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Near Myths #5 – The Checkmate Man (ou a morte de Marx e mais algumas pirações temporais)

E após superar a preguiça e falta de criatividade pra escrever pro blog, vou finalmente chegar à ultima edição da Near Myths, com a última participação do Morrison através de "The Checkmate man". E calma galera, esse post não vai discutir teoria, marxismo x pós-modernismo, blabla, ao menos não diretamente.

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No editorial da Near Myths #5 escrito pro Bryan Talbot podemos mapear o que o Morrison andava fazendo entre uma edição da NM e outra: ele planejava a construção de uma HQ de 100 páginas coloridas chamada "Abraxas", em parceria com Tony O’Donnell, Morrison seria o roteirista e O’Donnell o desenhista – até onde sei, o projeto fracassou e só foi parcialmente publicado 7 anos depois (1987); escrevia novelas; tocava numa banda de rock; escrevia e desenhava em STARBLAZER da DC; e ainda produzia "Captain Clyde" pra Govan Press. Pelo visto o careca tava aceitando qualquer coisa pra sobreviver, e dando seus pulos, arriscando tudo que podia como no caso do “projeto Abraxas” no intuito de atrair atenção do público e sedimentar seu nome enquanto roteirista.

The Checkmate Man

É um dia claro e frio. Um barbudo que nos parece familiar, com chapéu longo e casaco, sai do hotel carregando uma caixa. Ele ouve um zumbido e olha na direção do som. Uma bala é cravada na sua cabeça e ele tomba, derrubando a caixa, fazendo papéis voarem. Foi assim que Marx foi assassinado por “The Checkmate Man”.

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O nome do cara é Lyall Conrad, ele era um técnico em eletrônica trabalhando na construção da Viking V (uma sonda espacial que seria usada para explorar Marte), quando acidentalmente caiu da plataforma de construção e ficou entre a vida e a morte. O cientista Marcos, da NASA, reconstrói o corpo de Conrad, o transformando em um cyborgue e o colocando a serviço da CIA num programa de viagem temporal. É assim que Lyall Conrad se torna um assassino temporal.

Sua função? Reconstruir a história, eliminando figuras centrais que ameaçam o governo americano. Se ele se recusar a cumprir a ordens, Marcos, o cientista que o reconstruiu, pode desativá-lo apertando um botão.

Marx, Lincoln, Mao-Tse-Tung, Bobby Kennedy, Marylin Monroe, todos assassinados. A II Guerra Mundial foi encerrada em 1945, aumentando o poder americano sobre o mundo. O caso Watergate foi mantido oculto, o que aumentou o poder da CIA sob a presidência. Tornando o governo mais poderoso do mundo numa marionete da CIA.

O interessante em “The Checkmate Man” é uma vontade que o Morrison tem de matar principalmente os comunistas, o que deixa latente o período de guerra fria da época, em que o que o governo americano mais temia era o terror vermelho, no entanto talvez também esteja apontando que o projeto de Morrison para um futuro melhor, não era exatamente o caminho das tradições de esquerda.

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Para além disso temos também um personagem que é obrigado a trabalhar modificando a história ou será morto. Cada viagem que ele faz ao passado, quando retorna ao “presente”, o mundo está diferente, então, afinal de contas, quem é ele? Não existe mais marxismo (nunca existiu), mas ele sabe do marxismo; não existem mais os Kennedys, mas ele lembra deles. Isso vai fazendo o personagem começar a pirar, porque ele se torna uma espécie de fantasma do tempo. Ele tem os resíduos do que não existe mais dentro de sua cabeça.

Ele perde a identidade, não tem um lar, já que cada viagem feita o mundo se modifica. Então porque ele continua viajando no tempo? Se ele não tem um lugar pra voltar, uma identidade, se nada do que ele gostou um dia existe mais, qual o sentido de manter sua vida a qualquer custo?

A idéia do plot na verdade não é lá muito genial, acho que uma criança de 12 anos pensa sobre esse tipo de coisas às vezes. No entanto é o desenho tem o melhor traço do Morrison na Near Myths, e ele usa um plot bem simples pra se fazer perguntas que vão ser sempre interessantes: se pudermos editar a história como se fosse um filme em que cortamos as partes que não gostamos, o que nós seriamos? Como seria o mundo? Qual seria a graça da vida? A imutabilidade do passado e a imprevisibilidade do futuro é o que parece mais interessante, e não o seu oposto, como a CIA deseja fazer em “The Checkmate men”.

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Entropias grant-morrisianas #3 – Gideon Stargrave e o fim dos tempos

Esta é a parte que mais me interessa em todas essas publicações do Morrison na Near Myths. Uma história sobre Gideon Stargrave publicada em 3 capítulos através de dois números da revista (nº3 e nº4). Aliás, é por causa de Gideon Stargrave que esta série de posts se chama “entropias morrissonianas”. Entropia é a palavra que faz parte dos plots relacionados ao personagem e que também será muito usada por Morrison no conjunto de suas obras. Entropia é uma forma de se chegar ao caos exatamente pela… super-concentração de energia. Digamos que socialmente quanto mais rígida é uma sociedade, maior vai ser sua desordem quando “n” fatores entrarem em descontrole. E com o “tempo” acontece algo similar, quanto mais o tempo se concentrar em uma dimensão, em uma realidade, mais próximo ele chegará de sua própria extinção. E o que acontece quando o tempo deixa de existir? Bem, vai lá se saber.

O personagem Gideon Stargrave foi baseado em "Jerry Cornelius", um personagem de Michael Moorcock. Uma espécie de assassino perigoso que viajou no tempo numa máquina defeituosa e acabou originando uma desordem no tempo-espaço.

Essa é a parte que mais me interessa porque comecei a pesquisar sobre as outras publicações de Grant Morrison justamente no intuito de compreender melhor a obra Os Invisíveis, que foi a primeira HQ do Morrison que li e que na época explodiu a minha cabeça. Muito do que seria desenvolvido nessa HQ que só iria começar a ser publicada em 1994, com Morrison já em relativa ascensão dentro da área dos quadrinhos, já aparece exposta nesses volumes de Gideon Stargrave de dezembro de 1978 e setembro de 1979 respectivamente.

A verdade é que todas as obras do Morrison se conectam de alguma forma na sua figura de administrador/criador do universo ou em sua característica mais marcante: o uso do caos e da desinformação como destruidor da aparente racionalidade e ordem da realidade. Isso vai estar presente tanto em seus roteiros mais mainstream (como Batman e Superman) quanto (e principalmente) nas obras mais introspectivas/autorais (como The Invisibles/ Filth).

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Near Myths #3 – Gideon Stargrave – Part I: The Vatican Conspiracy

A história começa com uma cena de um corpo em chamas. Trata-se de Joana D’Arc. De repente estamos num ambiente retrô-pop-futurista-psicodélico, com imagem até do Mickey e Donald em uma das paredes.

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Nesse ambiente uma moça acabou de entrar após tocar a campainha e encontra um cara de cabelos claro, tamanho mediano sentado numa cama (ou sofá?) limpando uma arma, ele tem a aparência de um veterano em combates, tipo ex-agente ou coisa do tipo.

Você é Gideon Stargrave? – pergunta a moça, com boina francesa e cabelo curto e escuro.

– Geralmente sim – ele responde fazendo charme. – Mas você sabe como são as coisas nos dias de hoje – completa fazendo a arma brilhar a colocando contra a luz.

Assim começa as histórias de Gideon Stargrave, que se não fosse pelo nível de loucura do enredo, não passaria de uma cópia quadrinesca de James Bond. Mas é muito mais, logo em seguida a moça diz que se chama Jan Dark e prontamente um padre explode a porta da casa e tenta matá-los, mas Gideon é mais rápido.

A menina falou que o “caos ameaça”. Gideon ri. Eles saem andando por Londres e Gideon acaba sendo baleado por um guarda real com… boca de pato! Segundo o guarda, eles estão em uma zona de entropia e por isso estão dentro de um perímetro em que as forças policiais podem matar livremente!

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A história toda é sobre CAOS. Algo está prestes a levar o mundo a um último nível de entropia e desarranjando o tempo. Arquétipos, traição, caos, engramas, poesias intercalando os cortes de cenários, conspirações, ressurreições, neuro-psicologia, anarquia, Londres, suicídio em massa… o fim do mundo pelo Ragnarok e entropia terminal. Tudo isso orquestrado pelo maligno papa do Vaticano tentando destruir esse mundo incrédulo, ateísta!! E Jan Dark faz parte do plano. O que Gideon Stargrave pode fazer quase sozinho?

Near Myths #4 – Gideon Stargrave – Part II: The Vatican Conspiracy

Nessa segunda parte Jan Dark e Gideon Stargrave partem em direção ao Vaticano, querem resposta para os acontecimentos recentes. Na neve enfrentam os capangas do Vaticano que os monitora em tempo real. Apesar de todos os esforços descomunais de Gideon, uns caras vestidos ao estilo Ku Klux Kan acabam levando Jan Dark e mais uma vez atiram certeiramente no ex-espião.

Atingido, caído no chão e abandonado, a neve cobre o corpo de Stargrave. Teria sido seu fim? Não, algo extremamente relevante pra quem curte os Invisíveis acontece, fora de si, Gideon se levanta ressuscitado ao estilo “mortos-vivos” no meio da neve! Então é aqui que Morrison cola na página um trecho de Rei Lear:

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Gideon Stargrave é um Tom! Um pobre e louco Tom, como Tom O’ Bedlam de Invisíveis! No capítulo anterior Gideon também invocou um espírito do “tempo”, para poder conter o caos que estava se expandindo em Londres, bem ao estilo Dane e Jack Frost! Seria uma espécie de espírito protetor? Bem, não quero com isso dizer que os dois universos (Invisíveis e Gideon Stargrave da Near Myths) sejam o mesmo, apenas quero salientar que desde o meio dos anos 70 Morrison já estava amadurecendo algo, algum esquema de realidade mágico-tecnologica-anarquica que só se concretizaria com Os Invisíveis.

Uma freira é enviada para finalizar com Gideon. Os homens do Vaticano sabem que ele não está morto. A freira tem o poder de arremessar matéria através de portais temporais e alcançar o caos de nível 0 (seja lá o que isso quer dizer)! Mas Gideon resiste à tentativa de rasgarem a sua concepção de realidade, consegue despertar do transe atinge a freira com uma bala. Agora ele precisa localizar Jan Dark!

Near Myths #5 – Gideon Stargrave – The Fenris Factor

Gideon invade o local onde Jan Dark está sendo torturada e ao estilo Bruce Lee (sim, há há há) derrota todos os caras vestidos ao modo Ku Klux Kan que trabalham pro Vaticano e liberta a moça.

Num quarto novamente com figuras pops (só reconheci agora o Che Guevara) Jan Dark revela ser Joana D’Arc. Ela diz que só seu poder pode derrotar “o lobo” e que por outro lado, apenas Gideon está destinado a derrotá-lo, então ela quer dar seu poder a ele. Os dois fazem sexo ritualístico e quando terminam, após absorver um poder maior que a vida e que a morte, Stargrave mata Jan Dark, sabendo que seu ciclo de ressurreição acaba ali.

Em seguida nos é apresentada a irmã de Gideon, que era dona do quarto em que ele e Jan Dark estavam. Ela é apresentada de maneira sexualmente provocante, se chama Genevieve e parece ser um trauma na mente de Gideon (creio que ela é aquela loiraça que aparece em The Invisibles em alguns momentos).

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Por fim Gideon invade o Vaticano e tenta interromper um ritual de invocação do Papa. Mas já é tarde, o lobo Fenris já foi invocado. O ritual libertou o filho de Loki da corrente mágica forjada pelos anões e agora ele vai cumprir sua missão de devorar o mundo. “Ragnarok, o fim de tudo no gelo e no fogo.”

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Gideon não se enfraquece e convoca as hordas dos infernos para ajudá-lo contra o lobo. Ele invoca Vine, Flauros e Andras! Três demônios muito conhecidos da demonologia medieval. Com ajuda dos demônios Gideon consegue derrotar Fenris, mas perde uma de suas mãos.

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No fim da página, tem escrito que no próximo número Gideon Stagrave retornaria com “The Entropy Concerto”. Uma fato que infelizmente nunca chegou a acontecer. Infelizmente mesmo, porque as pirações dessas histórias do ex-espião são muito interessantes, misturam mitologia, neuropsicologia, ciência e um monte de baboseira pop, além de frases de efeito e um mix religioso-cultural impressionante. Gideon retornaria apenas em Os Invisíveis, mas já em outro contexto dentro dos quadrinhos. Retornaria como parte de uma “hyper-narrativa”.

Os desenhos do Morrison aqui são muito melhores do que em Time Is A Four Lettered Word. A narrativa é tensionada o máximo possível pelos traços na tentativa de nos jogar dentro das entropias ou memórias confusas de Gideon. Enfim, claro que olhando de agora parece uma espécie de esquema do que seria “Os Invisíveis”, mas ver APENAS assim seria tirar o mérito de Gideon Stargrave em si. Talvez na verdade Morrison nem tivesse idéia do que lhe viria à frente, ou talvez já pensasse em alguns arquétipos de personagens como King Mob, quem diabos vai saber? Só fiquei surpreso em não haver comentários mais demorados sobre Gideon em Supergods¸ talvez o careca esteja evitando a confusão que o personagem causou. Gideon é considerado por alguns apenas plágio na cara dura de Jerry Cornelius, o já citado personagem de Moorcock.

Entropias grant-morrisianas #2 – Time Is A Four Lettered Word

“Time Is A Four Lettered Word” publicado em outubro de 1978 na edição nª. 2 da Near Myths foi a primeira obra pela qual Grant Morrison recebeu alguma grana pra fazer. Este seu primeiro trabalho “profissional” contou com apenas cinco páginas e ainda eram no final da revista, o que deixa claro que entre todos os outros autores ele era o menos prestigiado. Até porque era novo na equipe. Na edição nª. 5, o último suspiro da Near Myths no mercado de quadrinhos britânico antes de morrer asfixiada, a magistral história “The Checkmate Man” de Morrison seria a primeira da revista, deixando registrado o quanto ele convenceu o público e os editores quanto a qualidade de se não seus desenhos, pelo menos seus roteiros.

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A Near Myths era uma revista pequena e seu caráter inovador na questão da mudança de foco dos super-heróis para público infantil, agora redirecionado para ficção científica para adultos, não era muito promissora nas perspectivas de vendas, então era normal que o editor só pegasse trabalhos completos de um artista ou outro e publicasse. Se houvesse divisão do trabalho entre roteirista e desenhista, isso iria significar mais grana a se pagar; ou pros artista, menos a se receber porque teriam que dividir. Então enquanto publicava na Near Myths Morrison tanto desenhava quanto criava os roteiros. Ele queria trabalhar com quadrinhos, exatamente em qual das duas áreas ele ainda não tinha se decidido.

Grant Morrison era o “cara de Glasgow”, como Rob King diz no editorial da ed. nª. 2. Ele ainda aponta que no próximo número, Grant iria começar uma série de histórias chamada “Gideon Stargrave”, que era seu trabalho principal. “Gideon Stargrave” era aquele trabalho apresentado por Morrison a Rob King na Primeira Convenção de Quadrinhos de Glasgow, quando ele procurava desesperado por uma oportunidade.

Mas afinal de contas, do que se trata “Time Is A Four Lettered Word”?

Do fim do mundo através paradoxos temporais/dimensionais, como quase tudo que Morrison trabalhará depois. Desde o princípio, como nessa obra, ele está envolvido com noções como “saturação do tempo”, no entanto nessa história, esse plot é enfeitado com toques da mitologia celta.

A narrativa é dividida em três histórias localizadas em tempos e situações diferentes que se passam confusamente misturadas nas mesmas páginas. Eu achei a arte horrível e confusa demais até pra coisas complicadas como paradoxos temporais… Morrison pode ser um bom desenhista de esboço, mas não de obra final. Dizem que ele tem vergonha desses trabalhos iniciais, porque ele não costuma mencionar, diz apenas que trabalhou pra Near Myths, no máximo comenta sobre Gideon Stargrave, porque o personagem se tornaria importante na trama de Invisíveis.

Em “Time Is A Four Lettered Word” a primeira narrativa é sobre Beachdair, um guerreiro que vai até a Stonehenge atrás do Deus Chifrudo e encontra uma mulher estranha por lá. Ele não aceita a presença da mulher naquele local sagrado dos druídas e quer retirá-la, através de ameaças, a mandando de volta aos campos da “deusa mãe”. A mulher o chama de tolo e diz que a “deusa mãe” está presente ali e que “o ciclo agora está terminando”.

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O segundo plot é o principal, se passa em 1982, nele tem um cara chamado Quentin e uma bruxa nomeada de Dana, que analisam pontos de saturação no tempo. Quentin descobre que todo o mundo está prestes a entrar numa transbordação temporal generalizada.

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A terceira narrativa é sobre, (aparentemente) um druida (“heathen slut” pra sacerdotisa) que vê uma sacerdotisa da deusa da colheita (Corn Maiden) tomando banho num rio em um período sagrado no qual ela não pode ser tocada (May Day) e a estupra.

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Quentin e Dana acabam parando na Stonehenge. Eles encontram lá uma força guardada por milhares de anos, uma força mágica contida que parece estar esperando por algo, que eles não sabem o quê, para ser liberta. E descobrem tardiamente que são eles mesmos os últimos elementos do quebra-cabeça que desencadeia o poder da Stonehenge. Juntamente com eles a combinação é completa pela presença de Beachdair no local e o sangue do druida que violentou a sacerdotisa, ambos em outras temporalidades. No penúltimo quadro da HQ vemos as três mulheres juntas, talvez sejam a mesma pessoa… talvez sejam justamente a “deusa mãe” pela qual Beachdair tanto pedia para encontrar. E no último quadro, uma visão em perspectiva do universo, talvez para dizer que o tempo havia se extinguido, ou reiniciado, naquele instante.

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Em geral “Time Is A Four Lettered Word” é muito confusa. Há uma deficiência de Morrison em tentar contar três histórias de uma vez. O roteiro é mais ou menos bem interligado, apesar de cortes bruscos e pouquíssima explicação de qualquer coisa, mas o que atrapalha mesmo é a incapacidade do desenho transparecer sequer a diferença anatômica entre os personagens… talvez por isso em geral, esse seja um trabalho que realmente Morrison não queira lembrar muito. De qualquer forma, é importante pra trajetória de Morrison porque já estão dispostos nesse primeiro trabalho temas que serão bem abordados em seus trabalhos futuros, tanto na Near Myths como em outras editoras maiores, que nesse momento ele nem sonhava que poderia um dia fazer parte.

