Autor do arquivo: Voz do Além

Anarquista! Freak! Caoísta! Cínico! Sofista! Libertário! Jornalista!

Anarquia nos Quadrinhos: A Máscara do Riso

[Texto publicado originalmente no Farrazine #17]

 

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"A anarquia ostenta duas faces. A de Destruidores e a de Criadores. Os Destruidores derrubam impérios, e com os destroços os Criadores erguem Mundos Melhores."

Alan Moore

Londres queima, escreveu Alan Moore numa de suas melhores, mais importantes e mais conhecidas obras: V de Vingança. V foi uma reação natural, pessoal e artística de Moore ao momento político ultraneoliberalista e semi-fascista do governo de Margaret Thatcher, que ia para seu terceiro mandato. O próprio conceito visual de V é uma mostra da linha política que Moore queria transmitir com a revista. Seu símbolo, um "V" pichado sobre um círculo, só precisa ser invertido e receber mais um traço para se transformar numa representação visual da Anarquia. E do aspecto mais urgente de certas teorias anárquicas, aquele que passa por uma revolução popular anti-Estado de sacudir as bases de um país, ele tirou a inspiração para traçar o modus operandi de seu anti-herói mascarado. A Inglaterra distópica de V de Vingança é uma mostra de como o fascismo e todos os seus afluentes ideológicos ditatoriais são coisas que podem surgir de uma forma tão natural que parecem invisíveis.

Michael Haneke, em sua obra-prima A Fita Branca, e Dennis Gansel, em seu petardo cinematográfico A Onda, se puseram a investigar esse aspecto pouco discutido no mundo das artes: a origem do totalitarismo – simplesmente porque é muito mais cômodo fazer filmes com heróis combatendo líderes totalitários. Os dois filmes mostram de forma bem convincente como o totalitarismo possui raízes no próprio ser humano, e não somente em grupos específicos de pessoas. A Onda mostra uma experiência sociológica escolar que acaba resultando num microcosmo de ditadura assustadora. A mensagem é clara: existem os líderes, e existem as massas prontas para serem lideradas, sendo somente necessário alguma espécie de competição ou promessa, um ínfimo "direito de escolha", que o caminho para o totalitarismo está aberto. A Fita Branca é muito mais sucinto e abrangente. Se A Onda é um tsunami, A Fita Branca é como uma maré subindo, lenta, mas aos poucos solapando tudo ao seu redor de modo irremediável. O filme mostra uma vila no interior da Alemanha, às vésperas da I Guerra Mundial, onde as raízes do nazismo parecem estar sendo construídas. E isso ocorre de forma tão "natural", que ao final do filme o espectador se pergunta como as coisas chegaram até ali, e provavelmente assistirá novamente só para comprovar o brilhantismo do diretor ao organizar os eventos.

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Peitos ou tripas?

 

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Faça a pergunta do título a uma pessoa, indagando qual das suas partes do corpo ela prefere ver, e creio que ela responderá “peitos” – de alguém do sexo oposto, só pra deixar claro. É uma parada óbvia, sexo é muito mais intrínseco do ser humano do que a violência, embora as duas coisas sejam importantes como ferramentas para prolongar a existência da espécie. A Violência serve para nossa sobrevivência em relação ao meio em que vivemos, como um gatilho pressionado nos momentos mais tensos. Deveria ter sido praticamente abandonada desde que tomamos consciência de nossa suposta racionalidade e resolvemos morar em grandes conglomerados urbanos, mas humanos não são seres que vivem tão bem entre si como se imagina, e por isso a Violência tende a se perpetuar continuamente. E o Sexo… bem, o sexo tem duplo propósito: prazer e reprodução, coisas bem básicas, do tipo que todos nascem praticamente sabendo. E isso me leva a uma questão bem trivial, porém intrigante: por que a sociedade aceita com MUITO mais facilidade a Violência (seja ela de cunho psíquico ou puramente visual) do que o Sexo? Nossa racionalidade e lógica – que frequentemente usamos para nos posicionar como o ser dominante do planeta – não deveria GRITAR que sexo é uma coisa infinitamente melhor que violência? Creio que a resposta a essas perguntas passam por uma série de questões e responde a várias outras.

O ser humano é completamente dependente do aprendizado paterno e não possui praticamente nenhum comportamento incorporado em sua própria pessoa, de modo instintivo, como vemos em outros animais. Se você deixar um bebê para ser criado por macacos, ele vai ser um macaco em pouco tempo. Se deixar no meio dos lobos – sabe Mogli? É inspirado numa história real – ele vai comer carne crua, ter hábitos noturnos, vai ser quadrúpede e vai soltar grunhidos ao invés de falar. Além de morrer bem rápido se você tentar impor seu modo de vida ocidental para ele. A nossa percepção, ao ver a cena, vai dizer que alguma coisa tá errada, mas a do menino-lobo não! Cultura, percepção e aprendizado são fatores que influenciam nosso comportamento muito mais do que qualquer traço genético ou resquício de superioridade evolutiva. Por mais que essa questão ainda seja passível de avanços em estudos, creio que essa constatação básica não mudará. Levando isso em conta, é de se imaginar que essa repulsa externa por sexo presente num sem-número de pessoas, seja um comportamento herdado, e não-natural. Um guri nasce punheteiro em potencial, e isso é mais que comprovado – fora que a punheta é importante, como bem mostrou o Synthzoid. As exceções se devem em casos de distúrbios hormonais ou de personalidade – que também são efeitos colaterais da nossa vida nas Cidades. A ação punitiva dos pais é que (talvez) o torne envergonhado de colar páginas de revistas (hoje devem ser as teclas de computador). Ao se tornar um adulto, por mais libertário que seja, é muito provável que carregue parte desse comportamento repressor do pai com ele, mesmo que de modo quase inconsciente e voluntário. Se esse é um comportamento incorporado, é de se imaginar que exista alguém, ou alguma organização por trás disso. Ou uma teia complexa de pessoas e organizações.

Uma delas é naturalmente a Igreja Católica. Mas antes dela, tivemos o maior Vilão da História do Pensamento despejando a idéia dele com relação a isso: Platão. Se observar todas as idéias e supostas contribuições de Platão para o modo de pensar ocidental, facilmente se chega a conclusão que ele serviu de base para muitos aspectos do Cristianismo (um dia falarei de Abraão, que, segundo nos conta a tradição, é pai das três maiores religiões monoteístas do mundo, e por isso merece meu desprezo). Ele era o cara do mundo Metafísico, que dizia que a vida na Terra era inútil – não pra ele, que cantarolava por aí que os políticos gregos eram mandados pelos deuses – e vivia filosofando. Se dizia amante da Liberdade, mas perseguiu os Sofistas sem dó, depois que eles botaram abaixo muito da retórica imponente dele (não é fazendo propaganda do Nerds Somos Nozes de novo, mas recomendo que leiam ESSE texto que fiz sobre o assunto) e ainda tiraram uma com a cara dele – e lucravam alto com isso. Platão foi um dos primeiros que pregou sobre o Amor da forma que o conhecemos hoje. Apesar dele não condenar diretamente o sexo, ele colocou o Amor como uma busca, uma manifestação da nossa vontade de se completar, e esse tipo de afirmação, naturalmente, se sobrepõe ao nosso desejo sexual – é preciso amar, completar a busca, que geralmente termina frustada. Antes de Platão, existiram os cultos a Dionísio e o modo de vida bizarro dos espartanos, que se achavam tão machos que pensavam que as mulheres não mereciam amor… e os homens se amavam entre si. Eram machões-homossexuais, algo bem paradoxal para os nossos padrões modernetes. E todos esses povos gregos eram naturalmente propensos a violência também. Viviam em guerra, e pensavam ser a morte em batalha, a mais honrada de todas.

Os gregos, como percebemos, eram seres bem liberais no tocante a sexualidade. Os romanos, que basicamente foram gregos com mais pedaços de terra sob seu poder, seguiram essa cartilha violenta-liberal em quase todos os seus aspectos. Conhecemos a história de Calígula, uma espécie de vórtice carregado de excessos de Sexo e Violência, uma representação da inconsequência carnal da forma mais absurda possível. Mas as coisas não iriam muito por esse lado, principalmente após a ascensão do poder Papal – foi após a nomeação do Bispo de Roma como supremo chefe da Igreja Católica, é que ela se tornou a estrutura unificada que conhecemos hoje. Bom, não vou analisar profundamente a forma como a Igreja Católica trata a questão sexual – até porque ela é bem conhecida – mas basta lembrar que os velhotes que sentam a bunda no trono da Basílica de São Pedro, insistem em dizer que sexo é só pra reprodução, que camisinha é coisa do demo, que devemos assinar um contrato para fazer sexo… essas coisas. Por outro lado, cultuam a violência! É só estudar as campanhas judaicas no deserto – dizimando inclusive crianças sob ordens de Deus -, as torturas que Deus impôs a um servo que ele supostamente amava – Jó. Fora que ele ainda fez uma aposta com Satã -, o modo como Deus mandou Coré, Datã e Abirã para baixo da terra depois deles se rebelarem, duas ursas sob ordens de Deus destroçando 42 guris que zuaram Eliseu… enfim, a Bíblia é um livro bem sangrento e repressivo, e o reinado Católico sobre o planeta em tempos passados, tratou de perpetuar a sanha assassina de Deus.

Podem parecer delírios malucos dos seguidores da Bíblia, mas eles influenciaram bastante todo o modo de pensar de uma sociedade, principalmente a americana. E chegamos até os dias de hoje, onde brucutus no cinema podem arrancar cabeças alheias, mas um casal apaixonado tirando a roupa tresloucadamente é proibitivo. Rambo arrancando braços com uma .50 pode passar nos cinemas, mas 9 Songs, com um casal transando em meio a uma Londres cheia de festivais musicais não! Sangue sim, fluídos sexuais não. Me parece até uma espécie de culto místico ao sangue. “É para proteger nossas crianças…”, eles dizem. Sempre elas, as crianças. Desenhos para crianças não podem ter sequer insinuações sexuais, mas podem ser recheados de violência, tipo os clássicos Pica-Pau e Tom & Jerry (não por muito tempo, em breve proíbem esses também, e colocam todo o mundo para assistir aquele enrustido do Barney ou o festival de retardamento dos Telletubies). Sou fã desses desenhos, mas eles demonstram uma certa demagogia imbecilizante por parte dos que controlam as coisas por aí. Mesmo em filmes para adolescentes e jovens, um mamilo exposto é muito mais passível de punição de subida de escala na faixa etária, do que um pouco de sangue emporcalhando tudo.

Certamente que, se fosse pra escolher, preferia uma sociedade de doentes sexuais se masturbando e transando inconsequentemente na rua, do que uma de reprimidos amargos e viciados em esmagar algumas cabeças e estripar pessoas. Pensemos na lógica extrema-inversa: preferia um mundo completamente sem violência do que um mundo sem sexo, e creio que a esmagadora maioria da população do mundo pensa da mesma forma. É por isso que me parece tão absurdo que o sexo – inclua aí pornografia ou qualquer comportamento sexual libertário – seja reprimido e a violência seja escancarada até virar espetáculo, inclusive no jornalismo e na literatura. Por que não substituir o jornal do meio dia – geralmente com tripas a mostra de modo inconsequente – por um pouco do velho Cine Privê? Ou mandar o Datena e o festival sanguinário deprê dele pastar, e trazer de volta a Paula Coelho e o saudoso Nutícias?

Tenho certeza que uma sociedade sexual será muito mais feliz e produtiva do que uma violenta!

The Pinky Show e o tapa na cara da sociedade

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Um gato depressivo e pensativo tem uma série de insights muito doidos e brilhantes antes de dormir. E tudo animado de modo tecnicamente tosco e praticamente estático. A boa notícia é que o resultado é brilhante. Em meia hora de viagens mentais, o gato Pinky reflete sobre estruturas de poder, revoltados da boca pra fora, trabalhos e produtividade, educação, capitalismo escravizador e traição de classe, além de apresentar um modo de ação interessante para ajudar no desmantelamento da estrutura vigente. Sobra até pra um dos caras que Eu mais admiro: Noam Chomsky – tanto o lado científico dele no seu trabalho linguístico, quanto na sua crítica social. O vídeo é bem grande para os meus padrões de tolerância de vídeos da internet – quase meia hora – mas vale muito a pena, principalmente pelo fato de termos todos um pouco do espírito de Pinky. Clique AQUI para ver o vídeo (embedei essa porra, mas o player não aparece na home do blog. Ao menos postando pelo Live Writer).

Veja outros episódios do The Pinky Show – uma série de vídeos com propósitos educativos, que tem como personagens gatos bem ácidos – AQUI. Creio que o propósito do programa – apresentar “basicamente tudo que as pessoas podem não saber ou não gastam muito tempo pensando” – é alcançado!

Agradecimento ao R. R. Dias, que disponibilizou o link desse episódio legendado nos comentários de um post sobre Robert Anton Wilson que Eu fiz no Nerds Somos Nozes (para quem não conhece, meu blog).

A Anti-Educação

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Educação parece ser uma coisa linda pelo modo como a gente ouve falar dela desde criança. É nossa mãe dizendo um Seja educado, menino; aquela professora odiosa nos ameaçando colocar de castigo porque chamamos ela de megera escrota, nosso patrão nos lembrando que não podemos ver putaria dentro do ambiente profissional… enfim, a sociedade bloqueia qualquer espécie de atitude um pouco mais improvisada e instintiva em busca de algo completamente mecânico e economicamente proveitoso. Reflexão e Instinto não são coisas muito bem vista num mundo capitalista, atitudes robóticas sim. Os extrovertidos, os bobocas que riem pra tudo, esses são os Escolhidos pela sociedade maldita que construíram. Dizem que o homem é um ser instintivo, mas é isso é completamente falacioso. Com raras exceções, sempre submetemos nosso comportamento aos costumes da sociedade que nos rodeia, é o preço que pagamos por vivermos em conglomerados habitacionais. Alguém decidiu que é assim – sabe deus porquê – e você deve seguir. Quanto mais educada uma pessoa, mais condicionada com essa situação psiquicamente irritante e depressiva ela é. Pense comigo: você está naquelas festas formais de torrar o saco – que provavelmente são o maior exemplo de educação que existe -, tipo o casamento de um primo rico. Não demora cinco minutos pra ter vontade de pegar aquelas lagostas de cima da mesa e jogar na cara daquele velho chato e afeminado que contamina e entendia a todos com suas histórias imbecis sobre dinheiro e viagens, o que é bem acentuado por causa da voz empolada dele. Se você não sente esse tipo de vontade lá do fundo da sua alma, parabéns, você é um cara educado em todos os sentidos, e esse é o passaporte para ter uma vida maravilhosa de regras, grilhões morais, empregos odiosos, todo o mundo pisando em cima de você, e, quem sabe, uma experiência cristã genuína uma vez ou outra.

Creio não ser o seu caso…

Na verdade, não é o caso de mais gente do que você imagina, mas poucos tem a capacidade de externar isso. A diferença é que os fortes dão um jeito de chutar o que os irrita, enquanto os fracos externam isso na forma de doenças. E é aí que identificamos outra engrenagem interessante para se ganhar dinheiro! Se você está infeliz, existem remédios pra isso, é o slogan publicitário. A Sociedade, a Educação NUNCA está errada… VOCÊ está errado. VOCÊ é o Paquiderme Social. Tá depressivo, a vida tá te fudendo, os vizinhos chamam a polícia se você trepar no telhado da SUA casa, teu patrão é mais idiota que um rolo de papel higiênico… existe uma solução para isso e ela se chama remédios – as drogas liberadas, pois têm carimbos de grandes farmacêuticas endinheiradas. Daí chegamos aos caras que nos rodeiam: a chamada Geração Prozac. O Prozac é o remédio da moda para matar a doença da moda: a Depressão. Na verdade não é tão da moda como a uma década atrás, porém ainda está por aí. Meio mundo tá com depressão, segundos os médicos vendidos que existem por aí. Até crianças de seis ou oito anos têm depressão. O negócio é entupi-las de Prozac, que tira o prazer sexual e estabiliza o humor de uma pessoa. É uma ferramenta para condicionar qualquer pessoa e tirar qualquer resquício de instinto maluco e primitivo que talvez tenha sobrado lá no fundo da mente. É uma forma de usar a química pra completar o trabalho que a sociedade começou.

Eu penso diferente. Um belo modo de curar a deprê é usar a Anti-Educação. O chefe te irritou? Encha o estofamento da cadeira cara dele de supercola (ou agulhas, se você for sádico) e se divirta em ver o escroto com a bunda colada na cadeira. A festa está um saco? Pegue aquela vodka barata que você deixou escondida e tome numa golada só. Tá entediado? Transe no teto da Assembléia Legislativa do seu estado (esse Eu já fiz, é bem cool) e depois corra dos seguranças como se não houvesse amanhã. Pague aquela pizza fria que colocaram na sua mesa com as quase extintas moedas de 1 centavo. Ou, se você for um ogro semi-primata, uns chutes bem colocados nas canelas de umas pessoas irritantes ajudam nessa tarefa extremamente inglória de conviver com mais seres humanos imbecis do que qualquer um suporta.

Garanto que um pouco de Anti-Educação é bem melhor que umas doses caras de Prozac (ou sei lá qual remédio estão receitando pra Depressão), e sua libido só aumentará!

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