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Zona Norte, São Paulo: 48 horas no escuro

No último debate dos presidenciáveis, em meio às trocas de acusações que vão de censura dos meios até ao aborto, Marina Silva, do Partido Verde, mencionou a problemática das enchentes, não apenas a extensão do problema, mas a conseguinte omissão por parte dos órgãos responsáveis. O período das enchentes dura o quadrimestre de Dezembro até Março, logo ao término dele, as autoridades realizam o mínimo necessário para reparar os dados e assim, entre prejudicados e mortos, a vida prossegue.

Ou ao menos é assim que os noticiários tendem a abortar o assunto, em meia tanta exposição exercida pelos grandes grupos de imprensa do país, o real papel do profissional de comunicação obtém pouco êxito. Os “danos” vão desde calamidade sanitária, passando por debilitação do negócio agropecuário, destruição de propriedade, surtos de criminalidade, traumas psicológicos, perda de bens perecíveis, prejuízo financeiro, cooptação do bem estar civil e quantos outros nomes compostos eu puder imaginar.

O que eu não poderia imaginar é que eu vivenciaria isso, numa experiência assim tão próxima, onde por três dias, após uma chuva forte, eu fiquei incomunicável, sem água potável e, principalmente, sem energia elétrica, e isso em uma das regiões mais nobres da Zona Norte paulistana, a chuva que caiu no dia 21 afetou o bairro de tão forma que há quase uma década morando aqui, jamais vi uma situação parecida.

No início nós não estranhamos, seria apenas outra queda de energia, algo que eu posso dizer – com um certo pesar – que é comum em dias chuvosos, porém nossa inquietação começou ao entardecer, quando eu e minha família não conseguíamos informação, pela falta do que se fazer e até mesmo pelo tédio noturno, minha mãe tendou ligar para a AES Eletropaulo, a empresa privatizada responsável pela manutenção e abastecimento de energia em São Paulo, das 120 ligações que nós realizamos – sério! – apenas duas foram efetuadas, nos advertindo que a cidade encontrava problemas e que em dentro de uma hora a situação seria normalizada, passou-se mais de uma hora e nada, quando, por milagre, conseguimos ligar de novo, a mensagem gravada avisava um novo prazo e mais nada, sem muitas esperanças – e morrendo de calor! – aos poucos as pessoas aqui em casa foram pegando no sono.

Acordei um tanto ansioso, com esperanças que a situação pela manhã seria resolvida, porem isso foi ingênua suposição minha, na manhã do dia 22 veio o segundo dos problemas: é natural de se esperar que com a queda de energia, Internet e algumas linhas telefônicas fossem junto, porem minha avó, alarmada, percebeu que não estava entrando água, estava claro a partir daí que a vizinhança se encontrava em uma situação insalubre, naquele dia não só tentamos contatar a AES Eletropaulo, mas também a SABESP, responsável pelo fornecimento de água e saneamento aqui em São Paulo, desta vez sequer conseguíamos alguma informação, com tempo vago e o horário de almoço se aproximando, nós decidimos pegar o carro e procurar algum restaurante na vizinhança, o que eu vi porem, foi um triste cenário de negligencia e descaso por parte da prefeitura paulistana.

Para vocês, que não moram em SP, terem uma noção, a Zona Norte é uma das regiões mais arborizadas do município, um dos grandes dilemas encontrados pela população que reside aqui está em relação o que fazer com as inúmeras – e sim, maravilhosas – árvores que encontramos na calçada, por lei, estamos vetados de poder cortar elas, um pedido para a subprefeitura pode demorar até três meses ou mais para ser atendido, passeando de carro pelas ruas, eu pude ver árvores que levaram postes, pedaços das calçadas, carros, muros e em alguns casos, obstruíram ruas. O mais curioso é que não encontramos uma figura de autoridade civil na rua, nenhuma viatura de polícia (E eu moro perto da academia de cadetes do Barro Branco E do Hospital da PM), bombeiros ou carros pertencentes às empresas de luz e saneamento, a zona norte paulistana estava em cacos, sequer o carro para colete de lixo passou!

Eu penso que isso é foda, porque em dias comuns, perto de casa, existe uma viatura parada no cruzamento cujo único propósito é multar os carros que passam, onde estava ela nesses três dias? Não sei! Isso é válido também para os inúmeros funcionários do CET que exercem sua função na região.

Foi naquele dia também que uma das coisas mais tristes deste evento aconteceu, começamos a notar que a comida na geladeira estava estragando, jogamos fora e o pesar da situação era visível no rosto de minha mãe, começou a anoitecer e, por quase uma hora, a energia tinha retornado, o que seria a solução de nossos problemas  foi apenas por um momento, escutamos um estouro, as luzes piscaram e logo em seguida tudo se apagou, novamente, chateados, sem muita alternativa, nós fomos dormir. Uma de nossas preocupações naquele dia foi em relação a criminalidade, a Zona Norte é cercada por alguns morros que se localizam próximos a Serra da Cantareira, estávamos dois dias sem iluminação noturna e policiamento nas ruas, então sim, estávamos com medo de furtos, ainda mais por morarmos em uma região nobre.

Naquela noite, quando fomos jantar em um restaurante na Zona Sul, pude notar uma dos maiores descasos com a população, um figuração engravatado de cabelos grisalhos da AES São Paulo, falando na SPTV da Rede Globo sobre os problemas da chuva: que 1) o problema foi o aumento das chuvas, que isto não é culpa de sua empresa e/ou os órgãos envolvidos e que 2) Até determinado momento da entrevista, 98% dos casos estavam “normalizados”, o cu da mãe morta dele que estava, não minha casa, sequer minha vizinhança. Não é a primeira vez que eu escuto este tipo de argumento fatalista e omisso, Sérgio Cabral falou algo parecido durante o desastre de Petrópolis, e isso vem se tornando recorrente nos discursos dos Assessores de Imprensa que a culpa não é do mecanismo de estado e sim da natureza.

Isto não é apenas assumir através de um silogismo tacanho que a administração do poder público é incapaz de previnir/sanar a situação, mas também é um dedo do meio na cara da população, nada podia ser feito? As chuvas aumentaram, e na corrida “beligerante” da coisa, o que se foi feito para mitigar o impacto? Pois é, queria saber se na casa do Gilberto Kassab ou do José Serra faltou luz, Internet, comida e água, pois é, acho que não.

Então novamente amanheceu e pelo menos eu tive uma boa notícia, a água tinha voltado, o que foi um alívio, pois todos puderam se banhar e exercer a higiene pessoal com mais calma, em contrapartida, o lixo acumulado, combinado com o calor da época fez com que um cheiro desconfortável de xurume subisse no ar e também, na garagem, encontramos aquilo que eu e meu pai suspeitamos ser uma tentativa de arrombamento do portão, passeando pela vizinhança, vi o que causou o estouro da noite anterior: um cabo de alta tensão jogado no chão, marcas de fuligem na calçada e na parede do vizinho, conversando com ele, o mesmo me contou que há meses tenta notificar a prefeitura que um galho da árvore estava suspenso nos fios do poste, e que tinha receio daquilo acontecer.

Bom, finalmente, no final da tarde, a luz voltara, o que eu pude presenciar não foi apenas a lentidão incomum, mas também outro fato quer comprova o quanto a cidade está abandonada, e sua gestão, ineficiente, o que eu pude ver, só hoje pela manhã, foi o festival de burocracia e redundância: sem a polícia para interditar a rua, nada podia ser feito e AES São Paulo não poderia realizar os reparos, e sem a autorização do Corpo de Bombeiros, os galhos não poderiam ser removidos, e isso foi se estendendo por cada maldito poste da região, o maior prejudicado? Nós, pagantes de impostos e submetidos a lei e nosso papel cívico, e olha que essa foi SÓ a história da minha casa, imagine quantos casos parecidos ocorreram por toda a vizinhança?

Enquanto nosso prefeitinho de merda tiver mais preocupado em criar novo partido, se safar de denúncias relacionadas a cargos interiores, dobrar o próprio salário, mais interessado em mandar polícia bater em estudante, caçar homossexuais, cortar verba de merenda escolar chamar nego de vagabundo e “higienizar” a cidade, essas merdas vão acontecer, e eu não estou querendo ser alarmista ou apocalíptico não, é factual, em 2011 novas enchentes ocorrerão, e toda sorte de tragédia, drama, descaso e teabagging vão acontecer! 2012 é ano de eleição, e bom, eu vou lembrar cada minuto, cada probleminha, cada tapa na cara que eu levei nesses últimos quatro anos.

 

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