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Pirataria aprende-se na escola

(texto originalmente publicado na Folha de São Paulo – Cotidiano em 14/03/2001 e reproduzido aqui sem a autorização de ninguém. Foda-se)

O Thoreau era um cara zen. Dizia que lei injusta se combatia com desobediência civil. Foi assim com o Lula em 1978, que fazia greves ilegais e corria o risco de ser preso a cada pouco. Ou com Rosa Parks, senhora negra que sentou num banco reservado a brancos, há apenas algumas décadas. É assim com os jovens que hoje derrubam os ditadores árabes – todos, pela lei, são criminosos.

Os 70,2 ilhões de brasileiros que compram ou baixam Cds e DVDs pirata não estarão praticando desobediência civil? Deveriam ser, todos, recolhidos à penitenciária?

Estudantes devem ser rotulados de cúmplices do crime organizado porque se recusam a pagar R$45,00 por um DVD de filme antigo que custa R$2,00 para produzir e distribuir?

O Conar, que autorregula a propaganda, omite-se ao não proibir a campanha que acompanha os DVDs. Não existe prova alguma de que parte relevante das vendas da pirataria tenha a ver com traficantes ou armas. Dediquei dias á centenas de sites, incluindo o da Interpol, conselhos contra a pirataria e CPIs de quatro governos para constatar isso. Claro que a pirataria envolve rime organizado – só faltava serem criminosos desorganizados -, mas é uma turma focada apenas em produtos.

E vejam, que curioso: das 80 fábricas piratas na Ásia, 8 na Malásia são licenciadas pelo governo! Ao todo produzem 9 milhões de Cds por dia.

A verdade é que a era de ouro dos estúdios e artistas chega ao fim. Não cabe mais que o mundo financie US$ 12 milhões por filme ao Tom Cruise ou fique babando com os Rolss-Royce dos rappers. Muito menos que financie cartéis de estúdios que conseguem, pelas leis vigentes, transformar policiais em capangas do lucro.

Ninguém vai defender as fábricas ilegais ou a pirataria intelectual, mas urge perceber que o mundo mudou.

As soluções são óbvias e lucrativas também: vender no dia da estréia o download por alguns reais. O faturamento final será o mesmo. Sim, terminará a mamata do filme que passa meses no cinema ou o livro que fica em capa dura – porque o lucro é estratosférico nesses fases – para, então, manipular o consumidor pelas fases imaginadas pelos espertos das finanças.

É aceitar que o mundo não é composto de acorbetadores de traficantes, e sim de adolesentes e adultos que não querem mais ser manipulados pelos Gaddafis da indústria do entretenimento. Acordem: 1 bilhão de downloads em 2010, antes mesmo que a banda larga de 10 mega seja corriqueira, é aula para qualquer empresário antiquado. Que criem vergonha e se atualizem – 70,2 milhões de criminosos brasileiros, todos mal-educados, agradecem.

Ricardo Semler, 51, é empresário. Foi scholar da Harvard Law Scholl e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachuesetts), em Boston. Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã, e escreveu dois livros (“Virando a Própria Mesa” e “Você Está Louco”) que venderam 2 milhões de cópias em 34 línguas.

Possível solução contra downloads ilegais.

Um artista gasta uma boa grana para produzir um disco de qualidade, certo? Se depois de concluído o disco for baixado gratuitamente, isso com certeza não seria algo legal para o artista. Quem já assistiu os bastidores da produção de um disco, sabe o trabalho e o gasto que é.

Pensando em algo para solucionar o problema que a música vem enfrentado na era digital, tive uma ideia que poderia ao menos amenizar o número de downloads ilegais na internet.

Seria o seguinte: As bandas passariam a pedir doações de seus fãs em seu site oficial, assim, quanto mais fãs a banda tiver e mais doações as bandas receberem, melhor e mais bem produzido será o disco. Seria algo como comprar o CD antes de ele ser concluído. Sendo assim, a banda só usaria na produção do seu disco o dinheiro arrecadado, então quem é realmente fã do artista, para ouvir um disco de boa qualidade sentir-se-ia obrigado a doar.

Com relação aos fãs que não doariam, esperando apenas o disco ser lançado para baixar gratuitamente.

Um fã, para fazer a doação, fará um cadastro no site da banda, e automaticamente passará a concorrer camisas, ingressos de show, CDs físicos ou quaisquer outros produtos de acordo com o artista. Só participará do sorteio quem fizer doação. O fã que doar também terá exclusividade com as novidades sobre a banda, receberá vídeos dos bastidores da produção, etc. tudo em primeira mão.

Segue um exemplo de como poderia ser criado a doação pelos artistas em seus sites:

  • Doar R$1 – Concorre a Bottons e chaveiros.
  • Doar R$5 – Concorre a Camisas
  • Doar R$15 – Concorre a Kits com CD’s, DVD’s e Camisas
  • Doar R$30 – Concorre a Ingressos

O valor, a quantidade de produtos, assim como os produtos sorteados ficaria a critério do artista.

Após a conclusão do disco.

As pessoas cadastradas no site receberão um código único e intransferível para baixar o disco gratuitamente no site.

O álbum distribuído no site viria com a arte digital além de alguns vídeos, fotos do artista, e textos falando sobre o artista durante a criação do álbum, enfim tudo para criar um atrativo aos fãs.

Quanto mais o artista fizer o fã se sentir importante e ter uma ligação mais direta com a criação do album, mais os fãs iram ajudar a banda e doarão para ter acesso a estas exclusividades.

É claro, isso é apenas o esboço de uma ideia, mas acredito ser mais interessante do que ideias como a do pague o quanto quiser usado pelo Radiohead, porque se algo já está pronto e eu tenho a opção de não pagar, é claro que essa será a minha escolha.

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