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Resenha: Puella Magi Madoka Magica

Um dos aspectos mais interessantes da pós-modernidade é a capacidade de desconstruir convenções presentes nos mais diversos gêneros do entretenimento, é um processo básico de engenharia criativa, desmontando e analisando clichês, passo-a-passo, nós não apenas podemos compreender melhor seu funcionamento como também podemos incrementá-lo. O anime Puella Magi Madoka Mágica segue esta linha, esmiuçando para as audiências as situações comuns do majokko e também seguindo adiante, introduzindo novos elementos a caminho de se tornar um verdadeiro clássico do gênero . Se no passado, eu comentei da utopia idílica do mangá Card Captor Sakura, em Madoka – como o desenho é chamado pelos fãs – nós podemos explorar o quão frágil é a relação de poder e desejo das “mahou shojo” do anime e mangá.

A premissa da trama é a seguinte, uma “criatura” chamada Kyubey detecta “potencial” em diversas garotas adolescentes, tendo ciência disto, oferece para as mesmas uma barganha faustiana: ter a possibilidade de ter qualquer desejo realizado, e em troca, elas devem se tornar “Puella Magi” e a utilizar seus poderes na luta contra criaturas denominadas “witches”. É em Madoka Kanami – a protagonista da série – que Kyubey detecta um potencial nunca antes visto, tanto Madoka quanto suas amigas ficam maravilhadas pelas possibilidades de se tornarem heroínas, porem logo o sonho se transforma em um pesadelo quando elas criam ciência da dimensão do perigo com que estão lidando.

Madoka vê, uma a uma, suas colegas de aventuras falecerem ou quebrarem psicologicamente diante de seu olhos, tornando-se então cada vez mais arredia a idéia de se transformar em Puella Magi, embora o anime tenha recebido pressão da crítica japonesa – em especial pelo movimento político de Ishihara – , sendo considerado pela BPO (Broadcasting Ethnics & Program Improvement Organization), principal órgão de vigilância e censura da televisão do governo japonês, como “muito cruel” para as audiências, o mesmo não retrata uma cena sequer de violência explícita ou sexual, deixando claro que embora os produtores desejam desconstruir o gênero “garota mágica”, os mesmos se posicionam longe de uma possível exploitation, o que é uma atitude madura e louvável.

A série possui valores de produção altíssimos, não só pela qualidade da animação, mas também pelo uso de recursos inusitados (principalmente envolvendo sombras e dimensões) e pelo belíssimo design dos cenários, a própria concepção das “witches” são um show a parte no desenho, são criaturas que nós não podemos descrever como “antropomórficas”, sendo mais fácil considerar elas um “lugar” ou “fenômeno”, elas aparecem no cenário, de inspirações que vão da arte clássica, stencil, colagem e até mesmo patchwork, é como ver personagens de anime andando em um fundo de Pop Art, algo completamente destoante e ainda assim muito bonitode se ver,  podendo ser considerado até metalingüístico, como um protesto contra a idéia de “superflat” que vem sendo disseminada no gênero.

Embora a princípio a trama envolva as tribulações que Madoka e suas amigas se vêm obrigadas a superar, a mesma se aprofunda em questões como o karma e os princípios de entropia no universo, onde os desejos realizados das Puella Magi trazem a tona uma tragédia ou maldição de equivalência igual, as próprias motivações de Kyubey adicionam um viés de horror cósmico a trama, bem na veia de H.P. Lovecraft.

Assim como Neon Genesis Evangelion na década passada, o elenco de Puella Magi Madoka Mágica consegue transpor os arquétipos criados pelos animes de seu tempo, a série é relativamente curta,  possuindo apenas 13 episódios, porém com uma trama concisa e sem pontas soltas, um verdadeiro tratado sobre como amadurecer e explorar melhor as convenções que o gênero vem fomentando desde a década passada, recomendo, pois assim como Evangelion, Madoka se transformará na próxima referência em seu meio.

Seja bem vindo a NHK!

