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Um cidadão contra a má-administração do Transporte Público – Parte I

São Paulo é uma cidade ingrata aos fins de semana com quem não possui carro. Qualquer programação sua tem que ser estendida de três a quatro horas devido ao tempo perdido esperando ônibus (para quem vai de metrô, o drama é um pouco menor). Os coletivos demoram tanto para passar que quando passam muitas vezes ficam tão lotados quanto estariam em dias de semana em horários de pico.

Será que o número de passageiros aos fins de semana cai tanto assim para justificar eu esperar o dobro do tempo para pegar um ônibus igualmente lotado? E quem trabalha aos finais de semana e tem horários a cumprir, como fica? Para sair de um plano geral e pegar um exemplo prático, vou usar uma situação que eu passo como exemplo.

Moro próximo ao Metrô Belém e minha namorada mora no Parque São Rafael. A opção mais fácil para visitá-la seria pegar a linha “372R-10: Metrô Belém – Parque São Rafael”. Acontece que este ônibus demora tanto aos fins de semana que às vezes compensa mais pega o metrô até a Estação Brás, fazer baldeação até o trem, descer na Estação Santo André e pegar um ônibus até a casa dela. Percebem o absurdo disso? É comum eu mais ficar meia hora esperando o coletivo. Até para fim de semana, considero este tempo de espera muito grande.

Pois bem, ontem, 26 de janeiro de 2012 (domingo), saí da casa da minha namorada e cheguei no ponto de ônibus às 21h51 para pegar o coletivo e ir para casa após um dia agradável. Somente às 23h45 (não, você não viu errado) um motorista desta linha indo guardar seu veículo na garagem resolver dar carona para quem estava no ponto até o Terminal São Mateus. Fiquei praticamente DUAS HORAS esperando o maldito ônibus aparecer e nada.

Depois de pegar um ônibus de outra linha, resolvi ligar para a prefeitura através do 156 e registrar uma reclamação. Para quem não sabe, este número serve para qualquer assunto envolvendo a prefeitura de São Paulo e é gratuito. Pode ligar até de seu celular que não cobra nada. Liguei achando que só falaria com aquela atendente eletrônica, mas para minha surpresa existem atendentes de plantão 24 horas.

Expus o ocorrido para o atendente e eis que descubro que, pelo sistema deles, um veículo sai do ponto inicial às 22h. Os próximos saem às 22h20 e 22h40 e o último sai às 23h.  QUATRO VEÍCULOS DEVERIAM TER PASSADO E NENHUM PASSOU. Pelos horários deste sistema, a cada 20 minutos deveria passa um coletivo. Coisa que eu NUNCA vi acontecer em um domingo. Ou os horários dos veículos na prefeitura estão totalmente errados ou os fiscais desta linha estão fazendo um serviço de porco.

O número de protocolo da minha reclamação é 10588507, disseram que foi passado para a SPTrans e que eles tem até 20 dias (um absurdo, diga-se de passagem) para dar uma resposta para o ocorrido. Peguei todos os horários de ônibus desta linha a partir das 21h de sábado e domingo. Caso ocorram mais atrasos durante estes 20 dias, haverão mais reclamações. Tenho andado de saco cheio de algumas coisas que andam acontecendo em serviços públicos e privados e vou reclamar até conseguir uma satisfação, que é o mínimo.

Recapitulando:

– O telefone 156 é gratuito, 24 horas e pode ser usado para fazer reclamações sobre qualquer serviço sob responsabilidade da Prefeitura de São Paulo. Eles te pedem nome completo, endereço (com CEP), telefone, RG e um e-mail. Caso na hora da reclamação você não tenha como anotar o número do protocolo, é possível ligar mais tarde e recuperar este número através de seus dados;

– Todo ônibus tem horário certo para passar. Sim, eu sei que com o trânsito da cidade isto nem sempre pode ser cumprido, mas deveria. Se você ligar no 156 e pedir os horários dos ônibus de alguma linha, eles são informados e, segundo o atendente, DEVEM ser cumpridos.

