Arquivos de tags: Kassab

Lei Seca na Virada Cultural: Hipocrisia Pública

Não contente em tirar todos os artistas de rua da Av. Paulista usando a polícia de forma violenta, não contente em fundar um partido oportunista e fisiologista e não contente em não cumprir sequer a metade das metas de seu mandato, o ilustríssimo prefeito de São Paulo Gilberto Kassab nos dá mais uma prova de que é um grande filho da puta instituindo a “Lei Seca” durante a edição deste ano da Virada Cultural.

Explico: neste ano as barracas oficiais do evento não venderão bebidas alcoólicas, a vigilância em cima do ambulantes será redobrada e será cumprida a risca (e a força, tenham certeza) a lei que manda os bares fecharem a 1 hora da manhã. Os motivos alegados são:

Diminuição da sujeira gerada durante o evento;

Evitar confusões geradas pelo consumo excessivo de álcool;

Prevenir os cidadãos de prejudicarem sua saúde ao comprar bebida de origem duvidosa.

Tudo muito lindo e maravilhoso. Traz-me lágrimas aos olhos a preocupação da nossa Prefeitura com o bem estar daqueles que querem aproveitar o evento, não? O pior é que muito gente engoliu esse papinho e está comemorando esta decisão. Como alguém que se sentiu prejudicado com essa decisão, gostaria de analisar cada item acima um pouco mais a fundo.

“Diminuição da sujeira gerada durante o evento.” Quer dizer então que os consumidores de água, refrigerante, suco e guloseimas em geral jogam TODOS O LIXO DELES no lixo? “Ah, mas o pessoal passa mal, vomita.” Em qualquer lugar que eu vou no fim de semana tem disso e esse mesmo pessoal que agora reclama já fez passou mal em mais de uma ocasião.

Galera, o problema da sujeira é um só: muvuca. Você não tem tempo hábil de ir até um local propício gorfar e nem saco de ficar segurando sua latinha de qualquer líquido vazia até achar uma maldita lixeira, então você taca no chão mesmo. A real é que não tem jeito e nesse caso cabe sim ao poder público se organizar para minimizar os efeitos desse monte de gente sujando tudo. Triste, mas inevitável.

“Evitar confusões geradas pelo consumo excessivo de álcool”. Essa afirmação até procederia, mas quem quiser encher a cara vai fazê-lo, com ou sem Lei Seca. Seja levando seu próprio isopor cheio de cerveja ou seja levando sei lá quantas garrafas de destilados em uma mochila, quem quiser encher a cara vai encher. Sem contar a compra desenfreada de bebidas perto da 1 da manhã para estocar pra mais tarde, o que vai gerar um surto de bêbados perto deste horário, anotem.

E as confusões são geradas pela bebida ou pela falta de segurança e organização? Aquela batalha campal que houve no show dos Racionais anos atrás foi realmente causada pelo álcool? Nesse caso vamos esperar os dados após o evento e então aprofundar o assunto.

“Prevenir os cidadãos de prejudicarem sua saúde ao comprar bebida de origem duvidosa”.  Essa é piada, né? Porque vai acontecer justamente o contrário! Será que ninguém na prefeitura sabe o fracasso que foi a Lei Seca nos EUA? O que mais vai ter serão sujeitos no meio do povão com cerveja quente e os chamados “vinhos duvidosos” dentro de uma mochila. Claro que eles vão vender ao preço que quiser e vão vender muito, acreditem.

Os ambulantes nunca seguiram a lei e vão continuar não seguindo. Essa proibição só vai aumentar o Nível de Desafio do trabalho deles, mas no final das contas quem vai se prejudicar vai ser aquele que fazia tudo mais as claras e quem vai lucrar mesmo são os mais obscuros.

Isso tudo foi só citando a proibição da venda. Mas ainda temos a cereja do bolo: o fechamento dos bares à 1 da manhã. Só eu acho incoerência em um evento que dura 24 horas você proibir os donos destes estabelecimentos de trabalhar?

A vida noturna (com seus bares inclusos) não faz parte de cultura desta cidade? Uma das coisas mais legais da Virada pra mim é sentar em um boteco de vez em quando entre os eventos pra tomar alguma coisa e comer algo. Bem, esse ano não vou mais poder fazer isso.

E vocês meninas que pagavam R$1,00 para entrar em algum boteco minimamente limpo para usar o banheiro, vão ter agira que fazer naqueles adoráveis banheiros químicos.

E você que bebe água e refrigerante acredita mesmo que as barraquinhas da Prefeitura vão dar conta de atender a demanda de consumidores da Virada Cultural? Eles vão ter estrutura pra manter as bebidas geladas a noite inteira? Eu duvido.

E você já viram a alimentação destas barraquinhas? Não? Pois vão ver essa ano e serão OBRIGADOS a comer nelas, umas vez que a opção de comer um misto-quente confortavelmente sentado em um local coberto me foi podada.

Por essas e outras que eu acho essa “Lei Seca” uma baita palhaçada. Eu não preciso da Prefeitura me dizendo como me divertir atendendo a interesses obscuros, visando trabalhar menos e lucrar com multas ao invés de fazer o que realmente precisa ser feito.



Fascismo 2.0: incompetência e ingenuidade

Então um moleque em Tucson pega uma arma, abre fogo contra uma multidão, após sua captura, ao tirar a foto na delegacia, ele sorri, sua aparência é provocativa, cabelo e sobrancelhas raspados, seios da face rosados, é como se Tio Lester, em um dos seus delírios, tivesse pegado uma AK-47. É armado o circo, circo sem palhaços, Fox News e sua cômica pretensão de seriedade jornalística. Professores, Psicólogos, Líderes Comunitários e Jornalistas, todos saem em busca do bode expiatório, culpam a televisão, a permissividade dos pais, os vídeos-game, exploram mais uma vez os elos fracos da corrente da monocultura capitalista.

Em algum canto do Oriente Médio, um soldado é alvejado, seu corpo é arrastado por uma rua de terra batida, o populacho ignorante dança, festeja a perpetuação de um estado de conflito, a vanguarda intelectual da classe média vem a tona, carregando cestos de panos quentes, amenizando discursos, culpando pessoas, fala-se em paz, promove coexistência, sorrisos amarelos em 1080i

Então eu vejo uma fotografia da Sarah Palin esta manhã, seios flácidos amostra graças a um decote tipicamente republicano, uma espécie de caso freudiano bizarro, ela sorri de orelha a orelha, carregando um rifle, não um AK-47 bárbaro, mas sim uma carabina Winchester M1, orgulho estadunidense, debaixo de suas saias, a MILF queridinha da América carrega os cristãos furiosos da Igreja Batista de Westboro, os mutilados pela beligerância da Era Bush, o Tea Party, a retórica é uma só: a eminência de um inimigo, “o socialista”, “o estrangeiro”, “o libertário”.

Claro, a elite jornalística se sente praticamente ofendida, se por um lado a crescente tensão no oriente médio é vista como uma demonstração de barbárie, um ato de violência, pouco se diz aos protestos, leis xenofóbicas e tiroteios aleatórios que vem corroendo o já gasto sonho americano, relativizar a questão acaba sendo uma ofensa: “Nós, como eles? Isso é um absurdo!” Pior ainda é agüentar a Revista Veja, comentando sobre o “delirante partido democrata”.

Mason Lang, o Playboy Nova Era da supracitada série “The Invisibles” de Grant Morrison, uma vez comentou algo mais ou menos assim: “Para que o fascismo floresça, é necessário um estado de beligerância perpétua” e não é isso? O pior inimigo é aquele inventando e nutrido pelas nossas mentes inseguras, o que nos leva a um derivado comum da política fascista, a frieza burocrática, o famoso efeito Eichmann.

Saímos do panorama dos Estados Unidos e vamos para o Brasil, onde pudemos presenciar recentemente uma severa repreensão policial da PM paulistana contra manifestantes pacíficos contrários a uma medida completamente arbitrária por parte da administração da prefeitura. São Paulo, e por extensão, o resto do país, enfrenta período de decadência cívica similar aos nossos colegas americanos, a falta de preparo e silogismo de nossos políticos em admitir certos fatos apenas reflete a situação.

O segundo fator, que eu julgo como crucial para a germinação de ideologias fascistas em qualquer sociedade é a “cultura de denúncias”, de perseguição moral e intelectual por parte de correntes interpretadas como “dissidentes”, a dissimulação de manifestações, a erosão da infra-estrutura do espaço público paulistano exemplifica bem a situação: transporte público lotado, vias de acesso estagnadas, sistemas públicos enfartados, o cidadão abre mão de seu papel cívico – o questionamento crítico – para disputar de forma ferrenha aquilo que deveria ser o seu direito mais básico, vide sua política higienista, amplamente comentada por mim neste blog.

Kassab é o novo Eichmann, um administrador alienado perante as dificuldades de seu povo, um gestor incapaz de lidar com uma metrópoles do porte de São Paulo.

Outra raiz fascista existe no espetáculo estético, lembre-se dos gambitos publicitários de Goebbels e Riefenstahl, das marchas, ângulos expansivos, bandeiras rasteadas, lembre-se, bem, da invasão do Morro do Alemão. Antes de mais nada, deixe-me posicionar, eu sou a favor da operação, não interpreto o “poder paralelo” como uma resistência ao poder do estado, mas sim um derivado nocivo de sua inconseqüência, um “exploit” naquilo que chamamos convencionalmente de “sistema”.

O que me assustou, foi a exibição espetacular da ação, as fotografias de soldados fardados como se tivessem vindo de um jogo de tiro do X-Box 360, o rastreamento de inúmeras bandeiras, a interpretação errônea de “ocupação”, como se tratasse a população do Morro como a população civil de uma nação oponente, governadores e comandantes militares em discursos cheios de pompa, ou seja, nas vésperas de um novo mandato presidencial E eleições municipais, o que nós presenciamos foi uma ação policial com propósitos sociais OU um golpe de marketing?

Vivenciamos o estágio inicial desta doença, que por desleixo, deixamos infectar nossos pensamentos e rotinas, onde novamente a incompetência esdrúxula de políticos de todo mundo permitiu que crescessem os frutos da corrupção e desconfiança, cabe ao cidadão comum, o herói anônimo da história da civilização, ficar atento e reverter o processo, como já diziam nossos antepassados, Kali Yuga.

 

%d blogueiros gostam disto: