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Legalização do aborto, uma questão social

Em 2010 o candidato à presidência pelo PSDB, José Serra, direcionou sua campanha para a vasta maioria católica do país, em especial ao condenar e moralizar no debate da corrida eleitoral tópicos como a legalização do aborto, principalmente levando em consideração a tendência mais aberta de seu rival, Dilma Rousseff, do PT, ao assunto.

José Serra, que direcionou parte do seu discurso eleitoral para missas e cultos, protagonizado por pastores evangélicos, como Silas Malafaia, que até hoje ataca abertamente o público homossexual em outdoors espalhados pelo estado do Rio de Janeiro e padres como Dom José Cardoso Sobrinho, Arcebispo do estado de Recife.

Para quem não se lembra, em 2009 – um ano antes da corrida eleitoral – José Sobrinho encabeçou mais um episódio que chocou o Brasil. Uma menina de nove anos de idade engravidou de gêmeos após ser estuprada pelo padrasto, de vinte e três anos de idade, por decisão médica, a menina teve sua gravidez interrompida.

Após o episódio, que resultou na prisão do padrasto, o Arcebispo, de forma deliberada, excomungou todos os envolvidos no aborto: juízes, assistentes sociais, os médicos e até mesmo a menina violentada, seu atacante, o padrasto, não recebeu esta punição.

Em comentário a imprensa, o mesmo disse:  “Eu me arrependeria se não tivesse feito isso. Seria um pecado de omissão” mesmo foi sancionado pela justiça federal, a menina em questão vivenciava uma gravidez de risco altíssimo, porem, ainda assim, não impediu a ação do Arcebispo.

Acontece que, mesmo em caráter de exceção, não vivemos um país laico, possuímos a maior população católica do planeta, população que figuras públicas como José Serra, José Sobrinho e Silas Malafaia direcionam o discurso.

Gostaria de deixar claro que não estou generalizando católicos e outros grupos de fé cristã, e sim, reconheço a presença de pessoas esclarecidas e sensatas entre estes públicos, o problema não se encontra no debate moral e religioso, mas sim em nível cívico, político e educacional.

O aborto, em sua condição criminalizada, tem um significado implícito, pois coloca a mulher em situação marginal, sendo que ela é o ente passível de gravidez, porém ressarcida do direito de abortar, esta é a ótica fundamental, o aborto é uma consequência de uma política social defasada, criminalizar a consequência é não assumir a negligência que vem sido exercida na saúde pública, levantamos a questão: quem controla o corpo da mulher? O estado? a religião? ou ela mesma?

Dizem que o aborto é assassino, desrespeito a vida ou imoral, mas ainda mais criminoso é o estado marginalizar sua população feminina, principalmente das camadas econômicas mais inferiores de nossa sociedade como potenciais homicidas, mesmo com essa transferência de culpa, muitas ainda recorrem a métodos abortivos, até mesmo caseiros.

Exista quem defenda que o aborto desnecessário perante a enorme variedade de métodos contraceptivos existentes no mercado, como profissional de comunicação, eu considero esse argumento algo contestável, disponibilidade não significa acesso, acesso não significa necessariamente comunicação, e comunicação não é sinônimo de instrução.

Indiferente de ser na rede pública ou privada, ainda é difícil – justamente pela natureza religiosa e machista de nossa cultura – ministrar aulas de educação sexual em nosso sistema de ensino, dependendo de estado, instituição e grupo demográfico, ideias como camisinha e pílula anticoncepcional são consideradas tabus.

Que existe informação de sobra não há uma parcela de dúvidas, mas é preciso alocar esforços, articular ler, tornar a conscientização sobre o sexo seguro de forma ainda mais didática, como falar que existe informação em demasiado em um país onde os índices de analfabetismo funcional extrapolam ano após ano?

Os mais alarmistas costumam mencionar “será um massacre” caso o aborto seja legalizado, existe uma má interpretação – capciosa, assim julgo – em volta do termo “legalizar”, não é o mesmo que “permitir”, em tese, o aborto já acontece, e pasmem, o massacre já ocorre, e há quem lucre com isso.

Embora ilegal, nada impede – até mesmo o policiamento – de centenas de clínicas clandestinas se proliferarem em grandes centros urbanos como o município de São Paulo, cobrando até R$5.000,00 por um procedimento que implica em uma série de riscos para a saúde da mulher. Em mais um episódio, pessoas de poder aquisitivo que se consideram acima da lei, podem – e estão dispostas – a pagar por um procedimento que para tantos outros, de condição econômica e social visivelmente inferior, lhes é negado.

Uma das consequências pela busca de clínicas clandestinas é a enorme quantidade de infecções, hemorragias e – infelizmente – óbitos que implicam em custos adicionais ao orçamento da saúde pública e no bolso do contribuinte.

Acontece que legalizar seria uma maneira de impedir o massacre.

Consultando o pai dos burros, podemos definir que “legalizar” é “Tornar legal; dar força de lei a (um ato, ou disposição). Revestir das formalidades exigidas por lei. Autenticar.” Legalizar, sob os olhos de quem escreve esse post, é admitir que o estado e a população possuem maturidade para discutir uma pauta.

Legalizar vai além de tornar uma prática permissa, mas sim estipular E revisar quais leis, condições e eventos determinada prática são aplicáveis, foi comprovado em que países onde o aborto foi legalizado, os índices da prática declinaram ao longo do ano, justamente por causa de campanhas envolvendo conscientização de práticas anticoncepcionais.

Vivemos em um país onde 10% da população infantil é indesejada, crimes contra a criança, são decorrentes ou consequência da situação legal do aborto – prostituição infantil sendo uma delas – é preciso tomar iniciativa para reverter este quadro, e uma nova geração de cidadãos – e principalmente, mulheres – parece estar motivada para discutir e reverter nossa arcaica política.

Para finalizar, vale a pena uma reflexão, onde muito se discute o casamento e a formação de famílias encabeçadas por homossexuais, a adoção de crianças abandonados por casais do mesmo sexo não seria uma alternativa saudável e mutuamente beneficente para todas as partes envolvidas?

Nerdeteco – Parte II – Festa estranha com gente esquisita

(AVISO: por razões de segurança nacional, pessoal e sexual, os envolvidos nesta balbúrdia não terão seus nomes citados, mas para saber quem estava lá, leia a primeira parte deste post. Pra saber quem fez o que, some dois e dois, seu merda!)

Três marmanjos disputando entre si quem primeiro conseguiria sair com uma garçonete linda e aparentemente lesada de sono por emendar dois dias de trabalho seguidos. Garçonete esta que momento antes estava em uma pegação irada com uma menina que saiu mais cedo do bar cizendo que ia encontrar um povo e voltar mais tarde. Obviamente não voltou.

Um segurança volta para o salão principal irritado com um casal que estava um tanto quando empolgado em sua pegação no canto da pista dança, que estava vazia. “Porra, vão pra um motel, caralho!” esbraveja o sujeito ao passar pela nossa mesa.

As cervejas eram pedidas de seis em seis e se alguém vacilasse para encher seu copo corria o risco de só enchê-lo na próxima rodada.

“Não sou maconheiro, sou Cannabisólogo”, diz um rapaz em frente ao bar, partilhando sua sabedoria e sua brisa com pelo menos mais seis integrantes da trupe.

Qualquer que entrasse naquele bar da Rua Augusta diria qualquer coisa, menos que esse era um encontro de nerds batizado de Nerdeteco. Mas ali havia jogadores de RPG e videogame, fãs de HQs, otakus. Ao adentrarem no bar e ver uma enorme mesa onde cabiam pelo menos 20 pessoas, a primeira pergunta foi: “Quem vai mestrar?”. Houve discussões, sobre quadrinhos, Gundams, twittosfera e blogosfera, Pokémon e um monte de piadas que só quem estava na mesa acharia engraçado.

Mas também teve cigarro, cerveja, charuto, conhaque, cannabis, pegação, vodka e até romance, acreditam? Eu realmente gostaria de contar para vocês tudo de forma mais linear, mas o excesso de químicas diversas em meu corpo antes, durante e depois do evento me impede de fazê-lo, mas basta saber que:

– Um dos três marmanjos conseguiu seu intento;

– Um pessoal chegou depois sóbrio, mas foram embora dado o nível geral de degradação alcoólica dos presentes;

– Lá pela alta madrugada uma outra galera nos encontrou no bar e muita coisa aconteceu, com direito inclusive a uma simulação de cena de sexo homossexual entre um ator pornô e um dos presentes;

A partir daí tudo fica mais confuso ainda. Sei que dormi em um canto da mesa, acordei, paguei a conta e tentei acompanhar o povo subindo a Augusta. Mas esse povo sumiu e só restou eu e a Mima. Entramos no metrô, dormimos e acordamos magicamente na estação Guilhermina-Esperança, o que nos obrigou a mudar de vagão e de sentido para poder ir pra casa.

E não contentes em realizar essa esbórnia toda, a maior parte desse povo vai se reunir novamente para mais uma edição do Nerdeteco! Para saber mais, basta fazer uma busca na hashtag #Nerdeteco no Twitter. Mas estejam avisados que tudo pode acontecer…


Peitos ou tripas?

 

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Faça a pergunta do título a uma pessoa, indagando qual das suas partes do corpo ela prefere ver, e creio que ela responderá “peitos” – de alguém do sexo oposto, só pra deixar claro. É uma parada óbvia, sexo é muito mais intrínseco do ser humano do que a violência, embora as duas coisas sejam importantes como ferramentas para prolongar a existência da espécie. A Violência serve para nossa sobrevivência em relação ao meio em que vivemos, como um gatilho pressionado nos momentos mais tensos. Deveria ter sido praticamente abandonada desde que tomamos consciência de nossa suposta racionalidade e resolvemos morar em grandes conglomerados urbanos, mas humanos não são seres que vivem tão bem entre si como se imagina, e por isso a Violência tende a se perpetuar continuamente. E o Sexo… bem, o sexo tem duplo propósito: prazer e reprodução, coisas bem básicas, do tipo que todos nascem praticamente sabendo. E isso me leva a uma questão bem trivial, porém intrigante: por que a sociedade aceita com MUITO mais facilidade a Violência (seja ela de cunho psíquico ou puramente visual) do que o Sexo? Nossa racionalidade e lógica – que frequentemente usamos para nos posicionar como o ser dominante do planeta – não deveria GRITAR que sexo é uma coisa infinitamente melhor que violência? Creio que a resposta a essas perguntas passam por uma série de questões e responde a várias outras.

O ser humano é completamente dependente do aprendizado paterno e não possui praticamente nenhum comportamento incorporado em sua própria pessoa, de modo instintivo, como vemos em outros animais. Se você deixar um bebê para ser criado por macacos, ele vai ser um macaco em pouco tempo. Se deixar no meio dos lobos – sabe Mogli? É inspirado numa história real – ele vai comer carne crua, ter hábitos noturnos, vai ser quadrúpede e vai soltar grunhidos ao invés de falar. Além de morrer bem rápido se você tentar impor seu modo de vida ocidental para ele. A nossa percepção, ao ver a cena, vai dizer que alguma coisa tá errada, mas a do menino-lobo não! Cultura, percepção e aprendizado são fatores que influenciam nosso comportamento muito mais do que qualquer traço genético ou resquício de superioridade evolutiva. Por mais que essa questão ainda seja passível de avanços em estudos, creio que essa constatação básica não mudará. Levando isso em conta, é de se imaginar que essa repulsa externa por sexo presente num sem-número de pessoas, seja um comportamento herdado, e não-natural. Um guri nasce punheteiro em potencial, e isso é mais que comprovado – fora que a punheta é importante, como bem mostrou o Synthzoid. As exceções se devem em casos de distúrbios hormonais ou de personalidade – que também são efeitos colaterais da nossa vida nas Cidades. A ação punitiva dos pais é que (talvez) o torne envergonhado de colar páginas de revistas (hoje devem ser as teclas de computador). Ao se tornar um adulto, por mais libertário que seja, é muito provável que carregue parte desse comportamento repressor do pai com ele, mesmo que de modo quase inconsciente e voluntário. Se esse é um comportamento incorporado, é de se imaginar que exista alguém, ou alguma organização por trás disso. Ou uma teia complexa de pessoas e organizações.

Uma delas é naturalmente a Igreja Católica. Mas antes dela, tivemos o maior Vilão da História do Pensamento despejando a idéia dele com relação a isso: Platão. Se observar todas as idéias e supostas contribuições de Platão para o modo de pensar ocidental, facilmente se chega a conclusão que ele serviu de base para muitos aspectos do Cristianismo (um dia falarei de Abraão, que, segundo nos conta a tradição, é pai das três maiores religiões monoteístas do mundo, e por isso merece meu desprezo). Ele era o cara do mundo Metafísico, que dizia que a vida na Terra era inútil – não pra ele, que cantarolava por aí que os políticos gregos eram mandados pelos deuses – e vivia filosofando. Se dizia amante da Liberdade, mas perseguiu os Sofistas sem dó, depois que eles botaram abaixo muito da retórica imponente dele (não é fazendo propaganda do Nerds Somos Nozes de novo, mas recomendo que leiam ESSE texto que fiz sobre o assunto) e ainda tiraram uma com a cara dele – e lucravam alto com isso. Platão foi um dos primeiros que pregou sobre o Amor da forma que o conhecemos hoje. Apesar dele não condenar diretamente o sexo, ele colocou o Amor como uma busca, uma manifestação da nossa vontade de se completar, e esse tipo de afirmação, naturalmente, se sobrepõe ao nosso desejo sexual – é preciso amar, completar a busca, que geralmente termina frustada. Antes de Platão, existiram os cultos a Dionísio e o modo de vida bizarro dos espartanos, que se achavam tão machos que pensavam que as mulheres não mereciam amor… e os homens se amavam entre si. Eram machões-homossexuais, algo bem paradoxal para os nossos padrões modernetes. E todos esses povos gregos eram naturalmente propensos a violência também. Viviam em guerra, e pensavam ser a morte em batalha, a mais honrada de todas.

Os gregos, como percebemos, eram seres bem liberais no tocante a sexualidade. Os romanos, que basicamente foram gregos com mais pedaços de terra sob seu poder, seguiram essa cartilha violenta-liberal em quase todos os seus aspectos. Conhecemos a história de Calígula, uma espécie de vórtice carregado de excessos de Sexo e Violência, uma representação da inconsequência carnal da forma mais absurda possível. Mas as coisas não iriam muito por esse lado, principalmente após a ascensão do poder Papal – foi após a nomeação do Bispo de Roma como supremo chefe da Igreja Católica, é que ela se tornou a estrutura unificada que conhecemos hoje. Bom, não vou analisar profundamente a forma como a Igreja Católica trata a questão sexual – até porque ela é bem conhecida – mas basta lembrar que os velhotes que sentam a bunda no trono da Basílica de São Pedro, insistem em dizer que sexo é só pra reprodução, que camisinha é coisa do demo, que devemos assinar um contrato para fazer sexo… essas coisas. Por outro lado, cultuam a violência! É só estudar as campanhas judaicas no deserto – dizimando inclusive crianças sob ordens de Deus -, as torturas que Deus impôs a um servo que ele supostamente amava – Jó. Fora que ele ainda fez uma aposta com Satã -, o modo como Deus mandou Coré, Datã e Abirã para baixo da terra depois deles se rebelarem, duas ursas sob ordens de Deus destroçando 42 guris que zuaram Eliseu… enfim, a Bíblia é um livro bem sangrento e repressivo, e o reinado Católico sobre o planeta em tempos passados, tratou de perpetuar a sanha assassina de Deus.

Podem parecer delírios malucos dos seguidores da Bíblia, mas eles influenciaram bastante todo o modo de pensar de uma sociedade, principalmente a americana. E chegamos até os dias de hoje, onde brucutus no cinema podem arrancar cabeças alheias, mas um casal apaixonado tirando a roupa tresloucadamente é proibitivo. Rambo arrancando braços com uma .50 pode passar nos cinemas, mas 9 Songs, com um casal transando em meio a uma Londres cheia de festivais musicais não! Sangue sim, fluídos sexuais não. Me parece até uma espécie de culto místico ao sangue. “É para proteger nossas crianças…”, eles dizem. Sempre elas, as crianças. Desenhos para crianças não podem ter sequer insinuações sexuais, mas podem ser recheados de violência, tipo os clássicos Pica-Pau e Tom & Jerry (não por muito tempo, em breve proíbem esses também, e colocam todo o mundo para assistir aquele enrustido do Barney ou o festival de retardamento dos Telletubies). Sou fã desses desenhos, mas eles demonstram uma certa demagogia imbecilizante por parte dos que controlam as coisas por aí. Mesmo em filmes para adolescentes e jovens, um mamilo exposto é muito mais passível de punição de subida de escala na faixa etária, do que um pouco de sangue emporcalhando tudo.

Certamente que, se fosse pra escolher, preferia uma sociedade de doentes sexuais se masturbando e transando inconsequentemente na rua, do que uma de reprimidos amargos e viciados em esmagar algumas cabeças e estripar pessoas. Pensemos na lógica extrema-inversa: preferia um mundo completamente sem violência do que um mundo sem sexo, e creio que a esmagadora maioria da população do mundo pensa da mesma forma. É por isso que me parece tão absurdo que o sexo – inclua aí pornografia ou qualquer comportamento sexual libertário – seja reprimido e a violência seja escancarada até virar espetáculo, inclusive no jornalismo e na literatura. Por que não substituir o jornal do meio dia – geralmente com tripas a mostra de modo inconsequente – por um pouco do velho Cine Privê? Ou mandar o Datena e o festival sanguinário deprê dele pastar, e trazer de volta a Paula Coelho e o saudoso Nutícias?

Tenho certeza que uma sociedade sexual será muito mais feliz e produtiva do que uma violenta!

Masturbação, um manifesto contrário aos imperativos das políticas sexuais.

Então, ontem, um pouco antes do fim de meu expediente, minha parceira me apresentou uma matéria da Gloss, conhecendo a moça, ela não apresentaria algo do tipo se ao menos não fosse alguma coisa realmente pertinente, o tema da matéria, sem mais, nem menos, era sobre masturbação.

Isto poderia passar em branco – e, por conseqüência, esta postagem também – se não fosse o aspecto esdrúxulo cuja matéria se propôs a ter.

Antes de tudo, vamos pautar uma coisa: masturbação é autoconhecimento, no passado, sociedades inteiras valorizavam o ato como um dos primeiros passos  para uma jornada existencial, estamos falando do reconhecimento de seu ser, do seu lúdico e da capacidade de suas extensões como um ser humano dotado de aparelho sensorial.

Alquimistas no passado diziam que o sêmen humano estava entre uma das substâncias mais poderosas para fins ritualísticos, o deus mesopotâmico Enki criou os mares após uma bela gozada, o ápice dos cultos a Baphomet se encontrava no orgasmo coletivo que seus membros alcançavam, da castração de Saturno, o sêmen entrou em contato com a água do mar e dali nasceu Afrodite, isso sem contar rituais Navajo, Saturnálias e etc.

Alguns estudos neurológicos, inclusive, apontam que as áreas estimuladas no cérebro em relação a uma oração – uma das “n” formas de meditação… – são as mesmas regiões atingidas durante um orgasmo. Então, espero ter ilustrado o quanto a masturbação é uma força poderosa, e o quanto ela é disputada por alguns setores interessados.

Talvez, o que me irrita em relação ao artigo da Gloss é uma espécie de conteúdo programático, não apenas artificial no ato (“deite na cama”, “compre KY” “repita o 5º passo”), tirando qualquer o apelo do ato e prejudicando uma pessoa que por várias razões, já é inibida, tal step-by-step é isento de qualquer busca pessoal.

Nada menos do que esperado por uma sociedade que vive de script, não?

E no passo que a questão da sexualidade se desenvolve, fica notável a presença de dois blocos disputando a identidade – e segurança – sexual de cada um de nós, uma dessas instituições, já velho conhecido de todos nós, se estende entre todo o monoteísmo ocidental, pastores fervorosos, os velhos babões do vaticano, espalhando o meme da frigidez e assexualidade através de gerações.

Poderíamos parar por ai, e dizer que sim, eles são os vilões da sexualidade no mundo ocidental, mas estaríamos certos disto? Bom, eu lhes digo um vasto e sonoro não. Até porque, o artigo da Gloss foi fundamentado em outra lógica.

Lembro-me de um circuito de palestras que ocorria nos meus tempos de faculdade, uma semana envolvendo apresentações de diversos profissionais na área da comunicação, uma das palestras, que mais me chamou a atenção, foi do diretor de marketing da Olla (sim, aquela marca de camisinhas).

O tema da apresentação daquele moço se baseava na pretensão de fomentar uma data comemorativa (como dia das mães ou crianças), a data, neste caso, seria o dia do sexo, pertinentemente localizado em 6 de setembro (6/9).

Houve uma campanha por trás disso, buzz na internet, peças televisionadas, a elaboração de happenings na rua, bom, como vocês podem ver, a idéia não vingou, e a questão é essa.

Que sexo e o aparato publicitário caminham juntos, oras, não é novidade alguma, mas vamos ser sinceros, a superexposição não está nos tornando apáticos a sexualidade publicitária? O aparato publicitário pauta, de um jeito ou outro, os normativos sexuais: cores do cabelo, tamanhos do corpo, roupas.

Isso, no âmago do seu cotidiano, condiz com seu ímpeto sexual? Talvez seja por isso que o 6 de setembro falhou, o artigo na Gloss pecou, a emancipação sexual não é um imperativo capitalista, pelo contrário, o imperativo capitalista – assim como o dogma – é uma forma de controle sexual, de aprisionamento do seu corpo e psique.

A emancipação – e exploração da sua libido – é uma iniciativa pessoal, individual, faz parte da construção do teu ser, e nada, absolutamente nada – nem igreja ou propaganda – neste mundo vai poder lhe ditar isso.

Existe aquela velha pichação: “revolução começa de dentro pra fora, de baixo pra cima…”

Construa a sua segurança, os limites do seu conforto, ignore, entregue sua mente a um estado egoístico e alienado, evitando os milhares de memes malignos que visam subverter sua sexualidade, explore – corpo e alma – independente de métodos, passo-a-passos ou dogmas, e no final das contas, fique bem, é só isso que eu peço.

Sexo (na cabeça de cima)

Sexo!
Como é que eu fico sem Sexo?
Eu quero Sexo! Me dá Sexo!
Sexo!
Como é que eu fico sem Sexo?
Eu quero Sexo! Vem cá Sexo!

Sexo – Ultraje a Rigor

Você provavelmente já se viu cantarolando essa música num momento qualquer da sua vida (e eu posso afirmar isso com ainda mais certeza para pessoas que, como eu, nasceram nos anos 80). Por ser usuário da web e estar lendo esse post, você também deve ser um consumidor assíduo de pornografia e não deve ser virgem (a não ser É CLARO que você seja um daqueles nerds-tetudos-de-óculos-fundo-de-garrafa-que-nunca-pegou-niguém).

Ainda no momento bola de cristal da criatura que vos fala, você certamente está acostumado com a predisposição da sociedade atual a falar de sexo.

Mas nem sempre é assim…

Eu, Aline, confesso a vocês que tive que segurar minha HATE MACHINE muitas vezes em conversas com pessoas conhecidas aqui no fim do mundo onde eu moro. De maneira curiosa, a maioria das pessoas que me provocaram indignação são aquelas que assumem como diretriz de comportamento as regras religiosas que regem as igrejas da vertente protestante (e não da católica: “mimimi sexo só pra fazer filho mimimimi não usem camisinha mimimimi”).

O engraçado é constatar, através de conversas com essas pessoas, que elas vão pra igreja pra arranjar alguém, não pra chegar mais perto de Deus. Fui a um culto uma vez (ARRASTADA, diga-se de passagem) e rolou tudo lá, menos pessoas querendo melhorar o espírito. Só pra citar umas coisas: gente falando da roupa do outro, do sapato, “nossa como o cabelo dela tá horrível”, “menina e que gato é esse que chegou com o pastor fulano hein”, “soube que a filha do pastor tava saindo com um homem horroroso” e por aí vai.

Nada contra as pessoas que realmente vêem na Igreja uma maneira de se aproximar daquilo que consideram que seja Deus. Mas vamos combinar que igreja não é lugar pra caçar, né amigos. Igreja não é lugar de sacanagem velada (ódio começando em 3, 2…).

Essas pessoas que mencionei são aquelas que somem da igreja depois que casam com a pessoa que procuravam – ou depois que engravidam dessa pessoa antes de casar, por vergonha: “Ai o que eles vão dizer”, “Meu Deus eu fiz o que não devia e agora tou morrendo de vergonha”.  E aí chegamos num ponto interessante.

As pessoas às vezes têm vergonha de assumir que transam da mesma maneira que simplesmente não assumem que PEIDAM ou FAZEM COCÔ. Para com isso, gente, você é de carne e osso como eu e todo mundo (Wolverine não conta, tá?).

Sexo é uma necessidade, ainda mais no nosso contexto estressante de casa-trabalho-faculdade-congestionamento-SOCORRO e tantas outras coisas estressantes que tornam nosso dia-a-dia uma coisa potencialmente dolorosa (aquela dorzinha nas costas e na cabeça que não te deixam nunca)… Negar isso só te deixa mais doente, impaciente e explosivo.

Então vamos combinar assim: sexo não pode ter frescura nem vergonha. E cada coisa em seu lugar – inclusive a camisinha no pipiu.

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