The Baader Meinhof Complex

Eu nasci em uma época, que para muitos apressadinhos, foi denominada “Fim da História”, lembro-me de ter escutado sobre este termo no início da faculdade, num livro do Francis Fukuyama, claro, como toda idéia postulada de forma precoce, a história em si provou o contrário, ela não tinha acabado, não assim, tão fácil.

Bom, antes mesmo do livro, algumas torres caíram, a porrada comeu no leste da Europa, na África e bom, a troca de tapas ainda persiste no Oriente Médio, talvez, o que realmente tenha terminado, é aquilo que Lyotard – e por extensão, todos nós – chamamos de “metarrelatos”, as polaridades, a dialética, o embate ideológico, se não morreu, está definhando.

Graças a uma combinação de mídia e memória, uma coisa nós temos certezas, memórias – assim como a história em si – se tornaram imortais, replicantes, vivemos pela necessidade de transmitir para as próximas gerações não apenas um senso de historicidade, mas sim identidade.

Esse foi o primeiro pensamento que surgiu, enquanto eu assistia de forma bastante entusiasmada o longa alemão “The Baader Meinhof Complex”, para explicar este filme, necessariamente, eu preciso explicar o contexto:

BMK

Europa Pós-Guerra, com o fascismo suprimido, a injeção econômica do interesse americano trás para o continente uma presença cultural e beligerante marcante, aquilo que até uma década atrás chamávamos convenientemente de “Imperialismo”.

(um male menor, em todos os casos, ainda é um male e precisa ser expurgado)

No seio da rotina acadêmica alemã, começa-se a contestar a frivolidade da vitória do fascismo em relação a crescente hegemonia capitalista, e daí começa a articulação de lideres políticos, universitários, jornalistas e etc. para a formação de uma resistência.

A “noção” de resistência é bem explorada no filme, do ato simbólico ao protesto, do seqüestro ao assassinato de alvos estratégicos, o título do filme vem de uma das células terroristas que futuramente viriam a ser parte da RAF, Andreas Baader (interpretado por Moritz Bleibtreu) e Ulrike Meinhof (Martina Gedeck).

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A formação do grupo fica evidente no contraste de suas duas lideranças, Baader possui espírito revolucionário, largou os estudos formais e viveu como marginal, foi trazido para a extrema esquerda por sua namorada, Gudrun Ensslin, Baader foi carismático, impetuoso e propenso a destruição e danos colaterais.

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A Outra líder, Ulrike Meinhof, de formação acadêmica, atuou como jornalista esquerdista na década de 60, mãe de duas filhas, contribuindo para o periódico universitário “Konkret” traduzia as motivações e atos do grupo em cartas abertas.

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O filme mostra os acontecimentos que influenciaram o grupo, observamos a visita de Reza Pahlavi ao ocidente, o Verão do Amor, Hồ Chí Minh e a guerra do Vietnã, o início da causa palestina – que levaria ao episódio do Setembro Negro – a captura e execução de Che Guevara, o rapto do boing da Lufthansa.

A tendência do roteiro é explorar os lados, sem apelar ao romantismo ou criminalização de um ou outro, tendo em vista as motivações, são exploradas as relações de causa e conseqüência e os extremismos de cada lado, estamos falando de ataques a inocentes e a implementação do estado policial.

De forma quase prognóstica, o filme, em seus momentos finais, ilustra a visão de Andreas Baader, dizendo que a revolução perde seu sentido na medida em que as atitudes trazem vítimas inocentes e o próprio estado passa a lucrar com a emergência de grupos insurgentes.

Baader, Meinhof e tantos outros morreram sob circunstâncias misteriosas, executados em suas próprias celas, enquanto aguardavam o veredicto de um longo e desgastante julgamento.

Uma última consideração seria a participação do ator Bruno Ganz (Der Himmel über Berlin, Der Untergang), com sua atuação sólida, convincente, interpretando um oficial da lei, que entre dilemas ideológicos, visa suprimir a escalada de violência em seu país.

Para os mais velhos, é inevitável a comparação c/ o longa nacional “O que é isso companheiro”, porem eu recomendo o filme em especial para os mais jovens, que vêem a década de 60 e 70 e seus movimentos culturais como meras curiosidades históricas em seus livros pedagógicos, que engajamento e responsabilidade existiram – e ainda, existem, por sinal-  e que se você, hoje, pode esnobar de sua falta de compromisso, foi porque alguém a vinte anos atrás lutou em nome da sua futura liberdade…

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Comentários

  • Macário Hugo  On 30/08/2010 at 18:28

    O que eu achei interessante neste filme foi justamente este contraste entre o idealismo, representado pelas cartas de Ulrike Meinhof e a realidade das ações impetuosas de Andreas Baader. Bom não só para os mais jovens, é muito comum encontrar pessoas com uma visão unidimensional em assuntos sobre revolucionários/terroristas no período da ditadura brasileira.

  • agrt  On 31/08/2010 at 3:06

    Que porra, vi o filme na semana passsada! Confesso que fiquei irritado com o grupo “terrorista” em quase todo o filme, e achei o final meio QUE PORRA É ESSA MERMÃO! O cara mudou de opinião, parecia mais o roteirista dando sua opinião do que a tentativa de mostrar a mentalidade daquela época como todo o resto do filme.
    Não pode passar batido as referências na américa latina, como quando o cara chama de “desapropriação do capital”, se referindo os guerrilheiros urbanos brasileiros.
    O filme é mediano, muito longo, o final não convence pq muda de discurso em relação a todo o resto, mas mostra essa coisa chocante de lutar em nome da liberdade matando inocentes, estes que são “necessarios”, um equivoco vendo de hoje, mas na época a coisa era outra, nossa mentalidade acomodada não pode ver sangue, eu mesmo não admito esse tipo de resistência, prefiro os “desbundados” na época da ditadura, os caras que traem a revolução, traem a ditadura e só querem o “drop out” da sociedade, cair fora daquela cultura doente e apodrecida que tem morte como diagnostico e doença.

    • synthzoid  On 31/08/2010 at 16:40

      Agrt,

      Entre o final do filme e o final da RAF ainda temos uns nove anos de história, e convenhamos, o filme já é longo demais.!

      Eu curti uma coisa que o Macário falou, que é a contradição entre as atitudes do Baader e o idealismo distante da Meihof.

      Um aspecto que eu sempre questionei, é a noção de vítima, se nós aclamamos que cotidiano, divisão do trabalho, hierarquia, lucro, intervenção do estado são manifestações de violência, a ruptura das mesmas não seria?

      Não existe “transição” ou adaptação nestes casos, pois se abrirmos mão pra esta ótica, acabamos na idéia do pragmatismo.

      A idéia de “drop outs” é mais recente, eu vejo ela na emergência do pensamento de vinte anos atrás, não na necessidade de articular uma contra-cultura, mas buscar amputação do manto cultural da mesma, uma espécie de alienação benéfica.

      Bem digna do nihilismo que se fomentava no cenário alternativo americano da época.

      • agrt  On 31/08/2010 at 18:11

        “tur on, turn in, drop out” , “grande recusa”, “rebeldia sem causa”, sei lá, não é de 20 anos pra cá, é desilusão com o mundo pós-guerras mundiais, alguns se referem a perca de referenciais básicos de identidade, transformando tudo numa grande multifacetação pós-moderna
        do nada você vê o que a hierarquização do mundo pode fazer, observa que o humanismo marxista, humanismo cristão ou iluminista/renascentista não é capaz de parar algo como nazismo/fascismo, então, o que você faz? em geral, depois de grandes guerras traumaticas no ocidente, ou se defende a manutenção radical do status quo = ditaduras na américa latina ou sociedade tecnocrata norte-americana; ou você arruma um modo de cair fora, seja culturalmente, economicamente ou militarmente; é lógico que dentro disso existem centenas de possibilidades de ação, estou aqui dividindo mais por questão de explicação
        mas não considero que fosse uma questão de niilismo americano, a geração beat, por exemplo, tem muito pouco de niilista, pelo contrário, tem uma paixão pela morte em nome da vida, seria algo mais proximo do tempo circular da antiguidade ou de Nietzsche, destruição pra renovação, morte pro nascimento, algo básico do xamanismo
        eu, particularmente me indentifico com a Meinhof, uma ação infrutiferamente frutifera, mas entendo o pq das ações do Baader e do grupo, mas não concordo em fazer esse tipo de ação
        eu acho que força a barra na mudança de opinião do carinha do jeito que é feita, tipo, do nada ele condena o que ele mesmo fazia? não teve um processo mostrado no filme, através do qual “caia a ficha”, particurlamente me falaram muito bem do filme e me decepcionei
        depois da uma olhada em “Os 10 de Chicago”, um documentario divertido que faz um contraponto a atitudes militaristas, esse sim, é lindo, ver os caras tomarem porrada ao som de “Iton Man – Black Sabath”, dá uma conferida depois

    • synthzoid  On 31/08/2010 at 18:29

      A perda de referências é sintoma do trauma histórico, mas antes abandoná-las por completo, e descobrir nesse fatalismo algo de saudável, do que ver uma eventual caducação e diluição, como aconteceu com as gerações posteriores da enragés, RAFs e Cia.

      (e entre marxistas revolucionários a feministas, já temos idéias como “pós-feminismo” visando abandonar o discurso por ele estar datado),

      Mal, que por sinal, sobrevive a toda revisão histórica e persiste no seio da vida acadêmica aqui em nosso país. Seria o mesmo que um comunicólogo acreditar que teoria crítica ainda pode ser aplicada de forma integra, holístico.

      Este tipo de alienação, de amputar a consciência da malha cultural, bem, já provou ser falha no passado, já leu “Mate-me Por Favor?”, o início do Punk – que coincide com o tempo da RAF – de emancipador, artisticamente vanguardista, acaba tomando um rumo onde, revolução por revolução, perde o norte e se torna incapaz de reinventar.

      Então, sempre existe esse medo, de se tornar reacionário, sobre qualquer princípio (btw, o livro dedica uma parte nessa relação entre nihilismo/meio alternativo, e o quanto isso é diferente de um “derrotismo plástico”)

      O filme correu em alguns pontos, e foi muito omisso em outros, se pouco explorou as transformações na motivação do grupo na época do cárcere, a passagem do suicídio da Meinhof foi muito célere, pouco pude absorver naquele momento.

      Outro filme, tão empolgado, tendencioso, que ilustra tanto o medo “fascista” quanto o “espírito revolucionário urbano” é o espanhol “El Calentito”, conhece?

  • Alessio Esteves  On 31/08/2010 at 12:44

    Nunca peguei em armas ou derramei sangue, mas já ocupei fazenda com sem-terra, já fui defender sem-terra em reintegração de posse, já ocupei faculdade, já corri da tropa de choque, já conversei com Zé Dirceu e Geraldo Alckmin, fiz trampos com PT, PSTU e PC do B, e já viajei boa parte do país “por um mundo melhor e possível” e uma coisa eu posso falar de boca cheia: o idealismo só existe na base.

    Quanto mais você se aproxima do “poder real”, mas o idealismo é substituído pelo pragmatismo, vide a Soninha em São Paulo, que de uma candidatura em 2008 pautada pela “visão política diferente” hoje fica defendendo o José Serra no Twitter.

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