Sexo, Saquê e Zen: a história e influência de Ikkyu Sojun na arte e espiritualidade japonesa

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Ikkyu Soujun, 1394-1481

Publicado originalmente em Disinformation – Sex, Sake and Zen

O que intriga a maioria dos ocidentais é a reputação que o zen-budismo tem como antiautoritário, liberal e individualista. Esta noção foi reforçada por escritores como Alan Watts, que expôs o zen como algo relaxado e sem preocupações.

Porém, basta uma breve visita a qualquer tempo zen-budista para ilustrar a terrível diferença entre as expectativas e a realidade. Os cotidianos nesses templos costumam ser, em fato, estruturados, regimentados e fortemente organizados, dissipando qualquer traço de romantismo criado pela literatura.

Longe das interpretações de moimentos como o new-age e o hippie, a disciplina zen é exigente e severa.

Porém, às vezes, mesmo estereótipos errados podem nascer de fatos verdadeiros. Como a história do monge japonês Ikkyu Sojun, que durante o Século XV, foi realmente livre, selvagem e alérgico a qualquer noção de autoridade.

Devido ao fato de Ikkyu ser filho ilegítimo do imperador japonês, sua infância foi vítima de conspirações que buscavam distancia-lo de uma possível candidatura ao trono. Para que sua vida fosse poupada, sua mãe o entregou a um templo zen quando tinha apenas cinco anos de idade.

Para Ikkyu, o Zen não foi uma vocação espontânea, mas sim um meio de não ser assassinado em sua infância, levando em conta as opções, o treinamento na doutrina Zen não parecia ser uma escolha ruim de todo.

Talvez não fosse o ambiente mais descontraído para uma criar uma criança, mas com certeza mais interessante do que ser assassinado.

O treinamento aplicado pelos monges zen era severo e fez com que Ikkyu tivesse uma infância extremamente difícil. Apesar do ambiente deprimente e tedioso, não demorou em os professores perceberem o intelecto e vocação de Ikkyou para o Zen.

Porém, mesmo seu talento não significava  que Ikkyou  se sentia em casa. Mesmo genuinamente amando o Zen (ou talvez, por causa disso), ele não se sentia inspirado com a burocracia espiritual dos templos, o mesmo era válido em relação a seus colegas sacerdotes: envolvidos em conspirações políticas, perdendo tempo com seus suseranos ricos.

E veio o dia que seu mestre o condecorou com um certificado de sabedoria – uma grande honra e um documento necessário para ascender na hierarquia do Zen – Ikkyu  então, para a surpresa de todos, o queimou e deu adeus a sua carreira monástica.

Isto não quis dizer que ele tinha desistido do Zen, pelo contrário, em seu raciocínio, era toda a instituição a cerca do Zen que tinha abandonado o verdadeiro caminho, transformando o Zen em uma paródia dogmática daquilo que ele deveria ser.

A vida nos templos era lotada de muitas regras e pouco espaço para respirar. Os então proclamados profissionais do Zen, aos olhos de Ikkyu não eram nada além de charlatões – muito ocupados posando como “espiritualizados” para serem capazes de experimentar a espiritualidade em seus aspectos mais simples.

Algumas pessoas acreditavam que a iluminação Zen só podia ser alcançada através de nuvens de incenso e meditação silenciosa, Ikkyu, em outra mão, percebeu que o saquê, sexo e a boemia eram mais do seu agrado.

Como ele colocou em um de seus poemas: “A brisa do outono após uma noite de amor é melhor que um século de meditação estéril” ou de forma mais literal: “não hesite: faça sexo – isso é sabedoria. Ficar sentado entoando sutras: isso é besteira”

Guiado por uma sede de viver, Ikkyu se tornou um monge viajante, testando suas teorias Zen longe da reclusão dos monastérios, o que fez ganhar o apelido de “Nuvem Louca”.

O ponto de suas escapadas eróticas e aventuras era argumentar que o “sagrado” é nada além de uma experiência de vida regular vivenciada com toda sua plenitude. Ou talvez, a bebedeira de saquê e quantidades absurdas de sexo não precisava de nenhuma justificativa além do fato que era – e continua sendo – bastante divertido.

Ikkyu não dava a mínima sobre o que as autoridades religiosas de seu tempo pensavam dele. Porém, em suas viagens, Ikkyu conseguiu influenciar um grande número de artistas, poetas, calígrafos, músicos e atores de um modo que deixou uma marca profunda no desenvolvimento das manifestações artísticas nipônicas por séculos a fio.

Até mesmo sua vida amorosa é celebrada através dos tempos, pois seu relacionamento com a Senhorita Mori acabou sendo um dos romances mais famosos da história japonesa.

Ikkyu sempre foi um amante dos paradoxos, quando a guerra civil destruiu a maioria dos templos Zen do país, foi ele que veio ao resgaste das instituições que outrora ferozmente criticou.

Quando o futuro do Zen esteve em perigo, Ikkyu foi capaz de conseguir favores de muitos que conheceu durante sua vida de viagens, reconstruindo assim alguns dos principais templos do Japão.

Por ironia do destino, muito do Zen moderno tem um grande débito com a existência de um homem que em seu tempo, preferiu a companhia de prostitutas a monges.

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A Árvore da Vida: o peso da autoridade na psique humana

 

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Para início de conversa, vou tratar de deixar uma coisa bem clara: acho os filmes de Terrence Malick bem chatos. Ele é basicamente um Stanley Kubrick pelo seu estilo caaaaaaaaalmo, com cenas longuíssimas, um belo trabalho com planos e movimentos de câmera e um senso de estética perfeccionista quase absoluta. O resultado é uma filmografia curta, com apenas seis filmes, apesar dos quarenta anos de trampo do texano. Porém, Malick passa uma imagem de inocência – assista O Novo Mundo e me diga o que achou -, além de dar a impressão de que acha que seus filmes são maiores do que ele próprio, o que sempre resulta em falta de coesão em seus trabalhos.

A Árvore da Vida, seu mais novo filme, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, é um filme bem estranho. Ao mesmo tempo em que mantém o estilo visual-contemplativo clássico de Terrence Malick – em dose suficiente para ser incensado pela crítica -, o filme não possui uma linha narrativa linear, ou mesmo qualquer vestígio de uma história definida – o bastante para atrair pedradas de detratores do diretor. O resultado é um filme excelente em diversos momentos – ao ponto de se aproximar do incerto status de obra-prima – que é entrecortado por cenas bem entediantes.

O filme narra a relação familiar de Jack – uma espécie de personagem clássico da psicologia freudiana -, espremido entre a autoridade excessiva do pai e a bondade da mãe. O longa-metragem não possui uma história central, mas é uma construção muito bem feita de memórias e divagações de Jack, no presente um adulto amargurado, ao mesmo tempo que mostra a origem do Universo e da vida.

Em outras palavras, o filme tinha tudo para ser uma obra-prima inesquecível, mas não passa de uma tentativa de Malick de repetir o sucesso do igualmente arrastado Além da Linha Vermelha – filme com o melhor elenco já reunido na história do cinema, colado com O Poderoso Chefão. A primeira coisa que vem a mente com o estilo adotado por Malick é 2001 – Uma Odisséia no Espaço, mas sem a carga filosófica universal empregada por Stanley Kubrick para construir sua jornada que percorre toda a história do mundo – embora empregando Douglas Trumbull, supervisor de efeitos especiais de… 2001.

 

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Porém, Malick utiliza diversos truques técnicos para demonstrar de que forma seu filme se diferencia do épico de Kubrick. O mais aparente deles é a câmera, sempre à altura dos olhos de um adolescente, uma forma clara de ressaltar mais uma vez o peso da autoridade hierárquica paterna na formação da personalidade humana. Outra delas é a narração filosófica dividida entre Jack e sua mãe, polos quase opostos de um cabo-de-guerra familiar.

Apesar do notável equilíbrio entre esses dois conceitos relaxadamente abordados pelo filme, o destaque de toda a obra é a relação familiar, que se sobressai até mesmo às ótimas interpretações de todos os atores – que poderiam ser mais notáveis se o tempo em tela dado a eles fosse maior. Pela forma mostrada por Malick, o peso autoritário da relação pai-e-filho é viva, não depende de agentes para ser passada adiante… é quase uma obrigação na criação de rebentos.

Na visão do filme, o autoritarismo não provém do pai de Jack – vivido por Brad Pitt -, ou mesmo da rigidez social dos anos 1950, ainda mais no Texas, mesmo estado onde foi criado o próprio Malick, acrescentando toques autobiográficos ao longa-metragem; mas sim da própria relação orgânica entre pais e filhos. Nesse cenário, Pitt se destaca por conseguir criar um personagem aprofundado, pois mesmo com modos próximos aos militares – ressoados pelo passado dele, que foi marinheiro -, seus momentos carinhosos são redentores, e se somam aos seus discursos sobre querer fortalecer os filhos para a vida. Ou seja: se o autoritarismos não parte dele, mas da próprio vida, de forma muito mais cruel. O pai é como uma vacina para a vida, um mal menor para evitar que o filho seja destroçado pela vida.

A visão do filme é abertamente religioso-monoteísta, uma espécie de equilíbrio entre castigo autoritário e redenção, uma dicotomia exposta na relação entre os caminhos da vida – o amoroso da Graça e rígido da Natureza. Entretanto, mesmo os não-religiosos terão uma experiência reconfortante, embora em níveis de intensidade diferentes, já que toda a estrutura do filme é baseada no uso de símbolos nem sempre universais, mas que buscam provocar reações adversas nos expectadores.

 

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Apesar dessa porção religiosa, o próprio Deus Todo-Poderoso é uma ausência no filme, mesmo que algumas cenas desempenhem um papel mais metafísico, por exemplo quando a Sra O’Brien é vista voando em uma dança particularmente envolvente ou na aparição de vitrais espiralados. O “Deus” do filme é a relação paterna exposta na dicotomia do carinho da mãe e a rigidez do pai, uma mostra das faces divinas do “deus” cristão, em sua construção do Velho e do Novo Testamento.

Para uns, A Árvore da Vida é uma sucessão de imagens de primeira que carecem de conteúdo que as tornem vívidas, enquanto para outros é como um despertar místico-religioso completo. Para mim, o filme ficou no meio do caminho e fugiu do rótulo de “ame ou odeie” – é uma bela construção visual e estética, mas é desnecessariamente enfadonho em outros momentos, o que contribui para tornar o filme uma experiência interessante, porém esquecível.

Uma pena, pois a forte pretensão de Malick parecia que finalmente ia tornar um filme dele excelente.

Negação e Antagonismo no Diálogo Público Brasileiro

Esta semana, internautas de todo o Brasil ficaram indignados com um vídeo – publicado originalmente no Youtube – onde uma mulher, identificada como a enfermeira Camilla Corrêa Alves de Moura Araújo dos Santos, mãe de uma criança de três anos de idade, agrediu até a morte um cachorro da raça yorkshire.

O vídeo, gravado por Claudemir Rodrigues Maciel, frequentador do mesmo condomínio da agressora, que ciente de casos passados de maus tratos contra o animal protagonizados por Camilla, resolveu registrar o ato com o objetivo de denuncia-la as autoridades do município de Formosa, Goiânia.

Enquanto muitos ficaram revoltados e indignados com o episódio de brutalidade, algumas pessoas denunciaram o alarde em relação ao mesmo, alegando exagero e acusando que as comunidades nas redes sociais não demonstraram o mesmo sentimento em casos de violência homofóbica, racista ou infantil.

Entre os comentários que criticaram a reação dita como “excessiva” dos internautas, me chamou a atenção o artigo “A enfermeira histérica e a nação infantiloide” do jornalista Diogo Luz.

Nele, Diogo argumenta – citando o filósofo Janer Cristaldo – que o devido à fragmentação de nosso convívio e a dificuldade de estabelecer vínculos afetivos entre seres humanos fez com que a figura do animal de estimação alcançasse um novo patamar superestimado de afeição entre as pessoas.

O mesmo – em tom de caráter especista – ainda diz que o impacto proporcionado pelo vídeo é uma agressão ao vazio existencial da nação brasileira, menosprezando a natureza violenta e explicita do ato.

Para Diogo Luz, o ato protagonizado por Camilla é consequência de um desiquilíbrio emocional, argumentado de forma genérica sobre as pressões e insalubridades cultivadas por nossa sociedade pós-moderna.

O que Diogo defende é uma retórica cada vez mais comum na sociedade que ele tanto condena: que todos nós somos vitimas das circunstâncias, um artificio um tanto adolescente para alguém que acusa a reação de uma parcela majoritária da sociedade de “infantil”.

Igualando o nível do debate filosófico, quando você trata uma pessoa como um construto social ou uma confluência de acasos, você abre – nem sempre em sã consciência – toda uma nova gama de desculpas que isentam a pessoa de uma coisa chamada responsabilidade.

Nós não somos vítimas de uma sociedade, e sim responsáveis pela mesma, se em muito, se argumenta o porquê de tanto alarde em relação a um cachorro – o que eu julgo ser puro especismo – o que existe de tão superior (sic) na raça humana que justifique a agressão contra um animal doméstico?

E mesmo assim, o ato de agressão não se resumiu apenas ao animal doméstico, e a criança – filho da agressora – que presenciou o ato sucedidas vezes? Qual será a melhor forma de aborda-la, sendo que em todos os sentidos, embora não seja algo físico, ela também foi vítima de uma agressão.

Qual seria a lógica que justificasse tal ato? Ou até mesmo condenasse a reação das pessoas? A meu ver, mesmo que existam opiniões exaltadas sobre o caso, é saudável ver que pessoas se demonstrem indignadas.

Podíamos começar a nos preocuparmos se essas mesmas pessoas se demonstrassem indiferentes ou apegadas a uma espécie de apatia travestida de “racionalidade”.

Vídeos contendo denúncias de maus-tratos em animais não são novidades na internet, o que se presencia agora é um sentimento de negação, um tiro pela culatra do intento inicialmente proposto.

Embora o conteúdo de materiais desse tipo seja de natureza indigesta, sua intenção não é meramente chocar, mas sim conscientizar de uma realidade atroz e velada.

O problema é que devido a mesma natureza de vídeos, uma reação comum ao choque é a de negação dos fatos.

Em prol de seu conforto psicológico – uma defesa contra a mesma sociedade “denunciada” por Diogo Luz – o ser humano é omisso a realidade, seja ela de si mesma ou do outro.

Esta “negação” vem sido nutrida como forma de se defender do ataque sensorial promovido por esta modalidade de ativismo, seu intento, quando articulada entre sociedade, é marginalizar seu discurso para descreditar um possível diálogo.

Existe também uma questão de memória, a noção que o episódio do Yorkshire gerou mais comoção que casos de agressão contra homossexuais ou etnias são abstratos e até mesmo maliciosos, a verdade é que não existem meios de quantificar isso.

Vale lembrar o assassinato de Alexandre Ivo – homossexual, 14 anos de idade – que em 2010 fez emergir na mídia a urgência por mais severidade por parte da justiça contra ações homofóbicas.

A questão não é que uma demonstração de sentimento ou apoio isenta ou torna excludente a opinião da pessoa. Uma pessoa que se indigna com o assassinato de um animal doméstico não é necessariamente omissa a casos de abusos contra crianças, negros ou homossexuais.

Um mal crescente entre a população brasileira é a má-interpretação do diálogo público nas demais pautas pertinentes ao nosso cotidiano, no Brasil não se debate ou pondera, se antagoniza.

Este fenômeno é chamado pelo filósofo Vladimir Safatle de “pensamento binário do debate nacional”, segundo o qual a mente humana, como computadores pré-programados, só suporta a composição “zero” ou “um”.

Ou seja: estamos condicionados a um debate que só serve para dividir os argumentos em “a favor” ou “contra”, “aliado” ou “inimigo”. USP x PM, PT x PSDB e assim vai…

O pensamento binário é acompanhado do Falso Dilema, um problema comum no diálogo, que sempre surge quando, no discurso falado ou escrito, alguém insiste ou insinua que duas opções são mutuamente excludentes.

É um argumento que força a pessoa a escolher lados, “A ou B, se não A, logo B”, é uma reação comum, se a reação em relação ao episódio contra o Yorkshire levou a questionamentos sobre a necessidade de atenção para casos envolvendo gays ou negros, este mesmo discurso seria questionado por aqueles que vêm necessidade em focar os esforços no combate à corrupção e assim se sucede nossa escalada.

Em tempos como os nossos, de reinvindicações e diálogos, é necessário ter ciência da lógica por trás de nossos argumentos, sempre existirá aqueles – como Diogo Luz e suas inspirações – que se posicionam em um suposto patamar moral elevado e buscam desacreditar a opinião alheia, nesses casos, identificar uma falácia argumentativa é a diferença entre ser ou não manipulado por alguém.

J-horror: conciliando folclore e tecnologia na sociedade japonesa

Esses dias eu tive a oportunidade de jogar Nanashi no Game, de 2008, desenvolvido pela Square-ENIX, a premissa do game é simples, mas inova em trabalhar seu meio, o Nintendo DS. Na pele de um estudante universitário, você descobre por acaso sobre a lenda urbana do videogame amaldiçoado que mata seu jogador após sete dias.

Este tipo de história é recorrente no folclore moderno japonês, na década passada , impulsionados pelo sucesso do filme The Ring, o ocidente presenciou uma onda de adaptações de filmes orientais de terror, como Ju-on, Kairo, Dark Water e Chakushin Ari.

Conhecido pelas audiências ocidentais como “J-Horror”, o gênero ficou famoso por possuir uma série de peculiaridades que serão exploradas no decorrer da leitura.

Costumam contar histórias de fantasmas e assombrações,  geralmente do sexo feminino, além de relaciona-las a algum meio de comunicação e difusão, como fitas-cassetes, sms, websites e outros.

Geralmente nesses filmes o protagonista é um inocente ou curioso que por uma fatalidade precisa descobrir a verdade por trás da assombração antes que a mesma tome a sua vida.

A intenção deste artigo é explicar para os leitores as razões por trás desse gênero, e como ele é intimamente relacionado a cultura popular japonesa, assim como o xintoísmo, a principal religião do país.

Kayako, de Ju-on

Kayako, de Ju-on

 

De acordo com a tradição xintó, todos os seres humanos carregam o “reikon”, um conceito muito similar ao de espirito ou “alma” em religiões ocidentais. Quando o corpo morre, a alma parte para o purgatório, onde espera por seus ritos fúnebres apropriados, para só então partir do mundo físico.

Porém, pessoas que morrem de forma súbita e/ou violenta, como acidentes ou homicídio, sem que recebam os rituais necessários ou que em vida, carregaram sentimentos negativos fortes como fúria, inveja ou ciúmes, acabam acumulando “kegare”, uma espécie de impureza espiritual que precisa ser exorcizada.

Caso o exorcismo do “kegare” seja negligenciado, o reikan se torna um yurei e passa a assombrar aquilo que ainda o prende no mundo material.

É interessante saber que o “kegare” em si não é maligno, mas sim relacionado à noção de higiene espiritual praticada pelo xintoísmo, o mesmo também é relacionado a pessoas vivas, objetos inanimados e até lugares, não se limitando a espíritos.

Apesar de mesclar folclore japonês e literatura de terror ocidental, a série de videogames Silent Hill ilustra bem o conceito de “Kegare”.

Nela, o personagem constantemente é levado para um “outro mundo”, uma versão sombria da cidade homônima do jogo, lá tudo é repleto de ferrugem, desgaste, manchas de sangue e objetos abandonados.

No século XVII as histórias de terror (conhecidas como “kaidan”, dos kanjis “kai” estranho e “dan” contar) se popularizaram entre as castas mais nobres da sociedade japonesa, impulsionado também pela tecnologia de reprodução gráfica importada da China, o país vivenciou uma explosão de contos de fantasmas, principalmente relacionados a figura do Yurei.

Nesta mesma época, o artista Maruyama Okyo, após sonhar com Oyuki, uma antiga gueisha falecida e querida por ele, iria pintar o ukyo-e “O Fantasma de Oyuki”, que se tornaria a inspiração para todos os fantasmas modernos do folclore nipônico.

O Fantasma de Oyuki, 1750

O Fantasma de Oyuki, 1750

Oyuki é interpretada no quadro como uma mulher pálida, de longos cabelos negros, trajando um yukata branco, seu corpo é quase imaterial e parte de sua cintura não pode ser vista.

Retomando a nossa época, observem, por exemplo, a personagem Sadako Yamamura (conhecida no ocidente também como Samara Morgan), a assombração da fita amaldiçoada do filme Ring é apenas uma leitura moderna do “Yurei”, tanto em aspecto quanto em sua história trágica.

Sadako Yamamura, de "Ring"

Sadako Yamamura, de Ring

Hoje, o Kaidan é um gênero literário extinto, porém sua influencia deixou marcas nas gerações seguintes de japoneses, uma inspiração comum para o J-horror são as histórias conhecidas como “Toshi Densetsu”.

Bastante populares entre adolescentes, um Toshi Densetsu não é muito diferente das lendas urbanas ocidentais com suas loiras do banheiro ou bonecos assassinos, a diferença é que no resgate aos valores folclóricos, na adaptação de seus temas para o mundo contemporâneo, com o advento de novas narrativas e da própria internet, a capacidade de disseminação de mitos e rumores apenas se espalhou.

Esses mitos costumam ter moral similar a uma fábula, advertindo pessoas sobre perigos relacionados ao ambiente urbano, mas resgatam noções como o Yurei e até mesmo Yokai, bestas místicas do folclore oriental.

Um exemplo é o mito da Kuchisake-onna, uma mulher que teve sua face mutilada nos extremos do rosto, cortando as bochechas e o lábio e que pode ser encontra tarde da noite vagando nas ruas.

A lenda começou há 400 anos, no Periodo Edo da história japonesa e sobrevive até hoje, durante a década de oitenta a mesma ganhou uma máscara cirúrgica – acessório comum no cotidiano japonês – o espirito, por sua vez, passou a abordar pessoas, questionando-os sobre sua aparência e, dependendo da resposta, assassinando ou mutilando aqueles que ousarem responder.

O Mito ganhou tanta projeção durante a década de oitenta que existem relatos de escolas onde estudantes pediram permissão a seus professores para saírem da escola em grupos ou acompanhados de um responsável.

A popularidade do mito da Kuchisake-onna é tamanha que em 2007 sua figura inspirou o J-horror “Carved”, onde o espirito vingativo em vida uma mãe solteira que foi mutilada pelo próprio filho, a história vai além do mito urbano e agrega comentário social sobre o bem-estar infantil, maternidade e ser mãe solteira em uma sociedade como a japonesa.

Kuchisake-onna, na cada de "Carved", de 2007

Kuchisake-onna, na cada de "Carved", de 2007

É preciso entender que mitos não são esquecidos ou abandonados por suas sociedades, eles evoluem, acompanham novos adventos – sociais e tecnológicos – e principalmente, transcendem para novas mídias e adaptam seus diálogos com novas audiências, e quando tramamos de histórias sobre fantasmas, estamos falando de quatrocentos anos desde o surgimento do Kaidan até o surgimento do J-Horror nos cinemas orientais, uma história que está longe de acabar

Entropias grant-morrisianas #3 – Gideon Stargrave e o fim dos tempos

Esta é a parte que mais me interessa em todas essas publicações do Morrison na Near Myths. Uma história sobre Gideon Stargrave publicada em 3 capítulos através de dois números da revista (nº3 e nº4). Aliás, é por causa de Gideon Stargrave que esta série de posts se chama “entropias morrissonianas”. Entropia é a palavra que faz parte dos plots relacionados ao personagem e que também será muito usada por Morrison no conjunto de suas obras. Entropia é uma forma de se chegar ao caos exatamente pela… super-concentração de energia. Digamos que socialmente quanto mais rígida é uma sociedade, maior vai ser sua desordem quando “n” fatores entrarem em descontrole. E com o “tempo” acontece algo similar, quanto mais o tempo se concentrar em uma dimensão, em uma realidade, mais próximo ele chegará de sua própria extinção. E o que acontece quando o tempo deixa de existir? Bem, vai lá se saber.

O personagem Gideon Stargrave foi baseado em "Jerry Cornelius", um personagem de Michael Moorcock. Uma espécie de assassino perigoso que viajou no tempo numa máquina defeituosa e acabou originando uma desordem no tempo-espaço.

Essa é a parte que mais me interessa porque comecei a pesquisar sobre as outras publicações de Grant Morrison justamente no intuito de compreender melhor a obra Os Invisíveis, que foi a primeira HQ do Morrison que li e que na época explodiu a minha cabeça. Muito do que seria desenvolvido nessa HQ que só iria começar a ser publicada em 1994, com Morrison já em relativa ascensão dentro da área dos quadrinhos, já aparece exposta nesses volumes de Gideon Stargrave de dezembro de 1978 e setembro de 1979 respectivamente.

A verdade é que todas as obras do Morrison se conectam de alguma forma na sua figura de administrador/criador do universo ou em sua característica mais marcante: o uso do caos e da desinformação como destruidor da aparente racionalidade e ordem da realidade. Isso vai estar presente tanto em seus roteiros mais mainstream (como Batman e Superman) quanto (e principalmente) nas obras mais introspectivas/autorais (como The Invisibles/ Filth).

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Near Myths #3 – Gideon Stargrave – Part I: The Vatican Conspiracy

A história começa com uma cena de um corpo em chamas. Trata-se de Joana D’Arc. De repente estamos num ambiente retrô-pop-futurista-psicodélico, com imagem até do Mickey e Donald em uma das paredes.

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Nesse ambiente uma moça acabou de entrar após tocar a campainha e encontra um cara de cabelos claro, tamanho mediano sentado numa cama (ou sofá?) limpando uma arma, ele tem a aparência de um veterano em combates, tipo ex-agente ou coisa do tipo.

Você é Gideon Stargrave? – pergunta a moça, com boina francesa e cabelo curto e escuro.

– Geralmente sim – ele responde fazendo charme. – Mas você sabe como são as coisas nos dias de hoje – completa fazendo a arma brilhar a colocando contra a luz.

Assim começa as histórias de Gideon Stargrave, que se não fosse pelo nível de loucura do enredo, não passaria de uma cópia quadrinesca de James Bond. Mas é muito mais, logo em seguida a moça diz que se chama Jan Dark e prontamente um padre explode a porta da casa e tenta matá-los, mas Gideon é mais rápido.

A menina falou que o “caos ameaça”. Gideon ri. Eles saem andando por Londres e Gideon acaba sendo baleado por um guarda real com… boca de pato! Segundo o guarda, eles estão em uma zona de entropia e por isso estão dentro de um perímetro em que as forças policiais podem matar livremente!

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A história toda é sobre CAOS. Algo está prestes a levar o mundo a um último nível de entropia e desarranjando o tempo. Arquétipos, traição, caos, engramas, poesias intercalando os cortes de cenários, conspirações, ressurreições, neuro-psicologia, anarquia, Londres, suicídio em massa… o fim do mundo pelo Ragnarok e entropia terminal. Tudo isso orquestrado pelo maligno papa do Vaticano tentando destruir esse mundo incrédulo, ateísta!! E Jan Dark faz parte do plano. O que Gideon Stargrave pode fazer quase sozinho?

Near Myths #4 – Gideon Stargrave – Part II: The Vatican Conspiracy

Nessa segunda parte Jan Dark e Gideon Stargrave partem em direção ao Vaticano, querem resposta para os acontecimentos recentes. Na neve enfrentam os capangas do Vaticano que os monitora em tempo real. Apesar de todos os esforços descomunais de Gideon, uns caras vestidos ao estilo Ku Klux Kan acabam levando Jan Dark e mais uma vez atiram certeiramente no ex-espião.

Atingido, caído no chão e abandonado, a neve cobre o corpo de Stargrave. Teria sido seu fim? Não, algo extremamente relevante pra quem curte os Invisíveis acontece, fora de si, Gideon se levanta ressuscitado ao estilo “mortos-vivos” no meio da neve! Então é aqui que Morrison cola na página um trecho de Rei Lear:

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Gideon Stargrave é um Tom! Um pobre e louco Tom, como Tom O’ Bedlam de Invisíveis! No capítulo anterior Gideon também invocou um espírito do “tempo”, para poder conter o caos que estava se expandindo em Londres, bem ao estilo Dane e Jack Frost! Seria uma espécie de espírito protetor? Bem, não quero com isso dizer que os dois universos (Invisíveis e Gideon Stargrave da Near Myths) sejam o mesmo, apenas quero salientar que desde o meio dos anos 70 Morrison já estava amadurecendo algo, algum esquema de realidade mágico-tecnologica-anarquica que só se concretizaria com Os Invisíveis.

Uma freira é enviada para finalizar com Gideon. Os homens do Vaticano sabem que ele não está morto. A freira tem o poder de arremessar matéria através de portais temporais e alcançar o caos de nível 0 (seja lá o que isso quer dizer)! Mas Gideon resiste à tentativa de rasgarem a sua concepção de realidade, consegue despertar do transe atinge a freira com uma bala. Agora ele precisa localizar Jan Dark!

Near Myths #5 – Gideon Stargrave – The Fenris Factor

Gideon invade o local onde Jan Dark está sendo torturada e ao estilo Bruce Lee (sim, há há há) derrota todos os caras vestidos ao modo Ku Klux Kan que trabalham pro Vaticano e liberta a moça.

Num quarto novamente com figuras pops (só reconheci agora o Che Guevara) Jan Dark revela ser Joana D’Arc. Ela diz que só seu poder pode derrotar “o lobo” e que por outro lado, apenas Gideon está destinado a derrotá-lo, então ela quer dar seu poder a ele. Os dois fazem sexo ritualístico e quando terminam, após absorver um poder maior que a vida e que a morte, Stargrave mata Jan Dark, sabendo que seu ciclo de ressurreição acaba ali.

Em seguida nos é apresentada a irmã de Gideon, que era dona do quarto em que ele e Jan Dark estavam. Ela é apresentada de maneira sexualmente provocante, se chama Genevieve e parece ser um trauma na mente de Gideon (creio que ela é aquela loiraça que aparece em The Invisibles em alguns momentos).

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Por fim Gideon invade o Vaticano e tenta interromper um ritual de invocação do Papa. Mas já é tarde, o lobo Fenris já foi invocado. O ritual libertou o filho de Loki da corrente mágica forjada pelos anões e agora ele vai cumprir sua missão de devorar o mundo. “Ragnarok, o fim de tudo no gelo e no fogo.”

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Gideon não se enfraquece e convoca as hordas dos infernos para ajudá-lo contra o lobo. Ele invoca Vine, Flauros e Andras! Três demônios muito conhecidos da demonologia medieval. Com ajuda dos demônios Gideon consegue derrotar Fenris, mas perde uma de suas mãos.

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No fim da página, tem escrito que no próximo número Gideon Stagrave retornaria com “The Entropy Concerto”. Uma fato que infelizmente nunca chegou a acontecer. Infelizmente mesmo, porque as pirações dessas histórias do ex-espião são muito interessantes, misturam mitologia, neuropsicologia, ciência e um monte de baboseira pop, além de frases de efeito e um mix religioso-cultural impressionante. Gideon retornaria apenas em Os Invisíveis, mas já em outro contexto dentro dos quadrinhos. Retornaria como parte de uma “hyper-narrativa”.

Os desenhos do Morrison aqui são muito melhores do que em Time Is A Four Lettered Word. A narrativa é tensionada o máximo possível pelos traços na tentativa de nos jogar dentro das entropias ou memórias confusas de Gideon. Enfim, claro que olhando de agora parece uma espécie de esquema do que seria “Os Invisíveis”, mas ver APENAS assim seria tirar o mérito de Gideon Stargrave em si. Talvez na verdade Morrison nem tivesse idéia do que lhe viria à frente, ou talvez já pensasse em alguns arquétipos de personagens como King Mob, quem diabos vai saber? Só fiquei surpreso em não haver comentários mais demorados sobre Gideon em Supergods¸ talvez o careca esteja evitando a confusão que o personagem causou. Gideon é considerado por alguns apenas plágio na cara dura de Jerry Cornelius, o já citado personagem de Moorcock.

OcupaUSP: uma vitória pírrica para a sociedade paulistana

Esse final de semana eu abro a Revista Veja e me deparo com a matéria sobre a ocupação na USP, a revista – um dos maiores meios de comunicação do país – adota uma postura sequer imparcial, sem informação ou texto jornalístico, a matéria, em resumo, é uma demonstração de nojo à última onda de protestos que vem impactando a rotina do campus e ganhando espaço na imprensa.

O carro chefe da matéria “A Rebelião dos Mimados”, escrita por Marcelo Sperandio, era uma foto que ganharia uma notoriedade na internet, gerando inúmeras piadas pelo seu aspecto inusitado e debochado: um aluno – que em tese, faz parte dos manifestantes – se encontra sentado na cadeira, o que chama a atenção é o vestuário do rapaz, um macacão da GAP – uma marca importada de roupas casuais – e um óculos, supostamente, ray-ban.

E sem muitas delongas, o jornalista percorreu a matéria, desenvolvendo lições de morais, críticas à postura dos manifestantes, alegando que os alunos são apenas crianças mimadas, que protestam pelo direito de fumar maconha sem serem perturbados pela polícia militar, esse garoto se tornou o “retrato” da pequena ocupação que se desenvolveu no campus.

Os protestos tiveram como pontapé inicial a prisão de três alunos por porte e consumo de maconha dentro das imediações do campus no dia 27/10, quando diversos estudantes, em “demonstração de solidariedade” resolveram impedir que a PM prendesse seus colegas universitários.

Isto foi o estopim para reaver um antigo trauma da comunidade em relação a presença policial no campus, entre inúmeros argumentos, alega-se que a presença dos mesmos é uma ferramenta para coibir manifestações e até mesmo a liberdade de expressão.

De forma coincidente, dia 31/10, um rapaz chamado Thiago De Carvalho Cunha, um dos militantes do Acampa Sampa, a manifestação paulistana para o movimento global Occupy Wall Street, invadiu e interrompeu uma matéria do Jornal Hoje da Rede Globo de Televisão, em entrevista, o mesmo declarou: “Sou muito politizado, tenho 23 anos e, no momento, sou sustentado pela minha mãe”.

No dia 7/11, um dia antes do ultimato promulgado pela Justiça para que os manifestantes desocupassem o prédio da reitoria, o cinegrafista da Rede Bandeirantes, Gelson Domingos, foi baleado durante a gravação de uma invasão do BOPE a uma favela carioca, este triste incidente reacendeu um antigo debate brasileiro: “quem financia o tráfico de drogas?” Claro que o bode expiatório caiu nos ombros da juventude universitária da classe média brasileira.

E para finalizar o cenário, fica no ar a influência da onda de “marchas” que começaram após forte intervenção policial sobre a passeata a favor da legalização da maconha que ocorreu na Av. Paulista, o movimento ganhou projeção nacional, usando o direito da liberdade de expressão em sua vanguarda, fica a expectativa de o quanto do progresso alcançado pelas marchas será danificado após o término da ocupação.

Tenho acompanhado o desenvolvimento do argumento que pessoas “ricas” são isentas do direito de manifestar-se, ou seja, rico não pode protestar, uma vez que possui acesso a tudo, educação, saúde e entretenimento, não existem espaço para queixas ou o direito de reivindicar direitos, isto não passa de um sintoma de miopia social, um argumento da mesma lógica utilizado pelo jornalista Marcelo Sperandio.

A própria Veja, conhecida pelo público por ser uma periódico de centro-esquerda, em que seu editorial já defendeu mais de uma vez os fardos da classe média ao longo da administração petista encontrou uma pequena contradição ao condenar as manifestações universitárias, declarando que a mesma é encabeçada por “filhinhos de papai maconheiros”.

A instituição conta – no momento – com 89 mil alunos, ao contrário do estereótipo que foi fomentado por veículos como a Revista Veja, o clima na USP é despolitizado, onde muitos alunos ministram seu tempo intercalando matérias, estágios e cursos de idiomas oferecidos dentro do campus.

Outro argumento comum para dissimular a legitimidade os protestos se encontra no volume de alunos manifestantes em comparação ao resto da população do campus, considerando os mesmos como uma minoria e por isso, isenta de voz, uma constatação que vai contra os princípios democráticos.

O sociólogo Carlos Henrique Metidieri Menegozzo, em entrevista a revista Carta Capital, afirma que a mentalidade radical na USP passa por dois processos que se encontram em polos opostos e conflituosos.

Os da esquerda, na definição sociológica, são em parte resultantes de uma ideologia do descondicionamento de classe, “surgida quando o estudante é desobrigado de criar condições para seu próprio sustento”. Nesse caso, o estudante universitário, em sua maior parte de classe média e relativamente dependente dos pais, tem a impressão de que pode tudo. De acordo com Menegozzo ““O aluno imagina que pode assumir um comportamento político desligado de condições materiais e de interesses de sua classe origem”.

Já a direita, nas palavras do sociólogo, é reflexo da expressão de um movimento da classe média de maneira geral e que influencia o comportamento estudantil, quando segmentos da sociedade ascenderam após as políticas sociais estabelecidas no governo Lula, a antiga classe média vivenciou uma perda de status e poder, e o crescimento de uma mentalidade mais conservadora e agressiva é resultado direto dessa sensação de perda, o que é visto opiniões que envolvem políticas de cotas, por exemplo.

Por último, existe o confronto estatístico, alegando os resultados após a presença da PM e seu impacto na rotina dos alunos, um levantamento feito pela Polícia Militar 80 dias após o assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva ocorrido em maio, os furtos de veículos caíram em 90% (apenas dois casos foram registrados, ante os 20 anteriores). Já roubos em geral passaram de 18 para 6, uma redução de 66,7%. Roubos de veículos caíram 92,3%, passando de 13 para 1.

Outros dois crimes que tiveram redução foram lesão corporal, que caiu de nove para dois casos (queda de 77,8%), e sequestro relâmpago, de 8 para 1 (redução de 87,5%). Os dados estão em boletins de ocorrência registrados nas delegacias do entorno da Cidade Universitária.

Dos 103 boletins de furtos registrados depois da morte ante os 107 do período anterior, apenas 20 ocorreram em via pública, sendo 19 no interior de veículos, dos quais em 12 o objeto visado foi o estepe do carro. O outro furto foi de uma placa de veículo.

Os outros 83 casos aconteceram no interior das unidades, onde a PM não entra. Nesses locais, a competência de garantir a segurança é das empresas privadas de vigilância, contratadas pelas próprias unidades, ou da Guarda Universitária da USP, que tem como função proteger o patrimônio da instituição.

O argumento das alas mais radicais dos grupos universitários é que a presença da Polícia Militar tem servido para inibir os atos democráticos de manifestações, que, diga-se de passagem, são comuns dentro de meios acadêmicos.

A presença política nas manifestações – parte do intricado mosaico geopolítico da universidade – é apenas outro ponto, se embora a manifestação dos alunos possa ser consideração legítima, a ocupação da reitoria dia 01/11 foi encabeçada por grupos políticos como o PCO, a presença de bandeiras como a do PSTU e do PSOL podem ser encontrados entre os ocupantes, algo que nós podemos considerar como ato político e questionável.

A reação contra a presença policial no campus tem repercutido um criticismo sério por parte da população, que veem nas reinvindicações dos universitários nada menos que um “luxo”, alegando que não precisam de um direito do cidadão – o de proteção – enquanto diversas outras comunidades do município de São Paulo carecem do mesmo direito.

Em infeliz declaração a imprensa, Geraldo Alckmin, governador do Estado de São Paulo declarou sobre a situação : “Ninguém está acima da lei”, o profº Jorge Luiz Souto Maior, livre docente da Faculdade de Direito da USP foi pertinente em argumentar: “Ninguém está acima da lei”, traduz um preceito republicano, pelo qual, historicamente, se fixou a conquista de que o poder pertence ao povo e que, portanto, o governante não detém o poder por si, mas em nome do povo, exercendo-o nos limites por leis, democraticamente, estatuídas. O “Ninguém está acima da lei” é uma conquista do povo em face dos governos autoritários. O “ninguém” da expressão, por conseguinte, é o governante, jamais o povo.”

Muito foi dito sobre políticas de controle e higienismo no estado de São Paulo por parte da administração do PSDB, sabe-se que 25 das 32 subprefeituras do município possuem no comando reservas ligados a Policia Militar, também existem cerca de 90 oficiais em cargos considerados estratégica para a máquina pública paulistana, entre eles podemos citar a Secretaria de Transportes, Companhia de Engenharia de Tráfego, Serviço Funerário, no Serviço Ambulatorial Municipal, na Defesa Civil e Secretaria de Segurança.

Dia 08/11, por volta das 5:20 da manhã, um grupo de 400 policiais do batalhão de choque invadiram a reitoria com o objetivo de retirar os 150 alunos ocupantes do prédio, embora a assessoria da Polícia Militar alegue que a retira foi pacífica (embora, relatos de uso de gás lacrimgênico e abuso de força cheguem aos poucos, como nesse vídeo aqui), cerca 70 manifestantes foram presos, com múltiplas acusações, que vão de crime ambiental a formação de quadrilha, também foram encotrados, armas brancas e molotovs nas imediações ocupados, muitos detidos só conseguiram responder aos processos após o pagamento de fiança ou seja, os atos de manifestação foram considerados criminosos de acordo com a administração do município.

Todo o cenário poderia ter sido um de vitória, de manifestações pacíficas e reivindicatórias, sem a presença de joguetes políticos ou depreciação do patrimônio público, ao mesmo tempo em que as autoridades o papel que lhes cabe a sua jurisdição.

Ambos os lados tem ganhado notoriedade por seus atos exaltados e violentos, mas aqui eu questiono o que – nós – como povo conquistamos após esse episódio? Após a ação policial, parte da opinião pública aclamou pela intervenção brutal promovida pelo Batalhão de Choque, enquanto parcelas da comunidade universitária encontrarão no ato de agressão uma justificativa para seus argumentos radicais, tudo o que nós, o povo, conseguimos foi uma vitória pírrica.

O Homem Animal do Novo 52 da DC Comics

Buddy Baker não é um herói qualquer, ele é o Homem Animal, ex-dublê de cinemas, super-herói de carreira e ativista dos direitos dos animais, ele emprega sua capacidade de imitar – em larga escala – características de diversos animais de nosso planeta para combater o crime e a injustiça.

Homem-Animal (ou Animal Man para os gringos) ganhou status de cult no universo de sua editora, a DC Comics, após vivenciar um período mais experimental na década de noventa nas mãos do escritor Grant Morrison, que escreveu histórias que hoje são consideras verdadeiros clássicos dos quadrinhos, como “O Evangelho Segundo o Coiote”.

Grant Morrison, conhecido por ser vegetariano e defensor dos direitos dos animais, refletiu diversos de seus argumentos políticos no personagem ao longo de sua estadia na série, quando a série passou para o selo Vertigo, conhecido por suas histórias mais maduras e ousadas, o escritor Jamie Delano, que teve uma ótima fase em Hellblazer, tomou as rédeas do personagem, atribuindo novos elementos místicos e aproximando a narrativa da série para as histórias de terror e suspense.

Quando veio a notícia esse ano que o universo criativo da DC Comics sofreria um “reboot”, ou seja, um reinicio em sua continuidade, entre seus cinquenta e dois títulos anunciados, constavam diversos títulos estrelados por personagem que passaram pela Vertigo e a Wildstorm, entre eles, uma nova revista estrelada pelo Homem Animal.

A dupla criativa dessa vez é Jeff Lemire assinando o roteiro e Travel Foreman no desenho, Lemire é bastante conhecido no selo Vertigo, principalmente pela série Sweet Tooth, ainda sem previsão para ser publicada no Brasil.

Logo na primeira edição Buddy Baker é apresentado ao leitor na forma de uma entrevista da revista independente “The Believer” – o que serve apenas pra reforçar o apelo “indie” tanto do herói como do escritor – lá, Lemire amarra as influências de Grant Morrison, apresentando o herói como alguém prestes a estrelar um filme de produção independente, ativista dos direitos dos animais e “símbolo da juventude hipster esquerdista”.

Se levássemos em consideração tanto o passado do Homem-Animal, assim como nosso cenário sócio-político e a proposta do “reboot” da DC Comics, em modernizar e atualizar seu repertório de heróis, pode parecer uma escolha sensata alinhar o herói com o discurso de grupos como a rede Anonymous ou o Movimento Ocupa, porém para a surpresa de todos, Lemire passa longe disso e prefere deixar esse aspecto da mitologia do herói em segundo plano.

Logo Lemire nos transporta para a vida doméstica do herói, conhecido pelas pelos leitores por histórias onde sua família exerce participação ativa, aqui nos encontras Baker discutindo com sua esposa sobre a rentabilidade de seu papel em um filme independente, ao mesmo tempo em que sua filha mais nova pede por novo animal de estimação.

Após essa introdução a rotina do herói, Lemire mostra o que é capaz ao resgatar elementos trazidos por Delano nas séries passadas, em cenas repletas de morbidez, após frustrar uma invasão a um hospital, o herói sofre sangramentos inexplicáveis na derme e, ao voltar para casa, descobre que sua filha despertou poderes, revivendo diversos animais mortos pela vizinhança, não podemos esquecer de tudo isso acompanhado pelo clichê do “posso ficar com eles papai?”.

A nova revista do Homem-Animal tem sido bem recebida pela crítica, estando entre os cinco títulos mais vendidos do novo universo da DC Comics, a primeira edição ganhou uma terceira reimpressão em Outubro, a série tem mantido um bom nível artístico, sendo capaz de sustentar uma trama, que tudo indica – e levando em conta o sucesso da série – ainda vai se estender por meses.

Vale a pena mencionar que o material para esse resenha foi obtido no aplicativo da DC Comics para iPad, que até agora mantém a proposta de lançamento simultâneo entre o material impresso e digital, fora a questão do fuso-horário, eu consegui obter a edição mais recente na data de lançamento.

Se você busca mais referencias para o “Novo 52”, outros membros do Nerdevils escreveram ótimas resenhas, você pode conferir elas nos links abaixo!

Justice League #1 é um “foda-se” para os nerds reclamões, por Alessio Esteves

Action Comics #1: o novo Superman é o antigo Superman, por Agostinho Torres

Otaxploitation: um mercado de obsessões

Recentemente o supergrupo de música pop japonesa AKB48 lançou uma nova ação em seu site, o AKBaby, através de uma aplicação de reconhecimento facial e mistura de elementos, por um preço, o fã interessado pode “upar” sua foto e misturar com elementos da integrante que quiser e assim ter a foto do seu “bebê”, o apelo é tamanho, que na homepage, uma das meninas aparece com a blusa levantada, amamentando um bebê, em uma cena cheia de subjetividade erótica, na arte está escrito, traduzido do japonês “você quer ter um filho comigo?”.

AKBaby, propaganda extraída diretamente do site do supergrupo

Em outro episódio mais antigo, uma nova integrante do grupo foi anunciada em um comercial de uma marca de doces local, a peça exibida no semestre passado chamou a atenção dos fãs por uma série de incoerências: porque uma integrante novata teria papel central na ação? Porque algumas feições dela eram tão familiares? A resolução dessas – e muitas outras – perguntas veio no anuncio que a nova membra da equipe era na verdade uma animação feita por computadores, com feições corporais captadas das principais integrantes do conjunto.

Este tipo de exploitation de garotos e garotas com relativo talento e aparência agradável tem se tornando um fenômeno cada vez mais comum para as audiências ocidentais, embora cause estranheza, esses grupos já são desenvolvidos por agências de talento e gravadoras em seu país de origem há mais de três décadas.

Geralmente são talentos promissores escolhidos logo cedo, podemos inclusive brincar que muitos são criados em “currais”, recebendo ao longo da adolescência a tutela necessária para o estrelato, aulas que vão de fisiculturismo, artes cênicas, etiqueta, dança e etc. tudo com o objetivo de integrar a pessoa em um novo grupo de estrelas.

Como figuras públicas, muitos aspectos de suas vidas são monitorados, principalmente questões como relacionamento, o consumo de bebidas e até cigarros. Em casos de comoção considerados drásticos, a assessoria de imprensa de tais agências chega a emitir pedidos de desculpas público e até suspender a atividade de seus membros.

Em muitos grupos, como o AKB48, existem sistemas de ranking de popularidade, o que deixa no ar um aspecto de rivalidade entre suas integrantes, muitas formações são trocadas inteiramente quando quesitos como “idade” começam a alarmar empresários, algumas chegam a participar de revivals e muitos ex-membros arriscam carreiras solos e tentam sobrepujar o estigma, raros são os casos de sucesso.

O que chama a atenção no AKB48 é o nicho pelo qual o grupo foi construído, “AKB” é uma abreviação para “Akihabara”, conhecida mundialmente como a “Meca dos Otakus” um bairro comercial de Tóquio voltado para o consumo de bens tecnológicos e colecionáveis, a própria sede do supergrupo/franquia se encontra na região. Propondo uma ideia de “ídolos que você pode encontrar”, o enfoque do marketing no grupo é sempre voltado para a exposição das vidas de suas integrantes.

Imagem do comercial estrelado por Eguchi Aimi, a única integrante do grupo construída a partir da computação gráfica

Ser um grupo voltado para “otakus” é pertinente no sentido que esse termo tem na conjectura social do país, ao contrário do ocidente, onde se assume de forma predominante o otaku como o fã de animações e mangás, no Japão, o “Otaku” é todo sujeito que desenvolve o excêntrico comportamento de colecionar e se especializar em determinado assunto, existem grupos de otaku que podem ser considerados sem qualquer envolvimento com o mercado de animes e mangás.

Para a cultura moderna japonesa, um “otaku” é qualquer pessoa de comportamento obsessivo com algum hobbie, não apenas animações japonesas, podemos encontrar características de comportamento “otaku” entre fãs de jogos eletrônicos, música, armas de fogo e até engenharia automotiva, este tipo de comportamento costuma ser amplamente desaprovado pela cultura oriental, comumente associados a episódios de surtos paranóicos e autodestrutivos.

No ocidente o termo “otaku” ganha outra conotação, sendo empregado exclusivamente para a base de fãs de animação japonesa e mangás, o que tende a desenvolver controvérsias, levando em consideração o sentido em seu país de origem e a historicidade por trás da palavra, o termo “otaku” sofre então, uma resignificação de seu sentido, assim como outras palavras que foram inúmeras vezes re-apropriadas no idioma inglês, como “punk” ou “gothic”.

É interessante perceber que bairros como Akihabara adequaram seus negócios para muito dos gostos excêntricos deste público, como cafés e restaurantes temáticos e lojas especializadas. Apesar de ser uma cultura distante e introspectiva, é errado argumentar que os Otakus compartilham de um isolamento social, levando em conta que através do consumo os mesmos continuam ingressos na sociedade japonesa, onde muitos são considerados heavy expenders.

Este mês, a Yano Research Institute, um dos institutos de pesquisa de mercado mais antigos do país divulgou que 25,5% da população japonesa se consideram ou aceitam serem rotulados como “Otaku”, estamos falando em um mercado de 31.858.373 possíveis consumidores, ter seu marketing voltado para um nicho tão extenso tem suas vantagens mercadológicas.

De acordo com a mesma pesquisa, o mercado otaku acompanhou um acréscimo de 40% participação em jogos eletrônicos online e principalmente em simulações de namoro e eroges (games eróticos), outro mercado que demonstrou crescimento foi o relacionado ao “idorus”, o consumo de bens relacionados a grupos como o AKB48. Esse “comportamento obsessivo” dos otakus ganhou fama devido à falta de limites que existe em alguns, com atitudes que beiram a psicose, tais indivíduos são geralmente conhecidos como “kimoi-ota”.

Fã gastou aprox. cerca de U$110.000,00 em singles do AKB48

Existe uma série de motivos para que alguém possa vir a ser considerado “Kimoi-ota”, claro o engajamento em um ou mais hobbies é o ponta pé inicial, mas como tudo nessa vida, existem manifestações saudáveis ou não para um hobbie, no Japão existem agravantes, principalmente entre as parcelas mais jovens da população adulta, como a dificuldade de relacionamentos e até mesmo em estabelecer uma família torna o japonês médio propenso ao gasto de dinheiro com outras objetividades, ou até mesmo as pressões familiares e profissionais têm desenvolvido pessoas consideradas “Hikikomori”, dotadas de extrema agorafobia, que não saem de casa e são considerados um caso de saúde pública pelo governo nipônico.

Com lojas de eletrônicos, colecionáveis, plastimodelismo e outros serviços e negócios voltado aos fãs e colecionadores, Akihabara é considerada a "Meca dos Otakus" há mais de 20 anos

Os casos mais famosos de “kimoi-ota” costumam acontecer com “Seiyuu”, principalmente do sexo feminino, um(a) Seiyuu é um ator de voz, uma profissão muito similar ao dublador, mas com a repercussão de animações e jogos no mercado japonês, um Seiyuu costuma ter maior projeção, principalmente no show-biz. Em diversos casos, são relatados episódios de “stalking”, ou seja, perseguição de ídolos em espaços públicos e até mesmo invasão de privacidade, não é incomum que muitos postem seus rompantes de fúria em fóruns anônimos, com fotos ou produtos relacionados degradado graças a um detalhe da vida pessoal da Seiyuu.

Podemos alegar que o AKB48 flerta de forma muito próxima com essa “categoria de fã” , e essa última ação do grupo é exemplo deste interesse, mas quem podemos culpar? Uma sociedade que em muitos casos temos dificuldade em compreender? Os fãs psicologicamente imaturos? Os rapazes e garotas “criados em cativeiro”? Acredito que a resposta seja mais simples, apenas os produtores.

Demorei um tempo para entender porque essa ação do AKB48 me incomodou, justo eu que não ligo e até esnobo de coisas consideradas doentias ou obscenas pelo senso comum, mas o que me irritou foi a leviandade com que essa “desumanização” das integrantes é levada e a própria foto promocional, desprovida de qualquer “tato” sobre a noção de gravidez e a condição feminina.

Essa primeira década do século XXI fechou com o surgimento de uma mentalidade mais tolerante e proativa em relação ao “fanboy” e sua contra-parte oriental, o otaku, e com isso, é preciso pensar em formas de transformar nossos hobbies em coisas saudáveis e construtivas, se estamos falando sobre ídolos, é preciso seguir um pensamento de orientação similar, afinal, nada mais contraditório que fomentar um mercado que “desumaniza” cada vez mais o fator humano.

Entropias grant-morrisianas #2 – Time Is A Four Lettered Word

“Time Is A Four Lettered Word” publicado em outubro de 1978 na edição nª. 2 da Near Myths foi a primeira obra pela qual Grant Morrison recebeu alguma grana pra fazer. Este seu primeiro trabalho “profissional” contou com apenas cinco páginas e ainda eram no final da revista, o que deixa claro que entre todos os outros autores ele era o menos prestigiado. Até porque era novo na equipe. Na edição nª. 5, o último suspiro da Near Myths no mercado de quadrinhos britânico antes de morrer asfixiada, a magistral história “The Checkmate Man” de Morrison seria a primeira da revista, deixando registrado o quanto ele convenceu o público e os editores quanto a qualidade de se não seus desenhos, pelo menos seus roteiros.

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A Near Myths era uma revista pequena e seu caráter inovador na questão da mudança de foco dos super-heróis para público infantil, agora redirecionado para ficção científica para adultos, não era muito promissora nas perspectivas de vendas, então era normal que o editor só pegasse trabalhos completos de um artista ou outro e publicasse. Se houvesse divisão do trabalho entre roteirista e desenhista, isso iria significar mais grana a se pagar; ou pros artista, menos a se receber porque teriam que dividir. Então enquanto publicava na Near Myths Morrison tanto desenhava quanto criava os roteiros. Ele queria trabalhar com quadrinhos, exatamente em qual das duas áreas ele ainda não tinha se decidido.

Grant Morrison era o “cara de Glasgow”, como Rob King diz no editorial da ed. nª. 2. Ele ainda aponta que no próximo número, Grant iria começar uma série de histórias chamada “Gideon Stargrave”, que era seu trabalho principal. “Gideon Stargrave” era aquele trabalho apresentado por Morrison a Rob King na Primeira Convenção de Quadrinhos de Glasgow, quando ele procurava desesperado por uma oportunidade.

Mas afinal de contas, do que se trata “Time Is A Four Lettered Word”?

Do fim do mundo através paradoxos temporais/dimensionais, como quase tudo que Morrison trabalhará depois. Desde o princípio, como nessa obra, ele está envolvido com noções como “saturação do tempo”, no entanto nessa história, esse plot é enfeitado com toques da mitologia celta.

A narrativa é dividida em três histórias localizadas em tempos e situações diferentes que se passam confusamente misturadas nas mesmas páginas. Eu achei a arte horrível e confusa demais até pra coisas complicadas como paradoxos temporais… Morrison pode ser um bom desenhista de esboço, mas não de obra final. Dizem que ele tem vergonha desses trabalhos iniciais, porque ele não costuma mencionar, diz apenas que trabalhou pra Near Myths, no máximo comenta sobre Gideon Stargrave, porque o personagem se tornaria importante na trama de Invisíveis.

Em “Time Is A Four Lettered Word” a primeira narrativa é sobre Beachdair, um guerreiro que vai até a Stonehenge atrás do Deus Chifrudo e encontra uma mulher estranha por lá. Ele não aceita a presença da mulher naquele local sagrado dos druídas e quer retirá-la, através de ameaças, a mandando de volta aos campos da “deusa mãe”. A mulher o chama de tolo e diz que a “deusa mãe” está presente ali e que “o ciclo agora está terminando”.

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O segundo plot é o principal, se passa em 1982, nele tem um cara chamado Quentin e uma bruxa nomeada de Dana, que analisam pontos de saturação no tempo. Quentin descobre que todo o mundo está prestes a entrar numa transbordação temporal generalizada.

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A terceira narrativa é sobre, (aparentemente) um druida (“heathen slut” pra sacerdotisa) que vê uma sacerdotisa da deusa da colheita (Corn Maiden) tomando banho num rio em um período sagrado no qual ela não pode ser tocada (May Day) e a estupra.

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Quentin e Dana acabam parando na Stonehenge. Eles encontram lá uma força guardada por milhares de anos, uma força mágica contida que parece estar esperando por algo, que eles não sabem o quê, para ser liberta. E descobrem tardiamente que são eles mesmos os últimos elementos do quebra-cabeça que desencadeia o poder da Stonehenge. Juntamente com eles a combinação é completa pela presença de Beachdair no local e o sangue do druida que violentou a sacerdotisa, ambos em outras temporalidades. No penúltimo quadro da HQ vemos as três mulheres juntas, talvez sejam a mesma pessoa… talvez sejam justamente a “deusa mãe” pela qual Beachdair tanto pedia para encontrar. E no último quadro, uma visão em perspectiva do universo, talvez para dizer que o tempo havia se extinguido, ou reiniciado, naquele instante.

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Em geral “Time Is A Four Lettered Word” é muito confusa. Há uma deficiência de Morrison em tentar contar três histórias de uma vez. O roteiro é mais ou menos bem interligado, apesar de cortes bruscos e pouquíssima explicação de qualquer coisa, mas o que atrapalha mesmo é a incapacidade do desenho transparecer sequer a diferença anatômica entre os personagens… talvez por isso em geral, esse seja um trabalho que realmente Morrison não queira lembrar muito. De qualquer forma, é importante pra trajetória de Morrison porque já estão dispostos nesse primeiro trabalho temas que serão bem abordados em seus trabalhos futuros, tanto na Near Myths como em outras editoras maiores, que nesse momento ele nem sonhava que poderia um dia fazer parte.

(a próxima análise será de Gideon Stargrave no nª. #3 e /#4 da Near Myths)

Usagi Drop: sensibilidade e carinho paternal em um dos melhores animes de 2011

Usagi Drop para muitos foi considerado um dos melhores animes de 2011, e admito que todo o alarde causado pelo término da série em fóruns e sites foi o que chamou a minha atenção para conferir a série. A trama conta a história de Daikichi Kawachi, um adulto solteiro e workaholic, que durante o funeral do seu avô, descobre junto com seus familiares horrorizados, que o falecido deixou uma filha bastarda, a jovem Kaga Rin, de apenas nove anos de idade.

Incomodado pela indiferença e distância de seus familiares com a menina recém-órfã,  Daikichi, contrariando a opinião de todos, resolve adotar a garota, causando espanto e comoção entre seus parentes, e descobre ao longo de onze episódios, que a vida de pai solteiro não é fácil.

A série foi desenvolvida pelo Production IG, que em seu portfólio tem nomes aclamados pela crítica especializada como Ghost in the Shell, Patlabor e Blood +.

A animação aborda um assunto pouco explorado, a paternidade e os esforços exigidos na criação de uma criança, o roteiro também propõe, de uma forma natural, uma crítica a problemas que o cidadão comum da sociedade japonesa encontra no mercado de trabalho, em ser pai/mãe solteira e até na adoção de crianças.

Embora Daikichi sofra as preocupações e ansiedades comuns em todos os pais, principalmente em conciliar sua carreira com as necessidades de sua filha, a série não apela para o melodrama ou o improvável, cada capítulo é um aprendizado na vida dos personagens.

Também fica o destaque para Kaga Rin, que mesmo protagonizando os momentos considerados “engraçados” e “fofos” para a audiência, é graças a ela que Daikichi se reconecta a família e põe sua vida em perspectiva, ela, mesmo órfã e madura pra sua idade, transmite uma noção de otimismo sem igual.

Para todos os efeitos, Usagi Drop é uma animação adulta, mesmo que longe da exploração e abuso de temas como violência e erotismo, a mesma apresenta a vida adulta – e sua evolução – como devem ser e em vários momentos, ao observar o esforço de Daikichi eu levei em consideração os mesmos que os meus pais fizeram – e ainda fazem – por mim.

Sem dúvidas, Usagi Drops é uma das melhores animações do ano, os interessados em dramas adultos e slices of life não vão se decepcionar, sem contar que é um ótimo anime para se apresentar a leigos ou aqueles que querem conhecer o meio, vale a pena dar uma chance e conferir.

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