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Entropias grant-morrisianas #3 – Gideon Stargrave e o fim dos tempos

Esta é a parte que mais me interessa em todas essas publicações do Morrison na Near Myths. Uma história sobre Gideon Stargrave publicada em 3 capítulos através de dois números da revista (nº3 e nº4). Aliás, é por causa de Gideon Stargrave que esta série de posts se chama “entropias morrissonianas”. Entropia é a palavra que faz parte dos plots relacionados ao personagem e que também será muito usada por Morrison no conjunto de suas obras. Entropia é uma forma de se chegar ao caos exatamente pela… super-concentração de energia. Digamos que socialmente quanto mais rígida é uma sociedade, maior vai ser sua desordem quando “n” fatores entrarem em descontrole. E com o “tempo” acontece algo similar, quanto mais o tempo se concentrar em uma dimensão, em uma realidade, mais próximo ele chegará de sua própria extinção. E o que acontece quando o tempo deixa de existir? Bem, vai lá se saber.

O personagem Gideon Stargrave foi baseado em "Jerry Cornelius", um personagem de Michael Moorcock. Uma espécie de assassino perigoso que viajou no tempo numa máquina defeituosa e acabou originando uma desordem no tempo-espaço.

Essa é a parte que mais me interessa porque comecei a pesquisar sobre as outras publicações de Grant Morrison justamente no intuito de compreender melhor a obra Os Invisíveis, que foi a primeira HQ do Morrison que li e que na época explodiu a minha cabeça. Muito do que seria desenvolvido nessa HQ que só iria começar a ser publicada em 1994, com Morrison já em relativa ascensão dentro da área dos quadrinhos, já aparece exposta nesses volumes de Gideon Stargrave de dezembro de 1978 e setembro de 1979 respectivamente.

A verdade é que todas as obras do Morrison se conectam de alguma forma na sua figura de administrador/criador do universo ou em sua característica mais marcante: o uso do caos e da desinformação como destruidor da aparente racionalidade e ordem da realidade. Isso vai estar presente tanto em seus roteiros mais mainstream (como Batman e Superman) quanto (e principalmente) nas obras mais introspectivas/autorais (como The Invisibles/ Filth).

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Near Myths #3 – Gideon Stargrave – Part I: The Vatican Conspiracy

A história começa com uma cena de um corpo em chamas. Trata-se de Joana D’Arc. De repente estamos num ambiente retrô-pop-futurista-psicodélico, com imagem até do Mickey e Donald em uma das paredes.

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Nesse ambiente uma moça acabou de entrar após tocar a campainha e encontra um cara de cabelos claro, tamanho mediano sentado numa cama (ou sofá?) limpando uma arma, ele tem a aparência de um veterano em combates, tipo ex-agente ou coisa do tipo.

Você é Gideon Stargrave? – pergunta a moça, com boina francesa e cabelo curto e escuro.

– Geralmente sim – ele responde fazendo charme. – Mas você sabe como são as coisas nos dias de hoje – completa fazendo a arma brilhar a colocando contra a luz.

Assim começa as histórias de Gideon Stargrave, que se não fosse pelo nível de loucura do enredo, não passaria de uma cópia quadrinesca de James Bond. Mas é muito mais, logo em seguida a moça diz que se chama Jan Dark e prontamente um padre explode a porta da casa e tenta matá-los, mas Gideon é mais rápido.

A menina falou que o “caos ameaça”. Gideon ri. Eles saem andando por Londres e Gideon acaba sendo baleado por um guarda real com… boca de pato! Segundo o guarda, eles estão em uma zona de entropia e por isso estão dentro de um perímetro em que as forças policiais podem matar livremente!

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A história toda é sobre CAOS. Algo está prestes a levar o mundo a um último nível de entropia e desarranjando o tempo. Arquétipos, traição, caos, engramas, poesias intercalando os cortes de cenários, conspirações, ressurreições, neuro-psicologia, anarquia, Londres, suicídio em massa… o fim do mundo pelo Ragnarok e entropia terminal. Tudo isso orquestrado pelo maligno papa do Vaticano tentando destruir esse mundo incrédulo, ateísta!! E Jan Dark faz parte do plano. O que Gideon Stargrave pode fazer quase sozinho?