(a próxima análise será de Gideon Stargrave no nª. #3 e /#4 da Near Myths)

Entropias grant-morrisianas #1 – Near Myths

Começo aqui uma série de posts sobre a produção do Grant Morrison. Desejo, se for possível e se a paciência deixar, analisar desde HQs mais obscuras como Bible John – A Forensic Meditation, Kid Eternity, The New Adventures of Hitler, Kill Your Boyfriend, Dan Dare e The Mystery Play, até as mais populares como SuperMan All Star, Liga da Justiça da América, The Invisibles e New X-Men.

Como não poderia ser diferente, vou começar do princípio da carreira de Morrison, que pode ser considerada como sendo as suas contribuições à revista Near Myths. Quando for preciso explicar algo além dos quadrinhos em si, como agora em relação a Near Myths e ao contexto histórico em que a obra foi produzida, farei posts específicos. Usarei de base para isso entrevistas e declarações do autor em documentários, revistas, blogs e principalmente no seu livro, Supergods.

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A Near Myths foi uma revista em quadrinhos de ficção científica e fantasia para adultos que durou apenas cinco edições, com a primeira sendo de 1978 e a última de 1980. Apesar de uma vida tão curta em relação a outras revistas, ela teve um papel relevante na indústria dos quadrinhos britânicos, seja por ter sido o primeiro emprego relativamente profissional na área que Grant Morrison teve, ou por ter dado destaque a outros artistas como Bryan Talbot e Graham Manley.

Na primeira Convenção de Quadrinhos de Glasgow, Morrison estava com sua auto-estima elevada, ele a pouco tinha se tornado punk. Ser punk, aquela idéia do “faça você mesmo”, da importância da atitude em detrimento do profissionalismo, o fazia sentir capaz de qualquer coisa, tinha revivido sua paixão pelos quadrinhos. Foi então que Morrison decidiu levar alguns de seus trabalhos, mais especificamente tiras de Gideon Stargrave, para a convenção na tentativa de arrumar algum lugar pra trabalhar. Lá ele encontrou Rob King:

“Rob King simplesmente gostou das minhas páginas e imediatamente me ofereceu £ 10 para cada uma que ele colocasse na Near Myths. Pela primeira vez na minha vida eu estava sendo levado a sério por alguém que não fosse minha mãe ou pai, ou cinco anos mais novo do que eu.” (Supergods – Capítulo 11)

Tony O’ Donnell, que também tinha acabado de ser aceito na Near Myths, disse que ao ver o trabalho de Morrison teve que admitir a Rob King a sua genialidade, principalmente após saber que Morrison tinha apenas 17 anos de idade!

A Near Myths era editada por Rob King. E Rob King era um dos donos de uma livraria especializada em ficção científica na cidade de Edinburgh. O fim dos anos 70 eram anos confusos, a utopia da geração hippie pouco se sustentava depois que a década de 60 não mudou o mundo, o que deu brecha para o punk criar novas bases comportamentais entre a juventude, deixando claro que as coisas estavam mudando como um todo. Não mudando revolucionariamente, ou para melhor como a geração anterior queria, mas estavam mudando à sua própria maneira e os quadrinhos não ficariam de fora desta mudança.

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A importância de relacionarmos a paixão de Rob King por ficção científica com sua função de editor da Near Myths é simples: sua revista em quadrinhos não era de super-heróis normais, era uma revista acima de tudo de ficção científica. O que apontava prematuramente para o gênero que com Neuromancer e Star Wars, por exemplo, dominaria todas as mídias na primeira metade dos anos 80. Além disso, o público alvo da revista eram os adultos, contrariando toda a lógica da época que focava principalmente em capturar crianças e adolescentes.

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Se a Era de Prata acenava a decadência do gênero horror nos quadrinhos –levando pra cova as histórias de detetives também-, o fim dela acenava a decadência de todo o gênero dos super-heróis. No instante em que os super-heróis foram jogados na sarjeta por “Watchmen”, a ficção científica se tornou o combustível que manteria os quadrinhos em movimento. Ficção científica e tecnologia tinham muito mais a ver com o punk e a nova geração do que heróis cuecudos salvando o mundo. Para Morrison durante essa época “quadrinhos e super-heróis eram entediantes. Eu era sci-fi punk. Foda-se”.

As contribuições de Morrison na Near Myths (e que vou analisar uma delas por semana, postando nos sábados aqui no NerDevils) foram:

#2 – Time Is A Four Lettered Word

#3/#4 – Gideon Stargrave

#5 – The Checkmate Man

Fontes:

Interview with Morrison about his early work including Near Myths:

http://homepage.ntlworld.com/fish1000/index/lostcontent/gm-afterimage6-jan88.txt

Interview with Tony O’ Donnell – comic artist (Ivy the Terrible and early collaborator with Grant Morrison): http://www.garenewing.co.uk/home/writing/tony.php

Action Comics #1: o novo Superman é o antigo Superman

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Action Comics em sua edição #1 não tem a cara do Grant Morrison. Posso dizer de outra forma: não tem o que SEMPRE se esperou do Morrison, ou seja, não vimos ainda paradoxos temporais, hyper-paranóia, entropia dissipatória, magia sensorial, gênesis cosmogônica e etc., essas coisas distantes do realismo pragmático que foram o marco de seus roteiros.

O próprio Superman não está como de costume. Ele não é tão invencível, não voa ainda, está bem mais novo e no meio de uma cidade enfrentando a policia! Parece mais um adolescente explodindo de hormônios e super-poderoso do que o antigo herói sábio e ponderado com a cueca por cima da roupa, mas calma… isso não é tão ruim.

Grande parte das brigas conceituais do Morrison com Alan Moore foram justamente sobre o realismo decadente dos super-heróis dos quadrinhos instalados pós-Watchmen, que Morrison sempre se recusou a partilhar e que Alan Moore se resumiu a rir dessa resistência ao realismo numa era de queda do Muro de Berlim e falência do socialismo soviético.

Morrison sempre foi saudosista dos Super-Heróis como modelos de arquétipos primitivos dos valores mais elevados da humanidade. Basicamente ele sente falta do tempo em que os heróis simplesmente salvavam o mundo do mal e pronto. Mas a verdade é que embora ele manifeste este saudosismo no documentário Talking With Gods e no seu livro Supergods, suas próprias HQs nunca usaram as formulas da Idade de Ouro dos quadrinhos, pelo contrário, elas sempre foram complicadas demais (basta ver Homem Animal e Doom Patrol) e foi isso que fez sua fama.

Talvez Action Comics, seja uma oportunidade em que Morrison vai finalmente colocar em prática tudo aquilo da Era de Ouro que ele sabe em teoria. Sim, ele deixa claro em Supergods que é um conhecedor profundo do alvorecer dos quadrinhos, e aliás, o que se pode ver no AC #1 é exatamente aquilo que ele considera ser base do Superman lançada por Jerry Siegel e Joseph Shuster.

“Se as visões de um pesadelo distópico na época previam um mundo desumanizado e mecanizado, Superman aparecia com outra possibilidade: a imagem de um amanhã fortemente humano, que entregue a um individualismo triunfante exerceria sua soberania sobre uma opressão industrial implacável. Não é uma grande surpresa que ele tenha feito sucesso entre os oprimidos. Ele era tão inculto, pobre, como qualquer messias nascido no chiqueiro.”

Defensor dos pobres e fracos, uma espécie de herói social vindo de outro planeta, quase um socialista de ação – certas vezes diz Morrison no Supergods -, esse é o Superman até o momento em que o EUA entra na Segunda Guerra mundial e ele como um dos alistados se voltar para um patriotismo incondicional. Esse Superman dos princípios dos comics é o que Morrison aparentemente pretende resgatar. A primeira sequencia de cenas da nova HQ é de um super-humano obrigando um corrupto a confessar todas as merdas que ele fez, o que na verdade acaba irritando a policia, que quase sempre está na defesa do status quo e cai em sua perseguição… quem nos últimos anos iria imaginar que a policia teria cara de enfrentar o homem de aço? Isso torna ele mais próximo de nós, o torna menos aquele titã invencível num patamar acima do humano.

Acredito que mais na frente o Morrison vai arrumar um jeito de enfiar suas viagens meta-narrativas dentro da história do herói ex-cuecudo, mas não penso que para isso vai abandonar essa característica central de herói das massas! Por enquanto, só podemos mesmo esperar e ver no que vai dar. Mas apesar de bem diferente dos trabalhos do Morrison, acredito que pode vir algo muito bom por aí.

Big Sur e a maldição de On The Road

“A sabedoria é só um outro jeito de fazer com que as pessoas adoeçam.” – Jack Kerouac

Passaram-se somente algumas horas desde que terminei de ler o livro “Big Sur” de Jack Kerouac. Confesso fiquei muito surpreso com o foco da narrativa, é inteiramente inesperado em relação aos outros livros do “Rei dos Beats” e me vejo na obrigação de comentar algo. O livro é extremamente triste, denso, depressivo, não posso não resenhá-lo. Me pergunto: afinal, para que serve a merda de uma resenha? Para expor as obras a possíveis compradores? Parte externa do complexo editorial? Se for assim, os autores de resenhas são os responsáveis por colocar tantas obras geniais debaixo do tapete, por relegá-las ao esquecimento, como é o caso de Big Sur. Hoje em dia não é tanto assim, porém há 50 anos atrás uma tropa de críticos literários composta dos principais jornais de um país é que definiam aquilo que seria lido ou não. Big Sur só não é completamente esquecido porque é uma obra do Kerouac, e tudo do Kerouac vende como água até hoje, mas é um livro subestimado literariamente justamente por isso, as pessoas dizem: “ah, essa merda só foi publicada porque é do Kerouac”. O livro “Tristessa” sofre um processo similar. Mas porque isso?

Quando ouvimos o nome de Jack Kerouac nos vem a cabeça o livro “On The Road”, considerada sua obra-prima. Em On The Road acompanhamos Sal Paradise e Dean Moriaty (Kerouac e Neal Cassady) viajando os EUA de costa a costa por diversas vezes discutindo literatura e filosofia, tendo visões xamãnicas no deserto mexicano, misturando budismo e cristianismo numa síntese que pela primeira vez expõe os segredos do oriente, experimentando drogas (mescalina, heroína, ayahuasca, metanfetamina), fodendo diversas garotas em grupo, fazendo um monte de coisas non-sense, enfim, aproveitando cada instante da vida de uma forma intensa que era o oposto do padrão pretensamente puritano de vida americana na época. Era um Jack Kerouac jovem, pobre e fodido tentando sobreviver como escritor da maneira mais feliz possível em meio a toda aquela rigidez estadunidense do pós-Segunda Guerra Mundial e atolado nas merdas adversas do destino. A narrativa é fluída, como um quadro se descortinando em cores quentes diante dos nossos olhos, ou uma composição de blues recém improvisada na boca de um negro dos inícios dos anos 30. On The Road é uma ode à vida! É um tipo de livro que só pode ser escrito quando se é jovem (mas que pode ser livro por todas as idades sem qualquer sentimento de culpa). Mas lembremos que On The Road sofreu uma série de censuras, correções e modificações substanciais por parte da editora, o que o tornou de fato entre todos os livros de Kerouac no mais reacionário em termos de estética (mesmo que seja lembrado pela história como o “mais revolucionário da literatura americana moderna”).

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Em Tristessa e Big Sur temos uma outra faceta desse cara iluminado e sábio que elevou os Beats ao grupo de escritores de ponta da sociedade americana com On The Road. Em Tristessa Kerouac é um viciado em morfina e heroína vagando feito um zumbi pelo México na companhia (e tolamente apaixonado por) uma prostituta local, em meio a picos de drogas ele tem visões sagradas sobre as pessoas nas ruas, conversa com o gato, se vê perdidamente fora de si e compreende que na verdade não há nada fora do “eu”. Tristessa tem um fluxo narrativo levado mais a sério que On The Road, com frases que são cortadas pela metade pra dar vida a uma outra frase que surgiu na cabeça do autor no momento e ele quis colocar, é uma loucura pura. No entanto vou falar aqui mais de Big Sur, que pelo que pude entender é o penúltimo livro de Kerouac, mas o que encerraria quase de vez aquilo que ele denominou de “Saga de Dulouz” (que seria todos os livros dele colocado em ordem cronológica dos fatos e não de publicação).

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Em Big Sur temos um Kerouac decadente, velho e bêbado, angustiado pela sua fama. Jovens invadem constantemente a casa da sua mãe (onde ele mora) em sua procura, imaginando que ele ainda é o mesmo personagem de On The Road com 25 anos e rigor físico para delírios, quando ele na verdade já não tem mais tanta perspectiva, tanta paciência, em suma, não tem mais a ingenuidade da juventude. Para lidar com as desgraças advindas da fama ele se atola em bebidas, gasta muito dinheiro com produtos quase inúteis que só vai usar por um dia como ternos e calças para aparecer em programas de televisão, paga bebidas e jantares para desconhecidos, etc. Kerouac também passa a ficar paranóico, imaginando que as pessoas só estão a sua volta para tirar uma lasquinha do seu sucesso, pois estão o tempo todo lhe lendo poemas, pedindo para que ele aprovasse seus textos, etc. Enfim, o sucesso de On The Road o atormenta mais do que o faz bem, o Jack Kerouac real tem que escapar do assédio dos leitores que o consideram o homem mais iluminado do mundo todo dia, são pessoas lançando em cima dele suas esperanças em dias melhores, fugindo de suas responsabilidades e cultuando sua figura, o que apenas torna Kerouac mais e mais angustiado. Pensando em fugir disso tudo ele resolve passar umas semanas isolado numa cabana na região oceânica de Big Sur.

Kerouac já não é mais aquele jovem esperançoso, se antes lutava com as palavras para poder sobreviver financeiramente como escritor, agora se pergunta qual a finalidade de escrever já que palavras não são nada, a escrita se tornou uma prisão, uma maldição e ele passa a lutar CONTRA elas. Nesse ponto de desilusão com as palavras, ele tem certa similaridade com conclusões que levaram o poeta brasileiro Torquato Neto a se suicidar em 1972. Essa depressão fica clara nos trechos abaixo retirados de Big Sur:

“Você passou o verão inteiro aqui escrevendo os supostos sons das ondas sem perceber a seriedade mortal da sua vida e do seu destino, você é um idiota, um garotinho deslumbrado com um lápis, não tá vendo que você vem usando as palavras como se elas fossem uma brincadeira alegre[….] Que merda, estou de saco cheio da vida – Se eu tivesse um mínimo de coragem eu me afogaria naquelas águas cansadas mas não adiantaria nada, eu vejo os grandes planos e transformações virando gosma lá no fundo para nos atormentar com algum outro sofrimento miserável.”

“Mas você não vê que tudo isso se transformou em um monte de palavras vazias, agora eu percebo que eu vinha brincando como uma criança alegre com palavras palavras palavras em uma grande tragédia séria, olha ao teu redor!”

A fama foi destrutiva para Kerouac, se antes era alcoólatra se tornou um desregrado embebedado paranóico permanente. Diante de sua impotência frente aos problemas do mundo, ele só bebia e criava conspirações cósmicas de arcanjos e demônios que imaginava estarem tramando para prová-lo que viver é sofrer e por isso sua vida era horrível. Do outro lado da paranóia, as pessoas lançavam todas as esperanças numa coisa que ele não era, talvez nunca tenha sido!

“O rei dos beats”, era coisa do passado para Kerouac e as pessoas queriam obrigá-lo a ser aquilo o tempo todo. Sempre queriam conhecê-lo porque era o grande escritor americano doidão, e mesmo quando ele não queria receber ninguém as pessoas arrombavam portas e quebravam coisas para encontrá-lo. “O que ontem era belo e puro se transformou por motivos irracionais e inexplicáveis em um lúgubre tonel de merda.” Em outro trecho do livro, um amigo seu lhe diz algo como “você dizia que era o escritor mais genial do mundo” e ele responde “ai eu acordei e agora eu sei que não presto pra nada e assim me sinto livre”.

Big Sur não agradou as pessoas talvez porque não seja uma visão bem otimista das coisas. Um bêbado, paranóico, depressivo, velho, que vê tudo morrer a sua volta sem qualquer esperança de que as coisas vão melhorar, este é um resumo do livro. Morre seu gato, uma lontra, um rato, um peixe, etc. durante a narrativa, e por cada morte que presencia, Kerouac se culpa, as coisas só morrem por que existem e só existem porque ele existe já que tudo está conectado, ele é a causa de toda a dor e mesmo assim as pessoas insistem em olhá-lo como se fosse um santo iluminado. A palavra idiota para se referir a si mesmo é usada inumeráveis vezes, acho que a cada 5 páginas ela aparece! É um livro que vale muito a pena se ler, principalmente depois de da leitura de On The Road e Vagabundos Iluminados, é um contraponto ao otimismo dos dois, então ajuda a pensar nas próprias contradições que todos somos.

Big Sur é um painel sombrio sobre a geração Beat, longe do glamour e da sabedoria radiante. Se On The Road foi uma previsão xamãnica da sociedade hippie que se deflagraria nos anos 60, Big Sur foi uma previsão da ressaca cultural/social da onda hippie que só viria acontecer no final dos anos 70 com a geração punk/pós-punk. O que para mim deixa claro que Kerouac sempre esteve nas rédeas de seu tempo.

7 anos depois… Ragnarok Online 2

Por volta de 2004 a Gravity (empresa sul-coreana de desenvolvimento de jogos, que ganhou destaque a partir de Ragnarok Online) começou a desenvolver o sucessor de sua mais lucrativa franquia, Ragnarok Online 2: The Gate of the World. Que acabou se mostrando um tremendo fracasso com cinco anos em fases de testes, período no qual foi destruído pela crítica, abandonado pelos players e consequentemente esquecido pela empresa, ganhando a alcunha de “vergonha” dos jogos onlines da empresa.

Esse fracasso de The Gate of the World se deu porque o jogo se apresentava como continuação de Ragnarok e nada tinha a ver com as histórias em mangá de Lee Myung-Jin ou com o MMORPG tradicional. Talvez se tivesse tido outro nome que não Ragnarok até tivesse dado certo!

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olha só como os chars pareciam anões, lol

No final de 2009 a empresa decidiu retomar novamente o projeto largado, mantendo poucos membros da antiga equipe de desenvolvimento e sendo fiel a proposta de se tornar uma continuação em 3D e sucessor do RO. O jogo foi rebatizado de Ragnarok Online 2: Legend of the Second e teve o primeiro Closed Beta TEST realizado – apenas para quem tinha conta no The Gate of the World – entre 31 de Agosto a 6 de Setembro de 2010.

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Como eu tinha jogado na primeira versão que era ridícula, pois os personagens era um bando de criancinha chibi tentando retratar o clima “cute cute” do Ragnarok 1 em um jogo que de parecido com o primeiro só tinha uma cidade e uns dois monstros, finalmente após uma saga de 6 anos esperando, pude jogar RO2 e dizer: CARALHO QUE JOGO FODA. O beta tava todo bugado, o servidor ficou apenas das 6 da manhã até meio-dia aberto – mentira, toda hora dava algum erro e ou o servidor fechava ou o meu PC travava – , tinha gente atravessando paredes, etc., mas isso é normal num beta – é pra isso que serve um CBT na verdade -, no entanto a sensação – mesmo com o jogo todo em coreano, completando as quests apenas seguindo as indicações visuais – era próxima a de que tive quando joguei RO1 pela primeira vez na vida.

O servidor fechou, o tempo foi passando e ocorreu mais um beta no começo deste ano, chamado de R-CARE TEST apena para quem jogou o CBT, onde por alguns dias novamente uma cambada de viciados em porings, lunáticos, general tartaruga e essas porras todas de RO1 puderam ver novamente os monstros, equipamentos, skills das calsses e cidades em 3D.

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Por fim na última semana a Gravity resolveu em cima da hora lançar um segundo CBT, no qual por alguns dias o servidor ficou aberto de 6 às 11 da manhã no horário de Brasília e nos últimos dois dias ficariam abertos o dia todo. Isso no mínimo é sinal de que um Open Beta vem vindo por aí, estavam fazendo stress test no servidor e etc, além de corrigindo alguns bugs de atravessar paredes, típico do sistema que o jogo é produzido, o Unreal Engine 2.5.

O gráfico do jogo está razoável, creio que ainda não está com as texturas renderinzadas ao máximo, no entanto já está atrativo o suficiente para hards players e não apenas aquela coisa “bonitinha” com cara de pedofilia japa como o RO1.

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A liberdade que você sente no jogo é muito interessante, os mapas são todos abertos com muito pouco “loading”; existe um sistema de “dual-life” no qual você pode escolher entre ser ferreiro, cozinheiro, alquimista e costureiro, o que te faz além de produzir itens muito melhores do que os dropados ou de NPCs, receber quests especificas que vão desenvolver certas características dos personagens como os guardiões. Há ainda um esboço de sistema de Karma que ainda não foi implementado, no qual o personagem pode seguir por três tendências: boa, ruim e neutra.

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A verdade é que RO2 tem toda sua base mitológica retirada de RO1 mas ao mesmo tempo é muito diferente deste. O jogo se passa numa época muito a frente, pelo que pude entender nos fóruns da vida é como se um novo ragnarok ( ~ crepúsculo dos deuses ~ )tivesse acontecido no universo criado por Lee Myung-Jin. O rei Tristã não é mais o grande senhor de Prontera; Izlude foi destruída pelo mar e por um ataque de monstros e foi reconstruída no topo de uma montanha; novas criaturas apareceram; etc. Em resumo podemos dizer que a estrutura geográfica e política dentro do jogo foi modificada com esses eventos. Não dá pra saber muito da história porque coreano é foda, nem adianta muito google translator, mas jogo tá repleto de shorts scenes como os RPGs tradicionais e lembra em seu sistema geral muito WoW. Particularmente considero um tanto quanto inevitável fugir de influencias ou comparações com WoW, mas como foi um CLOSED BETA, creio que ainda há muito tempo para modificações.

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um pedaço de Prontera (a cidade do lag)

Eu disse que gostei de jogar no primeiro closed, no entanto a evolução gráfica e de jogabilidade foram gritantes. Há algumas merdas, é claro, os npcs tão vendendo os itens a preços absurdamente caros; o servidor está relativamente instável; as vezes o personagem simplesmente afunda no chão e você tem que deslogar; o sistema de transporte da Kafra voando agora em cima de uma vassoura ao invés de teleportar de uma vez é extremamente tosco; a cidade de Prontera e seu Esgoto estão absurdamente dando LAG e não é porque é pesada ou porque tenho internet ruim, é porque tem alguma coisa mal feita mesmo; as quests estão ridiculamente não criativas – mate fulano, pegue isso ou aquilo O TEMPO TODO -; etc.

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Como está em fase Beta tudo isso está perdoado se corrigido nas versões subseqüentes, particularmente estou ansioso pelos Open Betas e versão final deste jogo, fazia anos que eu não passava 40 horas seguidas logado em um MMORPG. E não é porque não procuro, simplesmente acho sem graça uma porrada de jogos que tem por aí hoje, todos com interface diferente mas em geral com o mesmo tipo de desenvolvimento, consegui com RO2 ter novamente alguma esperança que vou me matar pra pegar level em algum jogo online (grandes merdas, eu sei)! É isso, quem gosta de RO1 ou mesmo um bom MMORPG tente jogar os próximos betas do jogo Let’s RöK.

(teve uma coisa bizarra nesse ultimo closed beta, um brasileiro que tava na guild que eu me encontrava durante todos esses dias ganhou um 1 pad de 10 gigas num sorteio do servidor HA HA HA, se fosse num servidor BR, duvido que o filho da puta tivesse ganhado e talvez ele ganhe como prêmio no servidor coreano um ban, pois pra jogar é preciso falsificar identidade koreana! Esse é um carinha filha da puta de muita sorte e muito azar!)

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Sobre Bukowski e “Pergunte ao pó” de John Fante

Confesso que demorei muito tempo para começar a ler Bukowski, o motivo? No meu círculo semi-social os leitores de Bukowski odeiam os Beats, consideram o “intelectualismo” de Burroughs e o zen-budismo de Ginsberg e Kerouac uma farsa/auto-enganação literariamente lucrativa. Eles cultivaram um ódio principalmente por Ginsberg e Burroughs, que foram severamente criticados por Bukowski porque misturavam “artificialmente” sua literatura com movimentos sociais, nas palavras do bêbado em “Notas de um Velho Safado”:

“Eles passeiam pelos parques com o ídolo de Che, com fotografias de Castro em seus amuletos, fazendo OOOOOOOOMMMMMOOOOOOOMMM enquanto William Burroughs, Jean Genet e Allen Ginsberg os lideram. Esses escritores ficam delicados, malucos, uns cocozinhos, umas fêmeas – não homos mas fêmeas – e se eu fosse tira eu não hesitaria em lhes cacetear os seus cérebros confusos.”

Pois bem, como já havia lido e era apaixonado principalmente pelo modo de escrita dos três beats, sendo também estudante dos movimentos sociais dos anos 60/70, criei uma barreira que me impedia de ler Bukowski. Assim como os beats pareciam artificiais para alguns o fodedor de bocetas e velho bêbado me parecia um tanto quanto canastrão, aquela pose de macho ômega e drogado que os leitores me passavam do cara me privou por muito tempo de lê-lo. Hoje em dia já pego livros do Bukowski e entendo sua grandiosidade, não exatamente literária mas de capacidade expressiva, e encontro inclusive sincronia com os próprios beats que ele tanto criticava!

Graças a Bukowski conheci a literatura de John Fante e por conseguinte chegou às minhas mãos o livro “Pergunte ao pó”. O prefácio, escrito por Bukowski, nos convence que “cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção.” E não é que a porra do livro realmente é tudo isso?

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“Pergunte ao pó” nos conta a história de Arturo Bandini, alter-ego de John Fante, um escritor que só havia publicado um conto em toda sua vida e como ele enfrenta sua pobreza e sua idiotice intelectual. Um dos centros principais da narrativa é como Arturo Bandini chega a escrever suas histórias e se apaixona por uma mestiça indígena. Preconceituoso, racista, confuso, virginal, religioso Arturo entra em parafuso por causa de sua paixão por Camilla, uma relação ambivalente de desprezo, masoquismo emocional e idolatria. Sua deusa “maia” e ao mesmo tempo uma pobre mestiça que trabalha de garçonete e usa sandálias asquerosas.

A saga de um escritor buscando seu espaço no fétido mercado editorial e lutando contra os deuses da criatividade, isso resumiria porcamente “Pergunte ao pó”, um livro que pinta em tons intensos traços de pensamentos de alguém muito distante temporalmente mas que poderia ser qualquer um de nós. Um dia Arturo Bandini está pobre, no outro ganha 130 dólares por um conto e em menos de uma semana depois já está novamente fodido porque não controlou seu dinheiro. O personagem é inseguro, não tem certeza de nada que está fazendo, aliás, apenas que quer ser escritor, esta é sua única certeza.

A sinceridade com que assume suas contradições é a principal atração do livro, um trecho em especial basicamente me pediu que fosse citado:

“Não li Lenin, mas o ouvi citado: a religião é o ópio do povo. Falando comigo mesmo nos degraus da igreja: sim, o ópio do povo. Quanto a mim, sou ateu: li O anticristo e o considero uma obra capital.

Acredito na transposição de valores, cavalheiro. A Igreja precisa acabar, é o refúgio da burroguesia, de bobos e brutos e de todos os baratos charlatães.

Puxei a imensa porta, abrindo-a, e ela emitiu um pequeno grito como um choro. Acima do altar, crepitava a luz eterna vermelho-sangue, iluminando em sombra carmesim a quietude de quase dois mil anos. Era como a morte, mas também me fazia lembrar de bebês chorando no batizado. Ajoelhei-me.

Era um hábito, ajoelhar. Sentei-me. Melhor ajoelhar, pois a pontada aguda nos joelhos era uma distração da terrível quietude. Uma prece. Certo, uma prece: por motivos sentimentais. Deus Todo Poderoso, lamento ser agora um ateu, mas o Senhor leu Nietzsche? Ah, que livro! Deus Todo Poderoso, vou jogar limpo nesta questão: vou Lhe fazer uma proposta: Faça de mim um grande escritor e eu voltarei à Igreja. E lhe peço, caro Deus, mais um favor: faça minha mãe feliz. Não me importo com o Velho; ele tem seu vinho e sua saúde, mas minha mãe se preocupa tanto. Amém.”

O nome “Pergunte ao pó” se refere aos desertos que predominam no ambiente de Los Angeles e Califórnia. Certos momentos, quando o livro tira um pouco o foco de Arturo, o principal personagem é o deserto. Esse lugar silencioso, monótono, desolador e seco que sempre esteve presente no planeta e estará até o seu fim, homens e civilizações passaram e o deserto permanecerá. Quem sabe um dia o deserto vai dominar todo o mundo, se pergunta em certo momento John Fante, vai engolir todos os outros ecossistemas. E isso não tem a ver com poluição, camada de ozônio, não… é porque o deserto foi feito para reinar, para atrapalhar, a única coisa que é constante no mundo é a areia do deserto.

John Fante não é um bêbado e fodedor de bocetas como Bukowski, nem um santo vagabundo iluminado como os beats, mas é um escritor filho da puta e tanto. Vale muito a pena ler, embora o livro não seja regado de visões de paraísos, sexo e uso de drogas, não é uma São Francisco hipster (hippie), nem uma Nova York nojenta, mas uma Los Angeles que só existe para um individuo: Arturo Bandini, o escritor fraco e imbecil que sonha em viver de suas palavras e possuir sua princesa maia Camilla.

Superman: Entre a Foice e o Martelo

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E se a nave do Super-homem tivesse caído na URSS? E se o socialismo soviético tivesse se tornado sistema político hegemônico graças a ele? Como seria o mundo e o que aconteceria com os outros heróis do universo da DC? Qual seria o lugar dos antigos vilões no mundo? É em cima dessas proposições que se baseia o fantástico roteiro de Mark Millar na HQ Super-Homem: Entre a foice e o Martelo (o título em inglês é bem mais pertinente e preciso Superman: Red Son), publicada nos EUA no ano de 2003.

Essa idéia de deslocar o Super-Homem de sua posição tradicional faz parte da iniciativa nomeada pela DC como Elseworld, em geral traduzido no Brasil como Realidade Alternativa. É um selo da editora no qual os heróis têm sua cronologia oficial alterada por fatos históricos ou mesmo invenções totalmente casuais para os roteiristas, ou seja, é uma possibilidade para se observar como seriam os personagens caso tivessem nascido em outra época, país e/ou dentro de outras perspectivas sociais.

No entanto a proposta de Mark Millar é mais do que uma brincadeira… ela parece satisfazer um antigo desejo seu de brincar com os símbolos da supremacia norte-americana no mundo, pois ele nos apresenta uma verdadeira sacudida dos valores norte-americanos e um chute no saco dos fãs tradicionais do homem de aço. Super-man, que foi uma criação de Jerry Siegel e Joe Shuster e representava principalmente uma expectativa de superação e da inabalável força da América do Norte recém saída de uma crise econômica nos anos 30, passa agora pro outro lado da política internacional. De herói quase invencível, protetor do planeta que espalha a justiça norte-americana para todas as regiões, defensor do american way of life que representa o espírito americano de superação e de força, ele se torna um disseminador do comunismo e única pessoa no planeta capaz de tirar essa idéia do plano utópico!

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Misturando Orwell, o panóptico de Foucault, retomando o confronto já secular entre anarquismo libertário e comunismo pleno (Marx x Phroudon, na HQ será Batman x Super-man) e fragmentos de teoria do caos-temporal, Mark Millar constrói um roteiro formidável, no qual em três números aparecem Batman, Mulher Maravilha e Lanterna Verde, que pouco se assemelham nesse universo paralelo com os personagens tradicionais. Os principais inimigos do homem de aço na trama vão ser Braniac e Lex Luthor, que num brainstorm delirante irão surpreender o leitor a cada página decorrida. Além de tudo isso, ele faz uma critica a própria existência de certo arquétipo heróico, o do ser invencível. Este que percorre a história humana desde os tempos primitivos pela figura do demiurgo selvagem que depois será a mãe-natureza, passa séculos depois nos gregos pela imagem do herói Hercules e na era moderna é representado na cultura pop pelo Super-Homem.

A grande pergunta que percorre subterraneamente a HQ acaba sendo: como a humanidade seria se alguém que pudesse ver/ouvir tudo, que fosse capaz de se locomover quase instantaneamente para qualquer lugar do planeta, tivesse força incomensurável e fosse invencível, existisse? O mundo não seria como ele acreditasse que deveria ser? Por mais que ele fosse bom, não acabaria moldando o planeta a sua imagem?O mundo não se renderia aos seus pés sem reclamar? Isso é heroísmo? Bom, leiam essa HQ do caralho e tirem suas próprias conclusões.

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Dossiê #FORAREITORUFPI

Esse dossiê foi criado graças a hashtag do twitter #FORAREITORUFPI, no qual os estudantes da Universidade Federal do Piauí postaram links com notícias da má administração do Reitor Luiz Junior. Além da minha experiência pessoal na instituição referida.

Talvez esse imenso artigo só interesse a quem vive na UFPI, mas deixo claro que a principio não acredito mais na Universidade como centro de discussão e projeção de idéias, hoje servindo EXCLUSIVAMENTE como extensão do ensino médio e escada para o mercado de trabalho, se servindo da reprodução de reproduções de bibliografias por mitose. Porém vejo que o que vem acontecendo na UFPI pode ser sintomático do que ocorre em todo o ensino superior brasileiro, revelando uma hierarquia fétida das nossas Instituições Federais. Começo agora um relato um pouco detalhado das sujeiras da segunda gestão do Reitor da UFPI.

Segunda Administração de Luiz Junior

2008

Cartões Corporativos e improbidade administrativa

O atual reitor, Luiz Junior, da Universidade Federal do Piauí foi reeleito em maio de 2008, tomando sua segunda posse oficialmente em novembro. Neste mesmo ano acusações antes silenciadas ou que ficavam apenas no âmbito interno da instituição explodiram tanto a nível estadual quanto nacional. O principal veículo de exposição que desencadeou a mídia nacional por inteira foi a Folha de São Paulo que constatou – em meio a lambança de gastos indevidos em todas as UFs do país- que a UFPI havia sido a segunda universidade que mais havia gasto no uso de cartões corporativos. O gasto em 2007 foi de R$ 402,8 mil, para ser preciso. O grande problema no uso do cartão corporativo é porque o dinheiro é sacado em caixa eletrônico, teoricamente para situações emergenciais, mas estava sendo usado para fins de farras administrativas em todo o Brasil. Na Unifesp, R$ 9.500 havia sido usado apenas em restaurantes, na UnB até pra pão e compras de supermercado o cartão foi utilizado, além de festas. Na UFPI ocorreu dois saques de 28 e 30 mil reais respectivamente, muito dinheiro para “emergência”. A desculpa que o reitor deu foi que os números só parecem exorbitantes, mas não são, e que a UFPI está em segundo lugar nos gastos apenas porque outras instituições não usavam o cartão até aquele momento. Indagada pelo Portal AZ em 2008, a professora Carminda Luzia que usou R$ 5.500, disse que compra “material de escritório, como cartuchos, fechaduras, copos, peças para carros da universidade”. 99% dos gastos com o cartão corporativo foi sacado em caixas eletrônicos, o que é minimamente estranho, pois poderia ter sido usado diretamente na compra dos materiais, sendo descontado na fatura, ao retirar no caixa o dinheiro fica sem previsão de gastos.

Por essas e outras (acusação de que havia contratação irregular de propaganda, sem uso do processo de licitação, somando R$ 116 mil, uma bela quantia) o Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar o Reitor. Segundo o Procurador da República no Piauí Kelston Lages diz que Luiz de Sousa Santos Júnior e José Joacir da Silva cometeram “atos de improbidade administrativa, por terem causado lesão ao erário, diante de condutas dolosas” pois “realizaram operação financeira sem observância das normas legais, permitiram despesas não autorizadas em lei, liberaram verba pública sem a observância das normas vigentes e atentaram contra os princípios da administração pública” [1].

Porém antes de toda essa confusão o vice-reitor da gestão de 2004-2008, o professor Antônio Silva do Nascimento já delatava Luiz Junior como gestor autoritário, pois considerava que o “atual reitor impõe e desperta medo nos funcionários, tem uma política de toma-lá-dá-cá, e a academia não pode se submeter a processos dessa ordem” [2]. Ele usa como exemplo a sua remoção do cargo de Diretor do Hospital Universitário da instituição sem aviso prévio, ou qualquer tipo de conversação, sendo uma atitude arbitrária do Reitor que com uma canetada o tirou da função em Agosto de 2005, junto a isso denuncia a ocorrência de várias outras situações similares, em que pessoas foram destituídas dos cargos sem qualquer clareza quanto ao motivo.

Ainda em 2008 o Reitor destacou para o ministro da educação Fernando Haddad a “expansão da UFPI”, destacando dezenas de números enormes, usando a velha estratégia tecnocrática de que quanto mais os números aumentam mais as coisas estão melhores. Mentira. De 2004 para 2008 a instituição aumentou de 42 cursos para 92, porém como veremos adiante, ainda hoje esses cursos (e parte dos antigos “42”) estão totalmente desprovidos da estrutura física mínima para um bom ensino. O alunado, segundo o reitor, aumentou de 13 para 16 mil, porém o HU nunca foi inaugurado (promessa de mais de 20 anos) e os outros Restaurantes Universitários só começaram a funcionar recentemente, mesmo a Residência Universitária só tem espaço para algo em torno de 200 estudantes, não sendo suficiente pra suprir porra nenhuma do número de estudantes que vem do interior do estado ao Campus de Teresina, por exemplo. Na fala ao ministro, ele destaca que 12 novos cursos de pós-graduação haviam sido criados, como se fosse um feito dele e não das coordenações e departamentos de cursos que batalharam muito para conseguir. Já em 2008, o MEC através da intervenção do ministro da educação, transferiu 15 milhões para a conclusão do HU, que segundo o reitor na época, teria suas instalações físicas finalizada em setembro de 2008 (Hospital Universitário este nunca terminado, até hoje).

2009

Cartões Corporativos

O ano 2009 para a UFPI continuava a saga dos cartões corporativos, a procuradoria da união em protocolo de acusação pedia a devolução do dinheiro usado indevidamente. A Folha de São Paulo retorna a publicar um artigo sobre o caso dos cartões, agora especificamente sobre a UFPI e as acusações de improbidade administrativa do Reitor e outros administradores a sua volta. Irritado o Reitor diz que a especulação midiática em relação aos processos que ele está respondendo é apenas “falta de notícia na imprensa” [3]. Em maio deste ano, após ser chamado para depor na 1ª Vara, o pedido de afastamento do Reitor é negado pelo juiz Brunno Chistiano Carvalho Cardoso, da 5ª Vara, por falta de “provas incisivas”. Sendo silenciado até os dias de hoje.

Ministério Público

Outro processo sofrido pelo Reitor neste ano foi o aberto pelo Ministério Público contra a cobrança de taxa em curso de extensão e instrumental na UFPI, pois estes que deveriam ser gratuitos na instituição (que visa uma formação ampla e gratuita) possuem taxas de mais ou menos 100 reais (nos cursos de línguas: “Valor único por semestre de R$ 130,00 (cento e trinta reais) – valor base ago./2009. Os alunos deverão adquirir o material didático separadamente.” [4]), ou mesmo mais que isso por período. É interessante notar as proposições da ADUFPI (Associação dos Docentes da Universidade Federal do Piauí) de que o Reitor escolheu o pró-Reitor Saulo Brandão para relator do citado processo do MP, e este Brandão é o mesmo que implementou as cobranças de taxas a partir do primeiro dia da primeira gestão do Reitor Luiz Junior. Por que ele acabaria com as taxas agora se ele mesmo as instituiu? Pergunta o Observatório Adufpi, realmente, não faz sentido. Depois disso os cursos de extensão de certa forma entraram em colapso, tendo suas execuções atrasadas em todos os períodos subseqüentes a acusação do MP.

Autoritarismo

Para citar um exemplo de autoritarismo em 2009, o Reitor exonerou Kilpatrick Muller da presidência da COPESE (A Coordenadoria Permanente de Seleção do vestibular da instituição) após este acusá-lo de ter “práticas patrimonialistas”, ou seja, agir com a propriedade e dinheiro público, como se fosse um bem individual. A ADUFPI pediu a abertura do inquérito referente a exoneração, mas não foi respondida.

Greve de estudantes

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Contrariando o discurso tecnocrático e numérico do reitor em 2008 para o Ministro da Educação Haddad, os estudantes da UFPI no Campus da cidade de Parnaíba entram em greve contra a falta de infra-estrutura mínima para realização dos seus cursos. Os cursos que entraram em paralisação foram: Fisioterapia, Psicologia, Bio Medicina, Engenharia de Pesca, Matemática e algumas turmas de Turismo; reivindicando mais salas de aulas, equipamentos e laboratórios. “Não é admissível esse total desinteresse da Instituição com a formação de seus alunos, no curso de Fisioterapia, por exemplo, estamos tendo aulas práticas no chão, porque faltam até mesmo macas” [5] diz uma estudante ao Portal AZ. Em 2010 e até em 2011 essas manifestações continuam, e como veremos adiante não são bem vistas pelo magnânimo Reitor.

Violência

No final de 2009, em um episódio trágico estudantes apanham de seguranças da UFPI em uma manifestação que não era violenta. O fato é que a instituição iria ceder ao ex-governador Hugo Napoleão, amigo pessoal do Reitor, um titulo Doutor Honoris Causa, que a comunidade acadêmica recebeu negativamente e compareceu para protestar contra essa afronta a moral da instituição, pois Hugo Napoleão faz parte do grupo político que dominou o estado durante a ditadura militar e até os fins da década de 90, além de ter sido acusado de desvio de 6,7 milhões de reais em 2003.

Um grupo pequeno de apenas 30 estudantes mais ou menos se reuniu em frente ao local onde o titulo estava sendo entregue e gritaram coisas como “Hugo ladrão, Reitor também ladrão” e foram recebidos em um espaço que era normalmente de livre passagem, por uma barreira de guardas que agiram violentamente atacando os estudantes e rasgando faixas que foram levadas, por ordem da administração superior, a magnificência Luiz Junior. Descreditando mais uma vez o nome já sujo da instituição e colocando de vez o nome do Reitor não apenas entre a fauna urbana dos colarinhos brancos do país, mas também entre os mais autoritários administradores públicos. Apenas em abril de 2010 os seguranças foram condenados pelas agressões, porém como sempre, sem atingir a figura do Reitor: http://www.180graus.com/geral/segurancas-da-ufpi-que-agrediram-estudantes-sao-condenados-321842.html.

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Não esqueçamos também, que o ano termina sem o Hospital Universitário se quer estar próximo de sua conclusão estrutural, muito menos de sua inauguração que não aconteceu até hoje.

2010

Nova acusação do MP

Em janeiro de 2010 Kilpatrick Muller, aquele que foi exonerado do cargo de presidência da COPESE em 2009 por não ter assinado um pedido do Reitor, resolve abrir o bico e denuncia ao MP enriquecimento ilícito por parte de Luiz Junior e outros administradores através de dinheiro da universidade. Valores que segundo o proponente da acusação, é superior a um milhão de reais. Diz que cada membro da COPESE recebeu em torno de 31 mil reais, quando só deveria ter recebido no máximo 4 mil. O reitor rebate a acusação dizendo que Kilpatrick é medíocre e faz parte da oposição, como se apenas isso servisse para encerrar as investigações (e serviu). Além disso, ele relembra o motivo pelo qual o referido professor foi exonerado do cargo de presidente da COPESE: “Ele (Kilpatrick Muller Bernardo Campelo) foi demitido por incompetência. Chegou um dia que precisava assinar uma documentação e não aceitou. Eu estava viajando para Fortaleza-CE e liguei para ele para saber o que aconteceu. Mas ele insistu em dizer que não ia assinar. Quer dizer, descumpriu com o que a UFPi estabelece e perdemos a confiança nele. Daí resolvemos demiti-lo” [6]. No entanto, que tipo de documentação era essa que ele queria assinar? Não é dito. O que me parece evidente é que o dinheiro corre solto na COPESE e na Fundação Cultural de Fomento à Pesquisa, Ensino e Extensão da UFPI, principalmente para os aliados do Reitor. Mas é bom notar que todos os aliados do magnânimo em um momento ou outro viram de lado, pois até aqueles que ocuparam cargos de confiança designado por ele, se viram contra sua tirania.

Mídia

O notório é que a mídia olha para a universidade com olhos viciados, apontando a UFPI apenas como um local de eminente progresso tendo em vista as obras advindas do dinheiro do REUNI. Obras essas, porém, que parecem nunca chegar a sua conclusão, como o HU, parte do Centro de Tecnologia e as estradas que cortam o campus de Teresina.

As denuncias ocorridas junto ao MP, tem cobertura inexistente nos jornais impressos, muito poucos desfechos na mídia virtual e alguns flashs desinteressantes no jornalismo televisivo, revelando o pouco interesse da imprensa local com a saída do reitor, talvez porque o estado como um todo bebe da fonte acadêmica da UFPI, ficando literalmente com o rabo preso.

Não podemos esquecer também que a UFPI só fica atrás financeiramente no estado do Piauí na verba recebida, ao Governo do Estado e ao município de Teresina, sendo superior portanto a 99,9% do orçamento de todas as outras instituições do Piauí, o que torna Luiz Junior, Reitor, o terceiro homem politicamente mais forte do estado. Qual o interesse da mídia em meter o nariz em alguém assim? Nenhum.

Canteiro de Obras ilimitado

Em março a UFPI recebe mais 30 milhões do Ministério da Educação e Cultura, cujo 19 milhões vão ser investidos no HU mais uma vez, para compras de equipamentos, que o Reitor prometia finalizar a obra em 2008 e comprar equipamentos em 2009, junto a esses 19 milhões se tem os 15 milhões de 2008, somando 34 milhões que superam a expectativa de 30 milhões necessários para a construção da obra, que permanece inacabada até hoje, após 20 anos de desvios constantes, metade deste tempo sob gestão de Luiz Junior.

Numa inauguração de blocos do Centro de Tecnologia, estudantes e professores fizeram manifestações contra o autoritarismo do reitor Junior. Primeiramente pelos desvios de verba que vinha cometendo nos últimos anos e depois contra mais um golpe desferido contra a democracia. O que acontece é que um diretor de centro foi eleito no CT, porém o reitor empossou alguém de sua laia e não aquele escolhido de forma democrática. Com apitos e gritos os estudantes e professores se mantiveram em frenesi gritando frases e segurando faixas contra o ditador da UFPI. A brecha encontrada pelo Reitor para empossar o perdedor nas eleições de centro é que: “por lei, para ser diretor de qualquer centro acadêmico hoje, é preciso ter uma especialização a mais, é preciso ser no mínimo doutor”.

Ainda em 2010, por volta de abril, começou a construção de um Portal inútil academicamente, com custo de mais de 1 milhão de reais, que só foi inaugurado em 2011. O tal Portal serve apenas para coroar o gosto por obras faraônicas do reitor, cujo pelo menos essa foi construída dentro do prazo, já as outras… mas ainda assim, uma obra inútil e se servia para embelezar e dar uma autoridade estética para a instituição, falhou amargamente, pois não passa de um pastiche moderno dos anos 70, totalmente ultrapassado e sem sal, futurismo retrogrado, eu diria. Retrogrado, insalubre, inexpressivo, e desnecessariamente caro.

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PSIU

Sem nenhum debate com os estudantes, ou estudos aprofundados na utilidade do ENEM no ensino superior, o Reitor adere completamente ao SISU, abandonando o Programa Seriado de Ingresso na Universidade. O problema em si não é a adesão ao SISU, mas a falta de atitude democrática, a falta de debate com os principais interessados: os estudantes.

Ocorre uma super-valorização do SISU, esquecendo-se os problemas básicos que permeiam a UFPI. Louvam o que o programa tem de bom, mas se negam a ver os evidentes problemas que serão causados. Por exemplo, a Residência Universitária passa infinitamente longe de suprir a demanda de estudantes do interior do estado que vem para a capital, imagine com os estudantes que vem de outro estado? Mal cabe 150-200 estudantes lá, imagine 500, 1000, e assim por diante. Mesmo assim um dos argumentos para aderir ao SISU é a mobilidade do corpus estudantil… como se tivéssemos na UFPI estrutura mínima para isso.

Mais denuncia no MP

O Ministério Público abre processo através de denuncia da ADUFPI sobre a irregularidade das realizações dos concursos públicos realizados na UFPI. Segundo a ADUFPI o Decreto 6.944, de 21 de agosto de 2009 diz que as apresentações orais e as defesas memoriais devem ser gravadas, para avaliação posterior. Isso visa que a cúpula administrativa não manipule livremente os resultados dos concursos, pois os critérios usados para formação das bancas, são basicamente: ser amigo do rei ou amigo de um amigo do rei.

Mais agressão

As manifestações pedindo estrutura mínima de estudo continuam acontecendo no campus de Parnaíba. Ao saberem da presença do reitor na cidade, os estudantes paralisam o carro do magnânimo quando ele se dirigia para a inauguração do Restaurante Universitário e quando menos esperavam, foram agredidos por seguranças ao mando do reitor. Outros estudantes tentaram se aproximar, para pedir explicações sobre a situação precária dos seus cursos e foram também recebidos com agressões.

Oficialmente a UFPI negou através de nota ter ocorrido alguma agressão, o mesmo que aconteceu em 2009, mas ao menos os guardas que agrediram os alunos em 2009 foram condenados, desmentindo a nota emitida pela instituição. O reitor se negou a conversar com os alunos, mesmo que antes tenha prometido realizar uma audiência. Foi embora do campus após a inauguração do RU ter ocorrido debaixo de intensa vaia do começo ao fim, um demonstrativo da insatisfação dos estudantes de Parnaíba, que o fez correr de volta pra Teresina onde fica mais seguro.

A Direção do Campus de Parnaíba, as únicas pessoas que tiveram a “honra” de entrar em dialogo com o Reitor no momento da inauguração do RU de lá, ainda tiveram o disparate de mandar uma nota de repúdio à manifestação dos estudantes, se referindo a ela como “desrespeitosa” e “ilegítima”. Pois, segundo a direção, através da estratégia tecnocrática de vomitar números, o campus de Parnaíba melhora vistosamente se comparada com antes das eleições de Luiz Junior! O único problema seria que o número de alunos aumentou, como se isso não fosse algo causado justamente pela política do senhor autoritário reitor. Enfim, os mesmos problemas que Junior deixava subentendido em 2008 ao então Ministro da Educação, cabem nos benefícios que o Diretor do Campus diz ter sido garantidos com a existência do magnânimo.

No meio dessa confusão e agressão em Parnaíba, termina 2010 de forma obscura na UFPI.

2011 e os problemas atuais

Vou relatar agora brevemente alguns problemas que vi em 2011. O HU parece que depois de 20 anos em obras vai finalmente ser finalizado, porém, corre sério risco de uma privatização parcial por causa da MEDIDA PROVISÓRIA Nº 520, DE 31 DE DEZEMBRO DE 2010. Vai ter muito burburinho e provavelmente agressão nas manifestações.

O Espaço Cultural Noé Mendes, onde acontecem frequentemente as culturais, calouradas, enfim, os eventos dos estudantes da UFPI estava em reforma desde 2010, mas parece que também vai ser reinaugurado esse ano, após investimentos que chegam a 1,3 milhões. Só que também vai ser parcialmente privatizado. Antigamente para se usar o espaço, bastava um cheque calção, para cobrir eventuais custos, caso fosse necessário, mas o que consta no novo projeto do espaço é que vai ter que se pagar taxas de uso, um cheque calção absurdo, entre outras barreiras. Basicamente vai impossibilitar o uso de um espaço que é publico, por causa de taxas altíssimas que podem chegar a 1000 reais com facilidade. Enfim, uma putaria do caralho que certamente vai beneficiar o bolso de algum amigo do reitor. Em breve vai ter muita confusão por lá, disso não tenho duvidas, é só esperar.

As greves continuam intensas em Parnaíba por parte dos estudantes e o Reitor diz para a imprensa que não EXISTE problema nenhum no campus, e fica por isso mesmo. Nada muda por lá, mesmo marasmo e um canteiro de obras infinito.

A UFPI passou quatro anos expandido seu espaço e só agora tiveram a inteligente idéia de aumentar o número de subestações de energia elétrica. Ou seja, planejamento zero, caso a instituição estivesse realmente zelando por um desenvolvimento minimamente sadio isso deveria ter sido uma das primeiras coisas a ter sido construída. Parabéns Reitor e equipe.

Não é só o Reitor que é problemático, basicamente todos aqueles que estão lotados em cargos de confiança, que são os mais importantes e bem remunerados da Universidade, partilham de seu autoritarismo. Como exemplo cito a Prof.ª Dr.ª Antonia Dalva França Carvalho, chefe da comissão de currículo da UFPI e Coordenadora institucional do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID que vem usando de sua autoridade para de forma vexatória ameaçar e inibir professores e estudantes da instituição. Temos o caso do curso de história, que nunca teve seu novo currículo aprovado nos últimos sete anos, apenas por má vontade da referida professora com o curso. Essa mesma senhora é responsável por me reprovar no primeiro período de 2010 em Psicologia da Educação 1 apenas porque a desafiei em sala de aula, dizendo que sua aula era adestradora, antiquada e positivista, após ELA mesma me perguntar diante da turma. Lembro também que ela ameaçou reprovar em sala de aula quem falasse mal do rei-THOR. Uma vergonha pra uma instituição democrática e produtora de conhecimento… em teoria.

Enfim, já chega, esse post vai ficar gigante assim mesmo, pois é um dossiê sobre as atitudes do crápula.

Por causa de tudo isso que falei até aqui é que ando insistindo nessas ultimas semanas com a tag #FORAREITORUFPI e vou continuar por um tempo se você puder ajudar, seria ótimo!


[1] http://180graus.com/politica/reitor-da-ufpi-e-acusado-pelo-mp-e-a-folha-de-sp-repercute-80467.html

[2] http://www.portalaz.com.br/noticia/geral/97842/623

[3] http://www.cidadeverde.com/ufpi-reitor-diz-que-e-falta-de-noticia-acusacoes-do-mpf-31269

[4] http://www.ufpi.br/cecli/arquivos/file/guia_aluno.pdf

[5]http://www.portalaz.com.br/noticia/municipios/137483_sem_estrutura_estudantes_iniciam_greve_na_ufpi.html

[6] http://180graus.com/geral/reitor-da-ufpi-acusado-de-suposto-desvio-de-r-1-milhao-285265.html

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