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Minha experiência com as HQs digitais da DC Comics

Quando o iPad foi lançado, não demorou muito para a mídia especializada em HQs explorar o potencial deste gadget para o meio, com as editoras líderes do mercado, Marvel e DC, tomando a dianteira da situação. Em suma, é um fenômeno muito similar ao que acontece com periódicos e jornais, mas como encará-lo? É apenas uma transição do papel para o digital, ou existe algo mais? Quais são os benefícios? Principalmente para o consumidor brasileiro, que consome o bizarro esquema de mixes encabeçado pela Panini Comics?

O que me levou a ler HQs no iPad foi uma questão de necessidade.  Quando eu buscava encadernados mais antigos de títulos da DC Comics na Amazon, encontrei uma série de dificuldades para aquisição, quando um título não era usado, a loja afiliada não trabalhava com encomendas internacionais, isso sem citar a questão do preço, principalmente para edições mais “queridas” por sebos e colecionadores.

Tendo ciência da dificuldade, complexidade e falta de conveniência na situação, eu lembrei da app da DC Comics que tinha instalado por curiosidade no meu iPad há tempos atrás e resolvi dar uma conferida, e posso dizer leitores, me surpreendi com o que eu vi.

Para ter acesso é preciso se cadastrar no serviço, as informações de cartão de crédito são puxadas daquelas que você cedeu ao criar sua conta na App Store, e por falar em compras, aqui vem a primeira vantagem da leitura digital: o preço. Cada HQ digitalizada custa de U$1,00 a U$3,50, em tempos que o Dólar se encontra a U$1,65 o impacto das despesas não é alarmante se compararmos, por exemplo, à compra de hardcover na Livraria Cultura.

Por comparação, vamos analisar a recente saga “Blackest Night”, originalmente dividida em oito edições, cada uma custando U$3,50 (e No Brasil, R$7,50 pela Panini) no App observamos uma economia de U$0,50, com a saga completa, é feita uma economia de U$4,00. E com U$4,00 é possível comprar mais uma edição “recente” de qualquer série, ou duas mais antigas e se bobear, até mais, dependendo do título que procura.

Isso se dá em grande parte pela ausência de custos gráficos e logísticos, o que diminui o preço final, essa a economia fica ainda mais evidente em títulos antigos, com HQs custando U$1,00 é possível ler sagas inteiras, já o custo para a aquisição de uma cópia física daria acesso a muito menos conteúdo.

Outro benefício é que o consumo se torna mais seletivo, já que uma das desvantagens do mercado “físico” nacional é o formato conhecido como “mix”, onde uma revista tem um carro chefe e geralmente é acompanhada por mais outras duas publicações de qualidade inferior, obrigando, de certa forma, o leitor de HQs a consumir algo que não necessariamente deseja.

A terceira grande vantagem na leitura digital é a conveniência e facilidade de acesso a uma vasta biblioteca de títulos, sem que exista a necessidade de procurar mais em sebos ou lojas virtuais de procedência duvidosa.

Porém, a grande questão é: e a nostalgia de ler em papel? Sim, a primeira instancia, também compartilho a opinião que ler livros no PC é incômodo, principalmente para a vista e a coluna, sem contar que atrapalha o exercício de concentração, mas para HQs em um tablet a situação é outra.

A leitura no iPad é confortável, inclusive no manuseio, preocupado com o nível de interatividade, o App propícia um dinamismo à leitura, a diagramação das páginas e a ordem dos quadrinhos é seqüenciada, o que torna a leitura mais focada e agradável, inclusive com zooms e ampliações panorâmicas, o que adiciona dramaticidade a leitura.

O único contra-tempo aqui é que em muitos casos, o zoom estoura os pixels das páginas, isso é ainda mais comum em publicações antigas, os mais tradicionais não precisam se descabelar, pois a leitura tradicional da “página inteira” também pode ser empregada.

Quando a DC Comics anunciou o seu “New 52”, a mudança não era apenas uma reforma editorial, mas também um novo posicionamento no mercado. Se por um lado “resetar” as histórias daria um ar mais acessível para uma nova geração, por outro, a empresa, ciente do crescimento da chamada “geração touch”, resolveu que a distribuição digital seria simultânea aos lançamentos físicos.

