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Lucky Star: Fetichismo, Metalinguagem e Cultura Pop

Existem certas coisas que a gente pode até odiar, mas em contra-partida, fica muito difícil negar o charme e influência que tais coisas detém. O anime Lucky Star, você ame ou odeie, se encaixa perfeitamente nessa situação. A série detém de um traço fortemente moe, uma dublagem que, embora possa ser considerada exemplar – e ai, a gente dá grande mérito para a seiyuu  Aya Hirano – pode acabar irritando os ouvidos de muitos espectadores, embora o anime possa ser considerado um marco para a Cultura Pop japonesa, vide a grande publicidade e merchandising que a mesma gerou, vocês perceberam ao longo desta resenha que, de longe, não é um anime para que você recomendaria para “leigos” no gênero ou até mesmo novatos.

Vide a maneira como o roteiro se comunica com o público, o traço moe, uma gíria comum para otakus, que serve para ilustrar sobre uma perspectiva idealista, algo inocente e carismático, todas as personagens do elenco, em determinado ponto, compartilham desta característica, a construção de suas personalidades e traços físicos é fundamentado nos clichês encontrados no gênero, o próprio show não mente isto, já que o mesmo é discutido abertamente entre os personagens.

Isso fica evidente nas linhas de diálogo da protagonista Konata Izumi, uma otaku/fujioshi adolescente, é curioso analisar a perspectiva da personagem, imersa em uma cultura de hype e consumismo, coisas que para ela – e pra mim, e vários outros… – parece ser natural, para diversos outros personagens da série suas atitudes são consideradas estranhas, anômalas e até mesmo dignas de preocupação. Konata não se atém a isso, ao tentar viver sobre a perspectiva da cultura otaku, acaba constantemente interpretando suas colegas com clichês e casos comuns ao gênero.

É este tipo de metalinguagem que acaba sendo comum no show, em determinado momento, Konata chama sua colega de classe, Kagami de “tsundere”, outro arquétipo comum nos mangás e animes, são personagens de personalidade bastante hostil, que conforme vão desenvolvendo na trama laços afetivos, acabam demonstrando um lado amável e/ou frágil, lembre da Asuka da série Neon Genesis Evangelion, acontece que Kagami, querendo ou não, foi concebida assim pelos criadores de Lucky Star, de um jeito até proposital, afinal, personagens “tsundere” são famosos por ter pig-tails e outros traços comuns que as caracterizam como tal.

Nisto, o anime, que não é tímido em dizer que está ali para jogar sério no mundo do consumo pop japonês, oferece ao espectador um “tipo” de cada clichê em seu elenco, então além da fujioshi e da tsundere, nós temos ai um verdadeiro fanservice, onde cada menina remete a um tipo clássico da animação japonesa (como a meganekko Miyuki, uma garota de óculos, estereotipada por ser bastante inteligente e bem educada). Em conversa com uma amiga, a gente chegou ao argumento que o anime te “convida” a escolher uma favorita, existe esse flerte junto ao espectador

Na falta de uma “estória”, o roteiro intercala o desenvolvimento das personagens e suas rotinas com situações de paródia e/ou sátira de diversos outros elementos da cultura pop japonesa, e ai que torna o anime pouco recomendável, já que em todos os episódios as referências são extensivas, algumas geniais, como a brincadeira com o anime Inital-D e outras muito ácidas, como as análises sobre Mobile Suit Gundam, é interessante notar que por questões de propriedade intelectual e direitos autorais, o anime toma uma postura até muito polêmica, onde diversos “nomes” são censurados (com direito a efeito sonoro) ou alterados, mas o efeito da piada é inevitável para quem entende.

Não se atendo exclusivamente a comentários sobre a cultura otaku, o enredo de Lucky Star foca no cotidiano, passando de forma descontraída por situações rotineiras, como preparar um Cup Noodles ou ir a uma loja de livros e até mesmo sobre grandes eventos japoneses, como ver o estouro dos fogos de artifício do Hanabi ou arriscar um passeio ao COMIKET.

Foi até interessante comentar sobre o Hanabi e o COMIKET, pois em determinado grau, o anime ilustra o nível de pluralidades que a cultura japonesa conquistou, embora, de início, isso fique bem exposto nos diálogos de Konata (Otaku, consumidora compulsiva, desleixada) e Kagami (estudiosa e comprometida, atende a um templo xintoísta), a troca de influências acaba demonstrando que Konata também se interesse por cultura tradicional e que Kagami gosta de Light Novels e alguns jogos de videogame, existem outros casos curiosos, como o estilo de vida “ocidentalizado” da família de Miyuki ou até mesmo os interesses de intercâmbio da personagem Patrícia, que por definição, seria uma “Otaku Ocidental”.

Ai você fica de saco cheio e me pergunta: “apesar de tudo isso, recomenda ou não?” eu digo que sim, onde Lucky Star se torna inacessível, o show abre brechas para outras oportunidades, você pode ver por seu valor simbólico para a cultura otaku, ou você pode ver devido a um fetichismo moe e até mesmo pelo aspecto cômico da série, meninas em especial vão achar o traço agradável e o ritmo letárgico da série algo muito bem vindo, é inevitável que o anime vá te causar estranheza, ou deixar você alheio em relação a alguma piada, porém você pode encarar isto como algo ou não, Lucky Star provou pra mim que existe muito mais nesse mundo do que eu tinha ciência.

Samurai Champloo: Sincretismo Pop no Período Edo

Samurai Champloo: Sincretismo Pop no Período Edo.

Um dos episódios que eu julgo ser mais importantes para a história japonesa se refere a abertura dos portos e o fim do isolamento da nação nipônica, a chegada de uma esquadra norte-americana iniciou uma série de revoluções culturais que inevitavelmente levariam ao fim do Xogunato Tokugawa, com a invasão comercial estrangeira, o país daria início a um longo processo de modernização, como a construção de ferrovias e cinemas, abrindo espaço então para acompanhar a dromologia ocidental (e posteriormente até liderar…) e o estado embrionário do que viria a ser uma cultura de massas quase um século depois.

É neste contexto histórico que a trama de Samurai Champloo se desenrola, lançado em 2004 pelo estúdio Manglobe e dirigido por Shinichiro Watanabe (Cowboy Bebop, Eureka Seven, Macross Plus e Animatrix) e exibido no Brasil pela Cartoon Network, a produção se diferencia de forma espirituosa de outros animes clássicos que se passam no mesmo período – como Rurouni Kenshin – focando as intenções de seu roteiro em uma espécie de experiência sincrética atemporal.  A trama conta a jornada de um improvável trio que se reúne sob circunstancias do acaso, após um incidente, a adolescente Fuu convence a dupla de espadachins Mugen e Jin a serem seu guarda-costas em uma viagem em busca do “Samurai com cheiro de Girassóis”.

interessante notar que o triângulo tem vários tipos de contrastes com a idéia de modernização/tradição, Jin é um samurai clássico, seu estilo é disciplinado e sua atitude tem um certo teor estóico, em contra-partida Mugen é selvagem e luta como um animal sem coleira, seu estilo de luta remete a danças como Capoeira e Break Dance, o que quebra com aquela expectativa calcada em filmes e contos de samurai.

A expressão no título do anime busca exaltar essa inspiração, a origem do termo “Champloo” se refere a uma expressão de Okinawa, pronuncia-se “Champuru” e a palavra é empregada para descrever coisas “misturadas” ou “todas juntas”, ou no caso do anime, essa relação entre o novo/velho, entre a tradição e a novidade, entre o passado e o presente.

Este tipo de situação se torna recorrente ao longo dos 26 episódios da série, onde encontramos referencias a cultura Hip Hop, bandidos orientais se comportando como “gangstas” norte-americanos e em diversos momentos coadjuvantes aparecem cantando Rap ou fazendo maneirismos caracteriscos, é engraçado ver também como os realizadores do anime encontraram uma maneira de censurar os palavrões dos personagens, toda vez que uma palavra ofensiva é deferida, ela é abafada pelo som deu m “scratch”, como nas músicas editadas para rádio de diversos Rappers, como o Eminem..

Não se limitando apenas a cultura do Hip Hop, a trama também explora outros aspectos do intercâmbio Ocidente/Japão, como a influência do Ukyo-e nos trabalhos de Van Gogh e até a própria homossexualidade no período Edo e a Rebelião de Shimabara, protagonizada por camponeses católicos.

A trilha sonora merece um destaque a parte, o tema de abertura, “Battlecry”, tem a autoria de Nujabes (que por si só já merece um post nesse blog faz tempo…) e resume bem o clima da série, sendo por mim, um dos melhores temas de abertura já compostos, a cantora MINMI também ingressa a trilha sonora, composta apenas por Jazz, Hip Hop e R&B.

