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Usagi Drop: sensibilidade e carinho paternal em um dos melhores animes de 2011

Usagi Drop para muitos foi considerado um dos melhores animes de 2011, e admito que todo o alarde causado pelo término da série em fóruns e sites foi o que chamou a minha atenção para conferir a série. A trama conta a história de Daikichi Kawachi, um adulto solteiro e workaholic, que durante o funeral do seu avô, descobre junto com seus familiares horrorizados, que o falecido deixou uma filha bastarda, a jovem Kaga Rin, de apenas nove anos de idade.

Incomodado pela indiferença e distância de seus familiares com a menina recém-órfã,  Daikichi, contrariando a opinião de todos, resolve adotar a garota, causando espanto e comoção entre seus parentes, e descobre ao longo de onze episódios, que a vida de pai solteiro não é fácil.

A série foi desenvolvida pelo Production IG, que em seu portfólio tem nomes aclamados pela crítica especializada como Ghost in the Shell, Patlabor e Blood +.

A animação aborda um assunto pouco explorado, a paternidade e os esforços exigidos na criação de uma criança, o roteiro também propõe, de uma forma natural, uma crítica a problemas que o cidadão comum da sociedade japonesa encontra no mercado de trabalho, em ser pai/mãe solteira e até na adoção de crianças.

Embora Daikichi sofra as preocupações e ansiedades comuns em todos os pais, principalmente em conciliar sua carreira com as necessidades de sua filha, a série não apela para o melodrama ou o improvável, cada capítulo é um aprendizado na vida dos personagens.

Também fica o destaque para Kaga Rin, que mesmo protagonizando os momentos considerados “engraçados” e “fofos” para a audiência, é graças a ela que Daikichi se reconecta a família e põe sua vida em perspectiva, ela, mesmo órfã e madura pra sua idade, transmite uma noção de otimismo sem igual.

Para todos os efeitos, Usagi Drop é uma animação adulta, mesmo que longe da exploração e abuso de temas como violência e erotismo, a mesma apresenta a vida adulta – e sua evolução – como devem ser e em vários momentos, ao observar o esforço de Daikichi eu levei em consideração os mesmos que os meus pais fizeram – e ainda fazem – por mim.

Sem dúvidas, Usagi Drops é uma das melhores animações do ano, os interessados em dramas adultos e slices of life não vão se decepcionar, sem contar que é um ótimo anime para se apresentar a leigos ou aqueles que querem conhecer o meio, vale a pena dar uma chance e conferir.

Infantaria, Traumas e Robôs Gigantes

Para quem ainda não sabe, a etimologia da palavra “infantaria” tem origem na antiguidade, os “infantes”, eram literalmente, jovens rapazes recrutados para participar da vanguarda de seus exércitos, antes da conscientização do papel da criança na sociedade, culturas ancestrais retiravam púberes de seus lares para passarem por intensa doutrinação militar, tendo na história seu exemplo mais notável a cultura espartana. Se pararmos para pensar, eles eram os primeiros a encontrar combate, a tropa de choque, os despreparados, vulgarmente conhecidos como “bucha-de-canhão”.

Hoje em dia ainda observamos esse tipo de fenômeno em conflitos, não é nenhum assunto velado de episódios de milícias compostas por crianças na África, ou até mesmo adolescentes e jovens adultos em grupos extremistas como Talibã e Al Qaeda.

Entre os fãs de animação japonesa e mangá, sempre existe a piada relativa ao clichê da “jornada do herói”, onde um garoto é recrutado por uma autoridade e ao mesmo é dada uma arma poderosa capaz de aniquilar o inimigo. Na opinião de muitos, isso é uma manobra de marketing dos estúdios japoneses para alcançar empatia de seu público alvo, garotos de idade colegial, muitas vezes tímidos, com dificuldades para compreender seu papel em meio tamanha responsabilidade.

Efeito semelhante acontece nas escolhas de design para as tais “armas”, Yoshiyuki Tomino criador da série Mobile Suit Gundam, comentou o quanto a BANDAI amenizou a aparência de seus robôs para as audiências infantis, adicionando cores e outras peculiaridades que normalmente seriam não-ortodoxas para um equipamento bélico.

(Ou não, se levarmos em consideração o aspecto “vanguarda” da infantaria, soldados que atraiam a atenção do fogo inimigo para si…)

A “metáfora da infantaria” é comum no universo de Mobile Suit Gundam, em sua primeira encarnação, a tripulação da nave White Base é majoritariamente composta de civis e adolescentes, tendo como protagonista o jovem Amuro Ray, que se vê de forma forçada a começar uma carreira militar aos 15 anos de idade, pilotando o lendário RX-79.

Imaturo, Amuro Ray aos poucos entende a natureza da guerra, desenvolvendo traumas, encarando a inevitabilidade da morte e os joguetes políticos por trás dos conflitos, embora seja a “estrela” do desenho, Amuro (assim como diversos outros que o sucederam) eram apenas crianças, peões em um tablado de xadrez, gostaria de ressaltar que este tipo de fatalismo é recorrente no trabalho de Yoshiyuki Tomino, as séries Gundam costumam ter uma contagem de corpos alta em seu término.

Um exemplo – tão gritante quanto Gundam – se encontra no trio de Neon Genesis Evangelion, onde por razões científicas, apenas um grupo seleto de crianças podem pilotar o andróide Evangelion, a última esperança da humanidade, os traumas psicológicos e o confronto com a inevitabilidade são visíveis em Shinji Ikari, órfão de mãe, temeroso ao pai distante e apático – responsável pelo programa que o recrutou –  Asuka Langley e seu problemático complexo de Édipo, e Rei Ayanami, o maior exemplar de “infantaria” da série, desumanizada e objetificada (fora e dentro da série, inclusive por um fandom moe, coisa para se pensar) luta para encontrar algum sentido na vida além do amor possessivo de Gendo Ikari.

Shinji Ikari é o inverso do arquétipo do herói, ele é essencialmente covarde e emocionalmente imaturo, ainda assim, compelido para dentro do conflito, cada vez mais prensado por forças maiores que a vontade dele.

É interessante este caráter “objetificante” em ambas as séries, onde para os “adultos”, eles não são crianças, quiçá seres humanos, mas sim componentes necessários para se alcançar um objetivo maior – e muitos vezes, irrelevante a ótica infantil –

Em Gundam, o comandante Noa Bright é responsável em exercer um papel paternal perante Amuro Ray (e Kamille Bindan, Judau e tantos outros…), em Evangelion, graças a natureza esotérica do EVA, existe a concepção de “voltar ao útero” toda vez que Shinji e cia. passam a pilotar, é como se fossem protegidos pelo colo maternal de todo e qualquer perigo externo.

Se em Mobile Suit Gundam, Amuro e cia. experimentam uma passagem forçada na vida, em Evangelion existe aquela frívola busca por uma vida conciliatória, onde seus personagens intercalam exercícios militares com uma rotina escolar, tentando buscar humanidade no cotidiano, apenas para terem a mesma arrancada no próximo conflito.

Tanto Amuro Ray quanto Shinji Ikari passam a serem temidos pelos colegas graças ao papel “desumanizante” que desempenham, Amuro Ray como o primeiro de muitos a serem considerados “newtypes”, um salto evolucionário do ser humano condicionado a vida no ambiente espacial e Shinji como o piloto de uma arma de destruição em massa (e posteriormente, em seu papel central no Projeto de Instrumentabilidade Humana).  

Este tipo de situação não é exclusiva a cultura pop japonesa, analisamos dois fenômenos literários recentes, Harry Potter e Crônicas de Fogo e Gelo, no primeiro, um jovem de 11 anos é jogado em meio a mundo fantástico, porém igualmente sortido a medida em que amadurece e sua ingenuidade é abandonada (e até mesmo questões como se a Armada Dumbledore possa ser ou não considerada uma “infantaria”).

Em Crônicas o choque é ainda maior para quem – assim como eu – conheceu a através de sua adaptação pela HBO, se na série de televisão, personagens como Robb Stark e Daenerys Targeryan aparentam quase seus vinte anos de idade, nos livros, nenhum deles passam dos quinze anos de idade, demonstrando um caráter verossímil a nossa cultura medieval.

Sim, estamos falando de Daenerys, engravidando de Khal Drogo aos treze anos de idade…

Superman: Entre a Foice e o Martelo

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E se a nave do Super-homem tivesse caído na URSS? E se o socialismo soviético tivesse se tornado sistema político hegemônico graças a ele? Como seria o mundo e o que aconteceria com os outros heróis do universo da DC? Qual seria o lugar dos antigos vilões no mundo? É em cima dessas proposições que se baseia o fantástico roteiro de Mark Millar na HQ Super-Homem: Entre a foice e o Martelo (o título em inglês é bem mais pertinente e preciso Superman: Red Son), publicada nos EUA no ano de 2003.

Essa idéia de deslocar o Super-Homem de sua posição tradicional faz parte da iniciativa nomeada pela DC como Elseworld, em geral traduzido no Brasil como Realidade Alternativa. É um selo da editora no qual os heróis têm sua cronologia oficial alterada por fatos históricos ou mesmo invenções totalmente casuais para os roteiristas, ou seja, é uma possibilidade para se observar como seriam os personagens caso tivessem nascido em outra época, país e/ou dentro de outras perspectivas sociais.

No entanto a proposta de Mark Millar é mais do que uma brincadeira… ela parece satisfazer um antigo desejo seu de brincar com os símbolos da supremacia norte-americana no mundo, pois ele nos apresenta uma verdadeira sacudida dos valores norte-americanos e um chute no saco dos fãs tradicionais do homem de aço. Super-man, que foi uma criação de Jerry Siegel e Joe Shuster e representava principalmente uma expectativa de superação e da inabalável força da América do Norte recém saída de uma crise econômica nos anos 30, passa agora pro outro lado da política internacional. De herói quase invencível, protetor do planeta que espalha a justiça norte-americana para todas as regiões, defensor do american way of life que representa o espírito americano de superação e de força, ele se torna um disseminador do comunismo e única pessoa no planeta capaz de tirar essa idéia do plano utópico!

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Misturando Orwell, o panóptico de Foucault, retomando o confronto já secular entre anarquismo libertário e comunismo pleno (Marx x Phroudon, na HQ será Batman x Super-man) e fragmentos de teoria do caos-temporal, Mark Millar constrói um roteiro formidável, no qual em três números aparecem Batman, Mulher Maravilha e Lanterna Verde, que pouco se assemelham nesse universo paralelo com os personagens tradicionais. Os principais inimigos do homem de aço na trama vão ser Braniac e Lex Luthor, que num brainstorm delirante irão surpreender o leitor a cada página decorrida. Além de tudo isso, ele faz uma critica a própria existência de certo arquétipo heróico, o do ser invencível. Este que percorre a história humana desde os tempos primitivos pela figura do demiurgo selvagem que depois será a mãe-natureza, passa séculos depois nos gregos pela imagem do herói Hercules e na era moderna é representado na cultura pop pelo Super-Homem.

A grande pergunta que percorre subterraneamente a HQ acaba sendo: como a humanidade seria se alguém que pudesse ver/ouvir tudo, que fosse capaz de se locomover quase instantaneamente para qualquer lugar do planeta, tivesse força incomensurável e fosse invencível, existisse? O mundo não seria como ele acreditasse que deveria ser? Por mais que ele fosse bom, não acabaria moldando o planeta a sua imagem?O mundo não se renderia aos seus pés sem reclamar? Isso é heroísmo? Bom, leiam essa HQ do caralho e tirem suas próprias conclusões.

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Durarara!! Um dos melhores animes de 2010!

Essa é a segunda vez que eu me surpreendo com o estúdio de animação Brain’s Base, a primeira foi ano passado, após a resenha numa coluna do Adi Tantimeth no Bleeding Cool eu vim a conhecer um anime chamado Baccano! uma verdadeira preciosidade da animação japonesa em meio a tempos de excessivo moe e séries de qualidades visivelmente contestáveis como K-ON,  baseada em um Estados Unidos fictício a trama envolvia punguistas, mafiosos, alquimistas e diversos outros tipos de personagens que, embora aparentemente não estejam relacionados, acabam se encontrando e dando direção à um plot muito maior, para todos os efeitos, eu recomendo Baccano! que embora seja uma série que date o ano de 2007, ainda mantém um nível de sofisticação distinto de suas sucessoras. Foi com muita surpresa que, em minha busca pela próxima animação, eu me deparei nos fóruns e redes sociais com o nome Durarara!! (sim, com duas exclamações…) e para minha surpresa, era uma nova animação desenvolvida pelo mesmo estúdio que produziu Baccano! tendo ciência da qualidade dos trabalhos da Brain’ Base, eu não poderia abrir mão da oportunidade de dar uma conferida.

Diferente de Baccano!, onde a trama se desenvolve no passado, em Durarara!! o espectador é transportado para a Ikebukuro dos dias de hoje, quando o tímido colegial Mikado Ryugamine, cansado de sua vida no interior do Japão, se muda para Tóquio, lá ele reencontra seu amigo de infância Masaomi Kida que após um breve passeio noturno pela região, apresenta a Mikado as principais personalidades e mitos de Ikebukuro. Para todos os efeitos, Durarara!! é uma seqüência espiritual de Baccano! dando continuidade ao trabalho de roteiro iniciado pelo primeiro, a série apresenta um carismático elenco de mais de vinte personagens, onde todos se cruzam em determinado momento da trama, entre os mais notáveis, nós podemos citar a courier Celty Sturluson, uma motoqueira estrangeira que cruza as ruas de Ikebukuro em uma moto totalmente negra, seu passado é dotado de mistérios e incertezas, ou Shizuo Heiwajima um lutador de rua de personalidade cômica e violenta e é claro, o imigrante russo Simon Brezhnev, tão forte quanto Shizuo, só que detentor de uma personalidade amável e pacífica, para os entendidos de língua japonesa, Simon Brezhnev é um show a parte, graças aos diversos erros de pronûncia cometidos pelo personagem, provocando reações hilárias para quem vê, ou até mesmo Kyohei Kadota e sua “gangue de otakus”.

O universo de Durarara!! é essencialmente cosmopolita, nós observamos interagir colegiais, yakuzas, gangues, otakus, imigrantes estrangeiros, elementos sobrenaturais e até mesmo o impacto das redes sociais no cotidiano urbano, boa parte disso se deve a existência na trama de um fórum anônimo intitulado “Dollars”, em uma Ikebukuro disputada por diversas gangues de rua, os Dollars são um novo elemento na geopolítica da região, sem hierarquia ou meios de identificação ou até mesmo objetivos em comum, é interessante ver, ao longo da história quais personagens pertencem – ou não – a esse coletivo.

A origem do nome vem de uma piada na pronuncia japonesa para a expressão, “Dara”, onde o termo “Dara Dara”  é utilizado para designar coisas inúteis ou ociosas. A presença dos Dollars na trama é uma ótima sacada por parte dos produtores, se levarmos em consideração a popularidade entre os japoneses dos “image boards” como o 2channel e até mesmo a força política exercida pelo 4chan, e por extensão, o coletivo conhecido como Anonymous, famosos por diversas reivindicações e posicionamento contrário ao pensamento reacionário de corporações e partidos políticos, na trama de Durarara!! os Dollars se preocupam com atividades de filantropia, promovendo limpezas nos bairros, ajudando pessoas perdidas e impedindo crimes de rua.

Porém, um anime tão bom quanto Durarara!! sofre de um mal comum cuja parcela de culpa quase sempre recai sobre a emissora, com uma história complexa e intricada, rica em personagens e acontecimentos, a série tem apenas 24 episódios, sendo que os últimos capítulos acabam passando uma sensação de urgência, rapidez, como se os produtores estivessem apressando alguns fatos, o que destoa do clima letárgico e metódico da primeira parte da série, chegando ao ponto de terminar a história com algumas poucas – e importantes! – pontas soltas e até mesmo personagens que aparecem na apresentação, não ganham mais espaço que um mísero episódio, trata-se de um dos contratempos de se trabalhar com uma gama tão grande de personagens.

Para muitos Durarara!! foi um dos melhores animes da temporada de 2010, e eu endosso esse fato, personagens carismáticos – e boa parte graças ao trabalho de dublagem dado ao anime – história fantástica, uma apresentação incrível, trilha sonora de peso, é uma daquelas séries que daqui uns anos a gente vai pensar com carinho, então meus amigos, não deixem de conferir essa obra prima! Roar Out Louder!

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