Fica aí a dica sobre como agir nestes casos e aguardem novidades sobre este caso!

Pessoas diferenciadas, pelo preconceito

Só em sua capital São Paulo tem 19 Milhões de habitantes, destes, de acordo com os últimos informes do sistema metroviário, nove milhões circulam diariamente na malha de linhas de trem e metrô da cidade, isso se a gente não levar em consideração as cidades vizinhas que também usam o transporte público metropolitano, como Osasco e Guarulhos, ainda assim, embora motivo de orgulho para alguns conterrâneos, o sistema de transporte público paulistano tem presenciado uma falência esquematizada de sua capacidade, em grande parte por culpa do governo, que subestimou a expansão urbana da cidade e por outro lado, as intricadas tramas de licitações, processos e parcerias públicas-privadas, além de interesses sindicalistas, um grande exemplo é a Linha Amarela do metrô, que se encontra em atraso já faz anos, com apenas duas estações funcionando com operacional limitado.

Ainda assim, a falta de planejamento se abate no cotidiano paulistano, estações vazias contracenam com outras que sofrem de superlotações na hora do rush, a disputa entre as sub-prefeituras acarreta no privilégio de qual bairro ser mais apropriado para receber ou não uma estação de trem/metro, e ainda assim, encontramos algumas contradições, como grandes centros de negócios, como o bairro da Vila Olímpia serem completamente desprovidos de acesso ao transporte público, enquanto a Linha Verde, tem pelo menos três estações abrangendo a Av. Paulista, algo que eu julgo ser desnecessário.

Causou um certo reboliço as declarações oriundas de um baixo assinado contendo as assinaturas de 3.500 moradores da região do Higienópolis (0,016% da população do município), alegando que a instalação de uma estação do metrô traria a presença de “pessoas diferenciadas” ao bairro, afetando o estilo de vida dos cidadãos da região, o que também me faz questionar a força política do baixíssimo número de assinaturas, se levarmos em consideração outros baixo assinados que a população paulistana já protagonizou e que por ventura, foram pertinentemente ignorados pelo poder público, o bairro é famoso por abrigar boa parte dos grandes empresários e políticos Tucanos (como FHC) da cidade.

Claro, da própria história do bairro, etimologicamente, “Higienópolis” literalmente significa “Cidade da Higiene”, onde na época todos os lotes tinham sistemas de esgoto e água encanada, começou a ser povoado por volta de 1890 pelos “Barões do Café”, por ironia históricoa, um dos grandes atrativos do bairro era a presença de um bonde. Políticas higienistas têm sido algo comum na capital paulistana, como já discutido aqui no próprio blog, a administração dos políticos de direita tem trazido conseqüências desastrosas para a metrópole que até então, era famosa por sua vida noturna, intelectual e natureza cosmopolitana.

Fica aberta a questão do “espaço público”, onde sim, os moradores têm o direito de revogar ao poder cívico pelo bem estar da região onde moram, desde que exista plausibilidade em seus argumentos, e que, “diferenciadas” ou não, todo cidadão tem o direito de transitar por um espaço que é acessível para todos – ou devia, já que não vai rolar metrô – não estamos falando de condomínios fechados ou clubes privados, e sim de rua, simples assim.

Como disse o Rapper Emicida no Twitter: “Cerca essa porra dessa higienópolis e tranca essa tucanada lá dentro, depois tomba como patrimônio ambiental, o maior tucanário do mundo”

E então transparece na polêmica o preconceito de classe, onde muito se discute melhorias na eficácia do transporte público, persistem o abarrotamento humano e as constantes “falhas técnicas” em estações como a Paraíso, Barra Funda e Sé, fica subentendida no ar uma coisa, população do Higienópolis – ricos – não precisam de metrô, transporte público é coisa de pobre, e o governo, acatando isso com o rabo entre as pernas, consentiu com a mensagem.

