Tag Archives: censura

OcupaUSP: uma vitória pírrica para a sociedade paulistana

Esse final de semana eu abro a Revista Veja e me deparo com a matéria sobre a ocupação na USP, a revista – um dos maiores meios de comunicação do país – adota uma postura sequer imparcial, sem informação ou texto jornalístico, a matéria, em resumo, é uma demonstração de nojo à última onda de protestos que vem impactando a rotina do campus e ganhando espaço na imprensa.

O carro chefe da matéria “A Rebelião dos Mimados”, escrita por Marcelo Sperandio, era uma foto que ganharia uma notoriedade na internet, gerando inúmeras piadas pelo seu aspecto inusitado e debochado: um aluno – que em tese, faz parte dos manifestantes – se encontra sentado na cadeira, o que chama a atenção é o vestuário do rapaz, um macacão da GAP – uma marca importada de roupas casuais – e um óculos, supostamente, ray-ban.

E sem muitas delongas, o jornalista percorreu a matéria, desenvolvendo lições de morais, críticas à postura dos manifestantes, alegando que os alunos são apenas crianças mimadas, que protestam pelo direito de fumar maconha sem serem perturbados pela polícia militar, esse garoto se tornou o “retrato” da pequena ocupação que se desenvolveu no campus.

Os protestos tiveram como pontapé inicial a prisão de três alunos por porte e consumo de maconha dentro das imediações do campus no dia 27/10, quando diversos estudantes, em “demonstração de solidariedade” resolveram impedir que a PM prendesse seus colegas universitários.

Isto foi o estopim para reaver um antigo trauma da comunidade em relação a presença policial no campus, entre inúmeros argumentos, alega-se que a presença dos mesmos é uma ferramenta para coibir manifestações e até mesmo a liberdade de expressão.

De forma coincidente, dia 31/10, um rapaz chamado Thiago De Carvalho Cunha, um dos militantes do Acampa Sampa, a manifestação paulistana para o movimento global Occupy Wall Street, invadiu e interrompeu uma matéria do Jornal Hoje da Rede Globo de Televisão, em entrevista, o mesmo declarou: “Sou muito politizado, tenho 23 anos e, no momento, sou sustentado pela minha mãe”.

No dia 7/11, um dia antes do ultimato promulgado pela Justiça para que os manifestantes desocupassem o prédio da reitoria, o cinegrafista da Rede Bandeirantes, Gelson Domingos, foi baleado durante a gravação de uma invasão do BOPE a uma favela carioca, este triste incidente reacendeu um antigo debate brasileiro: “quem financia o tráfico de drogas?” Claro que o bode expiatório caiu nos ombros da juventude universitária da classe média brasileira.

E para finalizar o cenário, fica no ar a influência da onda de “marchas” que começaram após forte intervenção policial sobre a passeata a favor da legalização da maconha que ocorreu na Av. Paulista, o movimento ganhou projeção nacional, usando o direito da liberdade de expressão em sua vanguarda, fica a expectativa de o quanto do progresso alcançado pelas marchas será danificado após o término da ocupação.

Tenho acompanhado o desenvolvimento do argumento que pessoas “ricas” são isentas do direito de manifestar-se, ou seja, rico não pode protestar, uma vez que possui acesso a tudo, educação, saúde e entretenimento, não existem espaço para queixas ou o direito de reivindicar direitos, isto não passa de um sintoma de miopia social, um argumento da mesma lógica utilizado pelo jornalista Marcelo Sperandio.

A própria Veja, conhecida pelo público por ser uma periódico de centro-esquerda, em que seu editorial já defendeu mais de uma vez os fardos da classe média ao longo da administração petista encontrou uma pequena contradição ao condenar as manifestações universitárias, declarando que a mesma é encabeçada por “filhinhos de papai maconheiros”.

A instituição conta – no momento – com 89 mil alunos, ao contrário do estereótipo que foi fomentado por veículos como a Revista Veja, o clima na USP é despolitizado, onde muitos alunos ministram seu tempo intercalando matérias, estágios e cursos de idiomas oferecidos dentro do campus.

Outro argumento comum para dissimular a legitimidade os protestos se encontra no volume de alunos manifestantes em comparação ao resto da população do campus, considerando os mesmos como uma minoria e por isso, isenta de voz, uma constatação que vai contra os princípios democráticos.