Samurai Champloo é um anime facilmente recomendável, sendo um dos que alcançaram o status de clássico na década passada, é uma ótima experiência para aqueles que correm atrás de inovações em roteiro ou buscam um aprofundamento crítico em cima dos temas culturais abordados pela série, também é uma ótima pedida para os fãs de filmes de Samurai e músicos de Hip-Hop, aproveitem a dica!

Resenha: Ghost Dog – The Way of the Samurai

As vezes eu gostaria de saber se alguém mais se lembra do momento que viu um filme, o local, o clima, a companhia – ou falta dela – dia da semana, horário, isso é algo muito freqüente comigo, parte da experiência em aproveitar o filme se encontra fora da “fita”, e sim no local, na sua acomodação e pré-disposição. Foi num final de tarde de domingo, lá nos meados de agosto de 2009, quando eu assistia na sala da minha casa o Telecine Cult, foi nesta atmosfera que eu pude apreciar Ghost Dog: The Way of the Samurai, dirigido e roteirizado pelo excêntrico Jim Jarmusch, o filme narra a trajetória do personagem homônimo ao titulo, um assassino de contrato afro-americano, interpretado pelo Forest Whitaker, em uma paisagem urbana e desolada que é um misto de Nova Jersey e Michigan, típica da cultura dos anos noventa, o personagem molda sua vida em cima da filosofia do Hagakure, um livro escrito pelo samurai Yamamoto Tsunetomo, onde os preceitos do Bushidô são expressos.

“Live by the code. Die by the code.”

Jarmusch adapta, em um mashup nada “Tarantinesco” o submundo do crime americano através de várias óticas, sejam elas artísticas, remetendo a estilos de filmes ou até mesmo da antropologia, mostrando gangues uniformizadas, mafiosos de meia idade, imigrantes, whitetrash. Nela, a relação de vassalagem de Ghost Dog com os mafiosos é explorada através de uma escalada de eventos e intrigas.

É legal observar as conseqüências deste intercambio do submundo, de forma tão explicita, um dos personagens mais marcantes, o mafioso quarentão Sonny Valério (interpretado pelo falecido Cliff Gorman) comanda um decrépito restaurante chinês e aprecia as rimas do Public Enemy.

O argumento sincrético do filme fica claro na trilha sonora, na música “Samurai Showdown”, o backvocal do rapper RZA – que faz uma ponta no filme – fala “Rashomon! Rashomon!”

Para aqueles que não sabem, Rashomon foi um conto escrito pelo japonês Akutagawa, onde um serviçal e uma velha discutem a moralidade ambígua que representa o ato de roubar para sobreviver, demonstrando assim um paralelo com a cultura marginal dos Estados Unidos, ainda traumatizada pelas revoltas populares de Los Angeles em 1992.

Outros personagens marcantes incluem o anônimo vendedor de sorvete, haitiano, mesmo sem conseguir formar uma sentença em inglês decente, conserva fortes laços de amizades c/ Ghost Dog.

Em outro momento, questiona-se a relação de alcunhas e nomes de guerra das gangues americanas e dos indígenas do passado e em diversos momentos do filme, aparecem atores trajando as cores dos Bloods e dos Crips, duas das maiores gangues que assolaram os Estados Unidos na década de noventa.

Segue a transcrição hilária do diálogo do filme (em inglês):

Louie: Ghost Dog.
Sonny Valerio: What?
Louie: Ghost Dog.
Sonny Valerio: Ghost Dog?
Joe Rags: He said Ghost Dog.
Louie: Yeah. He calls himself Ghost Dog. I don’t know, a lot of these Black guys today, these gangster-type guys, they make up names like that.
Ray Vargo: Is that true?
Sonny Valerio: Sure. He means like the rappers, you know, All the rappers, they got names like that: Snoop Doggy Dogg, Ice Cube, Q-Tip, Method Man. My favorite was always Flavor Flav from Public Enemy. You got the funky fresh fly flavor.
Ray Vargo: I don’t know about that, but it makes me think of Indians. They got name like, uhh, Red Cloud, Crazy Horse, Running Bear, Black Elk.
Sonny Valerio: Yeah. That kind of shit.
Joe Rags: Yeah. Indians, Niggers, Same thing.

Mostrando diversos universos interagindo, é difícil assistir Ghost Dog e não se lembrar de clássicos do Akira Kurosawa, como Kagemusha, Ran e Shichinin no Samurai ou até mesmo o cinema Blaxploitation no auge do Kung Fu de Bruce Lee na década de setenta.

O filme é rico, e não se preocupa em apressar este fato, filmagens panorâmicas intercalam com interlúdios envolvendo citações do Hagakure, e pra quem espera cenas carregadas de ação, como nas histórias de Quentin Tarantino, a estética do filme é outra proposta, serena e meticulosa, mas ao mesmo tempo, impactante no momento certo, como caminho do samurai…

“The end is important in all things.”

 

Um mundo de Vocaloids e Mobiles Suits

Anos atrás eu li Idoru do William Gibson, diferente do universo da trilogia Sprawl (que continha o célebre Neuromancer), “Idoru” se tratava de um mundo Pré-Cyberpunk, não a distopia corporativa nutrida no seio da desilusão da contracultura da década de noventa, mas sim um mundo tecnologicamente emergente, não muito diferente do nosso. Fangirls japonesas discute sobre seus ídolos em um rudimentar ciberespaço, idorus digitais repercutiam no cenário do show-biz, casando-se com estrelas do rock e assim promovendo golpes de marketing.

Hoje eu entro no Hobby Link Japan, e me deparo com uma estatueta da pop idol Hatsune Miku a venda por U$31,00, Hatsune Miku em um sentido tradicional…não existe, ela é um construto pop derivado de um software desenvolvido pela Yamaha chamado “Vocaloid”, especializado em síntese de voz..

A base para sua voz é a Seyiuu – dubladora – Saki Fujita, porem isto é o de menos, Hatsune Miku é um meme, uma idéia viva, replicante não apenas em vídeo-clipes, mas sim em toda linha de produtos, action figures, revistas, linhas de roupa, chaveiros, plush dolls, cosplayers, um fantasma digital adolescente, olhos de anime e cabelos verdes translúcidos arrumados em pigtails.

Em concerto, sua versão holográfica contracenou com uma trupe de músicos de carne e osso, a vibração da platéia traduzia a indiferença pela suposta ausência de vida no palco, sua presença era indistinguível de qualquer outra cantora pop japonesa, mesmo vendo um vídeo no Youtube, era necessário um pouco de esforço para dizer que aquilo não era apenas uma projeção…

Não existe hipocrisia ali, para a indústria do entretenimento, a personagem sempre importou mais que o cantor, Lady Gaga sempre a frente de Stefani Joanne Germanotta, Karin Elisabeth Andersson é Fever Ray,

Warren Ellis uma vez escreveu a one-shot SUPERIDOL, onde narrava a invasão memética de Rei-Rei, uma idol construída a partir de denominadores comuns de todas as culturas humanas e traços físicos, olhos, cabelos, nariz, seios, tudo condensado em uma figura carismática e feminina, desenvolvida por cientistas sociais, programadores e analistas de marketing para cativar todas as faixas etárias e classes sociais.

Em sua introdução, um narrador estarrecido comenta: “Post Final Fantasy, Post William Gibson, set up to invade post-post-post ironic western society, a computer-generated idol singer, even the voice was synthesised from two hundred voices samples”.

A experiência aparentemente toma um novo rumo, em 2009 a BANDAI ergueu em diversas partes do Japão uma réplica do RX-79-2 Gundam, um dos personagens mais consagrados da cultura pop japonesa.

Entenda o raciocínio, não é uma estátua, muito menos um monumento, mas sim uma réplica em tamanho real, com LEDs, Gelo Seco e movimento, Em meu quarto existem 14 variações do mesmo, porem, até o momento, nenhuma Hatsune Miku…

Seja bem vindo a NHK!

Em 2010 a mídia ocidental passou a dar maior foco naquilo que ficou conhecido como “Hikikomori”, traduzindo para o português, seria algo próximo de “isolado em casa”, o fenômeno começou a surgir no Japão durante essa década e ele serve para ilustrar quando pessoas, de variados graus de inaptidão social e quadros clínicos psiquiátricos acabam se isolando em seus quartos, ignorando a rotina no mundo exterior e alienando-se por opção. O fenômeno é visto por um certo nível de tabu pela sociedade japonesa, em parte pela própria renda do Hikikomori, onde muitos são sustentados pelos pais após o início da vida adulta e até a associação destas pessoas com a cultura otaku, ainda mais quando a japonesa ainda se lembra de casos como o de Tsutomu Miyazaki, um otaku responsável pelo assassinato de quatro garotas, o que levou o país por um breve período de pânico social. O governo japonês tem investido em políticas de inclusão social e saúde pública, e obtido êxito de mínimo para moderado, por mais que seja uma preocupação por parte de seus governantes, os alicerces pelos quais a sociedade japonesa foi erguida precisam mudar para que o quadro dos Hikikomori alivie, muito destes vivem profunda depressão, enquanto outros apresentam tendências a agorafobia, Aspenger e até TEPT.