Near Myths #4 – Gideon Stargrave – Part II: The Vatican Conspiracy

Nessa segunda parte Jan Dark e Gideon Stargrave partem em direção ao Vaticano, querem resposta para os acontecimentos recentes. Na neve enfrentam os capangas do Vaticano que os monitora em tempo real. Apesar de todos os esforços descomunais de Gideon, uns caras vestidos ao estilo Ku Klux Kan acabam levando Jan Dark e mais uma vez atiram certeiramente no ex-espião.

Atingido, caído no chão e abandonado, a neve cobre o corpo de Stargrave. Teria sido seu fim? Não, algo extremamente relevante pra quem curte os Invisíveis acontece, fora de si, Gideon se levanta ressuscitado ao estilo “mortos-vivos” no meio da neve! Então é aqui que Morrison cola na página um trecho de Rei Lear:

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Gideon Stargrave é um Tom! Um pobre e louco Tom, como Tom O’ Bedlam de Invisíveis! No capítulo anterior Gideon também invocou um espírito do “tempo”, para poder conter o caos que estava se expandindo em Londres, bem ao estilo Dane e Jack Frost! Seria uma espécie de espírito protetor? Bem, não quero com isso dizer que os dois universos (Invisíveis e Gideon Stargrave da Near Myths) sejam o mesmo, apenas quero salientar que desde o meio dos anos 70 Morrison já estava amadurecendo algo, algum esquema de realidade mágico-tecnologica-anarquica que só se concretizaria com Os Invisíveis.

Uma freira é enviada para finalizar com Gideon. Os homens do Vaticano sabem que ele não está morto. A freira tem o poder de arremessar matéria através de portais temporais e alcançar o caos de nível 0 (seja lá o que isso quer dizer)! Mas Gideon resiste à tentativa de rasgarem a sua concepção de realidade, consegue despertar do transe atinge a freira com uma bala. Agora ele precisa localizar Jan Dark!

Near Myths #5 – Gideon Stargrave – The Fenris Factor

Gideon invade o local onde Jan Dark está sendo torturada e ao estilo Bruce Lee (sim, há há há) derrota todos os caras vestidos ao modo Ku Klux Kan que trabalham pro Vaticano e liberta a moça.

Num quarto novamente com figuras pops (só reconheci agora o Che Guevara) Jan Dark revela ser Joana D’Arc. Ela diz que só seu poder pode derrotar “o lobo” e que por outro lado, apenas Gideon está destinado a derrotá-lo, então ela quer dar seu poder a ele. Os dois fazem sexo ritualístico e quando terminam, após absorver um poder maior que a vida e que a morte, Stargrave mata Jan Dark, sabendo que seu ciclo de ressurreição acaba ali.

Em seguida nos é apresentada a irmã de Gideon, que era dona do quarto em que ele e Jan Dark estavam. Ela é apresentada de maneira sexualmente provocante, se chama Genevieve e parece ser um trauma na mente de Gideon (creio que ela é aquela loiraça que aparece em The Invisibles em alguns momentos).

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Por fim Gideon invade o Vaticano e tenta interromper um ritual de invocação do Papa. Mas já é tarde, o lobo Fenris já foi invocado. O ritual libertou o filho de Loki da corrente mágica forjada pelos anões e agora ele vai cumprir sua missão de devorar o mundo. “Ragnarok, o fim de tudo no gelo e no fogo.”

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Gideon não se enfraquece e convoca as hordas dos infernos para ajudá-lo contra o lobo. Ele invoca Vine, Flauros e Andras! Três demônios muito conhecidos da demonologia medieval. Com ajuda dos demônios Gideon consegue derrotar Fenris, mas perde uma de suas mãos.

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No fim da página, tem escrito que no próximo número Gideon Stagrave retornaria com “The Entropy Concerto”. Uma fato que infelizmente nunca chegou a acontecer. Infelizmente mesmo, porque as pirações dessas histórias do ex-espião são muito interessantes, misturam mitologia, neuropsicologia, ciência e um monte de baboseira pop, além de frases de efeito e um mix religioso-cultural impressionante. Gideon retornaria apenas em Os Invisíveis, mas já em outro contexto dentro dos quadrinhos. Retornaria como parte de uma “hyper-narrativa”.

Os desenhos do Morrison aqui são muito melhores do que em Time Is A Four Lettered Word. A narrativa é tensionada o máximo possível pelos traços na tentativa de nos jogar dentro das entropias ou memórias confusas de Gideon. Enfim, claro que olhando de agora parece uma espécie de esquema do que seria “Os Invisíveis”, mas ver APENAS assim seria tirar o mérito de Gideon Stargrave em si. Talvez na verdade Morrison nem tivesse idéia do que lhe viria à frente, ou talvez já pensasse em alguns arquétipos de personagens como King Mob, quem diabos vai saber? Só fiquei surpreso em não haver comentários mais demorados sobre Gideon em Supergods¸ talvez o careca esteja evitando a confusão que o personagem causou. Gideon é considerado por alguns apenas plágio na cara dura de Jerry Cornelius, o já citado personagem de Moorcock.

Anarquia nos Quadrinhos #2: O Caos Invisível

[Versão Sem Cortes do texto originalmente publicado no Farrazine #18]

 

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King Mob coloca seu capacete/chapéu absurdamente estranho e estiloso – de origem desconhecida e mística – e parte para invadir uma instituição educacional que nada mais é do que um centro de doutrinações e lavagens cerebrais. Lá dentro está um adolescente problemático e desbocado que pode ser o integrante que faltava para o grupo secreto de KM cumprir seu objetivo de livrar o mundo de vilões transdimensionais que desejam o poder absoluto. Antes disso, King Mob invoca John Lennon para pedir uns conselhos, num dos momentos mais psicodélicos dos quadrinhos. No caminho, ele combate um ser que transfere sua consciência para insetos e abandona o Jovem Escolhido para ser iniciado pela sabedoria urbana… tudo fluindo numa velocidade insana.

Quando perguntado, em 1994, qual seria o tema de Os Invisíveis, Grant Morrison respondeu com um simples Tudo! Não é uma definição exagerada ou por demais pretensiosa, mas é unicamente o autor dizendo que não estava preso a amarras estéticas ou narrativas, que permitiu-se viajar sem medo da liberdade. E ele fez questão de realmente incluir tudo que passava na cabeça dele dentro da obra, um exemplo de pós-modernismo balanceado e acelerado, algo como um livro de Thomas Pynchon com quadrinhos. De forma bastante consciente, Os Invisíveis é uma espécie de tratado de Morrison sobre como ele imagina o mundo, recheado de metáforas e elementos metafísicos, além de ser carregado de religiões pouco convencionais. No intercurso de sua luta contra os Arcontes – os vilões da série -, a célula londrina dos Invisíveis viaja no tempo, convoca deuses aztecas, tem seus membros presos e torturados, troca idéia com loas do vodu… enfim, se furtam de todos os elementos a sua disposição para continuarem sua cruzada. Se não fosse o experimento da dúvida que Morrison suscitou ao dizer que a obra é uma mistura de experiências auto-biográficas com textos que ele recebeu de ETs quando foi abduzido em Katmandu, pode-se imaginar que se trata apenas de uma vasta maluquice caconarrativa intensa. Mas existe ali um método, uma forma de combate que muito aproxima a célula dos Invisíveis de teorias (anti)políticas modernas. Os Invisíveis são anti-heróis, da mesma forma que os anarquistas modernos são anti-políticos.

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Resenha: The Filth e nossa imundice cotidiana

Volta e meia eu pego aquela discussão doméstica, uma criança põe algo na boca, um objeto estranho, estrangeiro ao corpo, anômalo a moral higienista de nossa sociedade, a criança esfrega esse objeto – inseto, cocô, uma peça de lego – na boca, passa a língua, engole, muitos dizem que isto é anti-higiênico, nocivo ao corpo, que a criança inevitavelmente irá contrair uma doença. Esquecemos da natureza sobrevivente do nosso organismo, o constante convívio com germes e bactérias, coisa que o fortalece, o torna mais resistente para encarar as mazelas externas, talvez a educação de exclusão de uma mãe mais preocupada, de fato, poupe o filho de um resfriado ou outro, mas em longo prazo, qual é o benefício disso?

Talvez, um paralelo pertinente a esta questão seja nossa exposição no ambiente urbano, aos dromológicos construtos culturais, buzinaço na hora do rush, junk food, vagões de trem lotados, pornografia, a desagradável música saindo de telefones celulares, exista quem irá dizer que isso é desagradável ao ser humano, que nós estamos, de pouco em pouco, findando nossas vidas nesta desordem sem fim.

Em tempos onde se discute xenofobia de forma tão entusiasmada, vale lembrar que o número de organismos não nativos que habitam seu corpo excede em 10 vezes aquelas células que nasceram c/ você.

E se, em contrapartida, toda exposição a este lixo nos reforçasse, seja em crivo cultural ou até mesmo em maior tolerância para jornadas de desconforto,  que toda a doideira cotidiana nos ajudaria a alcançar um estado de psico-blasé? A premissa inicial de The Filth, roteirizado por Grant Morrison, trata deste assunto.

A história começa com o protagonista, Greg Feely, cujo suas únicas preocupações cotidianas são colecionar pornografia e cuidar de seu gato de estimação moribundo, descobrindo que na verdade, sua personalidade é apenas um constructo para o agente Ned Slade, membro de uma organização conhecida como “The Hand”. A “The Hand” é liderada pela enigmática Mother Filth, e sua função é a preservação daquilo que eles chamam de “Status: Q” (O status quo).

A premissa, a partir daí, é contrária a outras obras do autor, como The Invisibles, se nesta, King Mob e sua trupe revolucionária descobrem, de forma amarga, que a revolução é órgão integrante do sistema, em The Filth, Greg/Ned, a contragosto, encarnam o papel do policial, do lixeiro, agência sanitário ontológico.

O Status: Q é ameaçado por aquilo que a agência denomina “Anti-pessoas”, experimentos falhados, seres de outras dimensões, coisas e criaturas capazes de ameaçar a população e o bem estar geral, como um agente sanitário, Greg/Ned e sua equipe são enviados para conter e posteriormente limpar a ameaça.

O Clima da história é denso, pesado, sendo integrante do selo Vertigo, Morrison permitiu transparecer cenas de agonia e crise existencial na trama, é uma HQ inspirada no clima de transição do início do século, paranóia, poluição sinestésica, solidão, a catarse da rotina pós-moderna através do exploitation, o próprio Morrison, em entrevista ao Comic Books Resources, afirma que escreveu The Filth durante uma fase ruim de sua vida, o que transparece em Greg/Ned, que da mesma maneira que tanta digerir as loucuras proporcionadas por sua vida dupla de agente, tem que conciliar isto com seus temores cotidianos, como a doença de seu gato e o vício por pornografia.

Aos poucos, Greg/Ned – e os leitores -aprendem sobre a natureza doentia do universo, e caso entendam a proposta do roteirista, buscam através de todo pessimismo e negatividade, construir algo melhor para o próprio espírito, o desfecho dessa série, em treze edições, não poderia ser outro, redentor…

Claro que como estamos falando sobre Morrison, nós vamos presenciar as habituais viagens do escritor, espere coisas como: “Planeta Bonsai” ou “Terrorismo Pornográfico”, espermatozóides gigantes, tentáculos, golfinhos gigantes cibernéticos e até alguns elementos corriqueiros desta fase do escritor, já vistos, por exemplo, em Homem Animal e Patrulha do Destino.

Começar a ler The Filth, é como ser apresentado a um remédio, antes do primeiro capitulo, somos confrontados por uma “bula médica”, posologia de HQ, contra-indicações, efeitos adversos, e então, a administração da dose, bom, no meu caso, dores excessivas nas costas e em determinado momento, engasgo com a própria saliva, ai então, percebi que era hora de parar a leitura…

Talvez a “sujeira” em The Filth seja mínima hoje em dia, com a esquizofrenia da cultura pop e a natureza blasé de seus consumidores, mas The Filth ainda não deixa de ser uma boa leitura, ainda mais pro público recente, que assim como eu, desconheceu uma fase tão célebre da Vertigo Comics.

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