O sociólogo Carlos Henrique Metidieri Menegozzo, em entrevista a revista Carta Capital, afirma que a mentalidade radical na USP passa por dois processos que se encontram em polos opostos e conflituosos.

Os da esquerda, na definição sociológica, são em parte resultantes de uma ideologia do descondicionamento de classe, “surgida quando o estudante é desobrigado de criar condições para seu próprio sustento”. Nesse caso, o estudante universitário, em sua maior parte de classe média e relativamente dependente dos pais, tem a impressão de que pode tudo. De acordo com Menegozzo ““O aluno imagina que pode assumir um comportamento político desligado de condições materiais e de interesses de sua classe origem”.

Já a direita, nas palavras do sociólogo, é reflexo da expressão de um movimento da classe média de maneira geral e que influencia o comportamento estudantil, quando segmentos da sociedade ascenderam após as políticas sociais estabelecidas no governo Lula, a antiga classe média vivenciou uma perda de status e poder, e o crescimento de uma mentalidade mais conservadora e agressiva é resultado direto dessa sensação de perda, o que é visto opiniões que envolvem políticas de cotas, por exemplo.

Por último, existe o confronto estatístico, alegando os resultados após a presença da PM e seu impacto na rotina dos alunos, um levantamento feito pela Polícia Militar 80 dias após o assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva ocorrido em maio, os furtos de veículos caíram em 90% (apenas dois casos foram registrados, ante os 20 anteriores). Já roubos em geral passaram de 18 para 6, uma redução de 66,7%. Roubos de veículos caíram 92,3%, passando de 13 para 1.

Outros dois crimes que tiveram redução foram lesão corporal, que caiu de nove para dois casos (queda de 77,8%), e sequestro relâmpago, de 8 para 1 (redução de 87,5%). Os dados estão em boletins de ocorrência registrados nas delegacias do entorno da Cidade Universitária.

Dos 103 boletins de furtos registrados depois da morte ante os 107 do período anterior, apenas 20 ocorreram em via pública, sendo 19 no interior de veículos, dos quais em 12 o objeto visado foi o estepe do carro. O outro furto foi de uma placa de veículo.

Os outros 83 casos aconteceram no interior das unidades, onde a PM não entra. Nesses locais, a competência de garantir a segurança é das empresas privadas de vigilância, contratadas pelas próprias unidades, ou da Guarda Universitária da USP, que tem como função proteger o patrimônio da instituição.

O argumento das alas mais radicais dos grupos universitários é que a presença da Polícia Militar tem servido para inibir os atos democráticos de manifestações, que, diga-se de passagem, são comuns dentro de meios acadêmicos.

A presença política nas manifestações – parte do intricado mosaico geopolítico da universidade – é apenas outro ponto, se embora a manifestação dos alunos possa ser consideração legítima, a ocupação da reitoria dia 01/11 foi encabeçada por grupos políticos como o PCO, a presença de bandeiras como a do PSTU e do PSOL podem ser encontrados entre os ocupantes, algo que nós podemos considerar como ato político e questionável.

A reação contra a presença policial no campus tem repercutido um criticismo sério por parte da população, que veem nas reinvindicações dos universitários nada menos que um “luxo”, alegando que não precisam de um direito do cidadão – o de proteção – enquanto diversas outras comunidades do município de São Paulo carecem do mesmo direito.

Em infeliz declaração a imprensa, Geraldo Alckmin, governador do Estado de São Paulo declarou sobre a situação : “Ninguém está acima da lei”, o profº Jorge Luiz Souto Maior, livre docente da Faculdade de Direito da USP foi pertinente em argumentar: “Ninguém está acima da lei”, traduz um preceito republicano, pelo qual, historicamente, se fixou a conquista de que o poder pertence ao povo e que, portanto, o governante não detém o poder por si, mas em nome do povo, exercendo-o nos limites por leis, democraticamente, estatuídas. O “Ninguém está acima da lei” é uma conquista do povo em face dos governos autoritários. O “ninguém” da expressão, por conseguinte, é o governante, jamais o povo.”

