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Minha experiência com as HQs digitais da DC Comics

Quando o iPad foi lançado, não demorou muito para a mídia especializada em HQs explorar o potencial deste gadget para o meio, com as editoras líderes do mercado, Marvel e DC, tomando a dianteira da situação. Em suma, é um fenômeno muito similar ao que acontece com periódicos e jornais, mas como encará-lo? É apenas uma transição do papel para o digital, ou existe algo mais? Quais são os benefícios? Principalmente para o consumidor brasileiro, que consome o bizarro esquema de mixes encabeçado pela Panini Comics?

O que me levou a ler HQs no iPad foi uma questão de necessidade.  Quando eu buscava encadernados mais antigos de títulos da DC Comics na Amazon, encontrei uma série de dificuldades para aquisição, quando um título não era usado, a loja afiliada não trabalhava com encomendas internacionais, isso sem citar a questão do preço, principalmente para edições mais “queridas” por sebos e colecionadores.

Tendo ciência da dificuldade, complexidade e falta de conveniência na situação, eu lembrei da app da DC Comics que tinha instalado por curiosidade no meu iPad há tempos atrás e resolvi dar uma conferida, e posso dizer leitores, me surpreendi com o que eu vi.

Para ter acesso é preciso se cadastrar no serviço, as informações de cartão de crédito são puxadas daquelas que você cedeu ao criar sua conta na App Store, e por falar em compras, aqui vem a primeira vantagem da leitura digital: o preço. Cada HQ digitalizada custa de U$1,00 a U$3,50, em tempos que o Dólar se encontra a U$1,65 o impacto das despesas não é alarmante se compararmos, por exemplo, à compra de hardcover na Livraria Cultura.

Por comparação, vamos analisar a recente saga “Blackest Night”, originalmente dividida em oito edições, cada uma custando U$3,50 (e No Brasil, R$7,50 pela Panini) no App observamos uma economia de U$0,50, com a saga completa, é feita uma economia de U$4,00. E com U$4,00 é possível comprar mais uma edição “recente” de qualquer série, ou duas mais antigas e se bobear, até mais, dependendo do título que procura.

Isso se dá em grande parte pela ausência de custos gráficos e logísticos, o que diminui o preço final, essa a economia fica ainda mais evidente em títulos antigos, com HQs custando U$1,00 é possível ler sagas inteiras, já o custo para a aquisição de uma cópia física daria acesso a muito menos conteúdo.

Outro benefício é que o consumo se torna mais seletivo, já que uma das desvantagens do mercado “físico” nacional é o formato conhecido como “mix”, onde uma revista tem um carro chefe e geralmente é acompanhada por mais outras duas publicações de qualidade inferior, obrigando, de certa forma, o leitor de HQs a consumir algo que não necessariamente deseja.

A terceira grande vantagem na leitura digital é a conveniência e facilidade de acesso a uma vasta biblioteca de títulos, sem que exista a necessidade de procurar mais em sebos ou lojas virtuais de procedência duvidosa.

Porém, a grande questão é: e a nostalgia de ler em papel? Sim, a primeira instancia, também compartilho a opinião que ler livros no PC é incômodo, principalmente para a vista e a coluna, sem contar que atrapalha o exercício de concentração, mas para HQs em um tablet a situação é outra.

A leitura no iPad é confortável, inclusive no manuseio, preocupado com o nível de interatividade, o App propícia um dinamismo à leitura, a diagramação das páginas e a ordem dos quadrinhos é seqüenciada, o que torna a leitura mais focada e agradável, inclusive com zooms e ampliações panorâmicas, o que adiciona dramaticidade a leitura.

O único contra-tempo aqui é que em muitos casos, o zoom estoura os pixels das páginas, isso é ainda mais comum em publicações antigas, os mais tradicionais não precisam se descabelar, pois a leitura tradicional da “página inteira” também pode ser empregada.

Quando a DC Comics anunciou o seu “New 52”, a mudança não era apenas uma reforma editorial, mas também um novo posicionamento no mercado. Se por um lado “resetar” as histórias daria um ar mais acessível para uma nova geração, por outro, a empresa, ciente do crescimento da chamada “geração touch”, resolveu que a distribuição digital seria simultânea aos lançamentos físicos.

Porém o mais preocupante não se encontra no App da DC, mas na aquisição de um tablet no Brasil, que como todo produto eletrônico, ainda se encontra sujeito a pesados impostos tornando o formato físico, ainda que com todos os pesares da produção editorial nacional, a alternativa mais viável. Para o pequeno nicho que tem acesso, recomendo pela experiência, conforto e conveniência, e aproveito para deixar meus parabéns à DC, que embora tenha dado início a uma controversa reformulação, em nível de mercado se provou pioneira e atualizada.

Supergods: O que um careca escocês pode nos ensinar sobre quadrinhos?

Se você pegar o encarte de Supergods, o primeiro livro do escritor Grant Morrison, vai encontrar a seguinte citação de Stan Lee: “Grant Morrison is one of the great comic writers of all time. I wish i didn’t have to compete with someone as good as him” se Jack Kirby estivesse vivo, provavelmente diria: “cai dentro!”, mas a verdade é que sem Lee ou Kirby, não existiria Morrison, ao menos não da forma como conhecemos.

Supergods é a primeira empreitada do escocês careca na literatura convencional, neste livro, o mesmo busca desenvolver – sem pretensões acadêmicas – suas visões profissionais, ideológicas e espirituais sobre o meio, analisando o espírito de cada época assim como desenvolvendo um paralelo biográfico.

O livro começa no início do século passado, no auge dos males daquela época, a Grande Depressão, a Bomba e a sombra de Adolf Hitler pairando sobre a Europa e assim Morrison toma seu tempo para explicar, de forma empolgada e eletrizante, o advento do Super-homem e o início da Era de Ouro das HQs.

Logo de cara, podemos detectar a principal falha do livro, a constante perda de fôlego que Morrison exibe em sua dissertativa, capítulos como “The Sun God and The Dark Knight” ou “Superpop” apresentam não apenas um nível alto de argumento, como também humor e atmosfera, mas em compensação, em demais outros, o escocês patina, como se entrasse em um modo automático, preenchendo lacunas até chegar em um ponto mais pertinente.

É espantosa a intimidade do autor com o meio, conhecendo a essência criativa por trás das principais obras e as motivações dos escritores e desenhistas da época, Morrison inclusive, trata com carinho períodos “negros” da indústria, como a Era de Prata, enfatizando o esforço criativo da época em contornar ou criticar o Comics Code Authority.

Interessante analisar como Morrison “distribui” a culpa dos eventos que levaram à Era de Prata, não apenas evidenciando de forma sardônica certos sentimentos enrustidos de Frederic Wertham, autor do controverso “Sedução dos Inocentes”, onde argumenta que a degeneração moral da juventude norte-americana se encontra, em partes, nas HQs.

Assim como a indústria de HQs na época, incapaz de realizar uma contingência de reação perante a opinião pública e o próprio declínio criativo dos artistas da época.

Entre os capítulos mais louváveis dessa fase, é “Shamans of Madison Avenue” e o surgimento de New Gods por Jack Kirby e o início da “meta-espiritualidade” nas HQs e “Brighest Day, Blackest Night” onde Dennis O’Neil em Green Lantern/Green Arrow evidenciou as inquietações sociais americanas e mostrou o quanto isto era contraditório à proposta do CCA.

Para os leitores atuais, é engraçado perceber como Morrison evita comentar sobre a Marvel Comics, como se o autor – por uma série de razões até mesmo editoriais – se sentisse desconfortável para comentar sobre a editora concorrente.

Claro, o livro não deixa de dar mérito pra importância de títulos como Fantastic Four, Spiderman e Captain America, mas como o próprio Morrison afirma em suas notas biográficas, ele achava que os títulos da Marvel tinham uma certa dose de realidade que ele considerava intragável para sua infância.

E o mesmo reconhece que foi em Stan Lee, que surgiram diversas das suas inspirações, como a idéia de trabalhar metalinguagens em trabalhos como Animal Man e Doom Patrol na DC/Vertigo.

A parte biográfica é um show a parte, e em diversos momentos considerei mais atraente que a própria proposta do livro, desde sua infância pacata em Glasgow, o crescente tédio na adolescência, o divórcio de seus pais e sua inevitável empreitada no mercado editorial, assim como o início da fama, com Zenith na 2000 AD, seu contato com as drogas, o vegetarianismo, as experiências lisérgicas e sua primeira crise existencial, há quase duas décadas atrás.

Claro que o livro reflete os maneirismos criativos de Morrison, a relação entre espiritualidade e cultura pop é amplamente explorada, exemplos como o dualismo Apolo/Dionísio entre Superman/Batman, a questão de símbolos e palavras mágicas e ai o mesmo argumenta que Captain Marvel, ao pronunciar “SHAZAM”, se tornou o primeiro grande xamã da ficção moderna.

A verdade é que, tirando suas discussões sobre a Era de Ouro e de Prata, se o leitor conhece a obra recente de Morrison, então pouco sobra do livro, em muito, o livro é considerado um manifesto em prol da edificação do arquétipo super-heróico.

Na terceira parte do livro, Morrison prefere chamar a “Era Moderna”, iniciada por Frank Miller e Alan Moore como a “Era das Trevas”, onde se deu início a uma obsessão pelo “realismo” nas histórias, trazendo o vício insalubre que ficou conhecido pela crítica como “grim n’ gritty”

Morrison condena o “realismo” por duas instâncias: primeiro, pois ele é fruto de uma mente adulta e limitada pelas vicissitudes do cotidiano adulto, e que, por fim, o mesmo não passa de um exagero de violência e repreensão sexual que visa não transformar as histórias em algo real, mas sim “desmoralizá-las”.

E ai o escritor reforça sua crítica em cima de “Watchmen”, onde de forma ambígua, elogia o esforço criativo de Alan Moore em talhar sua história em uma “perfeita simetria”, mas condena a obsessão do barbudo com suas personagens, deixando bem claro que “realismo” não é sinônimo para “fatalismo”, “humanizar” personagens não é o mesmo que “humilhar”.