Em 2010 a mídia ocidental passou a dar maior foco naquilo que ficou conhecido como “Hikikomori”, traduzindo para o português, seria algo próximo de “isolado em casa”, o fenômeno começou a surgir no Japão durante essa década e ele serve para ilustrar quando pessoas, de variados graus de inaptidão social e quadros clínicos psiquiátricos acabam se isolando em seus quartos, ignorando a rotina no mundo exterior e alienando-se por opção. O fenômeno é visto por um certo nível de tabu pela sociedade japonesa, em parte pela própria renda do Hikikomori, onde muitos são sustentados pelos pais após o início da vida adulta e até a associação destas pessoas com a cultura otaku, ainda mais quando a japonesa ainda se lembra de casos como o de Tsutomu Miyazaki, um otaku responsável pelo assassinato de quatro garotas, o que levou o país por um breve período de pânico social. O governo japonês tem investido em políticas de inclusão social e saúde pública, e obtido êxito de mínimo para moderado, por mais que seja uma preocupação por parte de seus governantes, os alicerces pelos quais a sociedade japonesa foi erguida precisam mudar para que o quadro dos Hikikomori alivie, muito destes vivem profunda depressão, enquanto outros apresentam tendências a agorafobia, Aspenger e até TEPT.

Antes dos holofotes da mídia ocidental darem atenção ao caso, em 2007 foi lançado o mangá  N.H.K. ni Yokoso (ou melhor “Bem Vindo a NHK”) pela autoria de Tatsuhiko Takimoto, contando a história do protagonista Tatsuhiro Sato, um hikikomori que há quatro anos não sai de sua residência, atormentando, ele vive incomodado pelas incessantes Anime Songs de seu vizinho Otaku, o consumo de medicamentos tarja preta e toda sorte de alucinações e paranóias experimentadas pelo seu isolamento e cansaço mental, um dia, após a visita de um grupo de ajuda, ele conhece Misaki Nakahara, uma garota que se interessa pelo caso e o incentiva a sair fora através de um programa de reabilitação.

O autor demonstra preocupação em desmistificar a figura do Hikikomori, Tatsuhiro, o protagonista, apresenta um certo grau de instrução e atualidades, conhece filmes de época e é versado em Freud – rendendo um hilário diálogo com Misaki – e aparentemente também é um ótimo escritor, mas em compensação, se encontra no principio da insanidade, suspeitando que a responsabilidade pelo fenômeno Hikikomori seja da NHK, uma grande emissora de televisão do Japão, Tatsuhiro, em meio a delírios, argumenta que a exposição das audiências a animes e outros programas leva as pessoas ao confinamento social, e chega a dizer porque alguns desenhos estão em faixas de horários cujo crianças estão ausente/dormindo mas hikikomoris não.

A intenção do autor sobre o personagem da trama me fez lembrar dos arcaicos “filósofos viscerais” da Grécia Antiga. Estudiosos – ou doidos de plantão – que buscavam não apenas a divagação mental, mas toda e quaisquer sorte de experiência sensorial, incluindo flagelo e consumo de substâncias alucinógenas, e é mais ou menos este o caso de Tatsuhiro Sato, em cada episódio ele é confrontado por um outro fenômeno ou novidade da sociedade japonesa pós-moderna, tome por exemplo o primeiro volume, onde ele conhece o lolicon, e acaba perseguindo garotas pré-adolescentes na saída da escola, posteriormente, ele experimenta o bairro de Akihabara, uma escola de mangá, o mundo dos Eroges, fóruns anônimos e até mesmo drogas de prescrição médica.

É interessante notar que, embora a atmosfera da trama é pesada, existe um fator cômico que muitas vezes mitiga o elemento chocante, seguindo o padrão dos animes e mangás, os personagens têm atitudes espalhafatosas, piadinhas e recursos de narrativas que amenizam o insalubre mundo de Tatsuhiro e seus conhecidos e até, por extensão – ou pieguice – você passa a questionar se perante essa sociedade esquizofrênica e dromológica, de hábitos cada vez mais estranhos e incapazes de acompanhar, se o isolamento do personagem principal não é na verdade uma solução plausível.

“Bem vindo a NHK” foi originalmente lançado em 2007 c/ oito volumes, rendendo um Anime e atualmente é distribuída aqui no Brasil pela Panini Comics/Planet Manga, se você está cansado de gêneros como lutas ou romances, e sempre teve curiosidade em entender melhor qual situação social um país como o Japão se encontra, eu recomendo a leitura deste mangá.

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