Muito foi dito sobre políticas de controle e higienismo no estado de São Paulo por parte da administração do PSDB, sabe-se que 25 das 32 subprefeituras do município possuem no comando reservas ligados a Policia Militar, também existem cerca de 90 oficiais em cargos considerados estratégica para a máquina pública paulistana, entre eles podemos citar a Secretaria de Transportes, Companhia de Engenharia de Tráfego, Serviço Funerário, no Serviço Ambulatorial Municipal, na Defesa Civil e Secretaria de Segurança.

Dia 08/11, por volta das 5:20 da manhã, um grupo de 400 policiais do batalhão de choque invadiram a reitoria com o objetivo de retirar os 150 alunos ocupantes do prédio, embora a assessoria da Polícia Militar alegue que a retira foi pacífica (embora, relatos de uso de gás lacrimgênico e abuso de força cheguem aos poucos, como nesse vídeo aqui), cerca 70 manifestantes foram presos, com múltiplas acusações, que vão de crime ambiental a formação de quadrilha, também foram encotrados, armas brancas e molotovs nas imediações ocupados, muitos detidos só conseguiram responder aos processos após o pagamento de fiança ou seja, os atos de manifestação foram considerados criminosos de acordo com a administração do município.

Todo o cenário poderia ter sido um de vitória, de manifestações pacíficas e reivindicatórias, sem a presença de joguetes políticos ou depreciação do patrimônio público, ao mesmo tempo em que as autoridades o papel que lhes cabe a sua jurisdição.

Ambos os lados tem ganhado notoriedade por seus atos exaltados e violentos, mas aqui eu questiono o que – nós – como povo conquistamos após esse episódio? Após a ação policial, parte da opinião pública aclamou pela intervenção brutal promovida pelo Batalhão de Choque, enquanto parcelas da comunidade universitária encontrarão no ato de agressão uma justificativa para seus argumentos radicais, tudo o que nós, o povo, conseguimos foi uma vitória pírrica.

O gâmbito de Ishihara Shintaro e o renascimento do orgulho otaku!

Ishihara Shintaro é um sujeito curioso, governador da província de Tóquio, é uma das figuras políticas mais importantes de seu país, basta observar a relevância administrativa, econômica e até sócio-cultural que a metrópole sob sua gestão representa para o resto do mundo, Ishihara, porem, também é uma figura controversa, um senil reacionário, fato que contradiz fortemente o vibrante crescimento de Tóquio, a frente de lobbystas e outros políticos, Ishihara lidera uma cruzada pessoal contra o florescimento da criatividade artística e o direito de livre-expressão em Mangás e Animes.

Recentemente, li uma notícia que o bairro de Akihabara, também conhecido como “paraíso dos pedestres”, voltou a ter suas passarelas abertas ao público dois anos depois do incidente envolvendo um homem que atropelou e esfaqueou cerca de oito pessoas, Akihabara também é conhecida por alguns como “A Meca dos Otakus”, devido a grande quantidade de lojas de artigos relacionados presentes na região, sendo considerada um dos principais pólos da cultura pop contemporânea, tendo em vista as recentes diretrizes do governo de Tóquio, é possível notar uma severa contradição.

A lei de banimento ao anime/mangá (conhecida como “Lei 156”) causou certo revisionismo social, o argumento que animes envolvendo conteúdo erótico e até semi-legal apazigua os anseios violentos de seus leitores é um pensamento preconceituoso, pois implica no pressuposto que todos os leitores são criminosos sexuais em potencial, esse é o tipo de visão que permitiu solo fértil para a 156.

Em um discurso emitido ao vivo pela televisão, Ishihara comentou o seguinte impropério: “as três coisas que arruinaram a juventude são: smartphones, televisão e pcs e “jovens conseguem obter vastas quantidades de informação, porem não existe “substância”, sequer pode ser considerado cultura de verdade”.

Novamente a gente se vê perante uma prerrogativa amplamente cultivada pelos políticos da ala direitista de todo mundo, a pauta do “o que é cultura?”, uma necessidade de institucionalização da mesma, negando o fator espontâneo que existe por trás de todas as manifestações culturais, priorizando aquilo que entendemos como “erudição”, carregada de alto teor informativo, transformando cultura em um bem de difícil acessibilidade.

É nesse cenário que passamos a questionar a necessidade de uma legislação como a Lei 156, se mesma encontra-se no auge de sua aceitação por parte de políticos da ala de direita do governo japonês, porque observamos mais uma vez o bairro de Akihabara crescer? É interessante notar que na cultura otaku o fator “fogo de palha” persiste e é querido, onde observamos fan-art, doujins, modding, cosplay, gatilhos meméticos desafiando uma linha tênue entre a propriedade intelectual e a apreciação colaborativa.

Para uma lei que visa mitigar o conteúdo dito como escandaloso ou subversivo dos mangás e animes japoneses, tendo Ishihara como um dos seus principais cabeças é no mínimo controverso, conciliando com sua carreira política, Ishihara foi escritor e jornalista.

Em 1990, Ishihara em entrevista negou o episódio do “Estupro de Nanquim” Onde na década de 30, no período pré-guerra, tropas japonesas, inspiradas por um sentimento nacionalista perverso, invadiram a cidade chinesa, dizimando a cidade e cometendo atrocidades com sua população, entre elas o uso de prisioneiros em treinamentos do exército, o estupro de mulheres de todas as idades e o uso de cobaias humanas para finalidades de “curiosidade científica”.

De forma pertinente, o site Sankaku Complex investigou a bibliografia da carreira de escritor de Ishihara, identificando alguns contos cujo as sinopses eu vou transcrever a seguir:

Em “Kanzen na Yuugi” (algo do tipo “O jogo perfeito”), de 1956, um grupo de jovens seqüestra uma garota mentalmente incapacitada, mantendo-a como escrava sexual e estuprando-a de forma brutal, após não consegui vendê-la para um bordel, os mesmos se livram dela jogando-a por um abismo.

(Viu? A premissa da história nos lembra vagamente alguns clássicos da série Guinea Pigs, como “The Devil’s Experiment”, e até mesmo o incidente envolvendo a colegial Junko Furuta)

Outro livro, chamado “Shokei no Heiya” (“Sala de execução”, ou bosta do tipo) envolvem adolescentes que embebedam e dopam duas amigas, a trama contém descrições explicitas de abusos sexuais e atos de vingança. Um fato interessante é que em 1957, um grupo de jovens acusados de estupro coletivo declararam abertamente terem buscado inspiração neste conto.

(Vale tomar ciência que o mesmo esteve no auge do movimento que se transcendeu hoje por aquilo que chamamos de “Ero-guro”, este tipo de narrativa trágica é comum no Japão, diversos artistas contemporâneos trabalham com isto, como Suehiro Maruo, cujo diversos trabalhos já foram divulgados no Brasil).

É curioso notar que os contos de Ishihara são best-sellers em seu país de origem e podem ser vendidos ao público menor de idade sem restrição alguma, quando confrontado sobre sua carreira de escritor, o mesmo comentou: “literatura de qualquer tipo não induz crianças a cometerem crimes ou atos de delinqüência”. Bom, os fatos falam por si só, não?

E pra ser sincero, nunca pensei que viveria para ver o dia onde trocar pornografia se tornaria um ato de resistência e/ou contravenção, novos tempos exigem novas formas de manifestação, e da mesma forma que a cultura geek passou por atribulações no passado apenas pra voltar fortalecida, este caso não será diferente, então eu digo em plenos pulmões: Moe moe kyun! Seu velho gagá.

Fascismo 2.0: incompetência e ingenuidade

Então um moleque em Tucson pega uma arma, abre fogo contra uma multidão, após sua captura, ao tirar a foto na delegacia, ele sorri, sua aparência é provocativa, cabelo e sobrancelhas raspados, seios da face rosados, é como se Tio Lester, em um dos seus delírios, tivesse pegado uma AK-47. É armado o circo, circo sem palhaços, Fox News e sua cômica pretensão de seriedade jornalística. Professores, Psicólogos, Líderes Comunitários e Jornalistas, todos saem em busca do bode expiatório, culpam a televisão, a permissividade dos pais, os vídeos-game, exploram mais uma vez os elos fracos da corrente da monocultura capitalista.

Em algum canto do Oriente Médio, um soldado é alvejado, seu corpo é arrastado por uma rua de terra batida, o populacho ignorante dança, festeja a perpetuação de um estado de conflito, a vanguarda intelectual da classe média vem a tona, carregando cestos de panos quentes, amenizando discursos, culpando pessoas, fala-se em paz, promove coexistência, sorrisos amarelos em 1080i

Então eu vejo uma fotografia da Sarah Palin esta manhã, seios flácidos amostra graças a um decote tipicamente republicano, uma espécie de caso freudiano bizarro, ela sorri de orelha a orelha, carregando um rifle, não um AK-47 bárbaro, mas sim uma carabina Winchester M1, orgulho estadunidense, debaixo de suas saias, a MILF queridinha da América carrega os cristãos furiosos da Igreja Batista de Westboro, os mutilados pela beligerância da Era Bush, o Tea Party, a retórica é uma só: a eminência de um inimigo, “o socialista”, “o estrangeiro”, “o libertário”.

Claro, a elite jornalística se sente praticamente ofendida, se por um lado a crescente tensão no oriente médio é vista como uma demonstração de barbárie, um ato de violência, pouco se diz aos protestos, leis xenofóbicas e tiroteios aleatórios que vem corroendo o já gasto sonho americano, relativizar a questão acaba sendo uma ofensa: “Nós, como eles? Isso é um absurdo!” Pior ainda é agüentar a Revista Veja, comentando sobre o “delirante partido democrata”.

Mason Lang, o Playboy Nova Era da supracitada série “The Invisibles” de Grant Morrison, uma vez comentou algo mais ou menos assim: “Para que o fascismo floresça, é necessário um estado de beligerância perpétua” e não é isso? O pior inimigo é aquele inventando e nutrido pelas nossas mentes inseguras, o que nos leva a um derivado comum da política fascista, a frieza burocrática, o famoso efeito Eichmann.

Saímos do panorama dos Estados Unidos e vamos para o Brasil, onde pudemos presenciar recentemente uma severa repreensão policial da PM paulistana contra manifestantes pacíficos contrários a uma medida completamente arbitrária por parte da administração da prefeitura. São Paulo, e por extensão, o resto do país, enfrenta período de decadência cívica similar aos nossos colegas americanos, a falta de preparo e silogismo de nossos políticos em admitir certos fatos apenas reflete a situação.

O segundo fator, que eu julgo como crucial para a germinação de ideologias fascistas em qualquer sociedade é a “cultura de denúncias”, de perseguição moral e intelectual por parte de correntes interpretadas como “dissidentes”, a dissimulação de manifestações, a erosão da infra-estrutura do espaço público paulistano exemplifica bem a situação: transporte público lotado, vias de acesso estagnadas, sistemas públicos enfartados, o cidadão abre mão de seu papel cívico – o questionamento crítico – para disputar de forma ferrenha aquilo que deveria ser o seu direito mais básico, vide sua política higienista, amplamente comentada por mim neste blog.

Kassab é o novo Eichmann, um administrador alienado perante as dificuldades de seu povo, um gestor incapaz de lidar com uma metrópoles do porte de São Paulo.

Outra raiz fascista existe no espetáculo estético, lembre-se dos gambitos publicitários de Goebbels e Riefenstahl, das marchas, ângulos expansivos, bandeiras rasteadas, lembre-se, bem, da invasão do Morro do Alemão. Antes de mais nada, deixe-me posicionar, eu sou a favor da operação, não interpreto o “poder paralelo” como uma resistência ao poder do estado, mas sim um derivado nocivo de sua inconseqüência, um “exploit” naquilo que chamamos convencionalmente de “sistema”.

O que me assustou, foi a exibição espetacular da ação, as fotografias de soldados fardados como se tivessem vindo de um jogo de tiro do X-Box 360, o rastreamento de inúmeras bandeiras, a interpretação errônea de “ocupação”, como se tratasse a população do Morro como a população civil de uma nação oponente, governadores e comandantes militares em discursos cheios de pompa, ou seja, nas vésperas de um novo mandato presidencial E eleições municipais, o que nós presenciamos foi uma ação policial com propósitos sociais OU um golpe de marketing?

Vivenciamos o estágio inicial desta doença, que por desleixo, deixamos infectar nossos pensamentos e rotinas, onde novamente a incompetência esdrúxula de políticos de todo mundo permitiu que crescessem os frutos da corrupção e desconfiança, cabe ao cidadão comum, o herói anônimo da história da civilização, ficar atento e reverter o processo, como já diziam nossos antepassados, Kali Yuga.

 

Crônicas: O Inferno da ignorância.

Estou na Livraria Saraiva, procurando alguns hardcovers novos para ingressar na minha coleção, quando ao meu lado chega uma mãe com sua filha, ambas sem nenhuma peculiaridade, gente normal, a filha, entusiasmada, pega o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal e pede – em tom de súplica – que a mãe compre o livro desta vez, achei esquisito, resolvi atentar aos fatos, porem, o mais surpreendente viria com a resposta da mãe: “Não filha, lembra que o Pastor disse que o livro é obra do demônio?” a filha fez uma cara de decepção, digna daquelas memes que aparecem em sites humorísticos, fechou o bico e acompanhou a mãe pelo resto de sua visita a livraria.

“Evangélicos” eu pensei, ou provavelmente algo parecido, cujo não faço questão de discernir, aquela cena me deixou um pouco chateado, não pela ignorância, mas pelo sentido da mãe negar a criança o acesso ao entretenimento construtivo, ao hábito da leitura, e principalmente, livre arbítrio. Claro, sempre vai existir aquela esnobada referente ao conteúdo do livro, mas antes destas vigorarem, vale lembrar-se do que estamos falando, de uma criança, querendo ler um maldito livro.

Eu gosto de ironizar toda essa situação: se o Deus cristão é tão forte e onipresente, porque o subseqüente medo de satã? Às vezes, eu fico abismado com a grande estima que evangélicos e outros cultos dão a tal figura, como se o principal foco de crença fosse ele e sua capacidade de tentação.

Uma vez, aquele LINDO, o Anton LaVey, disse: “Satã tem sido o melhor amigo que a igreja já teve, pois ele cuidou de seus negócios todos esses anos!” e na cultura pop, satã tem sempre sua presença marcada, graças a deus.

O medo dos religiosos em terem de disputar a atenção de seus pupilos com coisas mais interessantes como Naruto, Ben 10 e Harry Potter, vem da falha em compreender o quanto a oratória religiosa no púlpito, as roupas formais e a música gospel são coisas frágeis, enfadonhas e completamente tautológicas para uma mente juvenil, faminta por estímulos.

Condenar a “magia” no livro é também condenar a riqueza de universos narrativos, o glamour de seus fãs e o esforço de escritores, editores e toda indústria por trás do negócio, é condenar, antes de qualquer coisa, a chance que uma criança teve de enriquecer intelectualmente.

Parabéns Evangélicos, vocês, de fato, provaram que o argumento de vocês está correto, aproximando mais uma alma para a danação no inferno da ignorância.

A “Eleição 2.0” no Brasil

Quem estava achando que a Rede ia ter grande influência no pleito deste ano caiu do cavalo. Mais do que fomentar debates, muito do que se fala sobre política em fóruns e redes sociais ainda é pregação para quem já está catequizado. Sem contar que as pessoas usam pouco a Internet para se informar sobre o assunto e o número de internautas comparado com a população brasileira ainda é pequeno.

Os mais entusiastas imaginavam um cenário a lá Obama, com militantes voluntários movendo mundos e fundos para seu candidato favorito, mas esqueceram-se de alguns fatores essenciais:

– Nos EUA não existe campanha gratuita na TV e toda inserção em horário comercial é paga. Logo o candidato tem que se virar muito mais para aparecer em todos os canais ou pelo menos nos mais relevantes. E se o cara não tem dinheiro tem que inventar alternativas viáveis. Já aqui no Brasil o infame “Horário Político” garante a todos seus segundos de fama em rede nacional de rádio e televisão. Portanto o grande foco dos nossos políticos são esses veículos;

– Nos EUA o voto é facultativo. Então os políticos tem que convencer o cara a sair de casa voluntariamente para votar, o que acarreta em um voto mais militante (e eu diferencio militante de conscientizado). Aqui somos obrigados a votar e as vezes acabamos votando em qualquer, afinal, eu tive que sair de casa mesmo, não é?

Porém mesmo não tendo a influência que muitos achavam que teria, a Internet está sim tornado esse pleito o primeiro “2.0” por uma série de razões. Vamos a elas.

Continuar lendo

%d blogueiros gostam disto: