Arquivos de tags: Passado

Blues urbano de um flâneur paulistano: Liberdade

Existe algo no bairro da Liberdade que eu considero como místico, um bairro de história e notáveis contrastes, caminhando pela praça, durante o entardecer de uma Quarta Feira, o lugar é vazio, quase inóspito, pessoas de rostos comuns caminham pela praça, alheios ao passado do lugar, uma loja de CDs usados ao lado de uma mercearia chinesa, o cheiro de nuggets no McDonalds ali perto. O céu cinzento de São Paulo se põe e o cheiro ocre do lixo abandonado permanece nas ruas, uma senhora sai da Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados, dizem as más línguas que o local é assombrado.

Sobre os alicerces do Tori, adesivos contendo mensagens subversivas e ícones pop fazem contraste com o vermelho do monumento, sem organização alguma, o passado perene é lentamente desgastado pela cola velha, erosão e inúmeros stencils espalhados pelo local. No viaduto da Galvão Bueno, uma senhora boliviana, trajando indumentárias típicas, vende seus panos enquanto disputa a voz com diversos outros ambulantes, pilhas de DVDs lotam a calçada, com filmes e shows de idorus, cantores de enka, doramas, animes que lado de coletâneas de Black Music e pornôs das Brasileirinhas.

Olhem os prédios ao redor, paralisados na década de 70, o desgaste do branco pelo tempo e pela poluição contribui com um tom sépia nostálgico para a paisagem do local. Antes dos japoneses, por este bairro já passaram portugueses, italianos e até árabes, cada um deles adicionando algo a mais para o DNA desta entidade urbana.

Descendo a ladeira da Thomaz Gonzaga nós ainda podemos encontrar vestígios de senzalas, janelas pequenas c/ grades enferrujadas, tímidas, escondidas das vistas menos atentas, ou no casarão reformado na Rua da Glória, onde hoje abriga uma DP da Polícia Militar, dizem que lá dentro uma enorme senzala ainda é conservada, há, nada mais apropriado para os cães de guarda do nosso Prefeito Kassab.

O bairro também é local de histórias envolvendo contravenção e desafio à autoridade, durante o regime populista de Getúlio Vargas, foi-se proclamada uma lei que proibida o estudo de outros idiomas, qualquer brasileiro que tivesse interesse no estudo de línguas estrangeiras era suspeito de ser “comunista”, imigrantes e descendentes se encontravam em porões de vários comércios da regiãom com o intento de estudar de forma clandestina o seu idioma natal.

Hoje em dia, diversos elementos da fauna urbana paulistana freqüentam o local, em especial nos finais de semana, a praça ao lado do metrô é um dos locais mais queridos das memórias de minha adolescência, moleques ficavam lá noite adentro, falando merda, tomando bebida vagabunda, comendo marmitas de yakisoba da feira que acontece todo fim de semana, podíamos encontrar de todos os tipos, espalhados pelas escadarias, bancos ou até sentados no chão: cosplayers, B-Boys, darks, lolitas, otakus, headbangers e tantos outras tribos urbanas que contracenavam com famílias que vinham visitar o bairro em seu tempo vago.

“Escondido” é uma boa definição para um bairro onde tudo é vestígio e lembrança, a Liberdade é um lugar de mistérios, onde cada casa, restaurante, loja e praça guardam histórias que anseiam por serem descobertas, cada passeio inevitavelmente nos leva em direção a uma epifânia. É em uma dessas escadarias escondidas que eu descobri o Café Kohii, localizado na Rua da Glória, nº 326, um lugar de paredes brancas que ostentam um enorme painel de recados para as vítimas do terremoto que atingiu o Japão no início do mês passado.

O painel representa bem o clima cosmopolita do bairro, mensagens em japonês, chinês, mensagens de apoio no próprio idioma português, tímidos “Gambarê Japão!”, assinaturas que lembram pichações, animais desenhados por um traço infantil e até rascunhos de mangás. Tive uma conversa agradável com o proprietário do local, Jun Takaki, um rapaz instruído e com uma visão empreendedora para o bairro, Jun me falou sobre as primeiras famílias, que desceram do navio Kasato Maru, fotos históricas, curiosidades como o Cine Niterói, foi como se essa historicidade tivesse passado por mim diante dos meus próprios olhos, também conversamos sobre a delicada geopolítica do bairro, envolvendo a Associação do Comércio, Empresas e a Prefeitura.

Liberdade é isso, uma egregóra dentro da paisagem urbana de São Paulo, de fantasmas que clamam por enforcamentos públicos e restaurantes escondidos em portinholas, onde bêbados cantam em karaokês. Bairro esquizofrênico, que se expande e se molda de forma frenética e imprevisível, Liberdade, dos imigrantes do Kasato Maru e tantos outros, das turbas que clamam pelos enforcados, dos paulistanos, dos turistas curiosos e adolescentes fanfarrões, Liberdade, meu lugar favorito para ser flâneur.

A origem do Geek Pride no Brasil

No começo da semana teve início em São Paulo a 4º edição do Campus Party Brasil, e para alguém como eu, que tem seus contatos aqui e acolá, o que a gente presencia é uma verdadeira migração de geeks que vem de todo o Brasil para desfrutar uma semana de internet de alta velocidade grátis, tecnologia de ponta, palestras e o convívio com semelhantes. É interessante notar que isto representa o ápice da maturidade desses vários fenômenos que convergiram e foram chamados de “cultura geek” por alguns jornalistas, blogueiros e etc. Convenções de “Geeks”, não podem ser consideradas eventos incomuns ou esporádicos, claro, a magnitude – e agentes envolvidos – de um CPBR4 chama a atenção da mídia e garante espaço na agenda pública, mas ao menos no município de São Paulo, a verdade é presenciamos um grande “evento” por mês.

Um pouco de perspectiva histórica, não de uma pessoa que protagonizou os fatos, mas que acompanhou e esteve lá, antes mesmo do Geek Pride ter ganhado a projeção que nós observamos hoje, é complicado triangular onde isto inicialmente começou no Brasil, da minha parte, dou muito crédito ao editorial da extinta Dragão Brasil, não apenas por se tratar da primeira – e única, eu acho – revista sobre Role Playing Games do país, mas por ter se articulado com seus fãs, a revista não tinha apenas pretensão jornalística, mas abrangia estilos de vida e consumo, a revista acompanhou o primeiro e tímido boom da cultura pop em solo nacional, em uma só edição, podíamos encontrar matérias sobre Pokémon, contos de H.P. Lovecraft e Cyberpunk, uma das primeiras empreitadas de HQ nacional nascera nessa revista.

A questão não era mais “traduzir” conteúdo, mas torná-lo acessível ao leitor, fazer com que o mesmo desenvolvesse intimidade com a matéria, outras publicações e grupos ajudaram a contribuir com isso, Animangá e Anime-Do – e foi neste que eu encontrei meu interesse por Mobile Suit Gundam – tivemos a fatídica Herói e até mesmo no lado dos gamers, revistas como Gamepower, todas com seu universo de leitores, personagens característicos e até piadas internas.

Em tempos que acesso a internet ainda era considerado um luxo, e os meios de importação de artigos estrangeiros eram raros, tais publicações, em meio a dificuldades editorias e de mercado, ajudaram a estabelecer um canal de comunicação muito importante com o público. Claro, esta foi apenas a 1º fase do processo no Brasil. Claro, o segundo passo, é pensar no tão estimado público, se tivemos publicações pioneiras, o que dizer do público? Quando a internet chegou, podíamos ver os primeiros indícios de uma cultura colaborativa, fansubbers se reunindo no mIRC, antes do scanner, cheguei a ver pessoas reescreverem na raça livros de RPG inteiros no Microsoft Word, em um caso mais notável, conheci no colégio um grupo de RPG que comprou uma máquina de Xerox usada e utilizava ela pra copiar os livros que compravam juntos, na base da vaquinha. Foi freqüentando esses meios, por exemplo, comunidades de Orkut para Góticos, que eu sedimentei toda minha educação musical, sem eles, eu não poderia ter a moral pra vestir minha camisa do Kraftwerk que estou usando hoje, enquanto escrevo essa pieguice.

O que nós tínhamos – e ainda temos – pelos canais oficiais era apenas uma fração daquilo que ambicionávamos, acredito veemente que o comodismo de esperar um Anime no Cartoon Network no fim da tarde e/ou um livro pela Devir já não era o bastante, era um público com fome.

Me lembro de eventos específicos, como as primeiras edições do EIRPG, autores convidados e estandes vagabundos, e até mesmo eventos de anime/mangá no Colégio Arquidiocesano, em um destes, cheguei a ver a Sabrina Sato (sim, a do Pânico), a convite dos realizadores, fazendo cosplay de Mai Shiranui. Eu gosto de ver a projeção das coisas, hoje, a Yamato – responsável pelo Anime Friends – realiza mega-convenções e inclusive assina contrato com a AVEX, um puta selo musical japonês, alias, ano passado, em um evento deles, conheci minha namorada e presenciei um show do Aural Vampire.

Acredito que pelo bem, vivemos em tempos mais fartos e acessíveis, ok, não sou mais adolescente, tenho responsabilidades e um emprego estável, o que me permite desfrutar de certo nível de consumo: HQs importadas, Garage Kits, Consoles last-gen, mas é preocupante ver essa galera “nova”, adentrar neste universo, em seu momento mais marcante, e encarar como um fogo de palha ou algo superficial, ou, por ingenuidade ou ignorância, desconhecer o passado tão rico desta cultura aqui no Brasil, e olha que este artigo foi escrito por uma pessoa cuja a vivência se resumiu apenas a São Paulo, quem sabe o que ocorreu país a fora naquela época. O Nerd Pride sempre existiu? Sim, em manifestações mais tímidas que outras, e muito provavelmente, quando essa glamourização explorativa e efêmera ter terminado, ele vai persistir, mais maduro e coerente.

%d blogueiros gostam disto: