse “comportamento obsessivo” dos otakus ganhou fama devido à falta de limites que existe em alguns, com atitudes que beiram a psicose, tais indivíduos são geralmente conhecidos como “kimoi-ota”.

Fã gastou aprox. cerca de U$110.000,00 em singles do AKB48

Existe uma série de motivos para que alguém possa vir a ser considerado “Kimoi-ota”, claro o engajamento em um ou mais hobbies é o ponta pé inicial, mas como tudo nessa vida, existem manifestações saudáveis ou não para um hobbie, no Japão existem agravantes, principalmente entre as parcelas mais jovens da população adulta, como a dificuldade de relacionamentos e até mesmo em estabelecer uma família torna o japonês médio propenso ao gasto de dinheiro com outras objetividades, ou até mesmo as pressões familiares e profissionais têm desenvolvido pessoas consideradas “Hikikomori”, dotadas de extrema agorafobia, que não saem de casa e são considerados um caso de saúde pública pelo governo nipônico.

Com lojas de eletrônicos, colecionáveis, plastimodelismo e outros serviços e negócios voltado aos fãs e colecionadores, Akihabara é considerada a "Meca dos Otakus" há mais de 20 anos

Os casos mais famosos de “kimoi-ota” costumam acontecer com “Seiyuu”, principalmente do sexo feminino, um(a) Seiyuu é um ator de voz, uma profissão muito similar ao dublador, mas com a repercussão de animações e jogos no mercado japonês, um Seiyuu costuma ter maior projeção, principalmente no show-biz. Em diversos casos, são relatados episódios de “stalking”, ou seja, perseguição de ídolos em espaços públicos e até mesmo invasão de privacidade, não é incomum que muitos postem seus rompantes de fúria em fóruns anônimos, com fotos ou produtos relacionados degradado graças a um detalhe da vida pessoal da Seiyuu.

Podemos alegar que o AKB48 flerta de forma muito próxima com essa “categoria de fã” , e essa última ação do grupo é exemplo deste interesse, mas quem podemos culpar? Uma sociedade que em muitos casos temos dificuldade em compreender? Os fãs psicologicamente imaturos? Os rapazes e garotas “criados em cativeiro”? Acredito que a resposta seja mais simples, apenas os produtores.

Demorei um tempo para entender porque essa ação do AKB48 me incomodou, justo eu que não ligo e até esnobo de coisas consideradas doentias ou obscenas pelo senso comum, mas o que me irritou foi a leviandade com que essa “desumanização” das integrantes é levada e a própria foto promocional, desprovida de qualquer “tato” sobre a noção de gravidez e a condição feminina.

Essa primeira década do século XXI fechou com o surgimento de uma mentalidade mais tolerante e proativa em relação ao “fanboy” e sua contra-parte oriental, o otaku, e com isso, é preciso pensar em formas de transformar nossos hobbies em coisas saudáveis e construtivas, se estamos falando sobre ídolos, é preciso seguir um pensamento de orientação similar, afinal, nada mais contraditório que fomentar um mercado que “desumaniza” cada vez mais o fator humano.

Dia do Orgulho Nerd: orgulho sim, ufanismo não

Como estou sem blog pessoal, vou postar aqui mesmo, que se dane.

Dia 25 é Towel’s Day, um dia controverso na comunidade nerd, comemorado desde 2001, é a data dedicada ao aniversário de morte do escritor britânico Douglas Adams, famoso pela série The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, muitos vêm na data a oportunidade para uma comemoração mais generalista, o tal “Dia do Orgulho Nerd”, ou Nerd Pride’s Day. Ok, vou ser sincero, mesmo sem o intento de menosprezar o espaço de Adams na mídia especializada, quantas vezes nós nos deparamos com citações ou eventos relacionados a obra do mesmo? Se você levar em consideração a imensa quantidade de material que é produzida em base diária para outras franquias de maior peso e relevância, como Star Wars e Star Trek, sem querer parecer ofensivo perante os fãs de Adams, mas os mesmos aparentemente só lembram do aniversário póstumo do autor na data. Deixando o autor 364 dias na obscuridade.

Muitos consideram que Adams é um dos grandes escritores de ficção, porém, em pleno Towel’s Day, a Wired.com foi pertinente em lembrar de outro feito na literatura, algo bem mais importante e de cunho científico, há 66 anos atrás, o escritor e físico Arthur C. Clarke publicaria o ensaio “The Space-Station: Its Radio Applications”  sugerindo o uso de satélites orbitais para a transmissão de sinal para televisão e rádio, é válido mencionar que em 1945, televisão não tinha nenhuma viabilidade comercial, sendo que os meios favoritos pela sociedade eram o rádio e o cinema.

Clarke não apenas popularizou uma idéia extensivamente empregada nos dias de hoje, como também impactou a cultura pop com obras como “Encontro com Rama” e – minha favorita – “O Fim da Infância”, que inclusive influenciou Hideaki Anno na conclusão do anime Neon Gênesis Evangelion”.

(Vale lembrar também que, por curiosidade, o primeiro filme da saga Star Wars foi lançado em 25 de Março de 1977, e ainda assim, o fandom comemora o “May the 4th”)

Mas não estou aqui para promover uma discussão sobre as motivações – e fãs – de Adams e Clarke, ontem eu e uma amiga fomos ao Centro Cultural São Paulo, próximo a Estação Vergueiro, em sua imensa biblioteca, existia uma parte reservada para HQs e RPGs, lá eu pude encontrar coisas relativamente preciosas, caixas com edições da Dragão Brasil – algumas inclusive em “formatão” -, periódicos sobre anime como Henshin e até mesmo a amadora publicação de Ranma ½ pela Animangá, e a gente se lembrou um pouco do passado.

Comentei algo aqui no blog já, o início do orgulho nerd no Brasil, os primeiros eventos, encontros, as dificuldades e vitórias da época, se tínhamos motivo para sentir orgulho, era na hora de superarmos as tribulações, traduzir um livro em inglês/japonês, conseguir montar um cosplay, ir a um evento de anime para ver exibições de coisas até então “raras”, eram coisas que pela devida escassez, nós aprendíamos a dar valor, o Aléssio, que também posta nesse blog, pode endossar o que eu estou dizendo.

Hoje com um cartão de crédito eu encomendo uma action figure direto do Japão, compro HQs importadas na Livraria Cultura e influencio/sou influenciado por mais de 425 pessoas no Twitter, alguns saudosistas argumentam que hoje vivemos tempos mais fáceis, “tempos de Big Bang Theory”, eu só digo que são tempos diferentes, sem acrescentar ou tirar.

O que me incomoda é a aceitação cega do termo “nerd” por parte de alguns leigos, vem de uma mentalidade chauvinista e tipicamente americana, para distinguir dentro do meio social aqueles que são ineptos, estamos falando de pessoas com problemas para relacionamento, problemas de saúde, isolamento e fracasso, se for por essa ótica, estou longe de ser um nerd, faço exercícios quase que diariamente, saio durante os fins de semana, tenho amigos de longa data, não me enquadro nessa noção, porem ainda assim, tenho orgulho de minhas predileções intelectuais e reconheço o esforço e interesse de tantos outros, vivemos em um mundo onde acesso a cultura, infelizmente, ainda é algo distante e caro, por isso o preconceito.

Claro, um bocado de coisas mudou no mundo, o mercado exigiu a criação de uma área profissional capaz de lidar com altas doses de informação, o TI deixou de ser um departamento isolado nos fundos das empresas e veio a tona, se tornando pedra fundamental dos grandes negócios, o mundo aceita melhor essas pessoas excêntricas, porque oras, o mundo precisa dessas pessoas pra funcionar agora, a “Vingança dos Nerds” é um mito.

A aceitação do termo hoje em dia se dá em uma lógica muito parecida as tribos urbanas que obtiveram seus “nomes” relacionados a algum termo ofensivo e pejorativo pela sociedade vigente, como “punk” ou “gótico”, para que no meio de um mar de interesses, gostos e predileções tão heterogênicas, nós encontramos um senso de identidade em comum, a vontade de conhecer, de querer mais, de não conformismo, ao invés de uma mentalidade insular, isolacionista.

Não seja nerd porque é fácil se denominar nerd ou cômodo encaixar seus gostos dentro desse termo guarda-chuva, como se vê muita gente fazendo por ai, não seja Nerd na mesma forma que os fãs de Douglas Adams só se lembram uma vez por dia, em busca de um senso de identidade desesperado.

Quer um motivo pra sentir orgulho? Sinta todos os dias orgulho pelas dificuldades superadas, pelos objetivos alcançados – “nerds” ou não -, por aquilo que você é, mas também por aquilo que você pode ser, comemorar um dia, de forma tão vã e leviana me soa algo como ofensivo e depreciador para pessoas consideradas inteligentes. Nós não precisamos desse tipo de ufanismo.

Game of Thrones: Primeiras Impressões!

Então minha timeline no Twitter explodiu hoje cedo com uma discussão envolvendo as similaridades entre os roteiros de Game of Thrones e Lord of The Rings, claro, tenho acompanhado ao longo do mês todo o bafafá sobre a série, que é baseada em um dos clássicos da literatura de fantasia medieval, coisa que eu admitia não saber até então, movido por curiosidade eu resolvi ver – de forma ilícitam é claro, baixando em um site de torrents – os três primeiros episódios lançados no EUA.  Vamos começar pelo básico, Game of Thrones, seguindo a tradição das séries da HBO, apresenta altíssimos valores de produção, tudo planejado de forma coerente, observamos excelência em cenografia, figurino (inclusive armas e armaduras), atuação (embora, pra variar, exista o problema de sotaques…) e construção de roteiro e direção, dentro do composto, talvez, minha única queixa seja em relação aos efeitos especiais, talvez limitação orçamentária, mas não é nada que soe artificial demais.

Aparentemente as comparações surgiram com a presença de Sean Bean no elenco, refrescando a memória de vocês, Sean interpretou Boromir na trilogia Lord of The Rings há quase uma década atrás, da minha parte, eu sou capaz de entender o criticismo que exista nessa escolha dos produtores, é um papel de natureza similar ao anterior, eu, como espectador e ciente dos fatos, senti um certo enfado em algumas cenas, ainda assim Sean Bean se esforça, traz distinção aos personagens, não é mera repetição, embora, eu acredite, que isso irá trazer alguns curiosos memes na Internet daqui há um tempo.

Talvez por eu não ter lido os romances das Crônicas de Fogo e Gelo, eu ainda não entendi as comparações com o universo criado por J.R. Tolkien, se no passado, Lord of The Rings construiu sua história em cima de uma narrativa épica, a adaptação para TV de Game of Thrones consiste no desenvolvimento de uma trama política, conspirações e a ausência do maniqueísmo comum nas obras de Tolkien, se existe algo que Game of Thrones possa me lembrar, é o universo de moralidade cinzenta de The Witcher do polonês Andrzej Sapkowski, ou até mesmo o universo do game Dragon Age.

Embora pareça ser destoante, Game of Thrones retém diversas convenções comuns ao gênero, como a presença de magia e para-normal e também a misoginia freqüente nessas histórias, talvez como forma de refletir os valores desta sociedade de “fantasia medieval” foram comuns no primeiro episódio envolvendo situações depreciativas e até uma insinuação de estupro, a questão sexual em “Game of Thrones” é interessantíssima, muitos podem argumentar “os personagens fodem”, e claro, porque não? Da forma como isto foi empregado no roteiro, acabou sendo um recurso a mais para humanizar os personagens na história.

Minhas primeiras impressões sobre Game of Thrones foram boas, eu gostei, é o tipo de seriado que andava fazendo falta pra mim e – talvez –  o primeiro de fantasia medieval que eu comecei a acompanhar, boa iniciativa por parte da HBO, pois embora a série não amadureça ou contribua em nada para o gênero, faz o papel de representar, perfeito para quem estava farto de médicos fanfarrões, nerds descolados e zumbis hypes.

Marketing: Engenharia Reversa I

Aos poucos abrimos mão do silêncio, não de uma forma espetacular ou performática, mas sim de um jeito sutil, gradativo, que transforma o nível de diálogo entre pessoas e instituições.

Ontem assisti o debate dos presidenciáveis na TV, na companhia da minha namorada e ao invés de restringirmos o diálogo ao cômodo da sala, munidos de netbooks e smartphones buscamos compartilhar – de forma bem humorada, IMHO – nossas opiniões com outras pessoas conectadas.

Na antiga conjectura do marketing, podia ser considerado como um “erro” a falta de controle informacional em relação ao público-alvo. Alguém que sabe demais, alguém que viu falhas no plano, alguém que erroneamente não foi abrangido dentro do plano, para o marketing de uma geração atrás, o planejamento pré-emptivo era a fase mais crucial do plano.

Bom, isso fica visível nas ações, currais e estratégias verticalizadas, para o profissional de comunicação tradicional, o buzz derivado de uma ação é útil apenas quando o mesmo fica centrado no público, não alcançando seus criadores e emissores.

(Quando o contato existe, ele é minguado e burocrático, estamos falando de velhos mecanismos, SAC, Pós-Venda, Pontos de Atendimento, Assistência Técnica.)

Romper isto, no passado, podia ser considerado um remarco, a campanha de tênis personalizados da Nike acabou sendo frustrada por um artista que quis seu Nike Shoes c/ uma dedicatória destinada as crianças asiáticas, mão de obra escrava. Obviamente, ele não conseguiu.

(vocês já perceberam que os nomes das maiorias das marcas podem ser corrigidos no Microsoft Word?)

E quem dirá Kevin Mitnick? Que por processo judicial, grandes empresas como a AT&T impediram que sequer produtoras de cinema realizassem um longa cinematográfico sobre sua vida.

Claro, estamos falando de um nome famoso, estamos se referindo a alguém através do uso de um sobrenome, uma pedra no sapato, mas quando falamos de um coletivo de anônimos? Poderiam os diretores de markerting, designers e assessores de imprensa estar diante de uma avalanche inteira?

Bom, acredito que sim, existe mudança e intento ao migrar das pichações em Mcdonalds para, por exemplo, Tweets, o simbólico-depreciativo acaba, você pula o muro e alfineta diretamente a marca.

A metáfora da transição das marcas do modelo piramidal/vertical para o rizomático pode estar na relação entre a distância relativa do totem do Mcdonalds e a maneira que você encara o monitor de um desktop.

Lembrando os princípios de virtualidades, ou seja, possibilidades, o que é mais fácil alcançar? Pois é.

Muitos profissionais na área de comunicação empresarial confundem a noção de manutenção e relacionamento com a idéia de “presença”, é um tiro pela culatra muito freqüente, nós podemos ver diversas empresas se arriscarem em redes sociais apenas para meses depois encontrarmos perfis inativos, id. visual retardatária, comunidades abandonadas, fóruns desregrados, e o que, em minha opinião, é o pior: perfis alienados, que buscam persistir com seu velho modelo de comunicação verticalizada.

Onde é que isto tem se tornado recorrente?

Mais indigesto que Mcdonalds ou desconfortável que um tênis Nike com certeza é a política nacional.

E o que nós observamos no Twitter? Sim, nossos queridos candidatos a presidência, não apenas exercendo a velha egolatria partidarista, mas vivendo em estado solipsista, ignorando diálogo e movimentação por parte de internautas.

(Para tanto falatório sobre “inclusão” digital, a parte relativa a “integração” é pertinentemente esquecida por eles mesmos, não?)

Da mesma forma que capitalizamos nossa imagem, nos transformamos em valor simbólico e vivemos neste sistema de “escambo de influências”, transformamos nosso nome, nickname, avatar e etc. em marca e a manutenção da mesma exige relacionamento, para a imagem de um político, o processo não podia ser diferente…

Esta negligência em relação ao fator humano que nos torna distintos de uma marca laboratorial, este alastramento da lacuna entre a população de usuários e nossos políticos, a ausência de diálogo, apenas acabam resultando em insatisfação, e bem, vocês conhecem o meme, não? Internet Hate Machine.

Vide o pobre Jose Serra, e seu recente “Serra Comedô”, o reboliço dos internautas para a ironia do Plínio Arruda, o embate entre membros do PSDB e PT. O ridículo, a zombaria, o escracho, todos saíram das rodas de conversas entre amigos, tornaram-se públicas, replicáveis.

Claro, aos poucos aparecem os “especialistas” argumentando: “Perca o controle!” “Deixe sua marca/personalidade fluir pela internet”, eu digo pra eles e para os presidenciáveis apenas uma coisa, o trecho de uma música do Smashing Pumpkins, banda que eu gosto muito:

“Stay cool

And be somebody’s fool this year

‘cause they know

Who is righteous, what is bold

So I’m told”

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