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Samurai Champloo: Sincretismo Pop no Período Edo

Samurai Champloo: Sincretismo Pop no Período Edo.

Um dos episódios que eu julgo ser mais importantes para a história japonesa se refere a abertura dos portos e o fim do isolamento da nação nipônica, a chegada de uma esquadra norte-americana iniciou uma série de revoluções culturais que inevitavelmente levariam ao fim do Xogunato Tokugawa, com a invasão comercial estrangeira, o país daria início a um longo processo de modernização, como a construção de ferrovias e cinemas, abrindo espaço então para acompanhar a dromologia ocidental (e posteriormente até liderar…) e o estado embrionário do que viria a ser uma cultura de massas quase um século depois.

É neste contexto histórico que a trama de Samurai Champloo se desenrola, lançado em 2004 pelo estúdio Manglobe e dirigido por Shinichiro Watanabe (Cowboy Bebop, Eureka Seven, Macross Plus e Animatrix) e exibido no Brasil pela Cartoon Network, a produção se diferencia de forma espirituosa de outros animes clássicos que se passam no mesmo período – como Rurouni Kenshin – focando as intenções de seu roteiro em uma espécie de experiência sincrética atemporal.  A trama conta a jornada de um improvável trio que se reúne sob circunstancias do acaso, após um incidente, a adolescente Fuu convence a dupla de espadachins Mugen e Jin a serem seu guarda-costas em uma viagem em busca do “Samurai com cheiro de Girassóis”.

interessante notar que o triângulo tem vários tipos de contrastes com a idéia de modernização/tradição, Jin é um samurai clássico, seu estilo é disciplinado e sua atitude tem um certo teor estóico, em contra-partida Mugen é selvagem e luta como um animal sem coleira, seu estilo de luta remete a danças como Capoeira e Break Dance, o que quebra com aquela expectativa calcada em filmes e contos de samurai.

A expressão no título do anime busca exaltar essa inspiração, a origem do termo “Champloo” se refere a uma expressão de Okinawa, pronuncia-se “Champuru” e a palavra é empregada para descrever coisas “misturadas” ou “todas juntas”, ou no caso do anime, essa relação entre o novo/velho, entre a tradição e a novidade, entre o passado e o presente.

Este tipo de situação se torna recorrente ao longo dos 26 episódios da série, onde encontramos referencias a cultura Hip Hop, bandidos orientais se comportando como “gangstas” norte-americanos e em diversos momentos coadjuvantes aparecem cantando Rap ou fazendo maneirismos caracteriscos, é engraçado ver também como os realizadores do anime encontraram uma maneira de censurar os palavrões dos personagens, toda vez que uma palavra ofensiva é deferida, ela é abafada pelo som deu m “scratch”, como nas músicas editadas para rádio de diversos Rappers, como o Eminem..

Não se limitando apenas a cultura do Hip Hop, a trama também explora outros aspectos do intercâmbio Ocidente/Japão, como a influência do Ukyo-e nos trabalhos de Van Gogh e até a própria homossexualidade no período Edo e a Rebelião de Shimabara, protagonizada por camponeses católicos.

A trilha sonora merece um destaque a parte, o tema de abertura, “Battlecry”, tem a autoria de Nujabes (que por si só já merece um post nesse blog faz tempo…) e resume bem o clima da série, sendo por mim, um dos melhores temas de abertura já compostos, a cantora MINMI também ingressa a trilha sonora, composta apenas por Jazz, Hip Hop e R&B.

Samurai Champloo é um anime facilmente recomendável, sendo um dos que alcançaram o status de clássico na década passada, é uma ótima experiência para aqueles que correm atrás de inovações em roteiro ou buscam um aprofundamento crítico em cima dos temas culturais abordados pela série, também é uma ótima pedida para os fãs de filmes de Samurai e músicos de Hip-Hop, aproveitem a dica!

Resenha: Ghost Dog – The Way of the Samurai

As vezes eu gostaria de saber se alguém mais se lembra do momento que viu um filme, o local, o clima, a companhia – ou falta dela – dia da semana, horário, isso é algo muito freqüente comigo, parte da experiência em aproveitar o filme se encontra fora da “fita”, e sim no local, na sua acomodação e pré-disposição. Foi num final de tarde de domingo, lá nos meados de agosto de 2009, quando eu assistia na sala da minha casa o Telecine Cult, foi nesta atmosfera que eu pude apreciar Ghost Dog: The Way of the Samurai, dirigido e roteirizado pelo excêntrico Jim Jarmusch, o filme narra a trajetória do personagem homônimo ao titulo, um assassino de contrato afro-americano, interpretado pelo Forest Whitaker, em uma paisagem urbana e desolada que é um misto de Nova Jersey e Michigan, típica da cultura dos anos noventa, o personagem molda sua vida em cima da filosofia do Hagakure, um livro escrito pelo samurai Yamamoto Tsunetomo, onde os preceitos do Bushidô são expressos.

“Live by the code. Die by the code.”

Jarmusch adapta, em um mashup nada “Tarantinesco” o submundo do crime americano através de várias óticas, sejam elas artísticas, remetendo a estilos de filmes ou até mesmo da antropologia, mostrando gangues uniformizadas, mafiosos de meia idade, imigrantes, whitetrash. Nela, a relação de vassalagem de Ghost Dog com os mafiosos é explorada através de uma escalada de eventos e intrigas.

É legal observar as conseqüências deste intercambio do submundo, de forma tão explicita, um dos personagens mais marcantes, o mafioso quarentão Sonny Valério (interpretado pelo falecido Cliff Gorman) comanda um decrépito restaurante chinês e aprecia as rimas do Public Enemy.

O argumento sincrético do filme fica claro na trilha sonora, na música “Samurai Showdown”, o backvocal do rapper RZA – que faz uma ponta no filme – fala “Rashomon! Rashomon!”

Para aqueles que não sabem, Rashomon foi um conto escrito pelo japonês Akutagawa, onde um serviçal e uma velha discutem a moralidade ambígua que representa o ato de roubar para sobreviver, demonstrando assim um paralelo com a cultura marginal dos Estados Unidos, ainda traumatizada pelas revoltas populares de Los Angeles em 1992.

Outros personagens marcantes incluem o anônimo vendedor de sorvete, haitiano, mesmo sem conseguir formar uma sentença em inglês decente, conserva fortes laços de amizades c/ Ghost Dog.

Em outro momento, questiona-se a relação de alcunhas e nomes de guerra das gangues americanas e dos indígenas do passado e em diversos momentos do filme, aparecem atores trajando as cores dos Bloods e dos Crips, duas das maiores gangues que assolaram os Estados Unidos na década de noventa.

Segue a transcrição hilária do diálogo do filme (em inglês):

Louie: Ghost Dog.
Sonny Valerio: What?
Louie: Ghost Dog.
Sonny Valerio: Ghost Dog?
Joe Rags: He said Ghost Dog.
Louie: Yeah. He calls himself Ghost Dog. I don’t know, a lot of these Black guys today, these gangster-type guys, they make up names like that.
Ray Vargo: Is that true?
Sonny Valerio: Sure. He means like the rappers, you know, All the rappers, they got names like that: Snoop Doggy Dogg, Ice Cube, Q-Tip, Method Man. My favorite was always Flavor Flav from Public Enemy. You got the funky fresh fly flavor.
Ray Vargo: I don’t know about that, but it makes me think of Indians. They got name like, uhh, Red Cloud, Crazy Horse, Running Bear, Black Elk.
Sonny Valerio: Yeah. That kind of shit.
Joe Rags: Yeah. Indians, Niggers, Same thing.

Mostrando diversos universos interagindo, é difícil assistir Ghost Dog e não se lembrar de clássicos do Akira Kurosawa, como Kagemusha, Ran e Shichinin no Samurai ou até mesmo o cinema Blaxploitation no auge do Kung Fu de Bruce Lee na década de setenta.

O filme é rico, e não se preocupa em apressar este fato, filmagens panorâmicas intercalam com interlúdios envolvendo citações do Hagakure, e pra quem espera cenas carregadas de ação, como nas histórias de Quentin Tarantino, a estética do filme é outra proposta, serena e meticulosa, mas ao mesmo tempo, impactante no momento certo, como caminho do samurai…

“The end is important in all things.”

 

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