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Dia do Orgulho Nerd: orgulho sim, ufanismo não

Como estou sem blog pessoal, vou postar aqui mesmo, que se dane.

Dia 25 é Towel’s Day, um dia controverso na comunidade nerd, comemorado desde 2001, é a data dedicada ao aniversário de morte do escritor britânico Douglas Adams, famoso pela série The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, muitos vêm na data a oportunidade para uma comemoração mais generalista, o tal “Dia do Orgulho Nerd”, ou Nerd Pride’s Day. Ok, vou ser sincero, mesmo sem o intento de menosprezar o espaço de Adams na mídia especializada, quantas vezes nós nos deparamos com citações ou eventos relacionados a obra do mesmo? Se você levar em consideração a imensa quantidade de material que é produzida em base diária para outras franquias de maior peso e relevância, como Star Wars e Star Trek, sem querer parecer ofensivo perante os fãs de Adams, mas os mesmos aparentemente só lembram do aniversário póstumo do autor na data. Deixando o autor 364 dias na obscuridade.

Muitos consideram que Adams é um dos grandes escritores de ficção, porém, em pleno Towel’s Day, a Wired.com foi pertinente em lembrar de outro feito na literatura, algo bem mais importante e de cunho científico, há 66 anos atrás, o escritor e físico Arthur C. Clarke publicaria o ensaio “The Space-Station: Its Radio Applications”  sugerindo o uso de satélites orbitais para a transmissão de sinal para televisão e rádio, é válido mencionar que em 1945, televisão não tinha nenhuma viabilidade comercial, sendo que os meios favoritos pela sociedade eram o rádio e o cinema.

Clarke não apenas popularizou uma idéia extensivamente empregada nos dias de hoje, como também impactou a cultura pop com obras como “Encontro com Rama” e – minha favorita – “O Fim da Infância”, que inclusive influenciou Hideaki Anno na conclusão do anime Neon Gênesis Evangelion”.

(Vale lembrar também que, por curiosidade, o primeiro filme da saga Star Wars foi lançado em 25 de Março de 1977, e ainda assim, o fandom comemora o “May the 4th”)

Mas não estou aqui para promover uma discussão sobre as motivações – e fãs – de Adams e Clarke, ontem eu e uma amiga fomos ao Centro Cultural São Paulo, próximo a Estação Vergueiro, em sua imensa biblioteca, existia uma parte reservada para HQs e RPGs, lá eu pude encontrar coisas relativamente preciosas, caixas com edições da Dragão Brasil – algumas inclusive em “formatão” -, periódicos sobre anime como Henshin e até mesmo a amadora publicação de Ranma ½ pela Animangá, e a gente se lembrou um pouco do passado.

Comentei algo aqui no blog já, o início do orgulho nerd no Brasil, os primeiros eventos, encontros, as dificuldades e vitórias da época, se tínhamos motivo para sentir orgulho, era na hora de superarmos as tribulações, traduzir um livro em inglês/japonês, conseguir montar um cosplay, ir a um evento de anime para ver exibições de coisas até então “raras”, eram coisas que pela devida escassez, nós aprendíamos a dar valor, o Aléssio, que também posta nesse blog, pode endossar o que eu estou dizendo.

Hoje com um cartão de crédito eu encomendo uma action figure direto do Japão, compro HQs importadas na Livraria Cultura e influencio/sou influenciado por mais de 425 pessoas no Twitter, alguns saudosistas argumentam que hoje vivemos tempos mais fáceis, “tempos de Big Bang Theory”, eu só digo que são tempos diferentes, sem acrescentar ou tirar.

O que me incomoda é a aceitação cega do termo “nerd” por parte de alguns leigos, vem de uma mentalidade chauvinista e tipicamente americana, para distinguir dentro do meio social aqueles que são ineptos, estamos falando de pessoas com problemas para relacionamento, problemas de saúde, isolamento e fracasso, se for por essa ótica, estou longe de ser um nerd, faço exercícios quase que diariamente, saio durante os fins de semana, tenho amigos de longa data, não me enquadro nessa noção, porem ainda assim, tenho orgulho de minhas predileções intelectuais e reconheço o esforço e interesse de tantos outros, vivemos em um mundo onde acesso a cultura, infelizmente, ainda é algo distante e caro, por isso o preconceito.

Claro, um bocado de coisas mudou no mundo, o mercado exigiu a criação de uma área profissional capaz de lidar com altas doses de informação, o TI deixou de ser um departamento isolado nos fundos das empresas e veio a tona, se tornando pedra fundamental dos grandes negócios, o mundo aceita melhor essas pessoas excêntricas, porque oras, o mundo precisa dessas pessoas pra funcionar agora, a “Vingança dos Nerds” é um mito.

A aceitação do termo hoje em dia se dá em uma lógica muito parecida as tribos urbanas que obtiveram seus “nomes” relacionados a algum termo ofensivo e pejorativo pela sociedade vigente, como “punk” ou “gótico”, para que no meio de um mar de interesses, gostos e predileções tão heterogênicas, nós encontramos um senso de identidade em comum, a vontade de conhecer, de querer mais, de não conformismo, ao invés de uma mentalidade insular, isolacionista.

Não seja nerd porque é fácil se denominar nerd ou cômodo encaixar seus gostos dentro desse termo guarda-chuva, como se vê muita gente fazendo por ai, não seja Nerd na mesma forma que os fãs de Douglas Adams só se lembram uma vez por dia, em busca de um senso de identidade desesperado.

Quer um motivo pra sentir orgulho? Sinta todos os dias orgulho pelas dificuldades superadas, pelos objetivos alcançados – “nerds” ou não -, por aquilo que você é, mas também por aquilo que você pode ser, comemorar um dia, de forma tão vã e leviana me soa algo como ofensivo e depreciador para pessoas consideradas inteligentes. Nós não precisamos desse tipo de ufanismo.

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