Action Comics #1: o novo Superman é o antigo Superman

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Action Comics em sua edição #1 não tem a cara do Grant Morrison. Posso dizer de outra forma: não tem o que SEMPRE se esperou do Morrison, ou seja, não vimos ainda paradoxos temporais, hyper-paranóia, entropia dissipatória, magia sensorial, gênesis cosmogônica e etc., essas coisas distantes do realismo pragmático que foram o marco de seus roteiros.

O próprio Superman não está como de costume. Ele não é tão invencível, não voa ainda, está bem mais novo e no meio de uma cidade enfrentando a policia! Parece mais um adolescente explodindo de hormônios e super-poderoso do que o antigo herói sábio e ponderado com a cueca por cima da roupa, mas calma… isso não é tão ruim.

Grande parte das brigas conceituais do Morrison com Alan Moore foram justamente sobre o realismo decadente dos super-heróis dos quadrinhos instalados pós-Watchmen, que Morrison sempre se recusou a partilhar e que Alan Moore se resumiu a rir dessa resistência ao realismo numa era de queda do Muro de Berlim e falência do socialismo soviético.

Morrison sempre foi saudosista dos Super-Heróis como modelos de arquétipos primitivos dos valores mais elevados da humanidade. Basicamente ele sente falta do tempo em que os heróis simplesmente salvavam o mundo do mal e pronto. Mas a verdade é que embora ele manifeste este saudosismo no documentário Talking With Gods e no seu livro Supergods, suas próprias HQs nunca usaram as formulas da Idade de Ouro dos quadrinhos, pelo contrário, elas sempre foram complicadas demais (basta ver Homem Animal e Doom Patrol) e foi isso que fez sua fama.

Talvez Action Comics, seja uma oportunidade em que Morrison vai finalmente colocar em prática tudo aquilo da Era de Ouro que ele sabe em teoria. Sim, ele deixa claro em Supergods que é um conhecedor profundo do alvorecer dos quadrinhos, e aliás, o que se pode ver no AC #1 é exatamente aquilo que ele considera ser base do Superman lançada por Jerry Siegel e Joseph Shuster.

“Se as visões de um pesadelo distópico na época previam um mundo desumanizado e mecanizado, Superman aparecia com outra possibilidade: a imagem de um amanhã fortemente humano, que entregue a um individualismo triunfante exerceria sua soberania sobre uma opressão industrial implacável. Não é uma grande surpresa que ele tenha feito sucesso entre os oprimidos. Ele era tão inculto, pobre, como qualquer messias nascido no chiqueiro.”

Defensor dos pobres e fracos, uma espécie de herói social vindo de outro planeta, quase um socialista de ação – certas vezes diz Morrison no Supergods -, esse é o Superman até o momento em que o EUA entra na Segunda Guerra mundial e ele como um dos alistados se voltar para um patriotismo incondicional. Esse Superman dos princípios dos comics é o que Morrison aparentemente pretende resgatar. A primeira sequencia de cenas da nova HQ é de um super-humano obrigando um corrupto a confessar todas as merdas que ele fez, o que na verdade acaba irritando a policia, que quase sempre está na defesa do status quo e cai em sua perseguição… quem nos últimos anos iria imaginar que a policia teria cara de enfrentar o homem de aço? Isso torna ele mais próximo de nós, o torna menos aquele titã invencível num patamar acima do humano.

Acredito que mais na frente o Morrison vai arrumar um jeito de enfiar suas viagens meta-narrativas dentro da história do herói ex-cuecudo, mas não penso que para isso vai abandonar essa característica central de herói das massas! Por enquanto, só podemos mesmo esperar e ver no que vai dar. Mas apesar de bem diferente dos trabalhos do Morrison, acredito que pode vir algo muito bom por aí.

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  • […] Action Comics #1: o novo Superman é o antigo Superman, por Agostinho Torres Queime mais mentes!Like this:LikeBe the first to like this post. By synthzoid, on 04/11/2011 at 0:59, under HQ. Tags:Animal Man, Comics, Crítica, DC, Homem Animal, HQ, New 52, Novo 52, Resenha. Nenhum Comentário Poste um comentário ou deixe uma resposta do seu site: Endereço da resposta. « Otaxploitation: um mercado de obsessões […]

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