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Entropias grant-morrisianas #2 – Time Is A Four Lettered Word

“Time Is A Four Lettered Word” publicado em outubro de 1978 na edição nª. 2 da Near Myths foi a primeira obra pela qual Grant Morrison recebeu alguma grana pra fazer. Este seu primeiro trabalho “profissional” contou com apenas cinco páginas e ainda eram no final da revista, o que deixa claro que entre todos os outros autores ele era o menos prestigiado. Até porque era novo na equipe. Na edição nª. 5, o último suspiro da Near Myths no mercado de quadrinhos britânico antes de morrer asfixiada, a magistral história “The Checkmate Man” de Morrison seria a primeira da revista, deixando registrado o quanto ele convenceu o público e os editores quanto a qualidade de se não seus desenhos, pelo menos seus roteiros.

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A Near Myths era uma revista pequena e seu caráter inovador na questão da mudança de foco dos super-heróis para público infantil, agora redirecionado para ficção científica para adultos, não era muito promissora nas perspectivas de vendas, então era normal que o editor só pegasse trabalhos completos de um artista ou outro e publicasse. Se houvesse divisão do trabalho entre roteirista e desenhista, isso iria significar mais grana a se pagar; ou pros artista, menos a se receber porque teriam que dividir. Então enquanto publicava na Near Myths Morrison tanto desenhava quanto criava os roteiros. Ele queria trabalhar com quadrinhos, exatamente em qual das duas áreas ele ainda não tinha se decidido.

Grant Morrison era o “cara de Glasgow”, como Rob King diz no editorial da ed. nª. 2. Ele ainda aponta que no próximo número, Grant iria começar uma série de histórias chamada “Gideon Stargrave”, que era seu trabalho principal. “Gideon Stargrave” era aquele trabalho apresentado por Morrison a Rob King na Primeira Convenção de Quadrinhos de Glasgow, quando ele procurava desesperado por uma oportunidade.

Mas afinal de contas, do que se trata “Time Is A Four Lettered Word”?

Do fim do mundo através paradoxos temporais/dimensionais, como quase tudo que Morrison trabalhará depois. Desde o princípio, como nessa obra, ele está envolvido com noções como “saturação do tempo”, no entanto nessa história, esse plot é enfeitado com toques da mitologia celta.

A narrativa é dividida em três histórias localizadas em tempos e situações diferentes que se passam confusamente misturadas nas mesmas páginas. Eu achei a arte horrível e confusa demais até pra coisas complicadas como paradoxos temporais… Morrison pode ser um bom desenhista de esboço, mas não de obra final. Dizem que ele tem vergonha desses trabalhos iniciais, porque ele não costuma mencionar, diz apenas que trabalhou pra Near Myths, no máximo comenta sobre Gideon Stargrave, porque o personagem se tornaria importante na trama de Invisíveis.

Em “Time Is A Four Lettered Word” a primeira narrativa é sobre Beachdair, um guerreiro que vai até a Stonehenge atrás do Deus Chifrudo e encontra uma mulher estranha por lá. Ele não aceita a presença da mulher naquele local sagrado dos druídas e quer retirá-la, através de ameaças, a mandando de volta aos campos da “deusa mãe”. A mulher o chama de tolo e diz que a “deusa mãe” está presente ali e que “o ciclo agora está terminando”.

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O segundo plot é o principal, se passa em 1982, nele tem um cara chamado Quentin e uma bruxa nomeada de Dana, que analisam pontos de saturação no tempo. Quentin descobre que todo o mundo está prestes a entrar numa transbordação temporal generalizada.

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A terceira narrativa é sobre, (aparentemente) um druida (“heathen slut” pra sacerdotisa) que vê uma sacerdotisa da deusa da colheita (Corn Maiden) tomando banho num rio em um período sagrado no qual ela não pode ser tocada (May Day) e a estupra.

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Quentin e Dana acabam parando na Stonehenge. Eles encontram lá uma força guardada por milhares de anos, uma força mágica contida que parece estar esperando por algo, que eles não sabem o quê, para ser liberta. E descobrem tardiamente que são eles mesmos os últimos elementos do quebra-cabeça que desencadeia o poder da Stonehenge. Juntamente com eles a combinação é completa pela presença de Beachdair no local e o sangue do druida que violentou a sacerdotisa, ambos em outras temporalidades. No penúltimo quadro da HQ vemos as três mulheres juntas, talvez sejam a mesma pessoa… talvez sejam justamente a “deusa mãe” pela qual Beachdair tanto pedia para encontrar. E no último quadro, uma visão em perspectiva do universo, talvez para dizer que o tempo havia se extinguido, ou reiniciado, naquele instante.

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Em geral “Time Is A Four Lettered Word” é muito confusa. Há uma deficiência de Morrison em tentar contar três histórias de uma vez. O roteiro é mais ou menos bem interligado, apesar de cortes bruscos e pouquíssima explicação de qualquer coisa, mas o que atrapalha mesmo é a incapacidade do desenho transparecer sequer a diferença anatômica entre os personagens… talvez por isso em geral, esse seja um trabalho que realmente Morrison não queira lembrar muito. De qualquer forma, é importante pra trajetória de Morrison porque já estão dispostos nesse primeiro trabalho temas que serão bem abordados em seus trabalhos futuros, tanto na Near Myths como em outras editoras maiores, que nesse momento ele nem sonhava que poderia um dia fazer parte.

(a próxima análise será de Gideon Stargrave no nª. #3 e /#4 da Near Myths)

Entropias grant-morrisianas #1 – Near Myths

Começo aqui uma série de posts sobre a produção do Grant Morrison. Desejo, se for possível e se a paciência deixar, analisar desde HQs mais obscuras como Bible John – A Forensic Meditation, Kid Eternity, The New Adventures of Hitler, Kill Your Boyfriend, Dan Dare e The Mystery Play, até as mais populares como SuperMan All Star, Liga da Justiça da América, The Invisibles e New X-Men.

Como não poderia ser diferente, vou começar do princípio da carreira de Morrison, que pode ser considerada como sendo as suas contribuições à revista Near Myths. Quando for preciso explicar algo além dos quadrinhos em si, como agora em relação a Near Myths e ao contexto histórico em que a obra foi produzida, farei posts específicos. Usarei de base para isso entrevistas e declarações do autor em documentários, revistas, blogs e principalmente no seu livro, Supergods.

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A Near Myths foi uma revista em quadrinhos de ficção científica e fantasia para adultos que durou apenas cinco edições, com a primeira sendo de 1978 e a última de 1980. Apesar de uma vida tão curta em relação a outras revistas, ela teve um papel relevante na indústria dos quadrinhos britânicos, seja por ter sido o primeiro emprego relativamente profissional na área que Grant Morrison teve, ou por ter dado destaque a outros artistas como Bryan Talbot e Graham Manley.

Na primeira Convenção de Quadrinhos de Glasgow, Morrison estava com sua auto-estima elevada, ele a pouco tinha se tornado punk. Ser punk, aquela idéia do “faça você mesmo”, da importância da atitude em detrimento do profissionalismo, o fazia sentir capaz de qualquer coisa, tinha revivido sua paixão pelos quadrinhos. Foi então que Morrison decidiu levar alguns de seus trabalhos, mais especificamente tiras de Gideon Stargrave, para a convenção na tentativa de arrumar algum lugar pra trabalhar. Lá ele encontrou Rob King:

“Rob King simplesmente gostou das minhas páginas e imediatamente me ofereceu £ 10 para cada uma que ele colocasse na Near Myths. Pela primeira vez na minha vida eu estava sendo levado a sério por alguém que não fosse minha mãe ou pai, ou cinco anos mais novo do que eu.” (Supergods – Capítulo 11)

Tony O’ Donnell, que também tinha acabado de ser aceito na Near Myths, disse que ao ver o trabalho de Morrison teve que admitir a Rob King a sua genialidade, principalmente após saber que Morrison tinha apenas 17 anos de idade!

A Near Myths era editada por Rob King. E Rob King era um dos donos de uma livraria especializada em ficção científica na cidade de Edinburgh. O fim dos anos 70 eram anos confusos, a utopia da geração hippie pouco se sustentava depois que a década de 60 não mudou o mundo, o que deu brecha para o punk criar novas bases comportamentais entre a juventude, deixando claro que as coisas estavam mudando como um todo. Não mudando revolucionariamente, ou para melhor como a geração anterior queria, mas estavam mudando à sua própria maneira e os quadrinhos não ficariam de fora desta mudança.

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A importância de relacionarmos a paixão de Rob King por ficção científica com sua função de editor da Near Myths é simples: sua revista em quadrinhos não era de super-heróis normais, era uma revista acima de tudo de ficção científica. O que apontava prematuramente para o gênero que com Neuromancer e Star Wars, por exemplo, dominaria todas as mídias na primeira metade dos anos 80. Além disso, o público alvo da revista eram os adultos, contrariando toda a lógica da época que focava principalmente em capturar crianças e adolescentes.

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Se a Era de Prata acenava a decadência do gênero horror nos quadrinhos –levando pra cova as histórias de detetives também-, o fim dela acenava a decadência de todo o gênero dos super-heróis. No instante em que os super-heróis foram jogados na sarjeta por “Watchmen”, a ficção científica se tornou o combustível que manteria os quadrinhos em movimento. Ficção científica e tecnologia tinham muito mais a ver com o punk e a nova geração do que heróis cuecudos salvando o mundo. Para Morrison durante essa época “quadrinhos e super-heróis eram entediantes. Eu era sci-fi punk. Foda-se”.

As contribuições de Morrison na Near Myths (e que vou analisar uma delas por semana, postando nos sábados aqui no NerDevils) foram:

#2 – Time Is A Four Lettered Word

#3/#4 – Gideon Stargrave

#5 – The Checkmate Man

Fontes:

Interview with Morrison about his early work including Near Myths:

http://homepage.ntlworld.com/fish1000/index/lostcontent/gm-afterimage6-jan88.txt

Interview with Tony O’ Donnell – comic artist (Ivy the Terrible and early collaborator with Grant Morrison): http://www.garenewing.co.uk/home/writing/tony.php

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