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Durarara!! Um dos melhores animes de 2010!

Essa é a segunda vez que eu me surpreendo com o estúdio de animação Brain’s Base, a primeira foi ano passado, após a resenha numa coluna do Adi Tantimeth no Bleeding Cool eu vim a conhecer um anime chamado Baccano! uma verdadeira preciosidade da animação japonesa em meio a tempos de excessivo moe e séries de qualidades visivelmente contestáveis como K-ON,  baseada em um Estados Unidos fictício a trama envolvia punguistas, mafiosos, alquimistas e diversos outros tipos de personagens que, embora aparentemente não estejam relacionados, acabam se encontrando e dando direção à um plot muito maior, para todos os efeitos, eu recomendo Baccano! que embora seja uma série que date o ano de 2007, ainda mantém um nível de sofisticação distinto de suas sucessoras. Foi com muita surpresa que, em minha busca pela próxima animação, eu me deparei nos fóruns e redes sociais com o nome Durarara!! (sim, com duas exclamações…) e para minha surpresa, era uma nova animação desenvolvida pelo mesmo estúdio que produziu Baccano! tendo ciência da qualidade dos trabalhos da Brain’ Base, eu não poderia abrir mão da oportunidade de dar uma conferida.

Diferente de Baccano!, onde a trama se desenvolve no passado, em Durarara!! o espectador é transportado para a Ikebukuro dos dias de hoje, quando o tímido colegial Mikado Ryugamine, cansado de sua vida no interior do Japão, se muda para Tóquio, lá ele reencontra seu amigo de infância Masaomi Kida que após um breve passeio noturno pela região, apresenta a Mikado as principais personalidades e mitos de Ikebukuro. Para todos os efeitos, Durarara!! é uma seqüência espiritual de Baccano! dando continuidade ao trabalho de roteiro iniciado pelo primeiro, a série apresenta um carismático elenco de mais de vinte personagens, onde todos se cruzam em determinado momento da trama, entre os mais notáveis, nós podemos citar a courier Celty Sturluson, uma motoqueira estrangeira que cruza as ruas de Ikebukuro em uma moto totalmente negra, seu passado é dotado de mistérios e incertezas, ou Shizuo Heiwajima um lutador de rua de personalidade cômica e violenta e é claro, o imigrante russo Simon Brezhnev, tão forte quanto Shizuo, só que detentor de uma personalidade amável e pacífica, para os entendidos de língua japonesa, Simon Brezhnev é um show a parte, graças aos diversos erros de pronûncia cometidos pelo personagem, provocando reações hilárias para quem vê, ou até mesmo Kyohei Kadota e sua “gangue de otakus”.

O universo de Durarara!! é essencialmente cosmopolita, nós observamos interagir colegiais, yakuzas, gangues, otakus, imigrantes estrangeiros, elementos sobrenaturais e até mesmo o impacto das redes sociais no cotidiano urbano, boa parte disso se deve a existência na trama de um fórum anônimo intitulado “Dollars”, em uma Ikebukuro disputada por diversas gangues de rua, os Dollars são um novo elemento na geopolítica da região, sem hierarquia ou meios de identificação ou até mesmo objetivos em comum, é interessante ver, ao longo da história quais personagens pertencem – ou não – a esse coletivo.

A origem do nome vem de uma piada na pronuncia japonesa para a expressão, “Dara”, onde o termo “Dara Dara”  é utilizado para designar coisas inúteis ou ociosas. A presença dos Dollars na trama é uma ótima sacada por parte dos produtores, se levarmos em consideração a popularidade entre os japoneses dos “image boards” como o 2channel e até mesmo a força política exercida pelo 4chan, e por extensão, o coletivo conhecido como Anonymous, famosos por diversas reivindicações e posicionamento contrário ao pensamento reacionário de corporações e partidos políticos, na trama de Durarara!! os Dollars se preocupam com atividades de filantropia, promovendo limpezas nos bairros, ajudando pessoas perdidas e impedindo crimes de rua.

Porém, um anime tão bom quanto Durarara!! sofre de um mal comum cuja parcela de culpa quase sempre recai sobre a emissora, com uma história complexa e intricada, rica em personagens e acontecimentos, a série tem apenas 24 episódios, sendo que os últimos capítulos acabam passando uma sensação de urgência, rapidez, como se os produtores estivessem apressando alguns fatos, o que destoa do clima letárgico e metódico da primeira parte da série, chegando ao ponto de terminar a história com algumas poucas – e importantes! – pontas soltas e até mesmo personagens que aparecem na apresentação, não ganham mais espaço que um mísero episódio, trata-se de um dos contratempos de se trabalhar com uma gama tão grande de personagens.

Para muitos Durarara!! foi um dos melhores animes da temporada de 2010, e eu endosso esse fato, personagens carismáticos – e boa parte graças ao trabalho de dublagem dado ao anime – história fantástica, uma apresentação incrível, trilha sonora de peso, é uma daquelas séries que daqui uns anos a gente vai pensar com carinho, então meus amigos, não deixem de conferir essa obra prima! Roar Out Louder!

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O gâmbito de Ishihara Shintaro e o renascimento do orgulho otaku!

Ishihara Shintaro é um sujeito curioso, governador da província de Tóquio, é uma das figuras políticas mais importantes de seu país, basta observar a relevância administrativa, econômica e até sócio-cultural que a metrópole sob sua gestão representa para o resto do mundo, Ishihara, porem, também é uma figura controversa, um senil reacionário, fato que contradiz fortemente o vibrante crescimento de Tóquio, a frente de lobbystas e outros políticos, Ishihara lidera uma cruzada pessoal contra o florescimento da criatividade artística e o direito de livre-expressão em Mangás e Animes.

Recentemente, li uma notícia que o bairro de Akihabara, também conhecido como “paraíso dos pedestres”, voltou a ter suas passarelas abertas ao público dois anos depois do incidente envolvendo um homem que atropelou e esfaqueou cerca de oito pessoas, Akihabara também é conhecida por alguns como “A Meca dos Otakus”, devido a grande quantidade de lojas de artigos relacionados presentes na região, sendo considerada um dos principais pólos da cultura pop contemporânea, tendo em vista as recentes diretrizes do governo de Tóquio, é possível notar uma severa contradição.

A lei de banimento ao anime/mangá (conhecida como “Lei 156”) causou certo revisionismo social, o argumento que animes envolvendo conteúdo erótico e até semi-legal apazigua os anseios violentos de seus leitores é um pensamento preconceituoso, pois implica no pressuposto que todos os leitores são criminosos sexuais em potencial, esse é o tipo de visão que permitiu solo fértil para a 156.

Em um discurso emitido ao vivo pela televisão, Ishihara comentou o seguinte impropério: “as três coisas que arruinaram a juventude são: smartphones, televisão e pcs e “jovens conseguem obter vastas quantidades de informação, porem não existe “substância”, sequer pode ser considerado cultura de verdade”.

Novamente a gente se vê perante uma prerrogativa amplamente cultivada pelos políticos da ala direitista de todo mundo, a pauta do “o que é cultura?”, uma necessidade de institucionalização da mesma, negando o fator espontâneo que existe por trás de todas as manifestações culturais, priorizando aquilo que entendemos como “erudição”, carregada de alto teor informativo, transformando cultura em um bem de difícil acessibilidade.

É nesse cenário que passamos a questionar a necessidade de uma legislação como a Lei 156, se mesma encontra-se no auge de sua aceitação por parte de políticos da ala de direita do governo japonês, porque observamos mais uma vez o bairro de Akihabara crescer? É interessante notar que na cultura otaku o fator “fogo de palha” persiste e é querido, onde observamos fan-art, doujins, modding, cosplay, gatilhos meméticos desafiando uma linha tênue entre a propriedade intelectual e a apreciação colaborativa.

Para uma lei que visa mitigar o conteúdo dito como escandaloso ou subversivo dos mangás e animes japoneses, tendo Ishihara como um dos seus principais cabeças é no mínimo controverso, conciliando com sua carreira política, Ishihara foi escritor e jornalista.

Em 1990, Ishihara em entrevista negou o episódio do “Estupro de Nanquim” Onde na década de 30, no período pré-guerra, tropas japonesas, inspiradas por um sentimento nacionalista perverso, invadiram a cidade chinesa, dizimando a cidade e cometendo atrocidades com sua população, entre elas o uso de prisioneiros em treinamentos do exército, o estupro de mulheres de todas as idades e o uso de cobaias humanas para finalidades de “curiosidade científica”.

De forma pertinente, o site Sankaku Complex investigou a bibliografia da carreira de escritor de Ishihara, identificando alguns contos cujo as sinopses eu vou transcrever a seguir:

Em “Kanzen na Yuugi” (algo do tipo “O jogo perfeito”), de 1956, um grupo de jovens seqüestra uma garota mentalmente incapacitada, mantendo-a como escrava sexual e estuprando-a de forma brutal, após não consegui vendê-la para um bordel, os mesmos se livram dela jogando-a por um abismo.

(Viu? A premissa da história nos lembra vagamente alguns clássicos da série Guinea Pigs, como “The Devil’s Experiment”, e até mesmo o incidente envolvendo a colegial Junko Furuta)

Outro livro, chamado “Shokei no Heiya” (“Sala de execução”, ou bosta do tipo) envolvem adolescentes que embebedam e dopam duas amigas, a trama contém descrições explicitas de abusos sexuais e atos de vingança. Um fato interessante é que em 1957, um grupo de jovens acusados de estupro coletivo declararam abertamente terem buscado inspiração neste conto.

(Vale tomar ciência que o mesmo esteve no auge do movimento que se transcendeu hoje por aquilo que chamamos de “Ero-guro”, este tipo de narrativa trágica é comum no Japão, diversos artistas contemporâneos trabalham com isto, como Suehiro Maruo, cujo diversos trabalhos já foram divulgados no Brasil).

É curioso notar que os contos de Ishihara são best-sellers em seu país de origem e podem ser vendidos ao público menor de idade sem restrição alguma, quando confrontado sobre sua carreira de escritor, o mesmo comentou: “literatura de qualquer tipo não induz crianças a cometerem crimes ou atos de delinqüência”. Bom, os fatos falam por si só, não?

E pra ser sincero, nunca pensei que viveria para ver o dia onde trocar pornografia se tornaria um ato de resistência e/ou contravenção, novos tempos exigem novas formas de manifestação, e da mesma forma que a cultura geek passou por atribulações no passado apenas pra voltar fortalecida, este caso não será diferente, então eu digo em plenos pulmões: Moe moe kyun! Seu velho gagá.

O Papa do Underground é Pop – Parte I

O Papa é pop.
O Papa é pop.
O Pop não poupa ninguém”
Engenheiros do Havaii, “O Papa é Pop”

Robert Crumb havia autografado muito mais do que os 40 livros previamente acertados, e mesmo assim a fila de fãs ávidos por uma assinatura não dava sinais de diminuir. Então em um movimento no mínimo inesperado para alguém com 70 anos, Crumb subiu na cadeira, pendurou-se no corrimão da escada atrás dele e foi ao banheiro, só saindo quando tinha certeza de que não encheriam mais o seu saco. A esta altura eu já estava em uma lanchonete na Cardeal Arcoverde com outros nerds falando merda, comendo pizza, bebendo cerveja e rindo de piadas que ninguém de fora daquela mesa poderia entender. Em certos momentos eu tinha pena da pobre moça que nos atendia.

Robert Crumb

Ele e Gilbert Shelton vieram para o Brasil participar da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e deram uma passada na Livraria da Vila para um bate-papo com seus fãs. Fiquei realmente empolgado com o evento ao saber que Caco Galhardo seria o mediador da mesa. Meu real objetivo era conseguir um autógrafo dele e não do Crumb. Então antes de sair para o trabalho enfiei na mochilla um exemplar de “Zap Comix” e o álbum “You have been desconected” e aproveitei para reler no caminho.

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