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Iemanjá e Seth, um paralelo

Por Dan Erik

Ontem, assistindo uma vinheta daquela série Sagrado, me veio uma correlação interessante entre Iemanjá e Seth que pode indicar mudanças no culto a Iemanjá.

Ano passado eu encontrei no Scribd um estudo acadêmico extenso chamado Seth, God of Confusion – A study of his role in egyptian mythology and religion, de 1967. Entre outras coisas, o autor, H. Te Velde, fala que além de deus da confusão ( não no sentido de baderna, mas no sentido de caos, desordem e desagregação ) Seth também foi cultuado no Antigo Egito como deus das fronteiras, de qualquer espécie, fronteiras territoriais ou metafísicas.

O autor relata que a conexão de Seth com as fronteiras, já existisse na segunda dinastia, porque imagens do animal relacionado a Seth, que é tão deus da confusão que ninguém sabe dizer ao certo que animal era, ao contrário de todos os outros deuses, é visto em cenas de caça no deserto, e na terra das gazelas. Então imaginava-se que o animal sethiano vivesse fora do mundo habitado. Cada povoado que se instalasse perto das fronteiras do Egito cultuava Seth e pedia sua proteção, portanto.

Deve ficar claro, que nessa época Seth não era um deus maligno como é retratado e cultuado hoje. Seth fazia o par Criação/Destruição com Hórus. Os dois não se eliminavam mutuamente, muito pelo contrário, eram duas faces da mesma moeda. E isso se dá pelo próprio pensamento dual da religião egípcia. “as above, so below” etc. As pessoas agradeciam a Seth por ter vencido a serpente Apophis entre outros feitos. Mas tudo mudou quando outros povos passaram a invadir e saquear o Egito, e é aí que chego ao ponto que eu quero. Esse tipo de acontecimento coloca em cheque o poder de Seth como deus das fronteiras, como se ele não estivesse mais cumprindo suas funções de repelir os demônios do deserto.

A partir daí ele passa a ser execrado e se torna um deus mal. E qual é a relação com Iemanjá, catso? Acho um absurdo cultuar uma deusa das águas no rio de janeiro quando as enchentes destruíram tantas casas e tantas vidas. O correto seria dar “uma bronca” na deusa, quando ela não cumpre algo que faça parte de sua jurisdição. Ou como os egípcios fizeram com Seth, a execrem e a tornem uma deusa traiçoeira como Loki. É claro que não se pode mudar uma tradição de séculos, mas se as enchentes se tornarem rotina, até mesmo os seguidores mais ferrenhos de Iemanjá fariam a seguinte reflexão: “a água inundou a minha casa e agora vou cultuar a deusa das águas?” Senta lá, Claudia! É essa a minha previsão para o futuro de Iemanjá.

Dan Erické formado em Design pela ESPM, sofredor do Paraná Clube e egiptólogo. Seu blog é Tesseract! e seu msn solipsistomaschewsky@hotmail.com

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