Porém o mais preocupante não se encontra no App da DC, mas na aquisição de um tablet no Brasil, que como todo produto eletrônico, ainda se encontra sujeito a pesados impostos tornando o formato físico, ainda que com todos os pesares da produção editorial nacional, a alternativa mais viável. Para o pequeno nicho que tem acesso, recomendo pela experiência, conforto e conveniência, e aproveito para deixar meus parabéns à DC, que embora tenha dado início a uma controversa reformulação, em nível de mercado se provou pioneira e atualizada.

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Supergods: O que um careca escocês pode nos ensinar sobre quadrinhos?

Se você pegar o encarte de Supergods, o primeiro livro do escritor Grant Morrison, vai encontrar a seguinte citação de Stan Lee: “Grant Morrison is one of the great comic writers of all time. I wish i didn’t have to compete with someone as good as him” se Jack Kirby estivesse vivo, provavelmente diria: “cai dentro!”, mas a verdade é que sem Lee ou Kirby, não existiria Morrison, ao menos não da forma como conhecemos.

Supergods é a primeira empreitada do escocês careca na literatura convencional, neste livro, o mesmo busca desenvolver – sem pretensões acadêmicas – suas visões profissionais, ideológicas e espirituais sobre o meio, analisando o espírito de cada época assim como desenvolvendo um paralelo biográfico.

O livro começa no início do século passado, no auge dos males daquela época, a Grande Depressão, a Bomba e a sombra de Adolf Hitler pairando sobre a Europa e assim Morrison toma seu tempo para explicar, de forma empolgada e eletrizante, o advento do Super-homem e o início da Era de Ouro das HQs.

Logo de cara, podemos detectar a principal falha do livro, a constante perda de fôlego que Morrison exibe em sua dissertativa, capítulos como “The Sun God and The Dark Knight” ou “Superpop” apresentam não apenas um nível alto de argumento, como também humor e atmosfera, mas em compensação, em demais outros, o escocês patina, como se entrasse em um modo automático, preenchendo lacunas até chegar em um ponto mais pertinente.

É espantosa a intimidade do autor com o meio, conhecendo a essência criativa por trás das principais obras e as motivações dos escritores e desenhistas da época, Morrison inclusive, trata com carinho períodos “negros” da indústria, como a Era de Prata, enfatizando o esforço criativo da época em contornar ou criticar o Comics Code Authority.

Interessante analisar como Morrison “distribui” a culpa dos eventos que levaram à Era de Prata, não apenas evidenciando de forma sardônica certos sentimentos enrustidos de Frederic Wertham, autor do controverso “Sedução dos Inocentes”, onde argumenta que a degeneração moral da juventude norte-americana se encontra, em partes, nas HQs.

Assim como a indústria de HQs na época, incapaz de realizar uma contingência de reação perante a opinião pública e o próprio declínio criativo dos artistas da época.

Entre os capítulos mais louváveis dessa fase, é “Shamans of Madison Avenue” e o surgimento de New Gods por Jack Kirby e o início da “meta-espiritualidade” nas HQs e “Brighest Day, Blackest Night” onde Dennis O’Neil em Green Lantern/Green Arrow evidenciou as inquietações sociais americanas e mostrou o quanto isto era contraditório à proposta do CCA.

Para os leitores atuais, é engraçado perceber como Morrison evita comentar sobre a Marvel Comics, como se o autor – por uma série de razões até mesmo editoriais – se sentisse desconfortável para comentar sobre a editora concorrente.

Claro, o livro não deixa de dar mérito pra importância de títulos como Fantastic Four, Spiderman e Captain America, mas como o próprio Morrison afirma em suas notas biográficas, ele achava que os títulos da Marvel tinham uma certa dose de realidade que ele considerava intragável para sua infância.

E o mesmo reconhece que foi em Stan Lee, que surgiram diversas das suas inspirações, como a idéia de trabalhar metalinguagens em trabalhos como Animal Man e Doom Patrol na DC/Vertigo.

A parte biográfica é um show a parte, e em diversos momentos considerei mais atraente que a própria proposta do livro, desde sua infância pacata em Glasgow, o crescente tédio na adolescência, o divórcio de seus pais e sua inevitável empreitada no mercado editorial, assim como o início da fama, com Zenith na 2000 AD, seu contato com as drogas, o vegetarianismo, as experiências lisérgicas e sua primeira crise existencial, há quase duas décadas atrás.

