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Gotham City Contra o Crime – Meia Vida

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Renee Montoya é uma coadjuvante recorrente na mitologia do Batman, nasceu na celebrada adaptação animada de 1992, foi rapidamente transportada para as páginas das HQs em Batman #475, na história “O Retorno de Scarface”, escrita por Alan Grant.

A personagem ganhou notoriedade ao protagonizar o arco “Meia Vida”, da série ganhadora de diversos prêmios “Gotham Central” (publicada aqui no Brasil pela Panini Comics como “Gotham City contra o Crime”).

Gotham Central surgiu da parceria dos roteiristas Ed Brubaker e Greg Rucka, em uma premissa similar a seriados policiais, a trama contou ao longo de quarenta edições diversas histórias estreladas pelos policiais de Gotham City.

A série não apenas buscou explorar o papel da profissão em uma cidade notória por seus vigilantes mascarados e vilões psicóticos, como também se aprofundou na intimidade de seus personagens, tecendo rotinas, laços familiares, relacionamentos e comentário social.

Em “Meia Vida”, que corresponde às edições #6-10 de Gotham Central, Renee passa a ser perseguida por um detetive particular e tem aos poucos sua intimidade invadida, no desfecho de uma das edições, uma fotografia de Renee mantendo relações com outra pessoa do mesmo sexo é exposta para seus familiares e colegas de trabalho.

É aqui que o roteirista Greg Rucka transpõe um dos retratos mais fidedignos da realidade para as revistas em quadrinhos, com sua predileção sexual revelada contra sua vontade, Renee é alvo de preconceitos e chacotas por parte de seus colegas no distrito policial.

A situação de nossa protagonista se complica ainda mais quando o detetive particular que investigava a sua vida íntima é assassinado e graças a evidências plantadas, ela se torna a única suspeita do crime.

Um dos diálogos chaves da edição é a conversa entre Renee e sua oficial superior, Maggie Sawyer, toda  construída sob a retórica do “don’t ask, don’t tell” norte-americano.

Renee argumenta perante Maggie – homossexual assumida – que o problema não se resume apenas a homossexualidade de uma pessoa, mas também o julgo da cultura, etnia e laços familiares dela.

A pressão familiar contra sua sexualidade é explorada ao longo das cinco edições, a família Montoya, composta por imigrantes dominicanos e católicos fervoroso, insistem que logo ela estará “velha demais para ter filhos”, enquanto os pais comentam com pouco caso o comportamento promíscuo de seu outro filho.

No desfecho do arco, Renee esclarece e “sai do armário” para seus parentes, no fim da conversa, “Meia Vida” termina em lágrimas, nem todas de alívio.

A arte, que fica por conta de Michael Lark segue o padrão das edições anteriores, tons pastéis e closes fechados, retratando uma Gotham intensamente urbana e suja. Em uma cidade povoada por milionários e femme fatales, Renee é traçada como humilde e tímida.

O arco “Meia Vida” é responsável em 2004 pela conquista dos prêmios Eisner de melhor história serializada e o Harvey de melhor história individual ou série, além do Gaylatic Spectrum Award, uma premiação de ficção fantástica destinada a histórias que retratem homossexuais de forma construtiva.

Aqui no Brasil o arco saiu no encadernado “Gotham City contra o Crime Vol. 2 – Meia Vida”, em acabamento de brochura contendo 148 páginas, por R$14,90, podendo ser facilmente encontrado em lojas especializadas e convenções de HQs.

Lançamento do livro “Vagabundo sem nome”!

Dando mais uma amostra de vasta influência cultural deste blog e do profundo esforço intelectual dos autores do mesmo, o nosso querido Agostinho Rodrigues Torres (vulgo Agrt) lançou no última dia 16 (estamos no mês de setembro do ano de 2011, caso esteja acessando este blog após o fim do mundo em 2012) o seu romance “Vagabundo sem nome” e posto abaixo dois vídeos dele comentando sobre o que fala sua obra e do processo para escrevê-la.

Parte 1

Parte 2

Parabéns e ficamos na espera de quando vai vender pro país todo, né?

PS: Agradecimentos especiais ao Vinícius pela filmagem!!

Minha experiência com as HQs digitais da DC Comics

Quando o iPad foi lançado, não demorou muito para a mídia especializada em HQs explorar o potencial deste gadget para o meio, com as editoras líderes do mercado, Marvel e DC, tomando a dianteira da situação. Em suma, é um fenômeno muito similar ao que acontece com periódicos e jornais, mas como encará-lo? É apenas uma transição do papel para o digital, ou existe algo mais? Quais são os benefícios? Principalmente para o consumidor brasileiro, que consome o bizarro esquema de mixes encabeçado pela Panini Comics?

O que me levou a ler HQs no iPad foi uma questão de necessidade.  Quando eu buscava encadernados mais antigos de títulos da DC Comics na Amazon, encontrei uma série de dificuldades para aquisição, quando um título não era usado, a loja afiliada não trabalhava com encomendas internacionais, isso sem citar a questão do preço, principalmente para edições mais “queridas” por sebos e colecionadores.

Tendo ciência da dificuldade, complexidade e falta de conveniência na situação, eu lembrei da app da DC Comics que tinha instalado por curiosidade no meu iPad há tempos atrás e resolvi dar uma conferida, e posso dizer leitores, me surpreendi com o que eu vi.

Para ter acesso é preciso se cadastrar no serviço, as informações de cartão de crédito são puxadas daquelas que você cedeu ao criar sua conta na App Store, e por falar em compras, aqui vem a primeira vantagem da leitura digital: o preço. Cada HQ digitalizada custa de U$1,00 a U$3,50, em tempos que o Dólar se encontra a U$1,65 o impacto das despesas não é alarmante se compararmos, por exemplo, à compra de hardcover na Livraria Cultura.

Por comparação, vamos analisar a recente saga “Blackest Night”, originalmente dividida em oito edições, cada uma custando U$3,50 (e No Brasil, R$7,50 pela Panini) no App observamos uma economia de U$0,50, com a saga completa, é feita uma economia de U$4,00. E com U$4,00 é possível comprar mais uma edição “recente” de qualquer série, ou duas mais antigas e se bobear, até mais, dependendo do título que procura.

Isso se dá em grande parte pela ausência de custos gráficos e logísticos, o que diminui o preço final, essa a economia fica ainda mais evidente em títulos antigos, com HQs custando U$1,00 é possível ler sagas inteiras, já o custo para a aquisição de uma cópia física daria acesso a muito menos conteúdo.

Outro benefício é que o consumo se torna mais seletivo, já que uma das desvantagens do mercado “físico” nacional é o formato conhecido como “mix”, onde uma revista tem um carro chefe e geralmente é acompanhada por mais outras duas publicações de qualidade inferior, obrigando, de certa forma, o leitor de HQs a consumir algo que não necessariamente deseja.

A terceira grande vantagem na leitura digital é a conveniência e facilidade de acesso a uma vasta biblioteca de títulos, sem que exista a necessidade de procurar mais em sebos ou lojas virtuais de procedência duvidosa.

Porém, a grande questão é: e a nostalgia de ler em papel? Sim, a primeira instancia, também compartilho a opinião que ler livros no PC é incômodo, principalmente para a vista e a coluna, sem contar que atrapalha o exercício de concentração, mas para HQs em um tablet a situação é outra.

A leitura no iPad é confortável, inclusive no manuseio, preocupado com o nível de interatividade, o App propícia um dinamismo à leitura, a diagramação das páginas e a ordem dos quadrinhos é seqüenciada, o que torna a leitura mais focada e agradável, inclusive com zooms e ampliações panorâmicas, o que adiciona dramaticidade a leitura.

O único contra-tempo aqui é que em muitos casos, o zoom estoura os pixels das páginas, isso é ainda mais comum em publicações antigas, os mais tradicionais não precisam se descabelar, pois a leitura tradicional da “página inteira” também pode ser empregada.

Quando a DC Comics anunciou o seu “New 52”, a mudança não era apenas uma reforma editorial, mas também um novo posicionamento no mercado. Se por um lado “resetar” as histórias daria um ar mais acessível para uma nova geração, por outro, a empresa, ciente do crescimento da chamada “geração touch”, resolveu que a distribuição digital seria simultânea aos lançamentos físicos.

Porém o mais preocupante não se encontra no App da DC, mas na aquisição de um tablet no Brasil, que como todo produto eletrônico, ainda se encontra sujeito a pesados impostos tornando o formato físico, ainda que com todos os pesares da produção editorial nacional, a alternativa mais viável. Para o pequeno nicho que tem acesso, recomendo pela experiência, conforto e conveniência, e aproveito para deixar meus parabéns à DC, que embora tenha dado início a uma controversa reformulação, em nível de mercado se provou pioneira e atualizada.

Supergods: O que um careca escocês pode nos ensinar sobre quadrinhos?

Se você pegar o encarte de Supergods, o primeiro livro do escritor Grant Morrison, vai encontrar a seguinte citação de Stan Lee: “Grant Morrison is one of the great comic writers of all time. I wish i didn’t have to compete with someone as good as him” se Jack Kirby estivesse vivo, provavelmente diria: “cai dentro!”, mas a verdade é que sem Lee ou Kirby, não existiria Morrison, ao menos não da forma como conhecemos.

Supergods é a primeira empreitada do escocês careca na literatura convencional, neste livro, o mesmo busca desenvolver – sem pretensões acadêmicas – suas visões profissionais, ideológicas e espirituais sobre o meio, analisando o espírito de cada época assim como desenvolvendo um paralelo biográfico.

O livro começa no início do século passado, no auge dos males daquela época, a Grande Depressão, a Bomba e a sombra de Adolf Hitler pairando sobre a Europa e assim Morrison toma seu tempo para explicar, de forma empolgada e eletrizante, o advento do Super-homem e o início da Era de Ouro das HQs.

Logo de cara, podemos detectar a principal falha do livro, a constante perda de fôlego que Morrison exibe em sua dissertativa, capítulos como “The Sun God and The Dark Knight” ou “Superpop” apresentam não apenas um nível alto de argumento, como também humor e atmosfera, mas em compensação, em demais outros, o escocês patina, como se entrasse em um modo automático, preenchendo lacunas até chegar em um ponto mais pertinente.

É espantosa a intimidade do autor com o meio, conhecendo a essência criativa por trás das principais obras e as motivações dos escritores e desenhistas da época, Morrison inclusive, trata com carinho períodos “negros” da indústria, como a Era de Prata, enfatizando o esforço criativo da época em contornar ou criticar o Comics Code Authority.

Interessante analisar como Morrison “distribui” a culpa dos eventos que levaram à Era de Prata, não apenas evidenciando de forma sardônica certos sentimentos enrustidos de Frederic Wertham, autor do controverso “Sedução dos Inocentes”, onde argumenta que a degeneração moral da juventude norte-americana se encontra, em partes, nas HQs.

Assim como a indústria de HQs na época, incapaz de realizar uma contingência de reação perante a opinião pública e o próprio declínio criativo dos artistas da época.

Entre os capítulos mais louváveis dessa fase, é “Shamans of Madison Avenue” e o surgimento de New Gods por Jack Kirby e o início da “meta-espiritualidade” nas HQs e “Brighest Day, Blackest Night” onde Dennis O’Neil em Green Lantern/Green Arrow evidenciou as inquietações sociais americanas e mostrou o quanto isto era contraditório à proposta do CCA.

Para os leitores atuais, é engraçado perceber como Morrison evita comentar sobre a Marvel Comics, como se o autor – por uma série de razões até mesmo editoriais – se sentisse desconfortável para comentar sobre a editora concorrente.

Claro, o livro não deixa de dar mérito pra importância de títulos como Fantastic Four, Spiderman e Captain America, mas como o próprio Morrison afirma em suas notas biográficas, ele achava que os títulos da Marvel tinham uma certa dose de realidade que ele considerava intragável para sua infância.

E o mesmo reconhece que foi em Stan Lee, que surgiram diversas das suas inspirações, como a idéia de trabalhar metalinguagens em trabalhos como Animal Man e Doom Patrol na DC/Vertigo.

A parte biográfica é um show a parte, e em diversos momentos considerei mais atraente que a própria proposta do livro, desde sua infância pacata em Glasgow, o crescente tédio na adolescência, o divórcio de seus pais e sua inevitável empreitada no mercado editorial, assim como o início da fama, com Zenith na 2000 AD, seu contato com as drogas, o vegetarianismo, as experiências lisérgicas e sua primeira crise existencial, há quase duas décadas atrás.

Claro que o livro reflete os maneirismos criativos de Morrison, a relação entre espiritualidade e cultura pop é amplamente explorada, exemplos como o dualismo Apolo/Dionísio entre Superman/Batman, a questão de símbolos e palavras mágicas e ai o mesmo argumenta que Captain Marvel, ao pronunciar “SHAZAM”, se tornou o primeiro grande xamã da ficção moderna.

A verdade é que, tirando suas discussões sobre a Era de Ouro e de Prata, se o leitor conhece a obra recente de Morrison, então pouco sobra do livro, em muito, o livro é considerado um manifesto em prol da edificação do arquétipo super-heróico.

Na terceira parte do livro, Morrison prefere chamar a “Era Moderna”, iniciada por Frank Miller e Alan Moore como a “Era das Trevas”, onde se deu início a uma obsessão pelo “realismo” nas histórias, trazendo o vício insalubre que ficou conhecido pela crítica como “grim n’ gritty”

Morrison condena o “realismo” por duas instâncias: primeiro, pois ele é fruto de uma mente adulta e limitada pelas vicissitudes do cotidiano adulto, e que, por fim, o mesmo não passa de um exagero de violência e repreensão sexual que visa não transformar as histórias em algo real, mas sim “desmoralizá-las”.

E ai o escritor reforça sua crítica em cima de “Watchmen”, onde de forma ambígua, elogia o esforço criativo de Alan Moore em talhar sua história em uma “perfeita simetria”, mas condena a obsessão do barbudo com suas personagens, deixando bem claro que “realismo” não é sinônimo para “fatalismo”, “humanizar” personagens não é o mesmo que “humilhar”.

Alguns fóruns acusaram que o livro, levando em conta a recente reformulação do Universo DC, se tornou um golpe publicitário, é importante frisar que Morrison tem dado uma série de entrevistas sobre o futuro criativo da editora, roteirizando três dos personagens mais importantes da editora, a famosa “trinidade” composta por Superman, Wonder Woman e Batman.

Em diversos momentos, Morrison argumenta a inspiração popular, quase socialista do Superman de 1938, assim como os fetiches BDSM de William Moulton Marston, o escritor original de Wonder Woman, idéias que ele afirmou que vai retomar e por em prática em trabalhos futuros.

Não é mentira que a ascensão do escocês tem causado incomodo no público e na mídia, vamos ser sinceros quanto a um ponto, Grant Morrison é um nerd que vive seus quinze minutos de fama, com livro e documentário, onde muitos optariam por sofrer uma “síndrome do undeground”, Morrison busca através dessa visibilidade dar uma projeção maior a seus projetos e idéias.

Supergods é o início do que pode ser o “próximo passo” do mercado de HQs, da mesma forma que Kirby, Lee, O’Neil, Moore, McFarlane e tantos outros contribuíram com o futuro do meio, só o tempo poderá nos dizer sobre o êxito dessa empreitada.

Ficam aqui meus votos para o fim dos anti-heróis carrancudos e a volta das capas esvoaçantes e heróis sorridentes, assim como no passado, esses são tempos em que mais do que nunca, precisamos deles novamente.

Big Sur e a maldição de On The Road

“A sabedoria é só um outro jeito de fazer com que as pessoas adoeçam.” – Jack Kerouac

Passaram-se somente algumas horas desde que terminei de ler o livro “Big Sur” de Jack Kerouac. Confesso fiquei muito surpreso com o foco da narrativa, é inteiramente inesperado em relação aos outros livros do “Rei dos Beats” e me vejo na obrigação de comentar algo. O livro é extremamente triste, denso, depressivo, não posso não resenhá-lo. Me pergunto: afinal, para que serve a merda de uma resenha? Para expor as obras a possíveis compradores? Parte externa do complexo editorial? Se for assim, os autores de resenhas são os responsáveis por colocar tantas obras geniais debaixo do tapete, por relegá-las ao esquecimento, como é o caso de Big Sur. Hoje em dia não é tanto assim, porém há 50 anos atrás uma tropa de críticos literários composta dos principais jornais de um país é que definiam aquilo que seria lido ou não. Big Sur só não é completamente esquecido porque é uma obra do Kerouac, e tudo do Kerouac vende como água até hoje, mas é um livro subestimado literariamente justamente por isso, as pessoas dizem: “ah, essa merda só foi publicada porque é do Kerouac”. O livro “Tristessa” sofre um processo similar. Mas porque isso?

Quando ouvimos o nome de Jack Kerouac nos vem a cabeça o livro “On The Road”, considerada sua obra-prima. Em On The Road acompanhamos Sal Paradise e Dean Moriaty (Kerouac e Neal Cassady) viajando os EUA de costa a costa por diversas vezes discutindo literatura e filosofia, tendo visões xamãnicas no deserto mexicano, misturando budismo e cristianismo numa síntese que pela primeira vez expõe os segredos do oriente, experimentando drogas (mescalina, heroína, ayahuasca, metanfetamina), fodendo diversas garotas em grupo, fazendo um monte de coisas non-sense, enfim, aproveitando cada instante da vida de uma forma intensa que era o oposto do padrão pretensamente puritano de vida americana na época. Era um Jack Kerouac jovem, pobre e fodido tentando sobreviver como escritor da maneira mais feliz possível em meio a toda aquela rigidez estadunidense do pós-Segunda Guerra Mundial e atolado nas merdas adversas do destino. A narrativa é fluída, como um quadro se descortinando em cores quentes diante dos nossos olhos, ou uma composição de blues recém improvisada na boca de um negro dos inícios dos anos 30. On The Road é uma ode à vida! É um tipo de livro que só pode ser escrito quando se é jovem (mas que pode ser livro por todas as idades sem qualquer sentimento de culpa). Mas lembremos que On The Road sofreu uma série de censuras, correções e modificações substanciais por parte da editora, o que o tornou de fato entre todos os livros de Kerouac no mais reacionário em termos de estética (mesmo que seja lembrado pela história como o “mais revolucionário da literatura americana moderna”).

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Em Tristessa e Big Sur temos uma outra faceta desse cara iluminado e sábio que elevou os Beats ao grupo de escritores de ponta da sociedade americana com On The Road. Em Tristessa Kerouac é um viciado em morfina e heroína vagando feito um zumbi pelo México na companhia (e tolamente apaixonado por) uma prostituta local, em meio a picos de drogas ele tem visões sagradas sobre as pessoas nas ruas, conversa com o gato, se vê perdidamente fora de si e compreende que na verdade não há nada fora do “eu”. Tristessa tem um fluxo narrativo levado mais a sério que On The Road, com frases que são cortadas pela metade pra dar vida a uma outra frase que surgiu na cabeça do autor no momento e ele quis colocar, é uma loucura pura. No entanto vou falar aqui mais de Big Sur, que pelo que pude entender é o penúltimo livro de Kerouac, mas o que encerraria quase de vez aquilo que ele denominou de “Saga de Dulouz” (que seria todos os livros dele colocado em ordem cronológica dos fatos e não de publicação).

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Em Big Sur temos um Kerouac decadente, velho e bêbado, angustiado pela sua fama. Jovens invadem constantemente a casa da sua mãe (onde ele mora) em sua procura, imaginando que ele ainda é o mesmo personagem de On The Road com 25 anos e rigor físico para delírios, quando ele na verdade já não tem mais tanta perspectiva, tanta paciência, em suma, não tem mais a ingenuidade da juventude. Para lidar com as desgraças advindas da fama ele se atola em bebidas, gasta muito dinheiro com produtos quase inúteis que só vai usar por um dia como ternos e calças para aparecer em programas de televisão, paga bebidas e jantares para desconhecidos, etc. Kerouac também passa a ficar paranóico, imaginando que as pessoas só estão a sua volta para tirar uma lasquinha do seu sucesso, pois estão o tempo todo lhe lendo poemas, pedindo para que ele aprovasse seus textos, etc. Enfim, o sucesso de On The Road o atormenta mais do que o faz bem, o Jack Kerouac real tem que escapar do assédio dos leitores que o consideram o homem mais iluminado do mundo todo dia, são pessoas lançando em cima dele suas esperanças em dias melhores, fugindo de suas responsabilidades e cultuando sua figura, o que apenas torna Kerouac mais e mais angustiado. Pensando em fugir disso tudo ele resolve passar umas semanas isolado numa cabana na região oceânica de Big Sur.

Kerouac já não é mais aquele jovem esperançoso, se antes lutava com as palavras para poder sobreviver financeiramente como escritor, agora se pergunta qual a finalidade de escrever já que palavras não são nada, a escrita se tornou uma prisão, uma maldição e ele passa a lutar CONTRA elas. Nesse ponto de desilusão com as palavras, ele tem certa similaridade com conclusões que levaram o poeta brasileiro Torquato Neto a se suicidar em 1972. Essa depressão fica clara nos trechos abaixo retirados de Big Sur:

“Você passou o verão inteiro aqui escrevendo os supostos sons das ondas sem perceber a seriedade mortal da sua vida e do seu destino, você é um idiota, um garotinho deslumbrado com um lápis, não tá vendo que você vem usando as palavras como se elas fossem uma brincadeira alegre[….] Que merda, estou de saco cheio da vida – Se eu tivesse um mínimo de coragem eu me afogaria naquelas águas cansadas mas não adiantaria nada, eu vejo os grandes planos e transformações virando gosma lá no fundo para nos atormentar com algum outro sofrimento miserável.”

“Mas você não vê que tudo isso se transformou em um monte de palavras vazias, agora eu percebo que eu vinha brincando como uma criança alegre com palavras palavras palavras em uma grande tragédia séria, olha ao teu redor!”

A fama foi destrutiva para Kerouac, se antes era alcoólatra se tornou um desregrado embebedado paranóico permanente. Diante de sua impotência frente aos problemas do mundo, ele só bebia e criava conspirações cósmicas de arcanjos e demônios que imaginava estarem tramando para prová-lo que viver é sofrer e por isso sua vida era horrível. Do outro lado da paranóia, as pessoas lançavam todas as esperanças numa coisa que ele não era, talvez nunca tenha sido!

“O rei dos beats”, era coisa do passado para Kerouac e as pessoas queriam obrigá-lo a ser aquilo o tempo todo. Sempre queriam conhecê-lo porque era o grande escritor americano doidão, e mesmo quando ele não queria receber ninguém as pessoas arrombavam portas e quebravam coisas para encontrá-lo. “O que ontem era belo e puro se transformou por motivos irracionais e inexplicáveis em um lúgubre tonel de merda.” Em outro trecho do livro, um amigo seu lhe diz algo como “você dizia que era o escritor mais genial do mundo” e ele responde “ai eu acordei e agora eu sei que não presto pra nada e assim me sinto livre”.

Big Sur não agradou as pessoas talvez porque não seja uma visão bem otimista das coisas. Um bêbado, paranóico, depressivo, velho, que vê tudo morrer a sua volta sem qualquer esperança de que as coisas vão melhorar, este é um resumo do livro. Morre seu gato, uma lontra, um rato, um peixe, etc. durante a narrativa, e por cada morte que presencia, Kerouac se culpa, as coisas só morrem por que existem e só existem porque ele existe já que tudo está conectado, ele é a causa de toda a dor e mesmo assim as pessoas insistem em olhá-lo como se fosse um santo iluminado. A palavra idiota para se referir a si mesmo é usada inumeráveis vezes, acho que a cada 5 páginas ela aparece! É um livro que vale muito a pena se ler, principalmente depois de da leitura de On The Road e Vagabundos Iluminados, é um contraponto ao otimismo dos dois, então ajuda a pensar nas próprias contradições que todos somos.

Big Sur é um painel sombrio sobre a geração Beat, longe do glamour e da sabedoria radiante. Se On The Road foi uma previsão xamãnica da sociedade hippie que se deflagraria nos anos 60, Big Sur foi uma previsão da ressaca cultural/social da onda hippie que só viria acontecer no final dos anos 70 com a geração punk/pós-punk. O que para mim deixa claro que Kerouac sempre esteve nas rédeas de seu tempo.

Infantaria, Traumas e Robôs Gigantes

Para quem ainda não sabe, a etimologia da palavra “infantaria” tem origem na antiguidade, os “infantes”, eram literalmente, jovens rapazes recrutados para participar da vanguarda de seus exércitos, antes da conscientização do papel da criança na sociedade, culturas ancestrais retiravam púberes de seus lares para passarem por intensa doutrinação militar, tendo na história seu exemplo mais notável a cultura espartana. Se pararmos para pensar, eles eram os primeiros a encontrar combate, a tropa de choque, os despreparados, vulgarmente conhecidos como “bucha-de-canhão”.

Hoje em dia ainda observamos esse tipo de fenômeno em conflitos, não é nenhum assunto velado de episódios de milícias compostas por crianças na África, ou até mesmo adolescentes e jovens adultos em grupos extremistas como Talibã e Al Qaeda.

Entre os fãs de animação japonesa e mangá, sempre existe a piada relativa ao clichê da “jornada do herói”, onde um garoto é recrutado por uma autoridade e ao mesmo é dada uma arma poderosa capaz de aniquilar o inimigo. Na opinião de muitos, isso é uma manobra de marketing dos estúdios japoneses para alcançar empatia de seu público alvo, garotos de idade colegial, muitas vezes tímidos, com dificuldades para compreender seu papel em meio tamanha responsabilidade.

Efeito semelhante acontece nas escolhas de design para as tais “armas”, Yoshiyuki Tomino criador da série Mobile Suit Gundam, comentou o quanto a BANDAI amenizou a aparência de seus robôs para as audiências infantis, adicionando cores e outras peculiaridades que normalmente seriam não-ortodoxas para um equipamento bélico.

(Ou não, se levarmos em consideração o aspecto “vanguarda” da infantaria, soldados que atraiam a atenção do fogo inimigo para si…)

A “metáfora da infantaria” é comum no universo de Mobile Suit Gundam, em sua primeira encarnação, a tripulação da nave White Base é majoritariamente composta de civis e adolescentes, tendo como protagonista o jovem Amuro Ray, que se vê de forma forçada a começar uma carreira militar aos 15 anos de idade, pilotando o lendário RX-79.

Imaturo, Amuro Ray aos poucos entende a natureza da guerra, desenvolvendo traumas, encarando a inevitabilidade da morte e os joguetes políticos por trás dos conflitos, embora seja a “estrela” do desenho, Amuro (assim como diversos outros que o sucederam) eram apenas crianças, peões em um tablado de xadrez, gostaria de ressaltar que este tipo de fatalismo é recorrente no trabalho de Yoshiyuki Tomino, as séries Gundam costumam ter uma contagem de corpos alta em seu término.

Um exemplo – tão gritante quanto Gundam – se encontra no trio de Neon Genesis Evangelion, onde por razões científicas, apenas um grupo seleto de crianças podem pilotar o andróide Evangelion, a última esperança da humanidade, os traumas psicológicos e o confronto com a inevitabilidade são visíveis em Shinji Ikari, órfão de mãe, temeroso ao pai distante e apático – responsável pelo programa que o recrutou –  Asuka Langley e seu problemático complexo de Édipo, e Rei Ayanami, o maior exemplar de “infantaria” da série, desumanizada e objetificada (fora e dentro da série, inclusive por um fandom moe, coisa para se pensar) luta para encontrar algum sentido na vida além do amor possessivo de Gendo Ikari.

Shinji Ikari é o inverso do arquétipo do herói, ele é essencialmente covarde e emocionalmente imaturo, ainda assim, compelido para dentro do conflito, cada vez mais prensado por forças maiores que a vontade dele.

É interessante este caráter “objetificante” em ambas as séries, onde para os “adultos”, eles não são crianças, quiçá seres humanos, mas sim componentes necessários para se alcançar um objetivo maior – e muitos vezes, irrelevante a ótica infantil –

Em Gundam, o comandante Noa Bright é responsável em exercer um papel paternal perante Amuro Ray (e Kamille Bindan, Judau e tantos outros…), em Evangelion, graças a natureza esotérica do EVA, existe a concepção de “voltar ao útero” toda vez que Shinji e cia. passam a pilotar, é como se fossem protegidos pelo colo maternal de todo e qualquer perigo externo.

Se em Mobile Suit Gundam, Amuro e cia. experimentam uma passagem forçada na vida, em Evangelion existe aquela frívola busca por uma vida conciliatória, onde seus personagens intercalam exercícios militares com uma rotina escolar, tentando buscar humanidade no cotidiano, apenas para terem a mesma arrancada no próximo conflito.

Tanto Amuro Ray quanto Shinji Ikari passam a serem temidos pelos colegas graças ao papel “desumanizante” que desempenham, Amuro Ray como o primeiro de muitos a serem considerados “newtypes”, um salto evolucionário do ser humano condicionado a vida no ambiente espacial e Shinji como o piloto de uma arma de destruição em massa (e posteriormente, em seu papel central no Projeto de Instrumentabilidade Humana).  

Este tipo de situação não é exclusiva a cultura pop japonesa, analisamos dois fenômenos literários recentes, Harry Potter e Crônicas de Fogo e Gelo, no primeiro, um jovem de 11 anos é jogado em meio a mundo fantástico, porém igualmente sortido a medida em que amadurece e sua ingenuidade é abandonada (e até mesmo questões como se a Armada Dumbledore possa ser ou não considerada uma “infantaria”).

Em Crônicas o choque é ainda maior para quem – assim como eu – conheceu a através de sua adaptação pela HBO, se na série de televisão, personagens como Robb Stark e Daenerys Targeryan aparentam quase seus vinte anos de idade, nos livros, nenhum deles passam dos quinze anos de idade, demonstrando um caráter verossímil a nossa cultura medieval.

Sim, estamos falando de Daenerys, engravidando de Khal Drogo aos treze anos de idade…

Sobre Bukowski e “Pergunte ao pó” de John Fante

Confesso que demorei muito tempo para começar a ler Bukowski, o motivo? No meu círculo semi-social os leitores de Bukowski odeiam os Beats, consideram o “intelectualismo” de Burroughs e o zen-budismo de Ginsberg e Kerouac uma farsa/auto-enganação literariamente lucrativa. Eles cultivaram um ódio principalmente por Ginsberg e Burroughs, que foram severamente criticados por Bukowski porque misturavam “artificialmente” sua literatura com movimentos sociais, nas palavras do bêbado em “Notas de um Velho Safado”:

“Eles passeiam pelos parques com o ídolo de Che, com fotografias de Castro em seus amuletos, fazendo OOOOOOOOMMMMMOOOOOOOMMM enquanto William Burroughs, Jean Genet e Allen Ginsberg os lideram. Esses escritores ficam delicados, malucos, uns cocozinhos, umas fêmeas – não homos mas fêmeas – e se eu fosse tira eu não hesitaria em lhes cacetear os seus cérebros confusos.”

Pois bem, como já havia lido e era apaixonado principalmente pelo modo de escrita dos três beats, sendo também estudante dos movimentos sociais dos anos 60/70, criei uma barreira que me impedia de ler Bukowski. Assim como os beats pareciam artificiais para alguns o fodedor de bocetas e velho bêbado me parecia um tanto quanto canastrão, aquela pose de macho ômega e drogado que os leitores me passavam do cara me privou por muito tempo de lê-lo. Hoje em dia já pego livros do Bukowski e entendo sua grandiosidade, não exatamente literária mas de capacidade expressiva, e encontro inclusive sincronia com os próprios beats que ele tanto criticava!

Graças a Bukowski conheci a literatura de John Fante e por conseguinte chegou às minhas mãos o livro “Pergunte ao pó”. O prefácio, escrito por Bukowski, nos convence que “cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção.” E não é que a porra do livro realmente é tudo isso?

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“Pergunte ao pó” nos conta a história de Arturo Bandini, alter-ego de John Fante, um escritor que só havia publicado um conto em toda sua vida e como ele enfrenta sua pobreza e sua idiotice intelectual. Um dos centros principais da narrativa é como Arturo Bandini chega a escrever suas histórias e se apaixona por uma mestiça indígena. Preconceituoso, racista, confuso, virginal, religioso Arturo entra em parafuso por causa de sua paixão por Camilla, uma relação ambivalente de desprezo, masoquismo emocional e idolatria. Sua deusa “maia” e ao mesmo tempo uma pobre mestiça que trabalha de garçonete e usa sandálias asquerosas.

A saga de um escritor buscando seu espaço no fétido mercado editorial e lutando contra os deuses da criatividade, isso resumiria porcamente “Pergunte ao pó”, um livro que pinta em tons intensos traços de pensamentos de alguém muito distante temporalmente mas que poderia ser qualquer um de nós. Um dia Arturo Bandini está pobre, no outro ganha 130 dólares por um conto e em menos de uma semana depois já está novamente fodido porque não controlou seu dinheiro. O personagem é inseguro, não tem certeza de nada que está fazendo, aliás, apenas que quer ser escritor, esta é sua única certeza.

A sinceridade com que assume suas contradições é a principal atração do livro, um trecho em especial basicamente me pediu que fosse citado:

“Não li Lenin, mas o ouvi citado: a religião é o ópio do povo. Falando comigo mesmo nos degraus da igreja: sim, o ópio do povo. Quanto a mim, sou ateu: li O anticristo e o considero uma obra capital.

Acredito na transposição de valores, cavalheiro. A Igreja precisa acabar, é o refúgio da burroguesia, de bobos e brutos e de todos os baratos charlatães.

Puxei a imensa porta, abrindo-a, e ela emitiu um pequeno grito como um choro. Acima do altar, crepitava a luz eterna vermelho-sangue, iluminando em sombra carmesim a quietude de quase dois mil anos. Era como a morte, mas também me fazia lembrar de bebês chorando no batizado. Ajoelhei-me.

Era um hábito, ajoelhar. Sentei-me. Melhor ajoelhar, pois a pontada aguda nos joelhos era uma distração da terrível quietude. Uma prece. Certo, uma prece: por motivos sentimentais. Deus Todo Poderoso, lamento ser agora um ateu, mas o Senhor leu Nietzsche? Ah, que livro! Deus Todo Poderoso, vou jogar limpo nesta questão: vou Lhe fazer uma proposta: Faça de mim um grande escritor e eu voltarei à Igreja. E lhe peço, caro Deus, mais um favor: faça minha mãe feliz. Não me importo com o Velho; ele tem seu vinho e sua saúde, mas minha mãe se preocupa tanto. Amém.”

O nome “Pergunte ao pó” se refere aos desertos que predominam no ambiente de Los Angeles e Califórnia. Certos momentos, quando o livro tira um pouco o foco de Arturo, o principal personagem é o deserto. Esse lugar silencioso, monótono, desolador e seco que sempre esteve presente no planeta e estará até o seu fim, homens e civilizações passaram e o deserto permanecerá. Quem sabe um dia o deserto vai dominar todo o mundo, se pergunta em certo momento John Fante, vai engolir todos os outros ecossistemas. E isso não tem a ver com poluição, camada de ozônio, não… é porque o deserto foi feito para reinar, para atrapalhar, a única coisa que é constante no mundo é a areia do deserto.

John Fante não é um bêbado e fodedor de bocetas como Bukowski, nem um santo vagabundo iluminado como os beats, mas é um escritor filho da puta e tanto. Vale muito a pena ler, embora o livro não seja regado de visões de paraísos, sexo e uso de drogas, não é uma São Francisco hipster (hippie), nem uma Nova York nojenta, mas uma Los Angeles que só existe para um individuo: Arturo Bandini, o escritor fraco e imbecil que sonha em viver de suas palavras e possuir sua princesa maia Camilla.

O Fim da Mordaça dos Quadrinhos

[Texto originalmente publicado no Farrazine #20, 21 de fevereiro de 2011]

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Os EUA são um lugar bem estranho: possuem uma cultura recheada de incentivo a uma violência velada em seus meios de comunicação de massa, mas ao mesmo tempo hesitam em falar abertamente sobre sexo, por exemplo. E qualquer um com um mínimo de conhecimento em comportamento animal sabe que violência – por qualquer razão, mas principalmente por território e hierarquia – e sexo são praticamente instintivos. Os EUA, assim como a maioria das democracias ocidentais (e dos Estados em geral), gostam de repressão e de políticas de combate, de apontar culpados ao invés de tentarem olhar para as causas do problema. É como culpar as chuvas pelas contínuas enchentes e soterramentos de uma área serrana, sendo que a construção de casas nessas áreas termina por destruir a vegetação que mantém a terra firme.

Tal comportamento, segundo a Etologia, é derivado de instintos primatas que todo o ser humano possui. É só observar um gorila líder de um bando; quando ele se sente ameaçado ele acha o líder de um bando mais fraco e o ataca, como que colocando a culpa de seus problemas nele. Atacar física e psicologicamente é interpretado como um sinal de força e termina por desviar a atenção do bando para um possível problema mais complexo. Bata publicamente em algo e tá tudo certo, é assim que a maioria dos ditadores são seguidos quase cegamente por seus súditos. A ascensão de Hitler e Stalin (ou qualquer outro) não difere da da tomada de poder de um gorila ou um elefante em seu bando. Da mesma forma não diferem as posições autoritárias que eles assumem em seus discursos. Esse é um dos motivos para as duas grandes religiões do mundo serem basicamente repressoras e monoteístas. Elas ensinam como a autoridade suprema não deve ser contestada e ainda criaram um inimigo que pode ser culpado de tudo: o Diabo e suas variações. Tais constatações parecem excessivamente metafísicas, longe do nosso dia-a-dia, mas tem mais similaridade com coisas bem próximas a gente do que se pode imaginar. Uma delas o leitor de quadrinhos conhece bem: o Comic Code Authority.

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Alan Wake – os games e as narrativas literárias

Por Eder Alex

Um escritor de best sellers passa por uma crise criativa e resolve se isolar numa cabana à beira de um lago. Ele pretende encontrar um pouco de paz para voltar a escrever, mas o lugar nada tem de tranquilo e logo fatos estranhos começam a acontecer, fazendo com que ele questione a própria sanidade. Esta é a sinopse do conto “Janela secreta, secreto jardim”, de Stephen King (que foi adaptado para o cinema como Secret Window e estrelado por Johnny Depp). E então você questiona: o que uma obra literária tem a ver com o game Alan Wake? Resposta: Tudo, ou quase tudo.

O enredo difere um pouco, mas o clima sombrio é o mesmo. No livro o personagem descobre que está sendo traído e então parte sozinho para a cabana. Já no jogo – que é inspirado em diversas obras de suspense. King, inclusive, chega a ser citado por um dos personagens – Alan Wake precisa encontrar não só a sua criatividade, como também a sua esposa, que desapareceu assim que eles chegaram à estranha cidade de Bright Falls. Montanhoso e sombrio, o lugar é uma referência à Twin Peaks, série criada por David Lynch no início dos anos 90.

A mecânica do jogo apresenta alguns problemas. Os inimigos, espíritos de lenhadores e pássaros assassinos (Hitchcock ficaria orgulhoso), são sempre os mesmos, o que torna a experiência um pouco cansativa. Outro aspecto negativo são as “missões”, pois são tarefas muito simples (pegar uma chave na casa ao lado para abrir uma porta qualquer) que não exigem muito raciocínio para serem resolvidas.

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Porque eu sou um autor raso

Aproveitando o gancho de que em breve meu livro será lançado e a deixa que o Zaratrustra deixou para mim em seu comentário sobre o release do meu livro neste blog, vou discorrer sobre um assunto que me acompanha faz um tempo: punheteiros literários me taxarem como autor raso ou pouco profundo com se isso fosse um defeito.

Na primeira ocasião em que eu li isso, havia postado uma fanfic no fórum TibiaBR (sobre o MMORPG Tibia). Era um conto sobre dois magos tendo que roubar um importante livro de uma biblioteca para o serviço secreto de sua nação. Tudo ambientado no universo do jogo, com direito a cidades, NPCs e seus traços típicos e outros “easter eggs” para os fãs. E aí vem um babaca e me diz que meu texto é “pouco denso e muito rápido”. Ele inclusive me sugeriu ler a fanfic dele para eu ter “idéias de como melhorar meu texto”.

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