The Boys: um mundo de heróis sem escrúpulos

Não é nenhuma novidade, você pega o jornal ou assiste um noticiário na TV e se depara com notícias sobre a última overdose da Amy Whinehouse ou sobre o próximo pornô transexual do Alexandre Frota que faz uma música do UDR parecer uma canção de ninar, ou até mesmo o festival de nonsense protagonizado por nossas autoridades, é policial usando spray de pimenta em criança, político coagindo a secretária a tirar a roupa, uma coisa pra mim ficou clara como o dia, tendo em mente esses exemplos – e muitos outros episódios – eu posso concluir que o ser humano é despreparado para lidar com fama e/ou autoridade, de fato, mais um dia decadente na selva de concreto ocidental.

Cresci lendo HQs da década de noventa, principalmente do gênero super-heróico do filão Marvel Comics, tratando de heroísmo “cabeça”, observamos aquilo que a gente podia falar de uma humanização dos heróis, Matthew Murdock, advogado cego e vigilante noturno, Peter Parker, universitário desempregado e herói, toda a questão étnica e adolescente entre os X-men, bom, não é a toa que eles dizem “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades”.

Depois de adulto você passa a questionar isso, qual é o treinamento que esses heróis recebem? Como isto pode ser empregado em um ambiente público? Quais são os danos secundários? Quem aqui cresceu na mesma época que eu, deve-se lembrar da saga Massacre e a climática batalha no Central Park, envolvendo os Vingadores, o Quarteto Fantástico e os X-men contra um vilão titânico.

Naquele evento, e tantos outros, nunca ficou exatamente claro se um civil foi fulminado por um raio da morte perdido ou quantos foram pegos em uma explosão, ou se o Aranha entrando em um prédio em chamas ocasionou na morte desnecessária de alguém. E o pior, com tantos heróis alcançando status de celebridade, quanto tempo levaria para um deles surtar em público? E se um super-herói fosse Mel Gibson, Amy Whinehouse ou Charlie Sheen? A expressão “elefante na cristaleira” nunca fez tanto sentido, certo?

É a partir desta premissa que Garth Ennis e Darick Robertson criam o universo de The Boys, pela editora Dynamite Entertainment. Ennis, já conhecido pela sua aversão ao gênero super-heróico, mostra um mundo onde heróis descontrolados estão mais preocupados com publicidade e royalites, onde lobistas do conglomerado corporativo Vought American promovem ativamente o emprego de super-heróis no governo norte-americano. Uma verdadeira – e plausível- perversão do sonho fomentado pela Marvel e DC.

Os “garotos” do título são individuais recrutados pela CIA com o objetivo de investigar e manter em cheque a comunidade super-heróica, a equipe é formada por Mother’s Milk, um ex-soldado afro-americano, no qual a família se envolveu em uma briga judicial com a Vought American, The Frenchman, um suposto ex-militar francês, aparentemente insano que nutre uma imensa afeição pela The Female, uma ex-cobaia traumatizada, potencial psicopata, com aversão a qualquer um que a toque, Hughie “Mijão”, o novato, recrutado após ter a namorada morta em um incidente super-heróico, teórico da conspiração, tenta entender as motivações por trás de Billy Butcher, o líder da equipe, que nutre um ódio incondicional por super-heróis.

 

 

Boa parte da história é contada sobe a perspectiva de Hughie Mijão, como se o leitor também desbravasse a rede de intrigas do universo criado pelo Garth Ennis, o choque em descobrir que todo o heroísmo não passa de uma fachada, que as mortes, ressurreições e invasões alienígenas não passam de desculpas feitas pro assessores de imprensa para overdoses, acidentes ou orgias em paraísos tropicais.

Ennis se preocupa em balancear seu “argumento” com o background da história e dos protagonistas, claro, cenas que consagraram o roteirista na indústria de HQs são freqüentes e quase gratuitas! Não se surpreenda pela quantidade de sangue, tripas e outros fluidos e dejetos humanos que aparecem em cada edição. Cada arco de história geralmente costuma focar na reinterpretação de um grupo de heróis da Marvel ou da DC, transformando heróis em pessoas sádicas, irresponsáveis ou sem controle, Ennis toma o seu tempo com a trama, dedicando cada página para transmitir ao leitor seu ódio por super-heróis, criando situações ultrajantes, questionáveis, como uma verdadeira terapia de choque.

A série tem um comentário social forte ao cenário político americano, Ennis faz uma crítica ácida a falta de direitos trabalhistas para a população mais carente, a reação em relação ao episódio do 11/9 e toda a tramóia política que isto originou, os escândalos que envolveram a PMC Blackwater durante a administração do governo Bush.

O legal é ver que todos os planos dos The Boys são friamente calculados, meticulosos, quem espera por freqüentes cenas de pancadaria vai acabar um pouco frustrado, já que as mesmas não ocorrem sem antes toda uma investigação nos incontáveis podres e esqueletos no armário da comunidade super-heróica, mas quando acontecem, costumam ser sangrentas e viscerais, mérito do Darick Robertson, é claro.

Darick Robertson, conhecido por ter colaborado com sua arte no aclamado Transmetropolitan, de Warren Ellis, mostra uma arte bem dedicada, tentando equilibrar o aspecto “sem-noção” dos heróis com o resto do mundo “normal”, um fato curioso é que para alguns personagens, Darick foi buscar inspiração em Transmetropolitan, como as similaridades de The French com Spider Jerusalém e The Female c/ a  Yelena Rossini, outro fato envolvendo a criação dos personagens se encontra na proposital semelhança entre Hughie Mijão e o ator nerd idol Simon Pegg, famoso por filmes de comédia como Hot Fuzz e sua participação como Scotty no remake de Star Trek dirigido pelo J.J. Abrams

 

 

No Brasil, apenas o primeiro volume, intitulado “O nome do jogo”, foi lançado pela Devir Comics, se esta série te interessa, recomendo procurar alguns scans (e se tiver algum para recomendar, pode postar nos comentários! :])  ou comprar importado, indico para todos que procuram uma crítica séria a mentalidade super-heróica dos quadrinhos americanos ou para os leitores que há muito tempo estão carentes de algo no nível de Preacher.

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