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Infantaria, Traumas e Robôs Gigantes

Para quem ainda não sabe, a etimologia da palavra “infantaria” tem origem na antiguidade, os “infantes”, eram literalmente, jovens rapazes recrutados para participar da vanguarda de seus exércitos, antes da conscientização do papel da criança na sociedade, culturas ancestrais retiravam púberes de seus lares para passarem por intensa doutrinação militar, tendo na história seu exemplo mais notável a cultura espartana. Se pararmos para pensar, eles eram os primeiros a encontrar combate, a tropa de choque, os despreparados, vulgarmente conhecidos como “bucha-de-canhão”.

Hoje em dia ainda observamos esse tipo de fenômeno em conflitos, não é nenhum assunto velado de episódios de milícias compostas por crianças na África, ou até mesmo adolescentes e jovens adultos em grupos extremistas como Talibã e Al Qaeda.

Entre os fãs de animação japonesa e mangá, sempre existe a piada relativa ao clichê da “jornada do herói”, onde um garoto é recrutado por uma autoridade e ao mesmo é dada uma arma poderosa capaz de aniquilar o inimigo. Na opinião de muitos, isso é uma manobra de marketing dos estúdios japoneses para alcançar empatia de seu público alvo, garotos de idade colegial, muitas vezes tímidos, com dificuldades para compreender seu papel em meio tamanha responsabilidade.

Efeito semelhante acontece nas escolhas de design para as tais “armas”, Yoshiyuki Tomino criador da série Mobile Suit Gundam, comentou o quanto a BANDAI amenizou a aparência de seus robôs para as audiências infantis, adicionando cores e outras peculiaridades que normalmente seriam não-ortodoxas para um equipamento bélico.

(Ou não, se levarmos em consideração o aspecto “vanguarda” da infantaria, soldados que atraiam a atenção do fogo inimigo para si…)

A “metáfora da infantaria” é comum no universo de Mobile Suit Gundam, em sua primeira encarnação, a tripulação da nave White Base é majoritariamente composta de civis e adolescentes, tendo como protagonista o jovem Amuro Ray, que se vê de forma forçada a começar uma carreira militar aos 15 anos de idade, pilotando o lendário RX-79.

Imaturo, Amuro Ray aos poucos entende a natureza da guerra, desenvolvendo traumas, encarando a inevitabilidade da morte e os joguetes políticos por trás dos conflitos, embora seja a “estrela” do desenho, Amuro (assim como diversos outros que o sucederam) eram apenas crianças, peões em um tablado de xadrez, gostaria de ressaltar que este tipo de fatalismo é recorrente no trabalho de Yoshiyuki Tomino, as séries Gundam costumam ter uma contagem de corpos alta em seu término.

Um exemplo – tão gritante quanto Gundam – se encontra no trio de Neon Genesis Evangelion, onde por razões científicas, apenas um grupo seleto de crianças podem pilotar o andróide Evangelion, a última esperança da humanidade, os traumas psicológicos e o confronto com a inevitabilidade são visíveis em Shinji Ikari, órfão de mãe, temeroso ao pai distante e apático – responsável pelo programa que o recrutou –  Asuka Langley e seu problemático complexo de Édipo, e Rei Ayanami, o maior exemplar de “infantaria” da série, desumanizada e objetificada (fora e dentro da série, inclusive por um fandom moe, coisa para se pensar) luta para encontrar algum sentido na vida além do amor possessivo de Gendo Ikari.

Shinji Ikari é o inverso do arquétipo do herói, ele é essencialmente covarde e emocionalmente imaturo, ainda assim, compelido para dentro do conflito, cada vez mais prensado por forças maiores que a vontade dele.

É interessante este caráter “objetificante” em ambas as séries, onde para os “adultos”, eles não são crianças, quiçá seres humanos, mas sim componentes necessários para se alcançar um objetivo maior – e muitos vezes, irrelevante a ótica infantil –

Em Gundam, o comandante Noa Bright é responsável em exercer um papel paternal perante Amuro Ray (e Kamille Bindan, Judau e tantos outros…), em Evangelion, graças a natureza esotérica do EVA, existe a concepção de “voltar ao útero” toda vez que Shinji e cia. passam a pilotar, é como se fossem protegidos pelo colo maternal de todo e qualquer perigo externo.

Se em Mobile Suit Gundam, Amuro e cia. experimentam uma passagem forçada na vida, em Evangelion existe aquela frívola busca por uma vida conciliatória, onde seus personagens intercalam exercícios militares com uma rotina escolar, tentando buscar humanidade no cotidiano, apenas para terem a mesma arrancada no próximo conflito.

Tanto Amuro Ray quanto Shinji Ikari passam a serem temidos pelos colegas graças ao papel “desumanizante” que desempenham, Amuro Ray como o primeiro de muitos a serem considerados “newtypes”, um salto evolucionário do ser humano condicionado a vida no ambiente espacial e Shinji como o piloto de uma arma de destruição em massa (e posteriormente, em seu papel central no Projeto de Instrumentabilidade Humana).  

Este tipo de situação não é exclusiva a cultura pop japonesa, analisamos dois fenômenos literários recentes, Harry Potter e Crônicas de Fogo e Gelo, no primeiro, um jovem de 11 anos é jogado em meio a mundo fantástico, porém igualmente sortido a medida em que amadurece e sua ingenuidade é abandonada (e até mesmo questões como se a Armada Dumbledore possa ser ou não considerada uma “infantaria”).

Em Crônicas o choque é ainda maior para quem – assim como eu – conheceu a através de sua adaptação pela HBO, se na série de televisão, personagens como Robb Stark e Daenerys Targeryan aparentam quase seus vinte anos de idade, nos livros, nenhum deles passam dos quinze anos de idade, demonstrando um caráter verossímil a nossa cultura medieval.

Sim, estamos falando de Daenerys, engravidando de Khal Drogo aos treze anos de idade…

Um mundo de Vocaloids e Mobiles Suits

Anos atrás eu li Idoru do William Gibson, diferente do universo da trilogia Sprawl (que continha o célebre Neuromancer), “Idoru” se tratava de um mundo Pré-Cyberpunk, não a distopia corporativa nutrida no seio da desilusão da contracultura da década de noventa, mas sim um mundo tecnologicamente emergente, não muito diferente do nosso. Fangirls japonesas discute sobre seus ídolos em um rudimentar ciberespaço, idorus digitais repercutiam no cenário do show-biz, casando-se com estrelas do rock e assim promovendo golpes de marketing.

Hoje eu entro no Hobby Link Japan, e me deparo com uma estatueta da pop idol Hatsune Miku a venda por U$31,00, Hatsune Miku em um sentido tradicional…não existe, ela é um construto pop derivado de um software desenvolvido pela Yamaha chamado “Vocaloid”, especializado em síntese de voz..

A base para sua voz é a Seyiuu – dubladora – Saki Fujita, porem isto é o de menos, Hatsune Miku é um meme, uma idéia viva, replicante não apenas em vídeo-clipes, mas sim em toda linha de produtos, action figures, revistas, linhas de roupa, chaveiros, plush dolls, cosplayers, um fantasma digital adolescente, olhos de anime e cabelos verdes translúcidos arrumados em pigtails.

Em concerto, sua versão holográfica contracenou com uma trupe de músicos de carne e osso, a vibração da platéia traduzia a indiferença pela suposta ausência de vida no palco, sua presença era indistinguível de qualquer outra cantora pop japonesa, mesmo vendo um vídeo no Youtube, era necessário um pouco de esforço para dizer que aquilo não era apenas uma projeção…

Não existe hipocrisia ali, para a indústria do entretenimento, a personagem sempre importou mais que o cantor, Lady Gaga sempre a frente de Stefani Joanne Germanotta, Karin Elisabeth Andersson é Fever Ray,

Warren Ellis uma vez escreveu a one-shot SUPERIDOL, onde narrava a invasão memética de Rei-Rei, uma idol construída a partir de denominadores comuns de todas as culturas humanas e traços físicos, olhos, cabelos, nariz, seios, tudo condensado em uma figura carismática e feminina, desenvolvida por cientistas sociais, programadores e analistas de marketing para cativar todas as faixas etárias e classes sociais.

Em sua introdução, um narrador estarrecido comenta: “Post Final Fantasy, Post William Gibson, set up to invade post-post-post ironic western society, a computer-generated idol singer, even the voice was synthesised from two hundred voices samples”.

A experiência aparentemente toma um novo rumo, em 2009 a BANDAI ergueu em diversas partes do Japão uma réplica do RX-79-2 Gundam, um dos personagens mais consagrados da cultura pop japonesa.

Entenda o raciocínio, não é uma estátua, muito menos um monumento, mas sim uma réplica em tamanho real, com LEDs, Gelo Seco e movimento, Em meu quarto existem 14 variações do mesmo, porem, até o momento, nenhuma Hatsune Miku…

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