Porque eu sou um autor raso

Aproveitando o gancho de que em breve meu livro será lançado e a deixa que o Zaratrustra deixou para mim em seu comentário sobre o release do meu livro neste blog, vou discorrer sobre um assunto que me acompanha faz um tempo: punheteiros literários me taxarem como autor raso ou pouco profundo com se isso fosse um defeito.

Na primeira ocasião em que eu li isso, havia postado uma fanfic no fórum TibiaBR (sobre o MMORPG Tibia). Era um conto sobre dois magos tendo que roubar um importante livro de uma biblioteca para o serviço secreto de sua nação. Tudo ambientado no universo do jogo, com direito a cidades, NPCs e seus traços típicos e outros “easter eggs” para os fãs. E aí vem um babaca e me diz que meu texto é “pouco denso e muito rápido”. Ele inclusive me sugeriu ler a fanfic dele para eu ter “idéias de como melhorar meu texto”.

Obviamente fui ler o texto do cara e ele escrevia bem. Mas não achei nada ali que me acrescentasse algo porque ele era mais um cara que leu “Senhor do Anéis” e resolveu fazer sua própria saga épica sobre um grupo de aventureiros combatendo um mal ancestral que está por vir. Já li trocentos textos assim. O único diferencial dele era ter ambientado a história na época dos vikings, mas ao invés de usar isso como pano de fundo cultural, ele preferiu ficar colocando um monte de nomes e termos do nórdico antigo, o que te obrigava a ter que ficar lendo notas de rodapé a cada cinco linhas. Sem contar que somente a descrição de uma casa destruída e a criança sobrevivente saindo dela demorava, tipo, 3 páginas.

Fui então ler outras fanfics deste mesmo fórum e percebi que o que estava em jogo ali era quem era o melhor “wannabe” Tolkien e não pessoas dispostas a escrever histórias tendo o vasto universo do MMORPG como fundo. Caso seu texto não fosse épico, trágico e destinado a ter trocentas páginas, você não era bom. E o mais tinha lá eram textos sem fim e que nunca mais seriam terminados. Vi que ali não era meu público e não postei mais nada lá.

Nerds old skrull do meu Brasil veranil, adoro Tolkien, mas tem hora que é chato pra caralho toda aquela descrição ultra-detalhada de cada passo que eles dão pela Terra-Média! Caso seja esse seu conceito de profundidade, desculpe, meus textos não são pra você. Sabe, eu queria ter tempo e disposição para ficar horas desenvolvendo e pesquisando mil coisas para meus textos, mas eu trabalho, faço frela, tô abrindo negócio próprio, colaboro com pelo menos 2 sites além desse e faço outras mil coisas (dormir, por exemplo) que não e permitem ficar desenhando mapinhas de cada passo dado pelo protagonista ou descrevendo cada fiapo de uma roupa de alguém.

Tem horas em que uma simples jaqueta de couro é uma simples jaqueta de couro e perder duas páginas descrevendo-a quando isso não acrescenta nada nem pra trama nem pra criar clima é pura e simplesmente punheta e qualquer editor digno de carregar esse título vai cortar essa merda do seu texto. E aí você volta pro seu fórum de miguxos para reclamar da mediocridade do mercado editorial, tá?

Um autor que eu curto muito e que faz um trabalho legal é o Erik Larsen. Já leram “The Savage Dragon”? É um herói superforte e superhabilidoso e verde e com uma barbatana na cabeça que ele criou quando tinha 10 anos e hoje publica em revista própria! A trama é rasa, com páginas e páginas de pancadaria sem sentido e mulheres gostosas em posições insinuantes do nada. O traço dele é bastante caricato (afinal estamos falando de um dos fundadores da Image Comics) e mesmo assim o trabalho do cara é muito bom. E não porque ele é um puta artista disposto a elevar as HQs ao mais novo patamar literário e sim porque ele faz histórias bem desenhadas e pra lá de divertidas! Não te acrescenta nada. Não muda sua vida. Não te faz refletir. Você compra, lê, dá risada, guarda ou dá pra alguém e faz a mesma coisa mês que vem. E qual o problema disso?

O que nos traz de volta ao meu livro. Eu não sou um autor “literato” e nem pretendo ser. Tenho textos mais densos e profundos? Tenho, mas não é meu forte e nem quero que seja. “Tombstone City, A Saga” e outros textos que podem sair no futuro foram escritos para distrair você em uma viagem de ônibus indo ao trabalho ou ocupar algumas horas de seu tedioso sábado a tarde com algo divertido. E só. Eu mesmo escrevi para matar meu tédio na época em que estava desempregado. Atualmente tudo tem que ser fodão: seu blog, seu carro, seu twitter, seu sexo, sua viagem de fim de semana. Todos querem comer o melhor e mais raro prato de todos os tempos em um restaurante que só eles conhecem todo santo dia sem repetir o prato nem local única vez e esquecem da delícia que é um feijão com arroz bem feito no conforto do lar. Podem se matar nessa busca insana, mas não contem comigo

No mais, após uns 7 anos escrevendo e postando e mostrando meus textos em diversos lugares virtuais e reais, estou sim imensamente feliz em ter conseguido publicar meu primeiro livro solo (já participei de duas coletâneas de poesia) por meus próprios esforços e méritos e não porque tenho peitão ou bundão ou sou queridinho de alguém no meio. Podem me malhar a vontade, mas essa conquista ninguém tira de mim.

Anúncios
Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Comentários

  • Mário Henrique  On 10/03/2011 at 7:31

    Eu confesso que nunca gostei de “O Senhor dos Anéis” e li só porque achava que tinha que ler (e tem!). Mas, para mim, o melhor do Tolkien sempre foi “O Silmarillion” e isso porque o que foi publicado eram apenas os rascunhos, as idéias básicas do autor. Sem encher linguiça.

    Agora, puta desculpinha (de puta) ficar falando que faz mil coisas e que tem a vida agitada. Se eu fosse seu editor, tirava esse parágrafo do texto, huahauahua. Soou muito mimimi.

    Ous, você tá com a minha fonte do Nintendo DS?

    • Alessio Esteves  On 10/03/2011 at 14:31

      Eu sei que essa parte ficou parecendo mimimi e tal, mas eu realmente acho que o fato de eu não ser escritor em tempo integral interfere sim em algumas coisas e por isso essa descrição.

      E que eu saiba não está comigo não, mas vou dar uma olhada…

    • Alex Koti  On 13/04/2011 at 20:44

      Mas daí entra aquele lance que a boa vida não gera boa arte(não me venham com exceções pelamor).

      Tem um quadrinho do pekar falando disso.

      • Alessio Esteves  On 13/04/2011 at 20:57

        Entendo o que quer dizer, uma pessoa satisfeita não produz arte e concordo bastante com essa idéia. Mas muita gente hoje em dia que não vive da arte reclama que não tem tempo pra parar e produzir.

        Claro que “sempre há tempo”, mas o esquema condução-trabalho-condução-casa é tão maçante que as vezes as pessoas “pifam”. E ainda não vejo solução pra isso.

        Várias vezes eu estou com o texto pronto na minha cabeça, mas até chegar em casa, comer e ligar o computador eu quero é mais fazer algo alienante e descançar do que escrever.

        Triste, mas é verdade…

      • Alex Koti  On 13/04/2011 at 21:17

        Sei como é, é una mierda. Acho que essa é a grande armadilha de sempre – também não uma vejo solução.

        A parte ‘coringa’ disso tudo é que dai a gente tá podrão e apenas procura algo criado por alguém que teve um pouquinho mais de tempo pra fazer.

  • Derland  On 10/03/2011 at 12:09

    Muito legal seu blog e otimo, e muito criativo, se depois vocês quiser olhar o meu blog e dar a sua opnião eu ficarei muito grato: http://derlandreflexivo.blogspot.com/

    • Alessio Esteves  On 10/03/2011 at 14:35

      Prove que você realmente leu NOSSO blog e prometo realmente ler o seu, tá?

  • synthzoid  On 10/03/2011 at 14:47

    Ótimo texto Leosias, é um infeliz infortúnio as pessoas procurarem argumentos pra lá de arbitrários para justificar a “riqueza” informativa de um texto, como se isso fosse sinônimo de qualidade em um trabalho.

    Talvez seja reflexo de certo elitismo caduco dessa galera, boas histórias são aquelas que em suma, oras, são bem contadas, o único parâmetro para justificar isto é na capacidade do autor em transmitir o negócio.

    Como dizem as moçoilas que se maquiam, “pouco é muito”, enriquecer a narrativa ao nível da redundância é um risco desnecessário.

    Contos épicos não nos cativam graças a detalhes pra lá de parnasianos, e sim pelo tom de escala, mesmo Lovecraft, com todo o seu inglês arcaico e polido, muitas vezes resumia suas aberrações e pesadelos com uma palavra só.

  • psicko  On 10/03/2011 at 17:31

    Me ganho quando “falou” que todos temos que ser fodões, e complementando: O TEMPO TODO. E penso que mais vale a profundidade do que a descrição detalhada.

  • banin  On 10/03/2011 at 21:40

    por isso gosto do Stephen King, apesar de ser um tanto prolixo ás vezes, ele “perde” tempo descrevendo o psicológico dos personagens, e não cada graminha da floresta onde os hobbits caminham

  • Gafanhoto  On 10/03/2011 at 23:30

    Raso nada, é um autor viado mesmo. Pra que ficar se explicando?

    • Alessio Esteves  On 10/03/2011 at 23:45

      Porque ao contrário de você, eu tenho leitores.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: