The Walking Dead e a fixação de uma geração por Zumbis

Estou acompanhando The Walking Dead, creio que c/ o mesmo fôlego que seis anos atrás, quando eu comecei a ver Lost, nunca tinha lido a série antes, até mesmo porque minha primeira experiência c/ o Kirkman foi o enfadonho Marvel Zombies,  sem contar que minha má vontade em investir numa série sendo publicada por uma editora relativamente desconhecida do mercado somado a falta de hábito de baixar scans de HQs em continuidade no exterior apenas ajudou para fazer a HQ homônima a série passar batido pra mim. Vi em alguns fóruns, até discuti com alguns amigos sobre o tom da série, o argumento presente no roteiro, na humanização dos personagens, inclusive sobre uma delicada relação de viúvo x zumbi, algo, permita-me a piada, muito mais amargo que o divorcio. Não acho que este tenha sido um artifício criativo novo, incomum ou até inédito, se trata apenas de uma geração, que em partes, desconheceu o comentário social dos filmes de terror na década de 70, terreno intelectual onde floresceu George A. Romero e seu Night of the Living Dead, precursor de tudo que nós estamos acompanhando agora.

Claustrofóbico, sitiado por zumbis, o maior inimigo dos protagonistas não eram os desmortos devoradores de carne, mas sim a própria ignorância dos protagonistas, a desconfiança e a falta de preparo, Romero ousou pra época – de forma ácida – ao apontar o personagem mais sensato da trama como sendo um negro, sob um olhar histórico, nada mais do que o esperado, o início da década seria marcado pelo movimento Black Power. Era uma época crítica, satélites americanos levavam até os subúrbios fotos de jovens esquartejados em conflitos no Vietnã, uma guerra idiota, o inimigo não estava além do mar, estava dentro de casa, engravatado, mandando pessoas para morrer, matando com a ponta de uma caneta. Por isso que quase na mesma década de Night of the Living Dead, nós tivemos Texas Chainsaw Massacre e The Hills Have Eyes, o “inimigo” não era mais o monstro clássico da literatura européia, os tempos de Bela Lugosi, Boris Karloff e Vicent Prince acabaram, o “monstro” agora era cidadão deformado e abandonado, um reflexo das deficientes políticas sociais do estado norte-americano, canibais, incestuosos e radioativos, a denúncia da carne, machete e motosserra – símbolos fálicos – perseguindo jovens desamparadas. Não é preciso ir muito longe, em nosso país, mais atrasado que os EUA, a violência ocorre não por uma incapacidade do estado em educar seus protegidos, mas sim por ser um derivado do ímpeto de sobrevivência. 

Mas The Walking Dead não é sobre discursos afirmativos, estes, aos poucos, se tornam fatos consumados, é sobre o convívio e fricção, sim, temos nossa parcela de conflitos étnicos e caipiras cheios de anfetaminas, mas a série busca se humanizar pela nostalgia, pela tentativa de se agarrar ao passado, pacato, suburbano e idílico, personagens comentam sobre livros de fotos e passeios familiares e assim como Lost, o apelo emocional – piegas até – se torna um foco maior do que a sobrevivência e é ai que cativa o público. É o terror pós-moderno, do cidadão metropolitano, onde o maior medo não se encontra na criatura ou próximo, mas sim a mera retomada do convívio comunitário, da regressão da metrópole, agora destruída, para o rural, tribal e subsistente, é o medo, muitas vezes velado, de sentir-se humano, coisa que o “choque” sempre foi eficaz.

Humanizar-se, piada curiosa, não? Lembro-me de um jogo antigo pra PC, controverso pela mídia nacional tacanha, se chamava Carmageddon, inspirado no filme Death Race 2000 (de 1975, mesma época de Night of the Living Dead e Texas Chainsaw Massacre) onde no ano de 2000, pilotos de carros de corrida se digladiavam em competições onde o atropelamento de pedestres era recompensado com pontos (mal eles sabiam que 35 anos depois isto viria a se tornar uma realidade…) o pânico moral de Carmageddon fez com que diversos países adotassem medidas de censura, como substituir humanos porcamente pixelados por zumbis ou robôs, seres, que por tradição na ficção ocidental, são igualmente antropoformes. É a grande ironia do gênero “Apocalipse Zumbi”, e talvez, o motivo de obsessão de toda uma geração por esta criatura estranhamente familiar, incapazes de pensamento crítico e famintas, assim como nossas massas de consumidores, sem nenhuma auto-preservação, lembrando a maioria dos engravatados do mundo, será que, por vias de fatos, nós não estamos vivendo um Apocalipse Zumbi faz tempo?

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Comentários

  • Alessio Esteves  On 24/11/2010 at 14:46

    Concordo com o texto, mas minha pegada com a HQ e a série é outra, afinal ela mostra o que acontece depois que os créditos sobem nos filmes…

  • @barangurte  On 24/11/2010 at 22:33

    pois é isso aí, Zombienation baby

    nem vou falar nada, porque eu sou mais que suspeita!

    @zumblorg

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