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Clube dos Cínicos

Texto originalmente publicado no Farrazine nº 19

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Um grupo de marmanjos se estapeia no subsolo de um bar grudento. Quem vê uma cena dessa fora do contexto pode achar que está diante de uma ode a violência sem sentido, mas a profundidade do conjunto de questionamentos e críticas sociais presentes na tela/página vai muito além de uns meros tapas em busca da redenção momentânea. Quando saiu nos cinemas, Clube da Luta foi recebido como o próprio diabo. Até um maluco metralhando gente numa sessão do filme aqui no Brasil rolou, aumentando as críticas pra cima dele. Eu bem lembro o Fantástico o elegendo como o "filme mais violento da história", provavelmente se esquecendo que os vale-tudo que rolam nos canais a cabo da Globo são bem parecidos visualmente falando, com o adendo de serem reais. Também pudera, a idéia do filme era essa mesmo, ser chocante. Não é todo o dia que vemos uma obra que se põe a criticar o modo como o Consumidor cada vez mais está preso ao Consumo da forma como hoje acontece… e o faz de forma violenta, sem precedentes dentro da linguagem moderna. Considere o filme como a explosão do apartamento de Jack/Tyler/Narrador, sei lá como você quer chamar o Edward Norton. O filme é uma ruptura, uma iniciação rolando, é como Lúcifer caindo do céu, é doloroso como a primeira respiração de um bebê. Não necessariamente vai melhorar a vida de quem assiste, mas vai fazê-lo pensar sobre ela.

A bem da verdade, o sacode presente na mensagem de Clube da Luta existe como o lado negro das mensagens publicitárias ególatras atuais, é um anti-narcisismo. Se as propagandas que querem te transformar numa máquina de compra te jogam lá em cima, Tyler te joga na real: lá embaixo. As propagandas têm a tendência a colocar as pessoas no estado psicológico necessário para comprar muito. O consumo é a salvação da sua vida chata. "Sua vida começa aqui", "O mundo é seu", "Seu passaporte pra felicidade"… você provavelmente já viu algum slogan que tenha embutido uma mensagem similar a dessas três. O consumo quer fazer parte da sua vida. Comprar deve ser um hábito, principalmente coisas espúrias e caras. Isso é uma espécie de status social. Seu celular é do ano passado? Troque ou ele será inferior ao dos seus amigos, além de você não conseguir acessar aquele app com mapas exclusivos de Plutão. Seu computador não tem um processador i7? Troque, tá velho e seu navegador não ficará mais instável com 297 abas abertas. Não importa se você tá pouco se fodendo pra Plutão ou se fica com 6 abas abertas no máximo antes do seu TOC apitar… você tem que comprar algo mais novo. E é esse ligação quase umbilical entre Produto e Comprador que Clube da Luta quer cortar.

Como toda a sociedade ocidental é uma projeção amplificada do que rolou na Grécia, uma linha filosófica helênica tinha princípios bem parecidos, e aqui no caso ela atende pelo nome de Cinismo. Tradicionalmente se reconhece Antístenes, um pupilo de Sócrates como o fundador da corrente Cínica. Ele mesmo não era plenamente aceito socialmente, por ser filho de um ateniense com uma escrava, e dessa forma não era considerado cidadão de Atenas. Primeiro foi seguidor de Górgias, um dos primeiros Sofistas, para logo depois se tornar discípulo de Sócrates. Na filosofia do Cinismo, a Ética e Virtude estavam acima de tudo. Para alcançar um Estado Natural virtuoso, o ser humano precisa se livrar de tudo que é supérfluo e o impede de praticar um bem essencial que existe na humanidade. Diógenes, um dos seguidores de Antístenes, foi mais longe e desacreditou todas as ferramentas cunhadas pela civilização. Justiça, religião e escolas seriam somente instrumentos para afastar o homem da verdadeira felicidade. O Homem seria um ser auto-suficiente – como diria Jean-Jacques Rousseau séculos depois. A libertação do indivíduo desses grilhões é que traria a felicidade, e é aí que Clube da Luta se conecta ao Cinismo – cinismo em seu sentido original, não em sua desvirtuação levada a cabo por Platão anos depois. Diógenes vivia num barril apenas com sua túnica e um cajado. Segundo relatos, estava feliz assim. Alexandre Magno, admirando essa atitude, ficou frente a ele e ofereceu a realização do desejo que ele quisesse. Diógenes teria respondido: Desejo apenas que te afastes do meu Sol. Sol seria uma metáfora para Conhecimento: qualquer presente que Diógenes aceitasse se interporia entre ele e o Conhecimento.

Somente na metodologia para alcançar esse estado autárquico que os seguidores do Clube da Luta se diferem dos Cínicos. Os Cínicos eram gregos e tinham o pensamento que o Conhecimento, a Filosofia tinha caráter libertador… Tyler vê as coisas de modo diferente e coloca seus seguidores em estados próximos de seus antepassados: brigando por Território, nosso segundo instinto mais forte, só perdendo pra Sobrevivência. Os Cínicos queriam uma elevação mental, Tyler uma regressão instintiva. Parece um processo metodológico que irá gerar um bando de macacos ainda mais condicionados, mas a realidade é diferente. Sociedades diferentes, métodos diferentes. Freud disse que nosso inconsciente é algo individual, imutável e exatamente por isso parece um erro avaliar essa mudança de métodos. Se a parte mais responsável pelos comportamentos humanos é imutável, parece um erro realizar uma mudanças tão radical de método. Jung amplificou – corretamente, na minha visão – o conceito de Inconsciente Humano, ao coloca-lo num contexto coletivo. Mitos, Arquétipos, Sincronicidades… não, nós não estamos sós, não nascemos uma folha branca e isso se reflete na forma como nossa cabeça processa a realidade. Por isso os gregos – uma sociedade movida pela falta – necessitavam do Sol, uma forma de crescerem em conhecimento; e os EUA – uma sociedade movida pelo excesso – precisam de uma regressão aos instintos básicos humanos. Só assim nos livramos nos Consumismo, da hipnose da TV, do excesso de informação, das relações sociais falsas.

 

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Christopher Lasch

Esse tipo de mensagem apocalíptica foi esboçada de forma científica por Christopher Lasch, um psicólogo americano que foi pouco ouvido na época em que publicou seus livros, mas hoje é considerado mainstream. Lá pelo final da revolucionária década de 70, Lasch dizia que a independência das famílias estava sendo minada de forma intencional por uma série de instituições. No cerne de sua crítica estava uma futura onda de consumismo exagerado, crises de personalidade e indivíduos narcisistas e isolados socialmente. Na visão dele, tudo seria agravado por meios de comunicação que cada vez mais incentivariam relações sociais mecânicas e virtuais e as compras como uma espécie de fuga da realidade. Hoje pode parecer fácil confirmar todas as predições de Lasch, mas na época a sociedade era outra e os sinais que convergiria pra um quadro tão complexo, não passavam de vestígios. Bom, as coisas rolaram num nível pior – e mais lucrativo – do que esperado por Lasch, e a própria doença se tornou uma mercadoria.

Antes de Lasch, um acadêmico foi ainda mais longe na crítica contra a Psiquiatria e o comércio das doenças. No início dos anos 1960, o Dr. Thomas Szasz (Professor Emérito de Psiquiatria da Universidade Estadual de Nova York) lançou o livro que sintetiza melhor suas idéias: O Mito da Doença Mental. Para Szasz a Psiquiatria não pode ser considerada uma ciência médica pelo fato de não possuir testes diagnósticos objetivos, bem como pela falta de provas científicas de que os distúrbios mentais decorrentes das supostas "alterações químicas" ditas por psiquiatras realmente alteram o comportamento humano. Outro ponto é que na Psiquiatria as doenças nunca têm causa, o que vai de encontro a quase todas as outras especialidades médicas. A Psiquiatria para Szasz (e outros psiquiatras de um movimento denominado Antipsiquiatria) seria uma forma de controle social, mais ou menos como propôs Michel Foucault em seu livro História da Loucura na Idade Clássica. A Psiquiatria e os remédios e doenças por ela criados seriam somente a forma mais explícita e poderosa de coerção social. Como exemplo histórico fica a Drapetomania, "diagnosticada" pelo Dr. Samuel A. Cartwright, em 1851. Era basicamente um rótulo para explicar porque os escravos africanos tinham a tendência a fugir (caraca, Eu sempre achei o motivo bem lógico, mas vamos lá). Mas o doutor foi a fundo e elaborou um método de prever a manifestação de drapetomania (drapete = escravo fugido, só pra constar): era só dar chicotadas em escravos carrancudos. Se ele insistisse, o método de tratamento envolvia cortar os dedos dos pés "para impedir que se manifestasse o sintoma da fuga". Um outro caso clássico é a Histeria, que por muito tempo esteve associada a mulheres que ousavam questionar o controle masculino (geralmente da figura do marido). A causa: um movimento irregular de sangue do útero para o cérebro.

Por instituições como a Psiquiatria, as Escolas (que nas palavras de Ivan Illich são somente "instituições criadas para ensinar aos jovens como servirem às sociedades industrializadas") e o Trabalho… é que a luta de Tyler (um Cínico moderno e radical. Um terrorista segundo psiquiatras) é violenta e passa também pela libertação física, muito mais ampla do que a liberdade essencialmente mental e filosófica dos gregos. No Ocidente do século XXI, os grilhões são bem mais pesados do que na sociedade grega. As classes dominantes encontraram formas de reprimir todo o tipo de comportamento que não lhes agrade. Não se pode mais viver em um barril hoje sem arriscar-se ser vítima da polícia, ou de malucos da classe média que queimam índios e agridem pessoas com lâmpadas. Não se pode mais comportar-se de forma diferente da estipulada pela sociedade, pois isso é considerado loucura e logo arranjam um manicômio pra você vegetar o resto dos seus dias. Por isso é que Tyler e seu evoluído Projeto Caos se propõem a destruir o que os humanos acham que são: as coisas que compram, ou o próprio dinheiro, que de forma absoluta não vale nada. Destruindo o lucro se destroem as doenças inventadas, as classes sociais, se destrói praticamente todos os grilhões da sociedade!

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