A Síndrome de Peter Pan nas HQs Adultas.

Eu detesto quadrinhos “adultos”, sério, o próprio termo “adulto” soa como uma atitude pretensiosa e ignorante, tanto da parte de quem escreve quanto da parte de quem consome este tipo de qualificação e erroneamente traduz como “material de qualidade”. Um quadrinho comercializado como “adulto”, é, no máximo, um quadrinho adolescente.

Não que seja uma adolescência, onde, com bom humor, traduz a jovialidade que reina a mentalidade de toda uma indústria, é uma adolescência no sentido de busca por afirmação, onde por falta de tato, deslizes básicos são cometidos, coisas, que a gente – em tom descontraído – chamamos de “coisas de moleque”.

Então eu pego aquela edição de 100 Balas, do Brian Azzarello e vejo alguns halterofilistas trocando balas enquanto alguma mulher de topless aparece correndo no meio da confusão, ok, eu penso “e isso é adulto…?” Se “adulto” na HQ, contrasta com a noção de não ser ingênuo, tudo bem. Agora dizer que a obra alcançou um nível de “maturidade”? Não.

Em nenhum momento eu desmereço o prazer em ler 100 Balas (pelo contrário, eu adoro The Boys, Crossed e etc.), mas em seu roteiro, desculpem o bom humor, é tudo que eu buscava (tá, ainda busco, quando o tempo permite…) quando jovem em filmes de ação descerebrados e pornografia softcore.

Alem do rumo “testosterona”, existe outra corrente, uma que busca “amadurecer” histórias através de uma releitura c/ atmosfera mais opressiva/pertubadora, para muitos casos, “dark”, está, é relativamente mais antiga, ainda no terreno da Vertigo, quem se lembra de Kid Eternidade?

O problema não foi Grant Morrison transformar o protagonista em vítima de abuso sexual, mas sim a sua abordagem, ele apenas “foi” e pouco se ramifica as extensões deste fato, tanto leitor quanto roteirista mínguam de oportunidades para ponderar sobre isto.

(mesmo em outras obras, Morrison ganha pela riqueza e carisma, o nível informacional de uma obra não é sinônimo para uma boa trama, o próprio “Os Invisíveis” demorou muito tempo até que, com própria autocrítica do autor, alcançasse esse patamar)

Então, quando se trata de roteiros “adultos”, eu me aproximo um pouco mais de Brian K. Vaughan, em especial, Y: The Last Man e Ex Machina, ambos detentores de argumentação rica, traçam um perfil sobre vida política, antropologia, sexualidade.

O Próprio protagonista de Ex Machina, o super-herói transformado em prefeito de Nova York, Mitchell Hundred, lida, em paralelo a uma trama de Sci-Fi, com a responsabilidade de gerir uma das maiores cidades do mundo, influenciando diretamente na vida de seus habitantes

“responsabilidade”, talvez seja este o fator de critério para distinguir um roteiro adulto, recentemente tive a chance de desenvolver um interesse por shoujo manga, em especial aqueles escritos pela Ai Yazawa, e neles, ficam evidentes a idéia de personagens que encaram os fatos.

Por trás dos traços suaves e figurino extravagante, o mangá Paradise Kiss trata sobre isto, uma protagonista buscando emancipação, amadurecimento, fazendo escolhas e arcando com as conseqüências (e olha que, o mangá sequer é destinado ao público adulto).

Você pode argumentar, que o “adulto” é uma evolução em relação ao maniqueísmo e infantilização que esta mídia sofreu no passado, acredito que seja infeliz entender que uma antítese seria a resposta mais apropriada.

Claro, sempre existirá um fundo lúdico, nós, como humanos e seres sociais, somos viciados na narrativa, e que também eu não sou nenhum velho sisudo incapaz de descontração, mas que é um erro muito grande por parte das editoras e público disseminador divulgar tais obras como “adultas”, sem antes, refletir sobre suas intenções.

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Comentários

  • Velho da Montanha  On 22/09/2010 at 0:57

    Já falei muito sobre isso em diversos foruns, pra mim nao exsietem tantos quadrinhos adultos assim, principamente esses da vertigo, que são mais uma putaria adolescente

    eles são recomendados para “mature readers” pq a sociedade americana é cheia de evangélicos nojentos conservadores e eles precisam classificar tudo antes de botar no mercado, pra não sofrer processos.

    se não fosse por isso seriam considerados como qualquer outro gibi

    onde eu acho que realmente existe quadrinho adulto é na europa, onde é cheio de coisa realmente dificil de ler e cheia de referencia culturais, assim como nas editoras independentes americanas.

    mas vertigo em si é coisa de muleke, principalmente garth ennis, warren ellis e coisas assim.

    • Alessio Esteves  On 22/09/2010 at 1:37

      Calma lá, meu Velho amigo!

      Em primeiro lugar deixo claro que concordo com os termos apresentados pelo meu nobre colega de post.

      Mas…

      Assim como classificar os comics como punheta é um erro, classificar o quadrinho europeu como adulto também é demais. Ou você acha que Manara faz algo revolucionário? Dylan Dog é outro fumetti que amo, mas também está longe de ser considerado adulto.

      Eu particularmente acho o quadrinho europeu superestimado e ainda não o consumimos o suficiente para separar o joio do trigo, coisa que já estamos fazendo com os mangás.

      Quanto aos autores citados, você os resume como “sambistas de uma nota só” e eles não o são.

      Garth Ennis demorou um pouco para sair do que havia feito em, “Preacher” e “Hellblçazer”, mas muitos dos arcos que ele escreveu para o Justiceiro tratam das questões abordadas acima e o tiroteio e pancadaria estão lá porque, oras, é uma HQ da Marvel! Mas até que parecem mais escapistas como “Barracuda” tem questões bem mais profundas rolando ali.

      Já Warren Ellis… bom, muita gente que lê “Transmetropolitam” não vai com a cara de Spider Jerusalem por achá-lo exagerado demais e esquece de ver o pano de fundo que o repórter analisa. É uma história sobre sociedade, jornalismo e política e Spider é nosso guia, para o melhor ou pior. “Nova Onda” e “X-Men” pela Marvel fora, mero ganha-pão. O primeiro foi bem elaborado e é pra lçá de divertido, já o segundo deixou a desejar mesmo estando acima do pardão das histórias dos mutantes (o que não é grande coisa).

      Agora leia “Planetary” e veja ali uma obra-prima. Ainda devo uma resenha sobre essa saga muito bem escrita e muito bem planejada. Não dá pra ler “FreqUência Global” e falar que é punheta.

      Já “Estranho Beijo” e “Down”, aí sim temos duas punhetas feitas pelo escocês.

      Quanto ao selo Vertigo, ele mesmo se ligou da armadilha que fez para si mesmo ao se definir como “selo adulto de fantasia” e ainda está tateando para fora disso. Além dos já citados “Y – O Último Homem” e “Transmetropolitan”, temos também o excelente “Escalpo”, todas histórias genuinamente adultas.

      “Grandes Astros – Superman” é outra história que trata de temas adultos dentro do universo daquele que é o maior super-herói de todos os tempos e sae encontra no mainstream. E no outro extremo temos “Giovanna”, que por mais bem desenhado que seja, não passa de um stroyboard de filmes pornô.

      • Velho da Montanha  On 22/09/2010 at 20:57

        Não da pra falar de quadrinho europeu citando o que eles tem de mais comercial, Manara e os Fumetti da Bonelli.

        O próprio Bonelli declarava que queria fazer uma indústria, mesmo assim Dylan Dog ainda é o mais americanizado dos gibis que ele lançou, definitivamente Julia Kendall não é pra criança.

        Pra falar dos europeus é necessário citar Prado, Bilal, Moebius, Jodorowski, Jaime Martin, Frederic Boillet, os recem lançados no Brasil O Fotografo e O Epléptico e muita coisa que nem sai por aqui.

        Manara e Dylan Dog não são bons exemplos, e até em termos de erotismo Crepax é muito melhor que Manara e não é adolescente.

        Agora com relação a Garth Ennis só considero sua série de histórias de guerra como algo adulto, tirando isso, inclusive Justiceiro, acho bem adolescente. O fato de tratar alguma questão séria não quer dizer que nao tenha uma bordagem teen. Isso tb não quer dizer que não gosto do trabalho dele, só discordo que seja algo adulto.

        Warren Ellis é um completo imbecil, ve-se pelo Twitter dele, mas principalmente pelo seu trabalho.

        Transmetropolitan é uma série muito irregular, começa bem e depois cai muito, os útimos numeros são insuportaveis, e isso ocorreu logo que ele tentou falar de politica, pois nao sabe.

        O que ele sabe bem é: 1 imitar Garth Ennis com um monte de palavrão e escatologia 2 imitar Alan Moore fazendo releituras de quadrinhos e literatura antigos e acrescentando visões cientificas e esotericas pouco comuns pra embasar o texto. 3 falar merda no twitter.

        Esse é Warren Ellis, um completo imbecil pedante que fica dando “dicas de leitura” para as pessoas no final dos gibis.

        Já Escalpo e Y acho que são bem adultas, assim como da Wildstorn o Ex Machina que trata a política muito bem, o Ellis devia começar a imitar seu autor.

        Já esse All Star Superman eu achei uma história regular de super heroi, nada demais, prefiro os Invisiveis.

      • Alessio Esteves  On 22/09/2010 at 21:08

        Concordamos em algumas coisas. #2012feelings

    • Synthzoid  On 22/09/2010 at 1:39

      “…principamente esses da vertigo, que são mais uma putaria adolescente”, fato.

  • Synthzoid  On 22/09/2010 at 1:50

    btw, é curioso falar nesse geração Ellis/Ennis/Morrison/Moore, quando, de fato, todos vieram do mercado europeu, geração 2000 AD, não?

    • Alessio Esteves  On 22/09/2010 at 2:03

      Por isso que disse que acho o mercado europeu superstimado.

      Leiam Juiz Dreed, Metal Hurlant, Drunna e aqueles milhares de álbum europeus de putaria muitom bem desenhados e com roteiros pseudo-scifi-lisérgicos. Eu só vejo ali testosterona e putaria adolescente.

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