Claro que o livro reflete os maneirismos criativos de Morrison, a relação entre espiritualidade e cultura pop é amplamente explorada, exemplos como o dualismo Apolo/Dionísio entre Superman/Batman, a questão de símbolos e palavras mágicas e ai o mesmo argumenta que Captain Marvel, ao pronunciar “SHAZAM”, se tornou o primeiro grande xamã da ficção moderna.

A verdade é que, tirando suas discussões sobre a Era de Ouro e de Prata, se o leitor conhece a obra recente de Morrison, então pouco sobra do livro, em muito, o livro é considerado um manifesto em prol da edificação do arquétipo super-heróico.

Na terceira parte do livro, Morrison prefere chamar a “Era Moderna”, iniciada por Frank Miller e Alan Moore como a “Era das Trevas”, onde se deu início a uma obsessão pelo “realismo” nas histórias, trazendo o vício insalubre que ficou conhecido pela crítica como “grim n’ gritty”

Morrison condena o “realismo” por duas instâncias: primeiro, pois ele é fruto de uma mente adulta e limitada pelas vicissitudes do cotidiano adulto, e que, por fim, o mesmo não passa de um exagero de violência e repreensão sexual que visa não transformar as histórias em algo real, mas sim “desmoralizá-las”.

E ai o escritor reforça sua crítica em cima de “Watchmen”, onde de forma ambígua, elogia o esforço criativo de Alan Moore em talhar sua história em uma “perfeita simetria”, mas condena a obsessão do barbudo com suas personagens, deixando bem claro que “realismo” não é sinônimo para “fatalismo”, “humanizar” personagens não é o mesmo que “humilhar”.

Alguns fóruns acusaram que o livro, levando em conta a recente reformulação do Universo DC, se tornou um golpe publicitário, é importante frisar que Morrison tem dado uma série de entrevistas sobre o futuro criativo da editora, roteirizando três dos personagens mais importantes da editora, a famosa “trinidade” composta por Superman, Wonder Woman e Batman.

Em diversos momentos, Morrison argumenta a inspiração popular, quase socialista do Superman de 1938, assim como os fetiches BDSM de William Moulton Marston, o escritor original de Wonder Woman, idéias que ele afirmou que vai retomar e por em prática em trabalhos futuros.

Não é mentira que a ascensão do escocês tem causado incomodo no público e na mídia, vamos ser sinceros quanto a um ponto, Grant Morrison é um nerd que vive seus quinze minutos de fama, com livro e documentário, onde muitos optariam por sofrer uma “síndrome do undeground”, Morrison busca através dessa visibilidade dar uma projeção maior a seus projetos e idéias.

Supergods é o início do que pode ser o “próximo passo” do mercado de HQs, da mesma forma que Kirby, Lee, O’Neil, Moore, McFarlane e tantos outros contribuíram com o futuro do meio, só o tempo poderá nos dizer sobre o êxito dessa empreitada.

Ficam aqui meus votos para o fim dos anti-heróis carrancudos e a volta das capas esvoaçantes e heróis sorridentes, assim como no passado, esses são tempos em que mais do que nunca, precisamos deles novamente.

The Boys: um mundo de heróis sem escrúpulos

Não é nenhuma novidade, você pega o jornal ou assiste um noticiário na TV e se depara com notícias sobre a última overdose da Amy Whinehouse ou sobre o próximo pornô transexual do Alexandre Frota que faz uma música do UDR parecer uma canção de ninar, ou até mesmo o festival de nonsense protagonizado por nossas autoridades, é policial usando spray de pimenta em criança, político coagindo a secretária a tirar a roupa, uma coisa pra mim ficou clara como o dia, tendo em mente esses exemplos – e muitos outros episódios – eu posso concluir que o ser humano é despreparado para lidar com fama e/ou autoridade, de fato, mais um dia decadente na selva de concreto ocidental.

Cresci lendo HQs da década de noventa, principalmente do gênero super-heróico do filão Marvel Comics, tratando de heroísmo “cabeça”, observamos aquilo que a gente podia falar de uma humanização dos heróis, Matthew Murdock, advogado cego e vigilante noturno, Peter Parker, universitário desempregado e herói, toda a questão étnica e adolescente entre os X-men, bom, não é a toa que eles dizem “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades”.

Depois de adulto você passa a questionar isso, qual é o treinamento que esses heróis recebem? Como isto pode ser empregado em um ambiente público? Quais são os danos secundários? Quem aqui cresceu na mesma época que eu, deve-se lembrar da saga Massacre e a climática batalha no Central Park, envolvendo os Vingadores, o Quarteto Fantástico e os X-men contra um vilão titânico.

Naquele evento, e tantos outros, nunca ficou exatamente claro se um civil foi fulminado por um raio da morte perdido ou quantos foram pegos em uma explosão, ou se o Aranha entrando em um prédio em chamas ocasionou na morte desnecessária de alguém. E o pior, com tantos heróis alcançando status de celebridade, quanto tempo levaria para um deles surtar em público? E se um super-herói fosse Mel Gibson, Amy Whinehouse ou Charlie Sheen? A expressão “elefante na cristaleira” nunca fez tanto sentido, certo?

É a partir desta premissa que Garth Ennis e Darick Robertson criam o universo de The Boys, pela editora Dynamite Entertainment. Ennis, já conhecido pela sua aversão ao gênero super-heróico, mostra um mundo onde heróis descontrolados estão mais preocupados com publicidade e royalites, onde lobistas do conglomerado corporativo Vought American promovem ativamente o emprego de super-heróis no governo norte-americano. Uma verdadeira – e plausível- perversão do sonho fomentado pela Marvel e DC.

Os “garotos” do título são individuais recrutados pela CIA com o objetivo de investigar e manter em cheque a comunidade super-heróica, a equipe é formada por Mother’s Milk, um ex-soldado afro-americano, no qual a família se envolveu em uma briga judicial com a Vought American, The Frenchman, um suposto ex-militar francês, aparentemente insano que nutre uma imensa afeição pela The Female, uma ex-cobaia traumatizada, potencial psicopata, com aversão a qualquer um que a toque, Hughie “Mijão”, o novato, recrutado após ter a namorada morta em um incidente super-heróico, teórico da conspiração, tenta entender as motivações por trás de Billy Butcher, o líder da equipe, que nutre um ódio incondicional por super-heróis.

 

 

Boa parte da história é contada sobe a perspectiva de Hughie Mijão, como se o leitor também desbravasse a rede de intrigas do universo criado pelo Garth Ennis, o choque em descobrir que todo o heroísmo não passa de uma fachada, que as mortes, ressurreições e invasões alienígenas não passam de desculpas feitas pro assessores de imprensa para overdoses, acidentes ou orgias em paraísos tropicais.

Ennis se preocupa em balancear seu “argumento” com o background da história e dos protagonistas, claro, cenas que consagraram o roteirista na indústria de HQs são freqüentes e quase gratuitas! Não se surpreenda pela quantidade de sangue, tripas e outros fluidos e dejetos humanos que aparecem em cada edição. Cada arco de história geralmente costuma focar na reinterpretação de um grupo de heróis da Marvel ou da DC, transformando heróis em pessoas sádicas, irresponsáveis ou sem controle, Ennis toma o seu tempo com a trama, dedicando cada página para transmitir ao leitor seu ódio por super-heróis, criando situações ultrajantes, questionáveis, como uma verdadeira terapia de choque.

A série tem um comentário social forte ao cenário político americano, Ennis faz uma crítica ácida a falta de direitos trabalhistas para a população mais carente, a reação em relação ao episódio do 11/9 e toda a tramóia política que isto originou, os escândalos que envolveram a PMC Blackwater durante a administração do governo Bush.

O legal é ver que todos os planos dos The Boys são friamente calculados, meticulosos, quem espera por freqüentes cenas de pancadaria vai acabar um pouco frustrado, já que as mesmas não ocorrem sem antes toda uma investigação nos incontáveis podres e esqueletos no armário da comunidade super-heróica, mas quando acontecem, costumam ser sangrentas e viscerais, mérito do Darick Robertson, é claro.

Darick Robertson, conhecido por ter colaborado com sua arte no aclamado Transmetropolitan, de Warren Ellis, mostra uma arte bem dedicada, tentando equilibrar o aspecto “sem-noção” dos heróis com o resto do mundo “normal”, um fato curioso é que para alguns personagens, Darick foi buscar inspiração em Transmetropolitan, como as similaridades de The French com Spider Jerusalém e The Female c/ a  Yelena Rossini, outro fato envolvendo a criação dos personagens se encontra na proposital semelhança entre Hughie Mijão e o ator nerd idol Simon Pegg, famoso por filmes de comédia como Hot Fuzz e sua participação como Scotty no remake de Star Trek dirigido pelo J.J. Abrams

 

 

No Brasil, apenas o primeiro volume, intitulado “O nome do jogo”, foi lançado pela Devir Comics, se esta série te interessa, recomendo procurar alguns scans (e se tiver algum para recomendar, pode postar nos comentários! :])  ou comprar importado, indico para todos que procuram uma crítica séria a mentalidade super-heróica dos quadrinhos americanos ou para os leitores que há muito tempo estão carentes de algo no nível de Preacher.

A Síndrome de Peter Pan nas HQs Adultas.

Eu detesto quadrinhos “adultos”, sério, o próprio termo “adulto” soa como uma atitude pretensiosa e ignorante, tanto da parte de quem escreve quanto da parte de quem consome este tipo de qualificação e erroneamente traduz como “material de qualidade”. Um quadrinho comercializado como “adulto”, é, no máximo, um quadrinho adolescente.

Não que seja uma adolescência, onde, com bom humor, traduz a jovialidade que reina a mentalidade de toda uma indústria, é uma adolescência no sentido de busca por afirmação, onde por falta de tato, deslizes básicos são cometidos, coisas, que a gente – em tom descontraído – chamamos de “coisas de moleque”.

Então eu pego aquela edição de 100 Balas, do Brian Azzarello e vejo alguns halterofilistas trocando balas enquanto alguma mulher de topless aparece correndo no meio da confusão, ok, eu penso “e isso é adulto…?” Se “adulto” na HQ, contrasta com a noção de não ser ingênuo, tudo bem. Agora dizer que a obra alcançou um nível de “maturidade”? Não.

Em nenhum momento eu desmereço o prazer em ler 100 Balas (pelo contrário, eu adoro The Boys, Crossed e etc.), mas em seu roteiro, desculpem o bom humor, é tudo que eu buscava (tá, ainda busco, quando o tempo permite…) quando jovem em filmes de ação descerebrados e pornografia softcore.

Alem do rumo “testosterona”, existe outra corrente, uma que busca “amadurecer” histórias através de uma releitura c/ atmosfera mais opressiva/pertubadora, para muitos casos, “dark”, está, é relativamente mais antiga, ainda no terreno da Vertigo, quem se lembra de Kid Eternidade?

O problema não foi Grant Morrison transformar o protagonista em vítima de abuso sexual, mas sim a sua abordagem, ele apenas “foi” e pouco se ramifica as extensões deste fato, tanto leitor quanto roteirista mínguam de oportunidades para ponderar sobre isto.

(mesmo em outras obras, Morrison ganha pela riqueza e carisma, o nível informacional de uma obra não é sinônimo para uma boa trama, o próprio “Os Invisíveis” demorou muito tempo até que, com própria autocrítica do autor, alcançasse esse patamar)

Então, quando se trata de roteiros “adultos”, eu me aproximo um pouco mais de Brian K. Vaughan, em especial, Y: The Last Man e Ex Machina, ambos detentores de argumentação rica, traçam um perfil sobre vida política, antropologia, sexualidade.

O Próprio protagonista de Ex Machina, o super-herói transformado em prefeito de Nova York, Mitchell Hundred, lida, em paralelo a uma trama de Sci-Fi, com a responsabilidade de gerir uma das maiores cidades do mundo, influenciando diretamente na vida de seus habitantes

“responsabilidade”, talvez seja este o fator de critério para distinguir um roteiro adulto, recentemente tive a chance de desenvolver um interesse por shoujo manga, em especial aqueles escritos pela Ai Yazawa, e neles, ficam evidentes a idéia de personagens que encaram os fatos.

Por trás dos traços suaves e figurino extravagante, o mangá Paradise Kiss trata sobre isto, uma protagonista buscando emancipação, amadurecimento, fazendo escolhas e arcando com as conseqüências (e olha que, o mangá sequer é destinado ao público adulto).

Você pode argumentar, que o “adulto” é uma evolução em relação ao maniqueísmo e infantilização que esta mídia sofreu no passado, acredito que seja infeliz entender que uma antítese seria a resposta mais apropriada.

Claro, sempre existirá um fundo lúdico, nós, como humanos e seres sociais, somos viciados na narrativa, e que também eu não sou nenhum velho sisudo incapaz de descontração, mas que é um erro muito grande por parte das editoras e público disseminador divulgar tais obras como “adultas”, sem antes, refletir sobre suas intenções.

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