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Sexo, Saquê e Zen: a história e influência de Ikkyu Sojun na arte e espiritualidade japonesa

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Publicado originalmente em Disinformation – Sex, Sake and Zen

O que intriga a maioria dos ocidentais é a reputação que o zen-budismo tem como antiautoritário, liberal e individualista. Esta noção foi reforçada por escritores como Alan Watts, que expôs o zen como algo relaxado e sem preocupações.

Porém, basta uma breve visita a qualquer tempo zen-budista para ilustrar a terrível diferença entre as expectativas e a realidade. Os cotidianos nesses templos costumam ser, em fato, estruturados, regimentados e fortemente organizados, dissipando qualquer traço de romantismo criado pela literatura.

Longe das interpretações de moimentos como o new-age e o hippie, a disciplina zen é exigente e severa.

Porém, às vezes, mesmo estereótipos errados podem nascer de fatos verdadeiros. Como a história do monge japonês Ikkyu Sojun, que durante o Século XV, foi realmente livre, selvagem e alérgico a qualquer noção de autoridade.

Devido ao fato de Ikkyu ser filho ilegítimo do imperador japonês, sua infância foi vítima de conspirações que buscavam distancia-lo de uma possível candidatura ao trono. Para que sua vida fosse poupada, sua mãe o entregou a um templo zen quando tinha apenas cinco anos de idade.

Para Ikkyu, o Zen não foi uma vocação espontânea, mas sim um meio de não ser assassinado em sua infância, levando em conta as opções, o treinamento na doutrina Zen não parecia ser uma escolha ruim de todo.

Talvez não fosse o ambiente mais descontraído para uma criar uma criança, mas com certeza mais interessante do que ser assassinado.

O treinamento aplicado pelos monges zen era severo e fez com que Ikkyu tivesse uma infância extremamente difícil. Apesar do ambiente deprimente e tedioso, não demorou em os professores perceberem o intelecto e vocação de Ikkyou para o Zen.

Porém, mesmo seu talento não significava  que Ikkyou  se sentia em casa. Mesmo genuinamente amando o Zen (ou talvez, por causa disso), ele não se sentia inspirado com a burocracia espiritual dos templos, o mesmo era válido em relação a seus colegas sacerdotes: envolvidos em conspirações políticas, perdendo tempo com seus suseranos ricos.

E veio o dia que seu mestre o condecorou com um certificado de sabedoria – uma grande honra e um documento necessário para ascender na hierarquia do Zen – Ikkyu  então, para a surpresa de todos, o queimou e deu adeus a sua carreira monástica.

Isto não quis dizer que ele tinha desistido do Zen, pelo contrário, em seu raciocínio, era toda a instituição a cerca do Zen que tinha abandonado o verdadeiro caminho, transformando o Zen em uma paródia dogmática daquilo que ele deveria ser.

A vida nos templos era lotada de muitas regras e pouco espaço para respirar. Os então proclamados profissionais do Zen, aos olhos de Ikkyu não eram nada além de charlatões – muito ocupados posando como “espiritualizados” para serem capazes de experimentar a espiritualidade em seus aspectos mais simples.

Algumas pessoas acreditavam que a iluminação Zen só podia ser alcançada através de nuvens de incenso e meditação silenciosa, Ikkyu, em outra mão, percebeu que o saquê, sexo e a boemia eram mais do seu agrado.

Como ele colocou em um de seus poemas: “A brisa do outono após uma noite de amor é melhor que um século de meditação estéril” ou de forma mais literal: “não hesite: faça sexo – isso é sabedoria. Ficar sentado entoando sutras: isso é besteira”

Guiado por uma sede de viver, Ikkyu se tornou um monge viajante, testando suas teorias Zen longe da reclusão dos monastérios, o que fez ganhar o apelido de “Nuvem Louca”.

O ponto de suas escapadas eróticas e aventuras era argumentar que o “sagrado” é nada além de uma experiência de vida regular vivenciada com toda sua plenitude. Ou talvez, a bebedeira de saquê e quantidades absurdas de sexo não precisava de nenhuma justificativa além do fato que era – e continua sendo – bastante divertido.

Ikkyu não dava a mínima sobre o que as autoridades religiosas de seu tempo pensavam dele. Porém, em suas viagens, Ikkyu conseguiu influenciar um grande número de artistas, poetas, calígrafos, músicos e atores de um modo que deixou uma marca profunda no desenvolvimento das manifestações artísticas nipônicas por séculos a fio.

Até mesmo sua vida amorosa é celebrada através dos tempos, pois seu relacionamento com a Senhorita Mori acabou sendo um dos romances mais famosos da história japonesa.

Ikkyu sempre foi um amante dos paradoxos, quando a guerra civil destruiu a maioria dos templos Zen do país, foi ele que veio ao resgaste das instituições que outrora ferozmente criticou.

Quando o futuro do Zen esteve em perigo, Ikkyu foi capaz de conseguir favores de muitos que conheceu durante sua vida de viagens, reconstruindo assim alguns dos principais templos do Japão.

Por ironia do destino, muito do Zen moderno tem um grande débito com a existência de um homem que em seu tempo, preferiu a companhia de prostitutas a monges.

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Iemanjá e Seth, um paralelo

Por Dan Erik

Ontem, assistindo uma vinheta daquela série Sagrado, me veio uma correlação interessante entre Iemanjá e Seth que pode indicar mudanças no culto a Iemanjá.

Ano passado eu encontrei no Scribd um estudo acadêmico extenso chamado Seth, God of Confusion – A study of his role in egyptian mythology and religion, de 1967. Entre outras coisas, o autor, H. Te Velde, fala que além de deus da confusão ( não no sentido de baderna, mas no sentido de caos, desordem e desagregação ) Seth também foi cultuado no Antigo Egito como deus das fronteiras, de qualquer espécie, fronteiras territoriais ou metafísicas.

O autor relata que a conexão de Seth com as fronteiras, já existisse na segunda dinastia, porque imagens do animal relacionado a Seth, que é tão deus da confusão que ninguém sabe dizer ao certo que animal era, ao contrário de todos os outros deuses, é visto em cenas de caça no deserto, e na terra das gazelas. Então imaginava-se que o animal sethiano vivesse fora do mundo habitado. Cada povoado que se instalasse perto das fronteiras do Egito cultuava Seth e pedia sua proteção, portanto.

Deve ficar claro, que nessa época Seth não era um deus maligno como é retratado e cultuado hoje. Seth fazia o par Criação/Destruição com Hórus. Os dois não se eliminavam mutuamente, muito pelo contrário, eram duas faces da mesma moeda. E isso se dá pelo próprio pensamento dual da religião egípcia. “as above, so below” etc. As pessoas agradeciam a Seth por ter vencido a serpente Apophis entre outros feitos. Mas tudo mudou quando outros povos passaram a invadir e saquear o Egito, e é aí que chego ao ponto que eu quero. Esse tipo de acontecimento coloca em cheque o poder de Seth como deus das fronteiras, como se ele não estivesse mais cumprindo suas funções de repelir os demônios do deserto.

A partir daí ele passa a ser execrado e se torna um deus mal. E qual é a relação com Iemanjá, catso? Acho um absurdo cultuar uma deusa das águas no rio de janeiro quando as enchentes destruíram tantas casas e tantas vidas. O correto seria dar “uma bronca” na deusa, quando ela não cumpre algo que faça parte de sua jurisdição. Ou como os egípcios fizeram com Seth, a execrem e a tornem uma deusa traiçoeira como Loki. É claro que não se pode mudar uma tradição de séculos, mas se as enchentes se tornarem rotina, até mesmo os seguidores mais ferrenhos de Iemanjá fariam a seguinte reflexão: “a água inundou a minha casa e agora vou cultuar a deusa das águas?” Senta lá, Claudia! É essa a minha previsão para o futuro de Iemanjá.

Dan Erické formado em Design pela ESPM, sofredor do Paraná Clube e egiptólogo. Seu blog é Tesseract! e seu msn solipsistomaschewsky@hotmail.com

Escrevendo certo por linhas tortas

Muita gente me acusou de preconceituoso ao ler meu texto “Orgulho Evangélico” postado neste humilde blog.  E afirmo de boca cheia que vocês estão muito enganados, meus amados detratores. Meu caso de amor e ódio com evangélicos é baseado no mais puro e simples pós-conceito em cima do estereótipo que mais aparece de vocês socialmente: o pregador chato alienado.

Caso vocês realmente acompanhem esse blog como o dizem que fazer ao afirmar categoricamente que sou o pior autor entre os que escrevem aqui, poderão notar que alguns falam mais de certos assuntos do que outros. E aqui achei um espaço legal para falar de um dos meus assuntos prediletos: religiosidade.

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Orgulho Evangélico?

Estava eu no ônibus voltando de um treinamento sacal para ministrar um curso sobre Mercado de Trabalho quando ouço um moleque de cerca de seis anos cantarolando no banco ao meu lado (e ao lado da mãe) a seguinte canção evangélica:

“O homenzinho torto
Morava numa casa torta
Andava no caminho torto
Sua vida era torta

O homenzinho torto
A Bíblia encontrou
E tudo o que era torto
Jesus concertou”

Sendo eu míope, corcunda, com os dentes separados e com pé alto, achei essa insinuação de que minha formação física era resultado a falta de Jesus na minha vida extremamente de mau gosto. “Mas isso é metafórico!” – bradarão alguns. Eis então que a bela criança segue com a música:

“O homenzinho preto
Morava numa casa preta
Andava no caminho preto
Sua vida era preta

O homenzinho preto
A Bíblia encontrou
E tudo o que era preto
Jesus concertou”

Gostaria de argumentos razoáveis para defender esta merda, amigos evangélicos.

Seu deus é um lixo!

Eu devia ter uns 16 anos. Naquela época era comum eu e mais uns amigos nerds nos reunirmos para ir aos sebos do centro garimpar livros de RPG e ocultismo, comprar algum CD de metal importado na Galeria do Rock e depois passar na Liberdade para olhar aquelas mil coisas legais japonesas e não comprar nada. Era um tempo em que a Fonomag e a Animangá era points e você ter um mangá original em japonês fazia de você um cara fodão, mesmo que não soubesse ler um mísero caractere de qualquer alfabeto japonês.

(Pausa para os chatos de plantão: sim, eu sei que a Animangá não fica na Liberdade.)

Em uma dessas ocasiões já havíamos feito nosso garimpo e estávamos atravessando a Praça da Sé em direção ao Bairro Proibido quando fomos abordados por um evangélico. Normalmente eles se limitam a entregar algum panfleto, nos abençoar e sair andando. Mas este em particular viu um bando de adolescentes cabeludos e deve ter achado que era a missão divina dele nos salvar dos braços de Satã, pois começou a falar aquela ladainha que todo mundo já deve ter ouvido uma vez na vida. Após alguns minutos resolvo ser educado com ele:

– Entendo seu ponto de vista e tudo, mas já tenho religião. Frequento a Igreja Católica, participo de alguns grupos de lá…

Eis que nosso pretenso salvador me interrompe com a seguinte argumentação:

– Pois saiba que meu Deus é melhor que o seu!

Não sei se foi a raiva de ter ouvido uma merda dessas, se foi a pressa de ir embora ou se foi algum tipo de Epifania instantânea, mas me virei para ele de maneira um tanto quanto efusiva e disse:

– Seu Deus? SEU DEUS? Vem cá, seu Deus sabe dar combo aéreo?

O pregador pareceu ter entrado em pânico. Era óbvio que ele não sabia o que era um combo aéreo e não poderia dizer que “sim” com o risco de dizer que o Senhor fazia algo impróprio. Ele parece diminuir e responde de maneira vacilante:

– Não…

Não contente em ver um evangélico dizendo que seu Deus onipotente, onisciente e onipresente não poderia fazer algo, eu ainda solto:

– Então seu deus é um lixo!

E rindo efusivamente, continuamos nosso caminho discutindo como seria Jesus Cristo em um fight game dando 12 hit combo, um para cada apóstolo.

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