Antes dos holofotes da mídia ocidental darem atenção ao caso, em 2007 foi lançado o mangá  N.H.K. ni Yokoso (ou melhor “Bem Vindo a NHK”) pela autoria de Tatsuhiko Takimoto, contando a história do protagonista Tatsuhiro Sato, um hikikomori que há quatro anos não sai de sua residência, atormentando, ele vive incomodado pelas incessantes Anime Songs de seu vizinho Otaku, o consumo de medicamentos tarja preta e toda sorte de alucinações e paranóias experimentadas pelo seu isolamento e cansaço mental, um dia, após a visita de um grupo de ajuda, ele conhece Misaki Nakahara, uma garota que se interessa pelo caso e o incentiva a sair fora através de um programa de reabilitação.

O autor demonstra preocupação em desmistificar a figura do Hikikomori, Tatsuhiro, o protagonista, apresenta um certo grau de instrução e atualidades, conhece filmes de época e é versado em Freud – rendendo um hilário diálogo com Misaki – e aparentemente também é um ótimo escritor, mas em compensação, se encontra no principio da insanidade, suspeitando que a responsabilidade pelo fenômeno Hikikomori seja da NHK, uma grande emissora de televisão do Japão, Tatsuhiro, em meio a delírios, argumenta que a exposição das audiências a animes e outros programas leva as pessoas ao confinamento social, e chega a dizer porque alguns desenhos estão em faixas de horários cujo crianças estão ausente/dormindo mas hikikomoris não.

A intenção do autor sobre o personagem da trama me fez lembrar dos arcaicos “filósofos viscerais” da Grécia Antiga. Estudiosos – ou doidos de plantão – que buscavam não apenas a divagação mental, mas toda e quaisquer sorte de experiência sensorial, incluindo flagelo e consumo de substâncias alucinógenas, e é mais ou menos este o caso de Tatsuhiro Sato, em cada episódio ele é confrontado por um outro fenômeno ou novidade da sociedade japonesa pós-moderna, tome por exemplo o primeiro volume, onde ele conhece o lolicon, e acaba perseguindo garotas pré-adolescentes na saída da escola, posteriormente, ele experimenta o bairro de Akihabara, uma escola de mangá, o mundo dos Eroges, fóruns anônimos e até mesmo drogas de prescrição médica.

É interessante notar que, embora a atmosfera da trama é pesada, existe um fator cômico que muitas vezes mitiga o elemento chocante, seguindo o padrão dos animes e mangás, os personagens têm atitudes espalhafatosas, piadinhas e recursos de narrativas que amenizam o insalubre mundo de Tatsuhiro e seus conhecidos e até, por extensão – ou pieguice – você passa a questionar se perante essa sociedade esquizofrênica e dromológica, de hábitos cada vez mais estranhos e incapazes de acompanhar, se o isolamento do personagem principal não é na verdade uma solução plausível.

“Bem vindo a NHK” foi originalmente lançado em 2007 c/ oito volumes, rendendo um Anime e atualmente é distribuída aqui no Brasil pela Panini Comics/Planet Manga, se você está cansado de gêneros como lutas ou romances, e sempre teve curiosidade em entender melhor qual situação social um país como o Japão se encontra, eu recomendo a leitura deste mangá.

O fantasma Orwelliano no universo de Harry Potter

Após ver no cinema a adaptação cinematográfica “Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 1” eu percebi que existe uma certa tensão no universo escrito por J.K. Rowling, uma tensão que reflete a inquietude política do mundo dos bruxos, uma espécie de inquietude que para um leitor mais atento e mais velho, pode acabar sendo familiar. Não se apegando apenas a perspectiva messiânica do protagonista da série, Harry Potter, mas a escalada de eventos que acontecem no ministério único, intitulado “Ministério da Magia”, a saga Harry Potter, pelo mérito de todos os envolvidos, diretores de cinema, atores, produtores e até a própria escritora, retrata com excelência como é crescer em meio às transformações, não apenas da metáfora da adolescência, mas como também de todo o mundo.

Transformações essas que lembram muito o distópico universo de 1984, a sombra Orwelliana derivada da paranóia humanista, do imaginário bélico-fascista à propaganda sufocante, dos questionamentos cruéis ao próprio sectarismo da sociedade, da repreensão não só étnica e social, mas como também da memória, do pensamento, do poder de comunicação.

O primeiro passo para entender a metáfora do pesadelo criado por Orwell seria entender o papel do protagonista, Harry Potter, e seus colegas, embora uma figura central na cadeia de eventos, o próprio pouco tem ciência das conseqüências de suas atitudes, pego pelo principio do mesmo estar confinado aos portões de Hogwarts, alienado do desenvolver dos fatos, tendo toda a atenção centrada no microcosmo do cotidiano da instituição.

Até mesmo no sétimo capitulo da série, quando os jovens se vêem obrigados a fugir do seu local de estudo (capcioso e simbólico, não?) eles caminham pelas paisagens rurais da Inglaterra, acompanhando por um rádio cheio de estatística a sucessão de eventos e a propaganda do governo, como muito se foi feito na vida real, durante os tempos de crise e guerras.

Aos poucos Voldemort – que não apenas representa o vilão da série, mas como o vetor de uma força política – volta, criando animosidades, e é ai que a autora começa a ilustrar os contrastes, Voldemort representa algo antigo, reflexo não necessariamente da malícia de alguns bruxos, mas sim de um sistema caduco, segregacionista entre bruxos, não-bruxos e mestiços, incapaz de acompanhar as transformações e motivações afora.

O próprio vilão é um reflexo de tal política arcaica, nascido como mestiço, com um histórico de abuso e abandono, sua empreitada contra o mundo, busca, em partes, a mesma mentalidade opressora que o atormentou no passado.

Harry Potter e seus colegas representam no novo, no início a ingenuidade, mas posteriormente, algo mais especial e necessário para quando forças, como esta encabeçada por Voldermort, simpatizam, o não-conformismo.

Ainda mais o próprio mentor de Harry e seus colegas, Dumbledore, um prodígio, de sangue mestiço e  homossexual, detém de uma perspectiva libertária, embora uma figura idosa, visa romper constantemente com os paradigmas da arcaica sociedade bruxa e seus preconceitos e paranóias.

O sétimo capítulo da saga retrata com excelência como muitas vezes, uma comunidade mansa vê passar batido as alterações no status quo, embora, o filme consiga, em um belo caso de exceção, ilustrar melhor. “Magic is Might” diz o lema do novo ministério da magia, controlado pelos conspiradores de Voldemort, assim como o Ingsoc de Orwell, a metáfora fascista começa pelo aspecto imponente e opressor do aparato propagandista do ministério, dos interrogatórios de cada funcionário, abusos de hierarquia e a rotina de trabalho, em inúmeras repartições e trabalho compulsório.

O clima Orwelliano – e eu amaldiçôo esta palavra maldita – fica mais evidente quando os protagonistas fogem do ministério, perseguidos por uma força policial similar aos exércitos da segunda guerra mundial, todos de enfardamento cinza, cap obscurecendo a face, e um bracelete de tecido vermelho c/ o símbolo do ministério, um “M” estilizado.

A perseguição do ministério da magia comandado por Voldemort também se estende a comunidade intelectual da série de ficção, observamos o desaparecimento e repreensão de professores, colunistas, historiadores, a necessidade do ministério e do próprio antagonista não está apenas na imposição pela força, mas sim em reescrever a história e a manipulação de mentes.

Embora ofuscado pelo marketing e pelo alvoroço, a tentativa de dissimular o mérito intelectual por trás da obra de J.K Rowling é derivada do pudor pseudo-intelectual de uma classe obtusa, a muito sem foco em seus objetivos e contestações, a mesma, que por sinal, cresceu – ou teve ciência posterior – das obras de Orwell, Bradbury e Burgess, posso dizer com tranqüilidade, a saga Harry Potter teve sua concepção na cultura pop e suas ramificações, mas, ao contrário da intelligentsia, sempre foi fonte de comentário social, este, que motivou centenas de jovens para voltar a leitura e nutrir mentes com um panorama libertário e não-conformista.

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