O Fim da Mordaça dos Quadrinhos

[Texto originalmente publicado no Farrazine #20, 21 de fevereiro de 2011]

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Os EUA são um lugar bem estranho: possuem uma cultura recheada de incentivo a uma violência velada em seus meios de comunicação de massa, mas ao mesmo tempo hesitam em falar abertamente sobre sexo, por exemplo. E qualquer um com um mínimo de conhecimento em comportamento animal sabe que violência – por qualquer razão, mas principalmente por território e hierarquia – e sexo são praticamente instintivos. Os EUA, assim como a maioria das democracias ocidentais (e dos Estados em geral), gostam de repressão e de políticas de combate, de apontar culpados ao invés de tentarem olhar para as causas do problema. É como culpar as chuvas pelas contínuas enchentes e soterramentos de uma área serrana, sendo que a construção de casas nessas áreas termina por destruir a vegetação que mantém a terra firme.

Tal comportamento, segundo a Etologia, é derivado de instintos primatas que todo o ser humano possui. É só observar um gorila líder de um bando; quando ele se sente ameaçado ele acha o líder de um bando mais fraco e o ataca, como que colocando a culpa de seus problemas nele. Atacar física e psicologicamente é interpretado como um sinal de força e termina por desviar a atenção do bando para um possível problema mais complexo. Bata publicamente em algo e tá tudo certo, é assim que a maioria dos ditadores são seguidos quase cegamente por seus súditos. A ascensão de Hitler e Stalin (ou qualquer outro) não difere da da tomada de poder de um gorila ou um elefante em seu bando. Da mesma forma não diferem as posições autoritárias que eles assumem em seus discursos. Esse é um dos motivos para as duas grandes religiões do mundo serem basicamente repressoras e monoteístas. Elas ensinam como a autoridade suprema não deve ser contestada e ainda criaram um inimigo que pode ser culpado de tudo: o Diabo e suas variações. Tais constatações parecem excessivamente metafísicas, longe do nosso dia-a-dia, mas tem mais similaridade com coisas bem próximas a gente do que se pode imaginar. Uma delas o leitor de quadrinhos conhece bem: o Comic Code Authority.

O psiquiatra Fredric Wertham, o principal responsável pelo Comic Code, é um tipo bem conhecido dos EUA: um caçador de "demônios". Da mesma forma que Anthony Comstock caçou prostitutas e "promoveu a moralidade" com seus esquemas e armadilhas bizarras, e Joseph McCarthy instalou o medo na sociedade americana com sua caça aos comunistas, Wertham chocou os EUA com seu livro A Sedução do Inocente (1954) onde culpou os quadrinhos pela delinquência dos jovens e o aumento no consumo de drogas. A temática alarmista do livro resultou numa campanha moralista que tomou de assalto os EUA, influenciou uma comissão de investigação do Congresso e resultou num esquema de autocensura das principais editoras de quadrinhos do país. O processo de fiscalizar a adoção das novas normas ficou a cargo da recém-criada Comics Magazine Association of America. O conteúdo das revistas mudou, assim como cores, palavras, desenhos, situações… tudo para agradar moralistas que nada entendiam de quadrinhos. Essa padronização pasteurizante e castradoras foi denominada Comics Code Authority e passou a ser praticamente obrigatória a sua observância para que uma HQ fosse publicada. Um movimento inverso também ocorreu: os pais – e até os jovens – não comprava gibis que não possuíssem o Selo do Código de Ética do CCA estampado na revista. Estava criado o demônio sedutor da juventude.

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Em seu livro, Wertham listava uma série de situações com alusões a violência, sexo e uso de drogas, englobando num mesmo guarda-chuva histórias de gangsteres, terror e até super-heróis. Foi desse livro que saiu a ainda cômica alusão a uma relação homossexual entre Batman e Robin (homossexual e pedófila, já que Robin tinha 12 anos na época), além da possibilidade analítica da Mulher-Maravilha ser lésbica – embora Eu nunca tenha visto essa sugestão nas histórias dela… pra mim ela sempre foi hétero e virgem – e do Superman ser fascista e anti-americano.

Após esses argumentos taxados de brilhantes por políticos, ele se tornou uma espécie de celebridade e um cruzado anti-delinquência, sendo inclusive ouvido como perito no assunto num Subcomitê do Senado que investigava a criminalidade juvenil. A primeira e grande prejudicada pelo Comic Code foi a editora EC Comics, especializada em HQs de horror. William "Bill" Gaines, editor da EC foi chamado ao Senado para depor sobre o conteúdo de suas revistas, e indagou que não existiam provas que elas efetivamente fossem responsáveis pela delinquência juvenil. A MAD, que era editada pela EC, usou um estratagema digno das piadas saídas de suas páginas para poder ser publicada sem o CCA: cresceu o formato, aumentou o número de páginas, aumentou o preço e mudou a arte para preto e branco, passando a se denominar magazine, mantendo o formato transgressor até hoje. Essa foi uma mostra clara de como todo o esquema armado pelo CCA era esdrúxulo e cheio de buracos.

O caso da EC é apenas um entre vários. Para exemplificar, até mesmo palavras como terror e zumbi foram proibidas na páginas das revistas. Outra determinação dessa época dizia que os bandidos das histórias sempre deveriam ser punidos, tornando os roteiros de quadrinhos algo extremamente maniqueísta e mostrando claramente o porquê do gênero super-herói ter sido o grande sobrevivente dessa sanha imbecil e sem sentido. Internamente, um poderoso lobby empresarial tomava conta da Comics Magazine Association of America, chefiado por executivos da DC e da Archie Comicss, auxiliados por alguns juízes e alguns magistrados. Num artigo da revista Time, de 1955, o ex-magistrado Charles F. Murphy revelou à equipe do CCA que havia ordenado a revisão de 5.656 desenhos, sendo 25% deles para "reduzir as curvas femininas a formas mais naturais".

Mas ao longo das décadas o Código experimentou um lento declínio. Depois da criação do selo Vertigo – da DC Comics, voltado para adultos – um número cada vez maior de séries saíam sem o selo de aprovação.Crise de Identidade, da DC foi outra. Em 2001 veio o primeiro golpe que começou a decretar o fim do Comic Code: a Marvel anuncia que não mais submeterá suas revistas a aprovação da CMAA. A decisão foi vista como tão polêmica por setores conservadores da indústria que Joe Quesada fez a seguinte declaração, focando principalmente no fato da DC Comics não seguir o exemplo:

"Acredito que a DC não tenha interesse em tirar os quadrinhos do nicho no qual se encontram e colocá-los num lugar mais popular. Por isso, o selo funciona muito bem para eles. Vamos deixar de brincadeiras e ver o que está realmente acontecendo no nosso  mercado há seis ou sete anos. A DC tinha tudo enquanto a Marvel corria atrás. Estamos falando aqui de uma empresa que tem o Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha! Uma empresa que tem a Time-Warner e agora também a AOL, e ainda são incapazes de promoverem os quadrinhos fora de nossa pequena comunidade, com todas revistas, jornais, canais e tudo mais. Por que ninguém se fez essa pergunta ainda?".

Bill Jemas, à época presidente da Marvel traçou um paralelo interessante ao ligar a aprovação do selo a um fraco desempenho em vendas, afirmando que títulos como Demolidor e Justiceiro tinham vendas pífias quando eram selados pela CMAA e logo após a retirada do selo se tornaram sucessos de venda. Também é possível ligar a própria ascenção da Marvel frente a DC a essa quebra com a autoridade do Comic Code, ascensão citada por Quesada na declaração acima.

Mark Waid, um dos artistas que mais lutava contra o selo foi taxativo na época que a Marvel rompeu com ele:

"Não acho que isso signifique, necessariamente, mais liberdade criativa. Tudo ainda depende das editoras, que seguram as rédeas de acordo com suas prerrogativas. Mas, da maneira que o Código é, eu estou emocionado com a atitude de Bill Jemas e Joe Quesada de nos tirar dessa miséria. Por anos, o selo estava obsoleto, e não significava nada fora dos corredores editoriais. Todo civil sabe o que é a MPAA – Motion Pictures Association of America, mas nenhum pai sabe o que é o Comics Code. Além disso, é bom lembrar que o selo foi criado por um bando de editores repugnantes e oportunistas para tirar a EC Comics do mercado. E não só poderei ajudar, como dançarei sobre o túmulo do selo".

No dia 22 de janeiro desse ano, a DC Comics (seguida pela Archie, dias depois) anuncia que não mais submeterá suas revistas ao Código, seguindo o exemplo da Marvel e criando um sistema de classificação interna. O Comic Code é finalmente extinto, mais de meio século depois.

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Comentários

  • Tavares  On 01/04/2011 at 13:06

    Voz do Além

    Em primeiro lugar vou falar sobre censura, é muita hipocrisia da parte deste blog falar sobre isso, pq ha algum tempo que meus comentários são censurados aqui. Por isto vou salvar este e se não for publicado enviarei a vc por e-mail, sabendo que vc o compreenderá.

    Agora sobre o post: outro dia postei no meu blog um documentário sobre Superman, é um video muito raro que colocaram no youtube ano passado. Foi produzido pela NBC em 1981.

    Tem todo a história do personagem nos cinemas e nas hqs com depoimentos dos criadores e tudo, mas o que achei de mais interessante foi o depoimento de Frederic Wertham sobre o personagem.

    “A grande pérola desse video é a participação de Frederic Wertham, o cara que nos anos 50 perseguiu os quadrinhos com seu livro “A Sedução dos Inocentes” por achar que eles faziam mal a mente das criancinhas americanas. Ele afirma sua visão do Superman como um personagem que impõe sua vontade sobre todos os povos, sem se importar com a lei ou considerações morais, representando apenas poder, força e violência. Ele ressalta que a palavra Superman seria a tradução direta de ubermensch e que existe uma relação entre a concepção do homem de aço e o sonho nazista de um homem superior ariano, acima de todas as leis, inclusive físicas e políticas, e dos valores do homem comum.”

    Isso me chamou a atenção mais do que tudo, eu tinha a mesma visão distorcida sobre Wertham, como vc pode ler, mas consegui ter a partir desse depoimento dele um insight

    Eu ainda continuo nas minhas pesquisas sobre o trabalho de Alan Moore e encontrei semelhanças nessa visão de Wertham sobre Superman com a abordagem dos super-heróis feita pelo barbudão.

    Dai fui procurar o “Sedução..” e tomei um susto, toda essa visão clichê de que Wertham odiava quadrinhos e desencadeou uma caça as bruxas é equivocada, percebi que o livro de Wertham é constantemente citado nesse velho discurso contra censura por pessoas que na verdade não o leram e não conhecem a história do autor.

    Estou escrevendo um artigo que desmente esse mito e compara a influência de Wertham na formação do super-herói moderno em paralelo com a influência de Alan Moore e sua turma.
    Ainda não esta pronto, mas assim que tiver posto la no blog.

    De inicio preste ateção apenas em uma coisa, no trecho de seu texto em que fala de uma Mulher Maravilha lésbica, um Batman gay e um Superman fascista, vc poderia estar descrevendo personagens de Watchmen, por que é isso que eles são.

    Outra coisa, o uso do livro do Wertham na comissão do senado americano se destinava unicamente a autorizar um discurso moralista, mas ele mesmo não tinha esse discurso, Wertham na verdade era esquerdista, liberal, muticulturalista e adorava quadrinhos! Ele foi usado como um bode espiatório para destruir os negocios da EC comics, que na época, (que é conhecida pelos historiadores de HQ como Era das Trevas, uma passagem entre a Era de Ouro e a Era de Prata, onde prevaleceram as histórias de crime e horror) vendia muito mais revista do que todas as outras empresas.

    Este blog tem que parar de repetir discursos clichê e começar a investigar mais as coisas.

    Enfim, como este blog é associado a revista sionista Veja, o meu comentário será apagado, mas lhe enviarei por e-mail.

    • Alessio Esteves  On 06/04/2011 at 1:52

      Seus comentários não foram censurados, mas entraram na categoria de SPAM e precisavam de aprovação para serem publicados. Acontece que sou eu o responsável por isso e estive meio ausente do blog nestes últimos tempos por uma série de fatores que não vem ao caso.

      Portanto estão aí as suas reclamações de sempre para a alegria de nossos leitores!

      Fique a vontade para mais comentários pertinentes, a casa agradece.

  • Voz do Além  On 06/04/2011 at 2:05

    Bom, creio que quanto a censura é como o Leosias falou. Podemos falar merda a torto e direito, mas censura realmente nunca vi e a automatização do WordPress realmente leva a ocorrência de comentários indo pro SPAM.

    Mas vamos as respostas. Eu realmente não li “A Sedução dos Inocentes”, por isso dei mais ênfase às reações dos congressistas ao livro dele, e o início de um período de caça às bruxas resultante disso. Então minha crítica foi mais ao Comic Code em si – embora a tenha estendido a Wertham – e o que ele gerou nos quadrinhos. E realmente não duvido que Alan Moore em sua desconstrução (e destruição) do gênero de super-heróis usa de elementos de “A Sedução dos Inocentes”.

    Quanto a “Mulher Maravilha lésbica, um Batman gay e um Superman fascista”, coloquei no texto por considerar uma análise incorreta do personagem, com exceção talvez do Superman em algumas passagens.

    Bom, mas agradeço o adendo/crítica, realmente tenho menos conhecimento teórico/histórico dos quadrinhos do que gostaria, vou dar uma lida em “A Sedução”.

  • Jacques  On 30/06/2011 at 14:13

    Aquele Fredric Wertham foi o tipo de pessoa que merecia morrer de unha encravada.
    O cara enxergava chifre em cabeça de porco e, por causa disso, todo mundo tinha de enxergar também?
    Sem dúvida a sociedade estadunidense é uma das mais retrógradas e hipócritas (os caras tem trocentas religiões e a maior indústria de filmes pornô do mundo), do tipo que bombardeia pela paz(?!).
    Se alguma m´dia (no caso, os quadrinhos) não acompanha as mudanças eto-sociais, ela fatalmente se extingue.
    Crise de Identidade, como você citou, é uma hq fora dos padrões, pois pertence à cronologia dos quadrinhos de super-heróis, mas parece pertencer ao selo Vertigo (onde o código de ética esdrúxulo nunca teve vez).
    Acho que temos sorte de ainda podermos ler hqs de qualidade hoje em dia, pois se dependesse da tosquice míope de alguns congressistas dos EUA, elas já teriam sido banidas, junto com o senso de noção deles.
    Parabéns pelo blog e até a próxima.

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