Negação e Antagonismo no Diálogo Público Brasileiro

Esta semana, internautas de todo o Brasil ficaram indignados com um vídeo – publicado originalmente no Youtube – onde uma mulher, identificada como a enfermeira Camilla Corrêa Alves de Moura Araújo dos Santos, mãe de uma criança de três anos de idade, agrediu até a morte um cachorro da raça yorkshire.

O vídeo, gravado por Claudemir Rodrigues Maciel, frequentador do mesmo condomínio da agressora, que ciente de casos passados de maus tratos contra o animal protagonizados por Camilla, resolveu registrar o ato com o objetivo de denuncia-la as autoridades do município de Formosa, Goiânia.

Enquanto muitos ficaram revoltados e indignados com o episódio de brutalidade, algumas pessoas denunciaram o alarde em relação ao mesmo, alegando exagero e acusando que as comunidades nas redes sociais não demonstraram o mesmo sentimento em casos de violência homofóbica, racista ou infantil.

Entre os comentários que criticaram a reação dita como “excessiva” dos internautas, me chamou a atenção o artigo “A enfermeira histérica e a nação infantiloide” do jornalista Diogo Luz.

Nele, Diogo argumenta – citando o filósofo Janer Cristaldo – que o devido à fragmentação de nosso convívio e a dificuldade de estabelecer vínculos afetivos entre seres humanos fez com que a figura do animal de estimação alcançasse um novo patamar superestimado de afeição entre as pessoas.

O mesmo – em tom de caráter especista – ainda diz que o impacto proporcionado pelo vídeo é uma agressão ao vazio existencial da nação brasileira, menosprezando a natureza violenta e explicita do ato.

Para Diogo Luz, o ato protagonizado por Camilla é consequência de um desiquilíbrio emocional, argumentado de forma genérica sobre as pressões e insalubridades cultivadas por nossa sociedade pós-moderna.

O que Diogo defende é uma retórica cada vez mais comum na sociedade que ele tanto condena: que todos nós somos vitimas das circunstâncias, um artificio um tanto adolescente para alguém que acusa a reação de uma parcela majoritária da sociedade de “infantil”.

Igualando o nível do debate filosófico, quando você trata uma pessoa como um construto social ou uma confluência de acasos, você abre – nem sempre em sã consciência – toda uma nova gama de desculpas que isentam a pessoa de uma coisa chamada responsabilidade.

Nós não somos vítimas de uma sociedade, e sim responsáveis pela mesma, se em muito, se argumenta o porquê de tanto alarde em relação a um cachorro – o que eu julgo ser puro especismo – o que existe de tão superior (sic) na raça humana que justifique a agressão contra um animal doméstico?

E mesmo assim, o ato de agressão não se resumiu apenas ao animal doméstico, e a criança – filho da agressora – que presenciou o ato sucedidas vezes? Qual será a melhor forma de aborda-la, sendo que em todos os sentidos, embora não seja algo físico, ela também foi vítima de uma agressão.

Qual seria a lógica que justificasse tal ato? Ou até mesmo condenasse a reação das pessoas? A meu ver, mesmo que existam opiniões exaltadas sobre o caso, é saudável ver que pessoas se demonstrem indignadas.

Podíamos começar a nos preocuparmos se essas mesmas pessoas se demonstrassem indiferentes ou apegadas a uma espécie de apatia travestida de “racionalidade”.

Vídeos contendo denúncias de maus-tratos em animais não são novidades na internet, o que se presencia agora é um sentimento de negação, um tiro pela culatra do intento inicialmente proposto.

Embora o conteúdo de materiais desse tipo seja de natureza indigesta, sua intenção não é meramente chocar, mas sim conscientizar de uma realidade atroz e velada.

O problema é que devido a mesma natureza de vídeos, uma reação comum ao choque é a de negação dos fatos.

Em prol de seu conforto psicológico – uma defesa contra a mesma sociedade “denunciada” por Diogo Luz – o ser humano é omisso a realidade, seja ela de si mesma ou do outro.

Esta “negação” vem sido nutrida como forma de se defender do ataque sensorial promovido por esta modalidade de ativismo, seu intento, quando articulada entre sociedade, é marginalizar seu discurso para descreditar um possível diálogo.

Existe também uma questão de memória, a noção que o episódio do Yorkshire gerou mais comoção que casos de agressão contra homossexuais ou etnias são abstratos e até mesmo maliciosos, a verdade é que não existem meios de quantificar isso.

Vale lembrar o assassinato de Alexandre Ivo – homossexual, 14 anos de idade – que em 2010 fez emergir na mídia a urgência por mais severidade por parte da justiça contra ações homofóbicas.

A questão não é que uma demonstração de sentimento ou apoio isenta ou torna excludente a opinião da pessoa. Uma pessoa que se indigna com o assassinato de um animal doméstico não é necessariamente omissa a casos de abusos contra crianças, negros ou homossexuais.

Um mal crescente entre a população brasileira é a má-interpretação do diálogo público nas demais pautas pertinentes ao nosso cotidiano, no Brasil não se debate ou pondera, se antagoniza.

Este fenômeno é chamado pelo filósofo Vladimir Safatle de “pensamento binário do debate nacional”, segundo o qual a mente humana, como computadores pré-programados, só suporta a composição “zero” ou “um”.

Ou seja: estamos condicionados a um debate que só serve para dividir os argumentos em “a favor” ou “contra”, “aliado” ou “inimigo”. USP x PM, PT x PSDB e assim vai…

O pensamento binário é acompanhado do Falso Dilema, um problema comum no diálogo, que sempre surge quando, no discurso falado ou escrito, alguém insiste ou insinua que duas opções são mutuamente excludentes.

É um argumento que força a pessoa a escolher lados, “A ou B, se não A, logo B”, é uma reação comum, se a reação em relação ao episódio contra o Yorkshire levou a questionamentos sobre a necessidade de atenção para casos envolvendo gays ou negros, este mesmo discurso seria questionado por aqueles que vêm necessidade em focar os esforços no combate à corrupção e assim se sucede nossa escalada.

Em tempos como os nossos, de reinvindicações e diálogos, é necessário ter ciência da lógica por trás de nossos argumentos, sempre existirá aqueles – como Diogo Luz e suas inspirações – que se posicionam em um suposto patamar moral elevado e buscam desacreditar a opinião alheia, nesses casos, identificar uma falácia argumentativa é a diferença entre ser ou não manipulado por alguém.

Anúncios
Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: