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Nujabes: a batida lamenta sua ausência

Nascido em 7 de fevereiro de 1974, Jun Seba, conhecido no meio musical sob o pseudônimo Nujabes – seu nome ao contrário na pronuncia japonesa – foi uma das figuras mais proeminentes do Hip Hop alternativo, trabalhando ao lado de artistas tanto ocidentais quanto orientais, fundou em 2003 o selo independente Hydeout Productions, por onde passaram DJs e Produtores musicais como Uyama Hiroto, que já participou da composição de trilhas sonoras para a série Final Fantasy, como a faixa Theme of Love.

Uma das características mais marcantes no trabalho de Nujabes é a influência do jazz e do soul, usando samples de gravações de músicos como o pianista Bill Evans e renomado saxofonista Yusef Lateef, suas músicas costumam repassar experiências sinestésicas, essa idéia também transparece imaginário do encarte de seus CDs, onde retratam um estilo de arte particular, bem abstrato e colorido.

Embora famoso e renomado em seu meio, Nujabes ao longo de sua carreira realizou pouquíssimas apresentações ao vivo, preferindo expor seu trabalho através de artistas com quem colaborou, como o rapper japonês Shing02, cuja parceria começou em 2000.

Tanto Nujabes quanto Shing02 viriam a ser mais conhecidos no ocidente pela sua participação na trilha sonora de Samurai Champloo, de Shinichirō Watanabe, anime que misturou um conto de samurais com anacronismos modernos, em especial envolvendo a cultura do Hip-Hop, em que a resenha você pode conferir no próprio blog, outros artistas que já trabalharam com ele também participaram dessa trilha sonora, como a cantora de reggae Minmi, responsável pelo tema de encerramento “Shiki No Uta”. Outro trabalho interessante de ser mencionado é o remix que Nujabes realizou de “Folklore”, música do grupo Clammbon, um renomado trio de J-pop que mistura influências do Pop com o Jazz.

Em 26 de Fevereiro de 2010, Nujabes veio a sofrer um grave acidente de trânsito, onde mesmo encaminhado para o hospital, não conseguiu resistir e veio a falecer, foi-se realizado um funeral exclusivo para os membros da família e amigos próximos, sendo que sua morte foi anunciada para a mídia apenas uma semana depois, chocando fãs e a comunidade artística. Hoje em dia Nujabes é lembrado com carinho – obra e pessoa – por todos, sendo que diversos artistas com quem trabalhou lançaram álbuns tributos em sua homenagem e também o projeto “Eternal Soul”, em que foi realizado um show e um documentário com diversos artistas com quem Nujabes trabalhou.

Nujabes produziu verdadeiras preciosidades musicais, não por ser algo diferente, mas sim algo realizado com excelência, um trabalho onírico, atmosférico, de qualidade insuperável, de linguagem universal, que irá agradar não apenas os amantes de música nipônica, mas como também os mais fervorosos fãs de Hip Hop, Jazz, R&B e até mesmo gêneros mais alternativos, como Downtempo e Trip Hop, não deixem de conferir faixas como “Sky is Falling” “Hikari” “After Hanabi” e “Beats Laments the World”!

Samurai Champloo: Sincretismo Pop no Período Edo

Samurai Champloo: Sincretismo Pop no Período Edo.

Um dos episódios que eu julgo ser mais importantes para a história japonesa se refere a abertura dos portos e o fim do isolamento da nação nipônica, a chegada de uma esquadra norte-americana iniciou uma série de revoluções culturais que inevitavelmente levariam ao fim do Xogunato Tokugawa, com a invasão comercial estrangeira, o país daria início a um longo processo de modernização, como a construção de ferrovias e cinemas, abrindo espaço então para acompanhar a dromologia ocidental (e posteriormente até liderar…) e o estado embrionário do que viria a ser uma cultura de massas quase um século depois.

É neste contexto histórico que a trama de Samurai Champloo se desenrola, lançado em 2004 pelo estúdio Manglobe e dirigido por Shinichiro Watanabe (Cowboy Bebop, Eureka Seven, Macross Plus e Animatrix) e exibido no Brasil pela Cartoon Network, a produção se diferencia de forma espirituosa de outros animes clássicos que se passam no mesmo período – como Rurouni Kenshin – focando as intenções de seu roteiro em uma espécie de experiência sincrética atemporal.  A trama conta a jornada de um improvável trio que se reúne sob circunstancias do acaso, após um incidente, a adolescente Fuu convence a dupla de espadachins Mugen e Jin a serem seu guarda-costas em uma viagem em busca do “Samurai com cheiro de Girassóis”.

interessante notar que o triângulo tem vários tipos de contrastes com a idéia de modernização/tradição, Jin é um samurai clássico, seu estilo é disciplinado e sua atitude tem um certo teor estóico, em contra-partida Mugen é selvagem e luta como um animal sem coleira, seu estilo de luta remete a danças como Capoeira e Break Dance, o que quebra com aquela expectativa calcada em filmes e contos de samurai.

A expressão no título do anime busca exaltar essa inspiração, a origem do termo “Champloo” se refere a uma expressão de Okinawa, pronuncia-se “Champuru” e a palavra é empregada para descrever coisas “misturadas” ou “todas juntas”, ou no caso do anime, essa relação entre o novo/velho, entre a tradição e a novidade, entre o passado e o presente.

Este tipo de situação se torna recorrente ao longo dos 26 episódios da série, onde encontramos referencias a cultura Hip Hop, bandidos orientais se comportando como “gangstas” norte-americanos e em diversos momentos coadjuvantes aparecem cantando Rap ou fazendo maneirismos caracteriscos, é engraçado ver também como os realizadores do anime encontraram uma maneira de censurar os palavrões dos personagens, toda vez que uma palavra ofensiva é deferida, ela é abafada pelo som deu m “scratch”, como nas músicas editadas para rádio de diversos Rappers, como o Eminem..

Não se limitando apenas a cultura do Hip Hop, a trama também explora outros aspectos do intercâmbio Ocidente/Japão, como a influência do Ukyo-e nos trabalhos de Van Gogh e até a própria homossexualidade no período Edo e a Rebelião de Shimabara, protagonizada por camponeses católicos.

A trilha sonora merece um destaque a parte, o tema de abertura, “Battlecry”, tem a autoria de Nujabes (que por si só já merece um post nesse blog faz tempo…) e resume bem o clima da série, sendo por mim, um dos melhores temas de abertura já compostos, a cantora MINMI também ingressa a trilha sonora, composta apenas por Jazz, Hip Hop e R&B.

Samurai Champloo é um anime facilmente recomendável, sendo um dos que alcançaram o status de clássico na década passada, é uma ótima experiência para aqueles que correm atrás de inovações em roteiro ou buscam um aprofundamento crítico em cima dos temas culturais abordados pela série, também é uma ótima pedida para os fãs de filmes de Samurai e músicos de Hip-Hop, aproveitem a dica!

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