Papo Rápido: A falha experiência democrática no Brasil e as manifestações populares no Oriente Médio

A família toda estava reunida na mesa de jantar, comendo a famigerada pizza da sexta-feira, televisão ligada, o Jornal Nacional da Globo entra no ar, discutimos as notícia que passavam, cada um com sua opinião borderline ao senso comum, como esperado, uma hora o âncora do jornal anuncia as manifestações políticas no Oriente Médio, em meio ao “debate” (entre aspas mesmo), alguém fala com um certo tom de deboche “até que outro ditador vem e assume o poder”.

Como se a nossa experiência democrática, com menos de uma década, tenha progredido tanto de lá pra cá, vide PMDB e seus políticos jurássicos.

Isso foi no mesmo dia que a polícia paulistana novamente entrou em confronto com estudantes contrários ao aumento da passagem no transporte público (agora o metrô),  até agora ainda não claramente justificado a população do município de São Paulo.

E pra piorar, os rumores de que Gilberto Kassab entrará para o partido citado acima, querido por todos nós, ameaçam se concretizar.

Embora exista uma multidão de dedos políticos nesta onda de manifestações, realizar vistas grossas para a panela de pressão econômica e social que tem conflagrado o Oriente Médio é uma idiotice sem tamanho, é um início saudável começar a conscientizar que monarquias plutocráticas que enriqueceram sob o dinheiro do petróleo não são boas para a população ou melhores do que fundamentalistas islâmicos, que toda aquela suntuosidade apresentada a nós como mera “curiosidade ocidental” não atinge sequer uma ínfima parcela da população.

Isto não é novidade, desde a visita de Reza Palahvi a Berlim, há mais de 40 anos atrás, a jornalista Ulrike Meinhof (sim, aquele Meinhof…) tentou denunciar através de um artigo o abismo social existente na região e a vista grossa por parte da imprensa ocidental.

Não foi apenas política que inquietou as mentes da população no Egito e na Tunísia, foi a fome, foi a inacessibilidade, foi o alto custo de vida, a ausência de luxo, a necessidade de se reintegrar a uma malha social global.

Mais importante do que especular se um novo ditador assumirá ou não, é perceber que o status quo foi alterado, a população, que a muitos já não é aquilo que “intelectuais” da classe média jocosamente chamam de “massa” se articulou e vivenciou uma das primeiras grandes experiências sociais e políticas da década, maldita inclusão digital, não?

E para nós, Brasileiros, mais especificadamente, paulistanos, somos terrorizados pelo silogismo que nos faz confundir “autoridade” e “funcionário público”, se, na questão do transporte público, muitos temem confrontar um “cobrador de ônibus” – um cargo, que, sinceramente, sequer deveria existir – quiçá teremos convicção para questionar uma força policial retrograda, fundamentada na violência e repreensão ou nossos órgãos políticos, que em um nascimento aberrante, trouxe do seio de uma ditadura uma democracia acéfala.

(cujo até hoje o STJ discute a constitucionalidade de seu aborto…)

Orgulho Evangélico?

Estava eu no ônibus voltando de um treinamento sacal para ministrar um curso sobre Mercado de Trabalho quando ouço um moleque de cerca de seis anos cantarolando no banco ao meu lado (e ao lado da mãe) a seguinte canção evangélica:

“O homenzinho torto
Morava numa casa torta
Andava no caminho torto
Sua vida era torta

O homenzinho torto
A Bíblia encontrou
E tudo o que era torto
Jesus concertou”

Sendo eu míope, corcunda, com os dentes separados e com pé alto, achei essa insinuação de que minha formação física era resultado a falta de Jesus na minha vida extremamente de mau gosto. “Mas isso é metafórico!” – bradarão alguns. Eis então que a bela criança segue com a música:

“O homenzinho preto
Morava numa casa preta
Andava no caminho preto
Sua vida era preta

O homenzinho preto
A Bíblia encontrou
E tudo o que era preto
Jesus concertou”

Gostaria de argumentos razoáveis para defender esta merda, amigos evangélicos.

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