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Daytripper e os momentos preciosos de nossas vidas

 

Daytripper é uma daquelas resenhas por onde você não sabe começar, cada página apresenta ao leitor uma nova questão, uma nova beleza, um pensamento que ao mesmo tempo é nostálgico, melancólico e inquietante.

Para quem ainda não sabe, Daytripper é uma história em quadrinhos escrita e desenhada pela dupla brasileira Gabriel Bá e Fábio Moon e lançada pelo selo Vertigo, o braço da DC Comics responsável por histórias mais adultas e autorais.

O que me chamou a atenção foi toda repercussão que a série causou na mídia especializada, ganhando prêmios de peso lá fora, como o Eisner, Eagle e Harvey, quase todos envolvendo critérios como “melhor nova história em quadrinhos” ou “melhor série limitada”.

A premissa apresenta um roteiro simples, embora detentor de uma profundidade emocional incomum ao meio, conta diversos episódios cruciais na vida do jornalista paulistano Brás de Oliva Domingos (seu nome é uma possível referência a Brás Cubas, do clássico de Machado de Assis)

No passado, nesse mesmo blog, já critiquei diversas vezes as pretensões por volta da ideia daquilo que é considerado um “título adulto”, utilizando também em meus exemplos o selo Vertigo, porém Daytripper provou que ainda existe esperança.

Todos os capítulos compartilham a mesma fórmula de roteiro, sem uma continuidade exata, seguem diversos momentos cruciais da vida do personagem, em capítulos intitulados de acordo com a idade do mesmo e todos buscam explorar os sentimentos de Brás em relação a vida: carreira, relacionamentos, amizades, paternidade e luto são temas comuns nas tramas.

Uma dose de fatalismo é recorrente em cada capítulo, onde Brás inevitavelmente finda perante a vida, acredito que a intenção de Fábio Moon e Gabriel Bá seja demostrar o leitor a fragilidade da vida e a preciosidade de nossos momentos, empregando a noção literária de memento mori nas HQs.

Em diversos momentos da minha leitura eu me peguei ansioso para saber qual seria o desfecho de Brás em determinado episódio, acredito que embora seja um recurso de roteiro que “fisgue” o leitor, o mesmo pode causar certo nível de ansiedade e prejudicar a apreciação da obra.

Não é a toa que Daytripper é tão aclamado pela crítica, aqui não temos tramas policiais amargas ou a ficção-científica psicodélica, Brás de Oliva Domingos é um personagem universal, os problemas vivenciados na trama são comuns ao ser humano, é impossível que o leitor não se simpatize.

Em contrapartida, o ritmo lento e introspectivo da revista pode desagradar os leitores mais impacientes ou ávidos por ação, justamente aqueles mais adeptos das histórias adultas mais tradicionais, com suas tramas sombrias e dotadas de humor negro.

Se Brás é um personagem universal, o mesmo não pode ser dito da sua ambientação, Daytripper se passa no Brasil, em paisagens conhecidas como São Paulo e Rio de Janeiro, porém as mesmas são apresentadas com certo teor onírico, talvez até proposital, com o intuito de captar o público estrangeiro.

O traço de Fábio Moon tem referencias pra lá de propositais, cada cidade brasileira é apresentada como se fosse um cartão postal, São Paulo é desenhada com a intenção de lembrar a arquitetura do centro velho, a escolha das cores de Dave Stewart, em tons de sépia, apenas reforça o clima nostálgico. Outro ponto é a retratação de Salvador, todo construído em ladeiras, coqueiros, igrejas barrocas, além de praças repletas de vendedores ambulantes e mesas de bares.

Este Brasil possui um certo caráter introdutório, que sacrifica a verossimilidade da trama em prol da extrapolação daquilo que é exótico em nossa cultura aos olhos estrangeiros, em um caso óbvio, qualquer brasileiro adulto sabe quem é Iemanjá, ainda assim, uma personagem apresenta a divindade a Brás como: “Iemanjá, a deusa dos oceanos…” , além é claro da retratação de pontos turísticos, como o Corcovado e o Teatro Municipal de São Paulo porém isso é equilibrado episódios recentes como a queda do Voo TAM 3054 e o Apagão de 2009.

E como a própria HQ argumenta: “Aqui nós todos nós somos turistas”, mostrando que indiferente de ser caucasiano ou afrodescendente, brasileiro ou estrangeiro, católico ou umbandista, a diversidade cultural fala mais do que todos nós, e por isso, é importante salienta que essas situações não chegam a causar tanta estranheza e portanto não prejudicam a leitura, embora possam servir como referencial para um futuro amadurecimento artístico de ambos os autores.

Daytripper é uma raridade para o selo Vertigo e o ramo editorial dos quadrinhos adultos, detentora de um lirismo que não víamos no selo desde – pasme – Sandman, seu ritmo lento e até mesmo melancólico não será capaz de agradar a todos os gostos, mas ainda assim, é uma ótima leitura, recomendo para todos que buscam algo diferente, mais autoral e com uma sensibilidade que cada vez mais incomum entre as HQs ocidentais.

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