Air Doll: o valor da beleza em um mundo fugaz

Nos meus tempos de universitário, eu me deparei com o “O Império do Efêmero” de Gilles Lipovetsky, nele, o filósofo francês assinala a existência de um processo de personalização, capaz de tornar as sociedades pós-modernas apáticas e preocupadas com o próprio bem-estar, levando as pessoas a engajarem em experiências individualistas e hedonistas, sem preocupação com o espaço público, nesta sociedade – a nossa sociedade – o amor não foi abolido, o que muda é o aumento de relacionamentos efêmeros que buscamos para encontrá-lo.

A efemeridade das coisas, do momento e da existência, foi isso que me fez pensar após ver Air Doll, dirigido por Hirokazu Kore-eda, esta produção nos faz questionar o valor de nossa humanidade no cotidiano urbano, onde cada vez mais somos tomados pela apatia, pela solidão e a inevitabilidade da morte, levando-nos a derradeira pergunta: porque a beleza existe em um mundo onde tudo se tornou fugaz?

Air Doll começa explorando o cotidiano de Hideo, interpretado por Itsuji Itao (que faz o keyman em Tokyo Gore Police), um homem solitário, que conta com a companhia artificial  de sua boneca inflável, Nozomi (interpretada pela sul-coreana Bae Doona), durante uma manhã, após Hideo sair para o trabalho, Nozomi descobre ter consciência, ou um “coração”, como ela mesmo diz, e se vê fascinada pelo mundo lá fora e as oportunidades que ele esconde.

Gostaria primeiro de comentar a escolha da atriz Bae Doona para o papel principal, que resultou em quatro nomeações em prêmios do cinema oriental, para quem não a conhece – ou não lembra – ela já participou de outros filmes sul-coreanos de renome, como  Sympathy for Mr. Vengeance (o primeiro capítulo “trilogia da vingança” de Park Chan-wook, que também integra o clássico Oldboy)  e o monster film c/ crítica sócio-ecológica “The Host”, somado ao seu currículo de peso para as audiências ocidentais, o físico de Doona é impressionante, lembrando em muitos momentos, as feições de uma boneca, principalmente nas pernas e na cintura.

A trama ganha viés de contos de fada, pois ao raiar de cada dia, Nozomi vai as ruas explorar o mundo lá fora com um fascínio ingênuo e infantil, como uma verdadeira tabula rasa, ela aprende um idioma, o significado das coisas, as aflições humanas e eventualmente até o amor e o desejo sexual.

Ao explorar sua trama, Kore-eda não desperdiça simbolismos, Nozomi, embora descubra os encantos do mundo, jamais deixará de ser aquilo que é, uma boneca inflável, fisicamente perfeita, porém literalmente vazia por dentro, ainda assim, ciente de sua condição, Nozomi interagindo com uma série de coadjuvantes, procura entender a fragilidade da condição humana e o vazio existencial de cada um.

Entre os exemplos mais tocantes, se encontra um idoso que passa o final de seus dias solitário, sentado no parque, um hikikomori bulímico que ocupa seu dia comendo e uma trabalhadora que diariamente teme ser substituída por uma mulher mais nova e mais bonita, essa relação de “vazio/preenchimento” é constante e faz parte da poética do filme, recomendo ao espectador um pouco da dedicação de sua atenção para esse fato.

O filme tem seu clímax inevitável no confronto de Nozomi com seu dono e posteriormente, com seu criador, assim como o fim de sua existência, embora seja encantadora e passional, não escapará da frivolidade daquele universo. Alguns devem argumentar que a breve jornada de Nozomi não é apenas em descobrir sentido para sua recém despertada humanidade, mas também buscar um meio para desconstruir sua condição como objetivo.

Air Doll é um belo filme arte, que desperta pensamentos inquietantes e nos faz questionar o valor das coisas, recomendo não apenas para os fãs de cinema oriental, mas também aqueles que buscam uma alternativa aos romances saturados e idílicos que Hollywood insiste em disseminar

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Comentários

  • Alessio Esteves  On 05/09/2011 at 20:37

    Pensei em Pinóquio quando li isso…

    Significa?

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