Alguns fóruns acusaram que o livro, levando em conta a recente reformulação do Universo DC, se tornou um golpe publicitário, é importante frisar que Morrison tem dado uma série de entrevistas sobre o futuro criativo da editora, roteirizando três dos personagens mais importantes da editora, a famosa “trinidade” composta por Superman, Wonder Woman e Batman.

Em diversos momentos, Morrison argumenta a inspiração popular, quase socialista do Superman de 1938, assim como os fetiches BDSM de William Moulton Marston, o escritor original de Wonder Woman, idéias que ele afirmou que vai retomar e por em prática em trabalhos futuros.

Não é mentira que a ascensão do escocês tem causado incomodo no público e na mídia, vamos ser sinceros quanto a um ponto, Grant Morrison é um nerd que vive seus quinze minutos de fama, com livro e documentário, onde muitos optariam por sofrer uma “síndrome do undeground”, Morrison busca através dessa visibilidade dar uma projeção maior a seus projetos e idéias.

Supergods é o início do que pode ser o “próximo passo” do mercado de HQs, da mesma forma que Kirby, Lee, O’Neil, Moore, McFarlane e tantos outros contribuíram com o futuro do meio, só o tempo poderá nos dizer sobre o êxito dessa empreitada.

Ficam aqui meus votos para o fim dos anti-heróis carrancudos e a volta das capas esvoaçantes e heróis sorridentes, assim como no passado, esses são tempos em que mais do que nunca, precisamos deles novamente.

Meu decepcionante primeiro dia de Youpix!

O que me chamou a atenção no Youpix semestre passado foi justamente a proposta do evento, uma celebração da dita “Cultura da Internet”, um espaço onde todo consumo era gratuito e livres idéias eram colocadas em pautas de palestra e rodas de debate, levando em conta a pessoa que lhes escreve, posso garantir que o clima informal do ambiente me agradou, como declarei neste blog meses atrás, a visita ao evento foi uma experiência bem enriquecedora.

Para essa nova ocasião, resolvi comparecer no primeiro dia, Quarta feira 18/08 mesmo notificado pela produção do evento via e-mail do alto número de participantes, eu cheguei um pouco mais tarde, após a abertura e como era de se esperar nesse tipo de ocasião, me deparei com uma fila imensa.

Até ai, isso não é lá grande novidade para a pessoa aqui, que passou ¼ da sua adolescência em filas de eventos para anime, RPG e videogame, o que me incomodou foi a falta de preparo das atendentes para esse setor, um grupo de moças que antes mesmo do evento chegar a sua metade, se encontravam mal-humoradas e gritando com os visitantes.

Após confirmar o meu pré-cadastro, tive que validar minhas informações sobre redes sociais, e eu – assim como muitos outros – tivemos a experiência desgastante de soletrar o nick do meu twitter para as atendentes que o que tinham em charme, com certeza faltavam em paciência e profissionalismo.

E aqui vale o primeiro questionamento sobre a produção: se formos aconselhados – e alarmados – em realizar o cadastro no site, porque é necessário repassar informações como o nickname? Questiono a falta de articulação entre as databases para puxar dados e assim evitar estorvos exaustivos na fila, como minha amiga, que teve seu nick errado no crachá, e garanto a você leitor, que não foi o único caso.

Passando por esse perrengue, finalmente pude entrar no evento, realizar o check-in no foursquare e…”interagir”, é curioso ver o que se sucedeu, muitos dos estandes, como o do Bradesco, não estavam preparados para lidar com o número de pessoas, para um evento que se presa pela celeridade da época digital, em muitas ocasiões tive o feeling de estar mais empacado que repartição pública, o que é preocupante.

Da esquerda pra direita: Bruna (@bru_maturana), Mariana (@maribfurlan), Vanessa (@vanrez) e eu (@synthzoid)

As palestras, por bem ou mau, tiveram seus momentos, pude acompanhar o acirrado debate sobre a “orkutização”, além de apresentações de humor e uma parte da entrevista do Gilberto Gil, mas é só isso.

Para um evento rizomático, assimétrico e sinceramente…o caralho a quatro, percebi a retomada da boa e velha egolatria, o Youpix tem desenvolvido uma distinta separação entre o público comum e os convidados, então, se você não é convidado, VIP, celebridade ou impressa, dificilmente terá uma experiência duradoura do evento.

Acontece que em diversos casos, fiquei me perguntando “onde esse cara arranjou esse brinde?” ou “onde ele descolou esse lanche?” e para esses questionamentos recebi a freqüente resposta “eu sou palestrante” ou “sou convidado da produção” e eu pensei “caralho, na era da democracia digital eu tenho que aturar isso?”.

Entenda leitor, não estou praguejando por um mísero cupcake, mas essa distinção de tratamento é visível e incomoda, claro, você pode alegar, realmente teve o consumo de cerveja e refrigerante no evento, mas a demanda não supria – talvez um erro logístico por parte da produção – as filas eram longas e o re-abastecimento com demoras de até uma hora.

Porém, o ápice do descaso se deu na fila do banheiro masculino antes do término do evento, apertado, resolvi cuidar de minhas necessidades, mas ao chegar lá, me deparei com um segurança carrancudo, que anunciou que o banheiro estava fora dos limites do público, após uma conversa, descobri que o mesmo foi fechado para que os membros da banda Teatro Mágico pudessem se maquiar.

Após uma demora, eu e meu amigo conseguimos utilizar o banheiro e ao questionar o vocalista Fernando Anitelli sobre essa pequena sacanagem, o mesmo tirou o culpa da reta e argumentou: “a produção do evento não disponibilizou outro espaço pra gente” sinceramente? Foda-se! Por mais que existam filas – o que é compreensível, dada a proporção de freqüentadores – barrar o acesso ao toalete para que duas pessoas possam se maquiar é inaceitável e um descaso com o público comum.

Ainda mais que ao sair, me deparei com grupos de pessoas urinando nos arbustos e árvores do Parque Ibirapuera, uma situação completamente degradante.

Pra mim, ficou claro que o Youpix se tornou algo falho, que ainda precisa de muito labor para alcançar um nível de decência e que reflete em muito a posição do público brasileiro em relação os meios de comunicação, tudo se resume a cultos de personalidades como desculpas para legitimização de idéias.

Mensalmente eu me reúno com “colegas de Internet” – inclusive outros membros desse blog – em bares para discutir eventos, bobeiras ou apenas gostos em comum, conversas que, apesar do nível chulo, se tornam bem mais instrutivas e frutíferas do que o conteúdo desgastado e díspar da realidade que o Youpix vem promovendo.

Ficam aqui minhas esperanças para melhores edições do evento.

O PLANO – FASE I – COMEÇA A GUERRA!

Acredito que não seja surpresa para ninguém que eu e meus colegas de blog apoiamos o conceito por trás do grupo Anonymous e suas infinitas abordagens e aplicações.

Então venho usar deste espaço para fazer a minha parte novamente e divulgo este vídeo com uma explicação da fase um do plano de um ano que elaboraram para mudar de verdade algumas coisas por aí.

Antes de fechar esta aba do seu navegador, perca 10 minutos do seu dia vendo o vídeo que verá que o que pedimos e tão brilhantemente simples que você se sentirá tentado a colaborar conosco.

V.V.V.V.V.

Revolution NOW

 

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Fotos do F/16 Studio’s

O período que estamos presenciando está tão louco, que se se Terrence McKenna estivesse vivo, ele iniciaria uma pesquisa de uma década pra descobrir que tipo de droga psicoativa despertou o Espírito de Revolta nas massas novamente, após anos soterrado por consumismo e conformismo. Já intelectuais da comunicação iam se debruçar sobre as ferramentas que tornaram essa rebeldia generalizada mais facilmente transmitida que impulsos nervosos no corpo humano.

Para exprimir esse momento tão importante – e que futuramente será tão mal interpretado – da nossa história atual, é preciso um misto de verve suicida e distanciamento crítico, não necessariamente de forma equilibrada.

Bom, não vou discorrer aqui sobre as revoltas generalizadas entre os cannabistas de São Paulo, bombeiros do Rio, estudantes do Espírito Santo, monges budistas, populações do Egito, Líbia, Síria e Iêmen, e várias outras camadas da população, porque creio que em três textos é possível ter uma idéia básica do que tá rolando, e cabe a cada um decidir uma espécie de posicionamento prévio sobre a questão.

Então, LEIA os textos abaixo.

1) Convulsões sociais contemporâneas: a revolta no século XXI, texto do também NerDevil Agostinho Torres, no Nerds Somos Nozes.

2) Protestos estudantis em Vitória, texto meu pra cobrir pra revista Vice as revoltas de universitários e outras classes de estudantes aqui na capital do Espírito Santo.

3) Tiros e Gás na Marcha da Maconha de São Paulo, outro texto meu, com o nome bem explicativo.

Lei nº 156/2009, a busca pela pureza mítica da língua

Hoje através do RT de alguém no twitter me deparei com um projeto escroto que foi aprovado no Rio Grande do Sul. Achei estranho, mas a idéia por trás na verdade é bem freqüente, pelo menos por parte da “intelectualidade” nordestina, vide regionalismo e armorialismo no âmbito cultural pernambucano. O projeto do deputado Raul Carrion do PCdoB, a Lei nº 156/2009, tem em vista “resguardar a língua portuguesa da invasão indiscriminada e desnecessária de expressões estrangeiras que possuem equivalentes em nosso idioma”.

Há uns dias atrás eu tava lendo a aula inaugural de Paul Veyne de quando ele tomou a cátedra de História Romana numa universidade francesa. O livro se chama “O Inventário das diferenças”. Uma frase que me marcou foi quando ele diz que não ia defender a cultura, pois: “Uma cultura está bem morta quando a defendem em vez de inventá-la”. É justamente o caso de nossa intensa necessidade de preservar o caralho de asa de qualquer coisa que está relacionado com o nosso passado, é porque esse passado já está morto e não conseguimos mais criar algo em diante. Preservar faz parte, okay. Mas em geral no Brasil, principalmente no Nordeste e mais estritamente no Piauí (onde moro), APENAS se preserva, as políticas publicas são voltadas apenas à preservação, e o incentivo da cultura de amanhã e hoje é ignorado. Notaram como amanhã não vamos ter nada pra dizer que é nosso? Talvez nem seja ruim. É uma espécie de saudosismo imbecil. Vontade de viver entre glórias passadas. Cultura de louvação dos mortos, fazendo os vivos de hoje morrerem também. É uma merda, pra simplificar.

Pra amparar sua lei absurda, o deputado usa exemplos totalmente desconexos! Em sua justificativa ele diz que a França e EUA exigem que o estrangeiro domine a língua do país para se naturalizar. MAS E DAÍ? Estamos falando de naturalização, um processo sério de considerar o cidadão estrangeiro um igual ao nativo! Passa longe da obrigação da tradução de termos estrangeiros! Justificativa non-sense, pra variar, dá pra imaginar o nível de quem votou a favor desse projeto pra engolir um argumento imbecil desses. Não vamos esquecer que o AI-5, o golpe mais duro da Ditadura Militar Brasileira, também combatia aquilo que considerava “contrário às tradições de nosso povo”.

Dois artigos do Projeto de Lei:

Art. 1º Institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul, sempre que houver em nosso idioma palavra ou expressão equivalente.

Art. 2o Todos os órgãos, instituições, empresas e fundações públicas deverão priorizar na redação de seus documentos oficiais, sítios virtuais, materiais de propaganda e publicidade, ou qualquer outra forma de relação institucional através da palavra escrita, a utilização da língua portuguesa, nos termos desta lei.

O artigo 2 é simples e efetivo, não há problemas. Mas o 1, diz que “material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação” TEM QUE ter tradução dos termos estrangeiros! Okay, tradução não é censura do texto, mas se a pessoa não bota a porra da tradução é porque não acha necessário e se acha isso é porque tem algum motivo. Se o cliente não entende uma propaganda por causa do uso de estrangeirismos, não vai ser péssimo justamente pro empresário do produto? Porque ele iria tentar se prejudicar? Não faz sentido. Claro que existem abusos de estrangeirismos. Às vezes é forma de abordagem própria de um grupo ou pessoa e essa lei vai censurá-la, as pessoas não podem escrever seus textos do modo que querem? “MEIO DE COMUNICAÇÃO”, quer dizer que se publicar num jornal um termo estrangeiro vou ter que traduzir pra língua do país? Hã? E se eu acho mais bonito estrangeiro, e aí? Tem que pedir autorização do Estado até pra isso? Às vezes os abusos são só burrice mesmo, mas essa lei vai gerar abusos de outros tipos que não a burrice do uso abusivo de estrangeirismos, como os que eu disse nas linhas anteriores

No argumento do projeto o deputado continua com besteiras:

“Sabemos que não há língua que tenha o seu léxico livre de algum eventual estrangeirismo, mas segundo um levantamento feito pela Academia Brasileira de Letras, a língua portuguesa tem, atualmente, cerca de 356 mil unidades lexicais, dicionarizadas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Por que não aproveitarmos um acervo linguistico destes?”

Caro deputado, talvez porque dessas nossas 356 mil unidades lexicais, todas tenham vindo de relações com estrangeirismos de outras épocas, e palavras como pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, hoje não tem qualquer significado PRÁTICO! Um projeto de lei desses vai inibir a criação de umas milhões de inestimáveis palavras que seriam uteis para uma comunicação eficiente e mais abrangente nos dias de hoje e do futuro. Tá buscando pureza? Hélio Oiticia já disse: É um mito. Entendo, tem gente que não entende mesmo certos estrangeirismos, mas isso faz parte de marketing, é um escolha que ninguém tem que meter o dedo, é atitude privada, isso faz parte do dia-a-dia das pessoas, você não vai me obrigar a usar a palavra “rato” pra mouse, e eu digo ass quando eu quiser, em textos de jornais e etc. Muitas palavras dessas que você quer que sejam “traduzidas” já foram até incorporadas aos nossos dicionários, porque nossa língua É viva, e ela precisa dos estrangeirismos pra se reconstruir.

O que me preocupa nessa lei, que é só do Rio Grande do Sul (por enquanto) é: SE A MODA PEGA? Aqui no Nordeste é um reacionarismo infinito contra tudo que não é da “terra”. Um catolicismo burro de interior. Visão pobre do mundo que vê o outro como ameaça. Vê a diferença como algo ruim. Não muda. Preservar é bom, eu mesmo preservo muito do meu eu de ontem. Mas o novo vai sempre vir, mesmo que velho, e não devemos simplesmente bater a porta pra ele.

Sou brasileiro, confesso. Mas respondo como Torquato Neto numa entrevista com Rogério Duarte:

[Rogério] Torquato, você acha que está cumprindo seu dever de brasileiro?

[Torquato] Yes.

[Rogério] Porque você respondeu em inglês?

[Torquato] Devido a minha formação (Joaquim Nabuco) de comunista

Não entendam!

Estou na minha zona de conforto estética, e você?

Finalmente resolvi testar aqui no Nerdevils um método de escrita que eu vinha pesquisando. Sim. É só um experimento de acordo com técnicas jornalísticas que venho lendo nos jornais experimentais dos anos 70-80-90. Talvez a maioria nem note o que mudou. Mas não importa. Seguindo em frente, sempre em frente. Caos, Kaos, Caô pseudo-esquerdista-existencial-desintegrante.

No decorrer dos últimos anos um termo caiu no gosto das discussões, inclusive algumas aqui do Nerdevils. Algo que como o bullying se tornou bode-expiatório de vários textos. Falo da “zona de conforto”.

Aclama-se muito entre textos magníficos e horrendos que circulam pela webz para que se saia da zona de conforto. Pede-se que as pessoas saiam da sua zona de conforto social, olhando para as minorias étnicas e classes necessitadas; zona de conforto psicológica, compreendendo os fenômenos que geralmente escapam aquilo que lhes é ensinado como normal e etc. etc. Mas quando se fala de estética… não vejo ninguém sair de sua zona de conforto.

Estamos todos ligados à industria cultural de alguma forma, em vários níveis distintos. Além disso, a guerra na estética é tão intensa que o inovador de hoje é o retrogrado que vai defender seu estilo da próxima novidade que surgirá em alguns meses. Mas… “se a vanguarda de hoje é a retarguada de amanhã, o que será feita da retarguada de hoje?”. Complicado. Se os tropicalistas que estão vivos até hoje usam de seu “prestígio” para sutilmente arrancar privilégios, o que aconteceu com os bossa-novistas? Bem, eles se aliaram, a retarguada cultural sempre se alia em auto-benefício. Ambos são nosso “passado” cultural, por isso se consideram como velhos que precisam de nossa proteção. Tsc.

Existem obras que eram experimentais a 40 anos atrás e o são até hoje. Nada lhe tirará mais de sua zona de conforto estético do que o som da década de 70 feito por Jards Macalé, o primeiro contato é bizarro. Em questão de filme no Brasil temos “Terra em transe” ou “Câncer” de Glauber Rocha, que simplesmente não faz sentido dentro da lógica linear do cinema contemporâneo (e mesmo dos anos 60-70, com a diferença de que hoje a linearidade é disfarçada com técnicas narrativas que fingem sair desse esquema começo + meio + fim). Na literatura, se Jack Kerouac e Allen Ginsberg foram fodões, se Gibson foi extremamente interessante, Jorge Mautner com “Deuses da chuva e da morte” é genialmente destruidor da linguagem, literatura serve para comunicação de algo a alguém? Não pra ele, literatura é um ritual quase xamânico de auto-expressão, é uma doidera do caralho muito interessante, que faz o leitor tradicional de “clássicos” ficar totalmente perdido. Em alguns momentos dá pra se afirmar que Mautner nem usa narrativa alguma, escreve sobre nada em longas páginas.

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Livro de Jorge Mautner

Nada foi mais estranho nas décadas de 60-70 na arte do que os experimentos-ambientes de Hélio Oiticica! Aliás, é uma tristeza constatar em lá pra 2007 mais da metade das suas obras conservadas foram perdidas num incendio, no geral valia algo em torno de 200 milhões de reais. Esses caras são anti-arte, um nível elevado de saída da zona de conforto estética, em geral até o fim (ou até hoje) lutaram (lutam) pra que não se satisfizessem em fazer a mesmíssima coisa de sempre, como os traidores tropicalistas.

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Um exemplo de experimento-ambiente de Hélio Oiticica

Alguns ídolos pops, que estão em sua zona de conforto em sua principal área de atuação, fazem um fantástico trabalho de estranhamento em outras. Como Tim Burtom e seus desenhos bizarros acompanhados de poemas insólitos. Apesar de todo seu cinema ter se tornado enfadonhamente previsível.

Aqui no Nerdevils praticamos uma certa ode a indústria cultural. Claro que com certo criticismo e seleção, o que nos faz algo mais próximo de uma contracultura do que de uma babaquice pura. Basta ler e conferir. Mas eu particularmente me sinto um pouco deslocado. No cinema de hoje, nada lhe tira mais da zona de conforto hollywoodiano ou europeu do que filme trash, ou com uma narrativa VERDADEIRAMENTE fragmentada. Como Mr. Nobody que lhe joga num turbilhão de vai e vem com o fim do filme sendo uma rebobinação de tudo o que aconteceu num jogo estético magnífico. Tarantino renovou com ajuda de outros caras o esquemão de filmagem de Hollywood, mas assim como Burton, se apóia a mais de 15 anos basicamente nos mesmos esquemas. Tanto que de cara quando você vê um filme saca que é do Tarantino, assim como quando você vê uma animação meio emo já diz que é do Burton, é difícil não ser.

Sair da zona de conforto e se viciar no ar fora dela é voltar a mesmíssima zona de conforto. A auto-defesa de quem não quer sair de sua zona de conforto é dizer que o artefato cultural estranho ou é uma merda ou é “cult” e “pretensioso”. Tropicalismo é cult. Isso soa pejorativo. É auto-defesa burra e insustentável. Sim, o cara fez pra ser cult, isso o torna uma merda automaticamente? A arte mais próxima de uma idéia de arte-arte, tem que ser um experimento e não só uma prática. Algo meio romantismo do século XIX, a arte tem que ser pretensiosa, as vezes separada da massa e incomunicável, tanto faz. O artista é o dono da sua obra no momento da criação. Depois ela se torna um Deus que vai foder mentes por aí. Claro que com isso ele cria barreiras para o consumo, mas em compensação choca a estética, faz sair da zona de conforto, delira dionisiacamente. Godard era o pai do cult, com seu filho de cultização americana, o James Dean.

Uma nota: Tropa de Elite 2. Filmaço. Mas pra estragar, muita gente por aí andou dizendo que “o cinema brasileiro finalmente aprendeu a fazer bom cinema”. Como assim, PORRA? Aprendeu a ser minimamente linear? Asséptico? Holywoodiano? Tropa de Elite 2 é foda, porém os filmes brasileiros nunca foram inferior a ele, só decidiram por outras opções estéticas e narrativas, em geral mais na “linha” que evoluiu da xanxada e tal. Queria mesmo que o cinema marginal tivesse tido continuações no cinema brasileiro, mas o que sobrou do mesmo é muito pouco. Em termos de narrativa o cinema brasileiro é que precisa ensinar o mundo como ser carnavalizante e descontínuo, ser caótico como a vida normal. Nossa estética kitsch e cafona, cult, tem um amor extremamente sexualizado como se cada pessoa fosse uma invocação de Eros. São bons, sempre gostei dos filmes brasileiros, que só parecem bizarros quando partem pra ficção cientifica tecnológica, mas enquanto cinema de vida privada, sobre pessoas, famílias, vida comum mesmo, o realismo italiano e francês estão a anos luz de se aproximar. A vantagem da vinda do Tropa de Elite 2, é que incorporou coisas do cinema internacional com êxito, e isso vai estimular discussões sobre o cinema nacional e aumentar a variedade de produções fora da zona de conforto estética dionisíaca que já estava fazendo todo filme brasileiro sair com a mesma cara de putaria. Findada a nota. Fim.

Todos nossos sentidos são treinados a só consumir uma estética e suas variantes. Quando algo rompe essa baboseira, é considerado primario, idiota. Coitado do Macalé. Coitado. Um dia desses tava no programa Altas Horas cantando, todo no seu velho modo anti-estético e o publico lá com cara de imbecilizados. Em geral burro é quem não entende. Mas claro que existe gente que abusa da anti-estética pra facilitar o trabalho, por isso precisa estar atento, nem tudo que se vende como fora da zona de conforto o é. Fique sempre de olho, dê uma volta, confira e se ligue, sempre ligado, se não se fode.

Cult, Brasilidade, Tosqueira, Tropicalidade, Anti-estética, falo mais disso depois. Até mais imundos bastardos!

O Fator SNAFU

 

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"Qualquer pessoa em Washington que não seja paranóica, está simplesmente louca"

Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano

 

Um preceito básico que deveria fundamentar todas as teorias da comunicação, diz: Informação e Hierarquia não combinam. Uma transmissão de informações só flui corretamente se não houver nenhuma preocupação hierárquica no sentido de se passar uma mensagem deturpada para agradar alguém. A submissão de uma hierarquia tende a destruir completamente a possibilidade da informação – Informação aqui deve ser entendida aqui como o Fator Surpresa, a carga de novidade, o elemento desconhecido de uma mensagem – não ser editada, alterada ou até mesmo omitida. Se o conceito não está suficientemente claro, imagine a seguinte situação: um soldado raso que está de guarda no quartel de um batalhão e tirou um cochilo acorda de sobressalto avista um grupamento inimigo invadindo a unidade dele, e precisa urgentemente avisar aos seus superiores. Com toda a certeza esse soldado experimentará um momento de indecisão particularmente pavoroso e intenso. Ele não só precisa deixar todos a par da situação, como precisa livrar o próprio cu de ser rifado por seus superiores, tornando a mensagem receptiva para os que têm o poder de dar-lhe um tiro de punição pelo que fez. Em outras palavras: ele provavelmente criará artisticamente uma versão completamente nova dos fatos que ocorreram, deliberadamente desinformando seus superiores para evitar ser punido. E a punição parece tão assombrosa para um soldado que ele põe em risco toda a unidade militar em nome de um propósito taxado de egoísta.

A situação pode ser extrema, distante, devido a rigidez da vida militar, mas não é muito diferente do que acontece diariamente em uma cacetada de empresas. É o tradicional "Deu merda", que qualquer estagiário ou funcionário subalterno certamente já experimentou. Aí entra a hierarquia. Uma hierarquia – incluindo a empresarial, aparentemente inocente – não funciona se o cara que está acima, não tiver algum tipo de poder fatal, comparável ao revólver. Uma frase clássica cunhada por alguém que no momento não recordo o nome, afirma: "O poder político nasce do tambor de um revólver". Não sejam tão apressados em levar o revólver ao pé da letra de forma integral. O poder do revólver está contido na possibilidade estatística do seu portador atirar na pessoa ameaçada (também deve ser levado em conta a possibilidade do disparo não acertar a vítima), o que exclui a necessidade de uma demonstração. O medo de tomar um tiro é o poder por trás do revólver, ele é basicamente um instrumento de ameaça. E alguém superior em uma hierarquia possui algo similar a um revólver. Pode ser um rito carregado de tradições – "Não responda ao seu pai, moleque!" – ou o poder de colocar em xeque a capacidade de sobrevivência de alguém – "Cometa mais uma besteira dessa, seu verme, que te demito sem pensar duas vezes!". Se acha que esses não são revólveres suficientemente persuasivos, ponha-se a pensar em como seu comportamento com quase certeza é radicalmente diferente na frente dos seus pais, especialmente se você tem mais de 25 anos, em que a fase rebelde de um homem adulto geralmente começa a terminar. Pense também em quantas pessoas você mantém laços suficientemente fortes para pedir ajuda caso TODAS as suas fontes de renda sequem de um dia pro outro. Refletiu? Agora imagine os dois revólveres combinados na sua cabeça e entenda como uma arma social e aparentemente inofensiva pode ser bem poderosa. Se esse peso hierárquico é capaz de ameaçar o curso da vida de qualquer um, imagine o quanto não influencia na integridade de uma Onda de Informação.

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É nóis na Universidade!

Pierre Levy, Maria Angélica e um sujeito que não sei quem é (maus aí)...

Provando que tudo que é ruim faz sucesso, nosso “blog de merda” foi alvo de análise em uma mesa durante o “3° Simpósio Hipertexto e Tecnologias na Educação – Redes Sociais e Aprendizagem”!

Em sua exposição “Convergência midiática e a exposição nos blogs: a sedução na e pela linguagem”, a Profa. Dr. Angélica Freire de Carvalho, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), analisa como a linguagem nos blogs é usada de forma a tanto afastar quanto atrair leitores e o blog escolhido para exemplificar tudo isso foi o nosso!

Um texto que mistura, Pierre Lévy, Roland Barthes e Mikhail Bakhtin com Grant Morrison e Alan Moore e leva a Pop Magick para a academia!

Clique aqui para baixar o artigo.

Clique aqui para baixar os slides usados na apresentação.

Com uma menção tão honrosa feita por uma professora doutora linda dessas o nosso não-tão-humilde blog conquistam o Selo “Sou Foda” de Qualidade!!

Pirataria aprende-se na escola

(texto originalmente publicado na Folha de São Paulo – Cotidiano em 14/03/2001 e reproduzido aqui sem a autorização de ninguém. Foda-se)

O Thoreau era um cara zen. Dizia que lei injusta se combatia com desobediência civil. Foi assim com o Lula em 1978, que fazia greves ilegais e corria o risco de ser preso a cada pouco. Ou com Rosa Parks, senhora negra que sentou num banco reservado a brancos, há apenas algumas décadas. É assim com os jovens que hoje derrubam os ditadores árabes – todos, pela lei, são criminosos.

Os 70,2 ilhões de brasileiros que compram ou baixam Cds e DVDs pirata não estarão praticando desobediência civil? Deveriam ser, todos, recolhidos à penitenciária?

Estudantes devem ser rotulados de cúmplices do crime organizado porque se recusam a pagar R$45,00 por um DVD de filme antigo que custa R$2,00 para produzir e distribuir?

O Conar, que autorregula a propaganda, omite-se ao não proibir a campanha que acompanha os DVDs. Não existe prova alguma de que parte relevante das vendas da pirataria tenha a ver com traficantes ou armas. Dediquei dias á centenas de sites, incluindo o da Interpol, conselhos contra a pirataria e CPIs de quatro governos para constatar isso. Claro que a pirataria envolve rime organizado – só faltava serem criminosos desorganizados -, mas é uma turma focada apenas em produtos.

E vejam, que curioso: das 80 fábricas piratas na Ásia, 8 na Malásia são licenciadas pelo governo! Ao todo produzem 9 milhões de Cds por dia.

A verdade é que a era de ouro dos estúdios e artistas chega ao fim. Não cabe mais que o mundo financie US$ 12 milhões por filme ao Tom Cruise ou fique babando com os Rolss-Royce dos rappers. Muito menos que financie cartéis de estúdios que conseguem, pelas leis vigentes, transformar policiais em capangas do lucro.

Ninguém vai defender as fábricas ilegais ou a pirataria intelectual, mas urge perceber que o mundo mudou.

As soluções são óbvias e lucrativas também: vender no dia da estréia o download por alguns reais. O faturamento final será o mesmo. Sim, terminará a mamata do filme que passa meses no cinema ou o livro que fica em capa dura – porque o lucro é estratosférico nesses fases – para, então, manipular o consumidor pelas fases imaginadas pelos espertos das finanças.

É aceitar que o mundo não é composto de acorbetadores de traficantes, e sim de adolesentes e adultos que não querem mais ser manipulados pelos Gaddafis da indústria do entretenimento. Acordem: 1 bilhão de downloads em 2010, antes mesmo que a banda larga de 10 mega seja corriqueira, é aula para qualquer empresário antiquado. Que criem vergonha e se atualizem – 70,2 milhões de criminosos brasileiros, todos mal-educados, agradecem.

Ricardo Semler, 51, é empresário. Foi scholar da Harvard Law Scholl e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachuesetts), em Boston. Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã, e escreveu dois livros (“Virando a Própria Mesa” e “Você Está Louco”) que venderam 2 milhões de cópias em 34 línguas.

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